Soviéticos reconheceram que alianças são essenciais para a vitória

Na guerra, como na politica, não há vitórias em grandes disputas, que envolvem dezenas ou centenas de milhões de pessoas, sem alianças. Para vencer é preciso determinar o objetivo principal do momento e buscar o que une, com relação a esta meta, não o que divide. A divisão leva a derrotas, pois como ensinaram os romanos, “divide et vince”.

O avião estadunidense Bell P39 Aircobra foi essencial na resistência soviética, no período em que a URSS suspendeu a produção de equipamentos e transferiu suas fábricas do ocidente para a Sibéria

Há em Moscou um imenso museu sobre a Segunda Guerra Mundial, ou da Grande Guerra Patriótica, nome que os russos dão ao conflito. No enorme espaço, constituído por vários prédios e exposições ao ar livre, há uma ala especialmente dedicada à ajuda concedida ao país nos momentos mais difíceis da invasão nazista – através da Lei Lend-Lease que F.D. Roosevelt fez aprovar nos EUA. Nesta seção podem ser vistas desde grandes bombardeiros, como os B25; aviões de caça P39; até uniformes e embalagens de rações, vindas de diversos países, como a Argentina, para serem embaladas nos Estados Unidos e Reino Unido.

A preservação desses itens comprova a importância que os soviéticos davam às alianças, mesmo com aqueles que meses antes eram seus adversários ferrenhos.

Em grande parte, o sucesso inicial dos exércitos nazistas ocorreu devido a duas contribuições dadas aos alemães pelos próprios soviéticos. A primeira foi a desorganização do Exército Vermelho, provocada pelos criminosos expurgos do desequilibrado Stalin, que ceifou os mais brilhantes e experientes oficiais do país. A segunda foi o conceito de blitzkrieg, tática que os militares alemães aprenderam nos anos que passaram na União Soviética, quando estavam proibidos pelo Tratado de Versalhes de desenvolver novas armas.

General russo criou o conceito da blitzkrieg

Testando seus equipamentos no país socialista, os oficiais germânicos conheceram as Operações em Profundidade, uma tática de combate criada pelo Marechal Mikhail Tukhachevsky, um antigo oficial do exército czarista que aderiu à Revolução Russa na primeira hora e, após se distinguir em combate várias vezes, sendo o responsável por difíceis vitórias, acabou sendo nomeado por Lenin o comandante do Exército Vermelho.

Tukhachevsky, ele próprio preso e executado pelo terror stalinista, desenvolveu seus conceitos a partir das táticas dos exércitos mongóis, que haviam varrido a Rússia nos séculos XIV e XV, quando estudava alternativas para a guerra tradicional do Ocidente, que na era da industrialização havia transformado os campos de batalha em territórios de hedionda carnificina.

O oficial soviético observou que os exércitos montados das estepes asiáticas evitavam o confronto direto e nunca se batiam de frente, contra as forças adversárias, como era o padrão no Ocidente. Preferiam manobrar rapidamente, desferindo golpes destruidores e provocativos contra os adversários, até que percebiam uma posição mais fraca na formação oposta ou um flanco desguarnecido, por onde atacavam, para destruir as retaguardas dos oponentes, suas fontes de suprimento, realizar um cerco ou atacar por trás.

Com base nesses estudos, Tukhachevsky concebeu as Operações em Profundidade, que asseguraram a vitória na Guerra Civil Russa.

A remoção do brilhante Marechal e de todos os oficiais formados com suas doutrinas enfraqueceu o Exército Vermelho, o que ficou comprovado na guerra contra a Finlândia. O pequeno, pobre e desarmado país desmoralizou as forças soviéticas muito mal comandadas, com vitórias que pareciam impossíveis, dado o peso dos números. No final desde conflito, que precedeu a Segunda Guerra Mundial, a Finlândia cedeu alguns anéis, porém não perdeu os dedos e manteve a sua independência.

Apesar de Stalin, Exército Vermelho vira o jogo

Enquanto isso, um oficial formado nas teses das Operações em Profundidade, que se equilibrava politicamente, sem nunca conquistar a confiança absoluta do poder stalinista, Georgy Konstantinovich Zhukov, foi enviado para um posto remoto na Sibéria, na fronteira com a Mongólia. Na época, o Império Japonês dominava a Manchúria, parte nordeste da China, e procurava expandir seu território em terras que faziam parte da União Soviética. A intenção japonesa inevitavelmente levou a um confronto entre o Exército Vermelho e as forças imperiais, que vinham de uma série de vitórias, desde a sua criação, no processo de modernização do Japão.

O exército japonês fora treinado por oficiais alemães e operava de acordo com a cartilha tradicional do Ocidente. Por seu lado, Zhukov recebeu ordens expressas do Kremlin, para manter uma posição tradicional de defesa. A liderança soviética, escaldada pela derrota sofrida pela Rússia para o Japão, em 1905, temia a força do país oriental.

Zhukov, formado na doutrina das Operações em Profundidade, não obedeceu às ordens e na Batalha de Khalkhin Gol, utilizando esta tática impôs uma contundente derrota às invictas forças japonesas.

A partir desta derrota, os japoneses contraíram o mesmo medo que os líderes soviéticos tinham deles, por causa de 1905, obviamente de forma contrária. O comando imperial considerou muito perigoso cutucar o urso e abdicou de qualquer ação militar contra a União Soviética.

Quando a espionagem soviética, através do agente Richard Sorge, descobriu que o Japão não tinha qualquer intenção de atacar a União Soviética, o Kremlin pode transferir suas forças da Sibéria para o Ocidente do país e, desta forma, sob o comando de Zhukov, Moscou foi salva e a guerra virou.

Quando Zhukov foi nomeado para comandar a defesa de Moscou, uma de suas primeiras providências foi pedir a libertação do General Konstantin Konstantinovich Rokossovsky de um Gulag, onde o oficial estava preso. Nas memórias de Rokossovsky, ele relata que em uma manhã, ele fazia a faxina das privadas da prisão, quando um guarda o chamou. Ele pensou que era iria ser executado e lamentou não ter trocado sua roupa de baixo naquele dia, por peças limpas. Foi velado a um avião e transferido diretamente para o Kremlin, onde Zhukov o reabilitou como general e o mandou para o setor mais difícil da frente de batalha, onde o militar se destacou ao derrotar as mais bem armadas tropas nazistas, que atacavam a capital soviética. No decorrer do conflito, Rokossovsky foi promovido várias vezes, até assumir o comando de um dos três grupos de exército, nos quais as forças da URSS eram divididas. Mesmo percorrendo o caminho mais longo e difícil, suas tropas foram as primeiras que se posicionaram para invadir Berlin, mas o general deteve suas forças, para dar a honra a seu amigo Zhukov.

A transferência das industrias foi essencial para a vitória

Mas, antes disso, a ajuda do Ocidente foi fundamental e os soviéticos sempre reconheceram a importância da aliança, sendo uma prova a preservação de itens simbólicos do Lend-Lease.

Foi com esta ajuda que os soviéticos puderam transferir suas fábricas para mais de mil quilômetros além dos Montes Urais, além do alcance da aeronáutica nazista. Seria como se três vezes mais indústrias do que há hoje em São Paulo fossem removidas e instaladas em Tocantins, por exemplo.

Neste período de mudança do parque industrial, evidentemente a produção foi interrompida por vários meses e precisou de mais tempo ainda para atingir um nível aceitável. Nesta época, a ajuda ocidental foi essencial para a resistência do país e os russos sempre valorizaram esta aliança, o que é demonstrado no Museu da Grande Guerra Patriótica.

Depois veio o novo conflito mundial, a Guerra Fria, e o resto é história.

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