LULA PODE COLOCAR EM PRÁTICA AS IDEIAS PARA ADIAR O FIM DO MUNDO

A viagem do ex-presidente brasileiro ao Velho Mundo é repleta de significados, não só do interesse dos brasileiros, mas também dos europeus. Lula evidentemente pensa na duríssima disputa que enfrenta no Brasil, porém tanto ele como seus anfitriões, nos diversos países que percorreu, participam de uma guerra surda pelo futuro do planeta.

As diferenças políticas entre Lula e Macron são menores, frente ao objetivo comum de ambos: um mundo multipolar.

A recepção de Lula pelo presidente da França, com honras de chefe de estado, neste 17 de novembro, é uma sinalização para o mundo, feita por dois estadistas de linhas ideológicas distintas – Emmanuel Macron, um liberal, e o brasileiro se posiciona por palavras e gestos como um socialista democrático.

A viagem do ex-presidente brasileiro ao Velho Mundo é repleta de significados, não só do interesse dos brasileiros, mas também dos europeus. Lula evidentemente pensa na duríssima disputa que enfrenta no Brasil, porém tanto ele como seus anfitriões, nos diversos países que percorreu, participam de uma guerra surda pelo futuro do planeta.

O mundo está mudando, o pêndulo da economia oscilou decididamente de volta para o extremo oriente da Eurásia e, com isso, novos atores surgem com força, para participar das decisões que afetam ao conjunto da humanidade.

A China é o mais poderoso dos atores que se reapresentam novamente à cena mundial, entretanto não se trata do único país que retorna ao palco, pois devem ser levados em conta o Japão, a Coréia do Sul e, também, a do Norte, o Vietnam, a Malásia, a Indonésia e a Índia, principalmente. É um retorno à cena global, desses países, pois nos pouco mais de quatro mil anos de história conhecida, a imensa área, que vai do leste da China, até o oeste da Índia, foi o território mais próspero da Terra, em todos os sentidos.

O império de plantão, os Estados Unidos, ocuparam a hegemonia mundial, em 1991, quando houve a implosão da União Soviética, e estabeleceram uma ordem mundial unipolar. Foi o período no qual os Estados Unidos puderam constranger até mesmo seus “aliados” mais próximos, como o Japão.

JAPÃO NÃO É A CHINA

Após ser derrotado na Segunda Guerra Mundial, o Japão foi o mais extraordinário caso de recuperação econômica. Conforme registra Giovanni Arrighi, em meados da década de 1980, os japoneses mantinham em curso uma curva espetacular de crescimento. A ascensão japonesa foi baseada em métodos econômicos originais, que levaram à expansão da industrialização de todo o oriente asiático; mas o país também se aproveitou da liberalidade com que foi tratado pelo seu vencedor, os EUA. A geopolítica estadunidense pretendia apresentar seu satélite nipónico, junto com a Alemanha Ocidental, como símbolos da superioridade liberal capitalista – embora persistam dúvidas a respeito do caráter plenamente liberal da economia japonesa.

No final da década de 1980 a economia japonesa ameaçava superar a dos EUA. Enquanto o Japão mantinha seu ritmo de crescimento acelerado e empresários do país compravam ativos nos Estados Unidos, inclusive símbolos nacionais, como o Rockfeller Center e grandes estúdios de cinema, a maior potência imperialista via sua dívida governamental explodir, para levar a dívida estadunidense a ser a maior do mundo, atingindo na época mais de quatro trilhões de dólares.

O governo estadunidense, então, pressionou os líderes japoneses, para deter sua escalada econômica, como registram Arrighi, Burbank e Cooper. Até hoje sob ocupação militar, o Japão cedeu, desvalorizou sua moeda, aceitou reduzir administrativamente seu superavit com os Estados Unidos, assumiu a ajuda financeira bilionária estadunidense concedia por Washington para governos na sua órbita, e concordou em bancar a maior parte dos custos das aventuras militares estadunidenses.

O explosivo crescimento da China repete o ambiente do final do Século XX, em outro contexto. Diferente do Japão, a China não é apenas um gigante econômico, como também uma potência militar. Há ainda outras distinções importantes, sendo a principal inexpressividade do mercado japonês para os Estados Unidos e as demais economias ocidentais – as empresas nipônicas são exportadoras e precisavam dos maiores mercados mundiais; porém seu mercado não oferecia contrapartida, pois nunca foi dos maiores do mundo. As empresas estadunidenses, canadenses e europeias, ao contrário, precisam do mercado chinês, de onde algumas delas obtém seus maiores lucros. Além disso, na década de 1980, a transferência de plantas industriais, para locais onde a produção é mais barata, estava apenas no início. Hoje, grande parte dos produtos que chegam aos EUA são fabricados na China, inclusive itens de emprego militar. Desta forma, o entrelaçamento da economia da China com a maioria dos países do mundo, inclusive os Estados Unidos e Europa, é uma realidade irreversível.

Mesmo assim, Washington, especialmente o que é conhecido como “deep state”, persistem na intenção de estabelecer um império informal mundial, ou uma ordem unipolar controlada pelos Estados Unidos.

Europeus querem um lugar no mundo

Neste mundo novo, pós acordos de Ialta e Potsdam, no qual a Guerra Fria é apenas uma lembrança do passado, diversos países rejeitam a intenção de hegemonia dos Estados Unidos, que somente podem escorar a sua reivindicação nas suas forças armadas, as mais poderosas, em termos de armamento. Os EUA possuem mais poder militar do que os 19 países, que completam o ranking das 20 maiores potências militares do planeta.

Quase todos os países do mundo rejeitam a pretensão de Washington, sendo ao mais importantes, além da China, a União Europeia, Rússia e Índia.

A União Europeia mantém um antigo desejo de unificação, com base em sua herança comum greco-romana-germânica. Desde a queda do Império Romano do Ocidente houve a tentativa de realizar a unificação europeia através das armas, a mais bem sucedida foi conduzida por Carlos Magno, que fundou o Império Romano-germânico. Depois, os Habsburgos, no Século XVI; Napoleão e Hitler fizeram suas tentativas, sem sucesso.   

Em 1950, os líderes da Alemanha, Bélgica, França, Holanda, Itália e Luxemburgo lançaram as sementes de novo experimento geopolítico, que fincou raízes no Velho Continente, cresceu e floresceu.

Houve e ainda há enormes dificuldades para a Europa obter a plena integração, porém o plano avança e eventuais percalços fortalecem a União.

A saída do Reino Unido, por exemplo, fortaleceu o bloco, pois estabilizou a liderança de países que não têm dúvidas de que somente unificados, os países europeus terão relevância no futuro. O Reino Unido, principalmente a Inglaterra, sempre teve dúvidas se a integração com a Europa é o caminho, devido à sua nostalgia imperial. Desta forma, mesmo sem perceber o país caminha para se transformar em um protetorado de sua antiga colônia norte-americana.

França, Alemanha, Itália, Bélgica e Holanda, assim como a Espanha, um membro mais recente, independente do caráter ideológico dos seus governos não têm dúvida de que o futuro exige a união. Provavelmente outros países vão abandonar o bloco, porém são nações com menor peso estratégico, como a Polônia e a Hungria, enquanto há possibilidade da entrada de outros, como a Turquia – que queira ou não faz parte da herança europeia, mais do que da tradição árabe.

Desde os anos de 1960, líderes como Charles de Gaulle, França, e Willy Brandt, Alemanha Ocidental, procuraram construir o edifício da Europa unificada e progressivamente libertar o bloco do domínio estadunidense, estabelecido com a vitória na Segunda Guerra Mundial. Nunca foi fácil, pois todos os países europeus estão sob ocupação militar dos EUA. Desde 1945, há bases dos Estados Unidos em Portugal, Espanha, Reino Unido, Alemanha, Bélgica, Noriega e Holanda. De Gaulle resistiu a esta humilhação, assim como vários presidentes franceses, até que no início do Século XXI, Nicolas Sarkozy permitiu a instalação em seus país da maior operação da CIA na Europa. Após a implosão da União Soviética, os Estados Unidos se aproveitaram dos anos de conturbação de Boris Iéltsin, para avançar com suas bases para diversos países da antiga “cortina de ferro”, como Polônia, Hungria, Romênia, República Tcheca e outros. Agora, de maneira irresponsável, pretende entrar na Ucrânia.

Lula é essencial em um mundo multipolar

O encontro de Lula com líderes europeus alinhados com a multipolaridade é um sinal para o mundo. Para romper com a hegemonia unipolar dos Estados Unidos, ou com a possibilidade do retorno de uma ordem bipolar, agora com a China substituindo a União Soviética, é preciso uma Europa forte. Porém, a União Europeia nunca será viável em um mundo onde precise disputar com potencias do porte dos Estados Unidos e da China.

A Rússia, com suas grandes tragédias e vitórias surpreendentes dificilmente será um parceiro integral, pois a história deixou fortes ressentimentos e desconfianças entre russos e europeus ocidentais. Por seu lado, a Índia ainda é um país em construção, carrega profundas contradições e mantém muito vivo o ressentimento pela colonização, que em termos históricos terminou “ontem”.

A melhor alternativa dos europeus é o Brasil, país que até 2016, quando foi derrotado em uma guerra hibrida, era um protagonista mundial por sua política de concórdia e força econômica. Porém o Brasil que a União Europeia precisa é o de Lula, construtivo e afirmativo; não o submisso país do bolsonarismo, recolonizado, paralisado economicamente, governado por gangsters e fascistas, descolado da civilização e submisso aos Estados Unidos.  

Uma aliança entre o Brasil de Lula e dos brasileiros, com a União Europeia, será construída a partir de valores civilizatórios semelhantes. Valores que têm como núcleo a herança greco-romana, à qual foi sendo agregada ao longo da história contribuições dos povos originários da América; dos pretos, que vieram da África; dos árabes e orientais que vieram para o Brasil e foram para a Europa.

É uma aliança à qual serão integrados os países da América Latina e que poderá, na linha de Darci Ribeiro, Gilberto Freire e Jessé Souza, entre outros pensadores brasileiros, contribuir para provar que um mundo melhor é possível.

Como disse Txai Suruí na abertura da COP 26, “temos ideias para adiar o fim do mundo”. Uma aliança entre a União Europeia e a América Latina pode colocar em prática essas ideias.   

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