POSSIBILIDADE DE CHAPA LULA-ALCKMIN ABALA A DIREITA E A ESQUERDA

Alguns políticos de centro-direita prestaram inestimáveis serviços à democracia e ao Brasil, como Ulisses Guimarães, Mario Covas ou Juscelino Kubitschek. Será que Geraldo Alckmin possui estatura semelhante?

Uma aliança de Lula e Alckmin (ou alguém semelhante), deve ter como base programática a recuperação da soberania, para o Brasil proteger o patrimônio ambiental da humanidade, retomar o projeto de inclusão social iniciado por Lula e voltar ao caminho do desenvolvimento sustentável.

O anúncio sobre a possibilidade da formação de uma chapa presidencial unindo Lula e Alckmin, provocou um terremoto, que abalou o mundo político brasileiro, da extrema esquerda à extrema direita. O susto, que beirou o pânico em alguns setores, teve motivações diversas.

No campo protagonizado por Bolsonaro e Moro, a extrema direita que mantem conexão direta com Washington, o sentimento é de pavor, pela definição praticamente certa da derrota do projeto de redução do Brasil em um protetorado informal dos Estados Unidos.

Na extrema direita neoliberal; setor que também não preza a soberania brasileira e trata o país como campo de pilhagem de riquezas minerais e biológicas mediante a exploração da população; o sentimento é de velório, pela percepção do falecimento da possibilidade de fabricação da “terceira via”.

Porque parte da esquerda rejeita a aliança

Parte da esquerda que veta a aproximação com a centro-direita nacionalista justifica sua posição alegando que este setor apoiou o golpe de 2016. Tal justificativa utiliza argumentos emocionais que não cabem na política, uma atividade que exige a maior racionalidade, para que se obtenham os objetivos pretendidos. Questões maiores podem determinar grandes gestos, como aquele de Prestes, ao apoiar Getúlio Vargas, logo após sair da prisão. E há questões de extrema importância, que fazem das eleições de 2022 as mais importantes da história do Brasil.  

Outra corrente de críticas aos movimentos de Lula, em direção à centro-direita nacionalista, teme outro movimento golpista, como o que afastou Dilma, para ungir o vice. Lula, porém, tem muito mais habilidade política do que Dilma – o que é reconhecido pela própria ex-presidenta, uma das melhores executivas do mundo – e ele é o maior estadista da atualidade, uma personalidade da estatura de um Gandhi ou Mandela. Seria muitíssimo difícil, praticamente impossível, aplicar um golpe em uma personalidade mundial do tamanho de Lula.   

Embora percam sentido devido à gravidade do momento atual, os dois argumentos anteriores de parte dos militantes de esquerda provêm de sinceras preocupações e merecem ser debatidos, mesmo que para serem contestados.

Já o veto à ampliação de alianças mesmo para aglutinar os partidos de centro esquerda, como o PDT, PV e PSB, são de natureza sectária e oportunista, vindos de pequenos grupos que não têm a responsabilidade de participar da disputa real pelo poder. Na prática, a preocupação dessas pequenas organizações periféricas ao campo de batalha, onde ocorre de fato a luta de classes, é a propaganda se suas ideias, aproveitando as ondas sociais que estão crescendo desde o golpe nas ruas e na Internet. Desta forma, tais organizações não atuam de fato no processo de disputa pelo poder, tão importante para reverter a tragédia que se abateu sobre o povo brasileiro.

Acorrentada a um marketing antigo, que exige a radicalização cega e o estímulo ao rancor, esta esquerda sectária rejeita com estridência a possibilidade de uma chapa que aproxime os diferentes matizes nacionalismo brasileiro. Este comportamento é determinado por uma leitura ortodoxa e engessada da biblioteca marxista, que tende a perceber o Brasil à beira de uma sublevação popular revolucionária.

Basta estudar as revoluções, para entender que o Brasil está muto distante das condições objetivas que determinaram as grandes transformações mundiais. As revoluções francesa, russa ou chinesa, por exemplo, surgiram como subproduto das catástrofes resultantes do fim de eras históricas. Quem se interessar pelo tema pode procurar nos textos do https://ocontexto.org/.

Aliança quebra a frente ampla da direita

No campo da extrema direita, apesar das diferenças de estilo, Bolsonaro e Moro são criaturas produzidas nos Estados Unidos. Os dois nem mesmo fazem questão de esconder essa ligação.

O projeto imperial de submeter o Brasil foi descoberto, quando Edward Snowden, agente dissidente dos serviços de espionagem dos EUA, denunciou que a presidenta Dilma, o governo brasileiro e a Petrobras eram monitorados pela NSA, onde ele trabalhava( https://www.terra.com.br/noticias/brasil/sem-falar-sobre-espionagem-nova-embaixadora-dos-eua-chega-a-brasilia,e7cbc8249a321410VgnCLD2000000dc6eb0aRCRD.html ). Órgãos de imprensa, inclusive veículos ligados às oligarquias brasileiras, como a Folha de São Paulo, reportaram que coincidentemente no período que antecedeu ao golpe o pessoal lotado no escritório da CIA em Brasília (autorizado em tratado pelo governo FHC) cresceu de forma inédita. Outra coincidência foi a chegada da diplomata Liliana Ayalde, para comandar a embaixada dos Estados Unidos no Brasil. Ayalde era a titular em Honduras e no Paraguai, quando ocorreram os golpes naqueles países, assim como na Venezuela, durante a tentativa de destituição de Hugo Chaves, em 2002. A diplomata trabalhou na Usaid durante 24 anos. A agência que é apontada como um dos principais braços da CIA e Liliana é apontada por especialistas, como atente dos serviços secretos estadunidenses. Mais informações: https://amambainoticias.com.br/geral/com-liliana-e-ciberespioes-obama-testa-limite-de-dilma e https://www.celag.org/las-embajadas-y-la-injerencia-de-eeuu-en-america-latina/ .  

Conforme foi descoberto depois, pela Vazajato, a quadrilha organizada por Moro, com procuradores, policiais federais e outros funcionários públicos também era parte do ataque contra o Brasil, quando os EUA utilizaram as estratégias da moderna guerra hibrida. A guerra oculta movida contra o Brasil foi confirmada por um ex-agente da CIA, que ocupou cargos relevantes na agência. Suas denuncias podem ser conferidas no endereço: https://revistaforum.com.br/politica/ex-agente-cia-parceria-lava-jato-eua-movida-por-odio-e-dinheiro/.

Mais informações sobre os mecanismos criminosos utilizados contra o Brasil, podem ser obtidas nos endereços: https://ocontexto.org/2021/11/12/moro-e-candidato-a-prisao-por-traicao-ao-brasil/ e https://ocontexto.org/2021/11/19/moro-e-um-projeto-de-washington/.

Uma possível aliança entre Lula e Alckmin (ou um político e, mesmo, empresário do mesmo perfil) abala profundamente o projeto de controle do Brasil, porque para viabilizar o plano de desestabilização – que resultou no golpe de 2016, na desorganização das instituições nacionais, no abalo da democracia, na pulverização de mais de 50% do PIB (com o extermínio da competitividade da economia brasileira), na agonia da educação e da cultura, no maior desemprego, na criem explosão da informalidade; e na eleição de um ser monstruoso, como Bolsonaro – o império informal dos EUA conseguiu atrair toda a burguesia nacional e seus clientes da classe média.

O plano funcionou porque o setor ainda nacionalista da burguesia brasileira foi iludido ou se autoiludiu, com o falso argumento de que os processos da disputa de poder eram endógenos, ou exclusivamente de caráter interno, e faziam parte dos métodos políticos tradicionais do país, como ocorreu no impeachment de Collor. Em 2016, o preconceito contra o PT, contra a mulher e a ascensão dos pobres pesou muito na sociedade racista, machista, inculta e conservadora brasileira.

Para parte da burguesia brasileira, especialmente o segmento ligado à engenharia pesada, à indústria de base e os empresários que dependem do mercado interno foi um tiro no pé.

Meter uma bala no pé, acaba doendo, vai gangrenar e levará à amputação, se o ferimento não for tratado. Temer e, principalmente, Bolsonaro fizeram a ficha de parte da burguesia cair e atualmente é possível perceber cisões na unidade que as classes mais altas apresentavam em 2016.

Pelo perfil do Brasil atualmente, o empresariado possui ainda grande capacidade de influenciar parte da sociedade brasileira. O setor influenciado pelos mecanismos de cooptação da burguesia é cada vez mais minoritário. Entretanto, essa minoria pode decidir as eleições mais importantes da história do Brasil.

Sem soberania não há inclusão, proteção ambiental nem desenvolvimento

O que está de fato em jogo no atual momento da história brasileira é a disputa entre a recuperação da soberania ou a permanência de um país submisso. Significa escolher entre um país que retoma sua normalidade democrática, para que as grandes decisões do interesse da população ocorram internamente; ou ver o país perder na prática sua independência e as decisões serem tomadas externamente.

As circunstâncias revolucionárias que existiam nas épocas de catastróficas mudanças de eras não estão presentes no Brasil. Não há indícios de que poderá ocorrer uma revolução clássica nos próximos anos. Desta forma, uma das decisões mais importantes da história brasileira – se o brasil recupera sua soberania ou não – vai ocorrer, em 2022, em um sistema democrático, através dos votos.

Perder o foco da luta pela soberania pode resultar em uma derrota que resultará na penalização de gerações de brasileiros. Não será uma eleição fácil, poder disponível a Bolsonaro, Moro ou oportunistas como Dória é enorme e, após a difícil vitória, a governabilidade deverá ser muito difícil, a exemplo do Peru, Bolívia e Argentina. É provável que as dificuldades no Brasil sejam ainda maiores, pois a importância geoestratégica do país é incomparável.

A luta pela soberania é antiga. O período Vargas significou um período em que forças poderosas foram enfrentadas, para que o Brasil finalmente deixasse a condição de colônia, para atingir com atraso a categoria de estado nacional independente. Desde então, vários políticos e uns poucos empresários de centro direita tiveram papel progressista importante em diversos momentos da história brasileira, como Juscelino Kubitschek, Benedito Valadares, Itamar Franco, Israel Pinheiro, Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Motoro, Mário Covas e outros. Figuras como eles existem ainda. Muitos estão calados pela vergonha de seus erros recentes ou ressentidos pelo clima de ódio, que eles mesmos introduziram na política brasileira.

Porém, o Brasil precisa recuperar sua racionalidade, porque a história reservou à atual geração tarefas de enorme importância. O país necessita recuperar sua independência, para romper as amarras que seguram a economia, de forma a retomar o rumo determinado pelo seu imenso potencial. Desta forma, o Brasil poderá crescer de novo, proteger o patrimônio ambiental da humanidade e avançar no notável projeto de inclusão que havia sido iniciado por Lula.

Apêndice

A experiencia histórica ajuda a entender os dilemas conjunturais. Na França, a derrota da monarquia ocorreu com uma Frente Ampla, unindo todas as forças políticas. As disputas entre esquerda e direita começaram após a consolidação da Primeira República. No início de 1917, todas as forças políticas da Rússia, da esquerda à direita, se uniram em uma frente ampla, para derrubar o czarismo. Após atingir o objetivo, houve a disputa, que consolidou a esquerda no poder (até a ditadura de Stalin). A revolução chinesa começou em 1912, com a extinção do milenar império, derrotado por uma Frente Ampla, unindo comunistas e a direita. Somente depois é que começaram as lutas entre os dois campos, culminando com a vitória comunista em 1949.

O árduo cenário do momento exige o máximo de acumulo de forças, para impedir o pior ou a completa submissão do Brasil, o que extermina qualquer possibilidade de tratar dos grandes temas fundamentais para o país e o povo brasileiro: como retomar e acelerar a inclusão social, elevar a qualidade de vida da população, direcionar os recursos obtidos com as riquezas nacionais para a população e o desenvolvimento sustentável e assumir a responsabilidade de cuidar do patrimônio ambiental que pertence à humanidade, entre outros.

Conquistado o grande objetivo e com o país estabilizado, as alianças se dissolvem e o campo estará aberto para a disputa política civilizada dos pontos de vista diferentes sobre o mundo e à realidade. A aliança é necessária nesta conjuntura e não eternamente.  

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