A INFLAÇÃO VAI EXPLODIR O PAÍS E LOTAR AS RUAS

Com agradecimentos a Fernando Brito e Ignácio Delgado.

A crise energética vai acelerar a inflação.

A marcha acelerada da inflação tem potencial de explodir o país e encher as ruas, muito mais do que os discursos e slogans políticos tradicionais contra Bolsonaro são capazes de fazer.  

A inflação vai assumindo o centro das preocupações dos brasileiros neste final de 2022. Dois textos interessantes sobre o assunto foram publicados nesta semana. Um foi do perspicaz jornalista Fernando Brito, que foi o assessor de imprensa de Leonel Brizola e uma das pessoas de maior confiança do político gaúcho; e o outro, com maior aprofundamento, é do professor Ignácio Delgado. Ambos vão na linha da famosa frase do economista e marqueteiro de Bill Clinton, James Carville, “é a economia, estúpido”.

A frase do marqueteiro captou a mudança de humores do público estadunidense, que pressionado pelas dificuldades reais da sobrevivência, desprezou o discurso triunfalista de Bush pai, recém vitorioso na primeira Guerra do Iraque; e preferiu apostar nas soluções propostas por Clinton, que concentrou sua campanha na recuperação econômica e na qualidade de vida dos cidadãos.

O episódio, ocorrido na campanha eleitoral dos EUA de 1992 é um bom caso de estudo das teorias do professor Adam Przeworski, um cientista político polonês, que atualmente está vinculado à Universidade de Nova Iorque. O professor fez estudos, para entender por que após um fulminante crescimento os partidos de esquerda (socialistas, socialdemocratas ou os democratas, nos EUA) no pós guerra, a direita liberal voltou a dominar o cenário político, a partir dos anos 1980 . Ele concluiu que entendendo a impossibilidade de disputar com os progressistas a partir dos debates voltados aos problemas nacionais de cada país, pois o programa liberal não possui soluções para a maioria da população, a direita passou a introduzir novos assuntos na agenda pública. O objetivo foi desviar a atenção do eleitorado dos temas relativos à qualidade de vida.

Entre os novos temas colocados para atrair a atenção, vieram as questões do comportamento, o moralismo, a imigração, a religião e, entre outros, um falso nacionalismo (semelhante a torcida de futebol) estimulado pelas guerras imperialistas. A cobertura de guerras, como a das Malvinas – responsável pela eleição de Margaret Thatcher, que antes do conflito enfrentava forte impopularidade; ou o ataque à minúscula ilha de Granada, que impulsionou a popularidade de Ronald Reagan. A direita utilizou o método no mundo inteiro, através de bravatas ou ações muito perigosas.

A campanha de Clinton – embora depois ele tenha se comportado como qualquer outro imperador – foi o primeiro grande exemplo de que a estratégia de desviar o foco tem limites, impostos pela decomposição da economia nos aspectos que mais afetam a população.

Lula foi eleito no Brasil principalmente porque os desacertos da economia, comandada há mais de uma década pelos economistas tucanas, estavam levando a maioria do povo brasileiro a grande angústia e sofrimento.

Até mesmo Donald Trump foi eleito com base em um discurso promessas econômicas feitas para um grande contingente de estadunidenses abandonados pela economia. Trump prometeu a “América grande novamente”, para gerar empregos e melhorar a vida dos cidadãos estadunidenses, ameaçados pela invasão de chineses, chicanos e outros estranhos. Obviamente, como todo fascista, ele precisava inventar inimigos, cara canalizar as emoções populares.

O “X” DA QUESTÃO

Ignácio Delgado e Fernando Brito apontaram com precisão a resposta da charada política do momento: a economia.

O bolsonarismo, a oligarquia neoliberal e seus operadores procuram retirar os aspectos da economia que afetam mais diretamente a maioria dos brasileiros do debate. Os bolsonarista escamoteiam esse debate, lançando distrações, porque sua gestão da economia é desastrosa; e os neoliberais evitam se aprofundar no debate econômico, pois seu programa é antipopular e antinacionalista.

No entanto, como nas eleições dos Estados Unidos de 1992, há momentos históricos em que não há escolha, pois, a situação chega a um ponto tão desesperador que o debate sobre a economia se impõe na sociedade.

Esse é um desses momentos. Como diz Fernando Brito, “o barulho da passeata dos preços” é o que vai ressonar mais alto entre os brasileiros. Delgado acrescenta que a “inflação esteve no centro das vitórias da direita em 64 (subsidiariamente), no Plano Cruzado e nas duas vitórias de FHC”. O professor acrescenta que “foi decisiva, embora pouco considerada, na perda de popularidade de Dilma no início de 2015, quando o governo deixou de represar os preços administrados”.

É bom acompanhar e prestar atenção, pois a marcha da inflação tem imenso potencial para explodir o país e encher as ruas, muito mais do que os discursos e slogans políticos tradicionais contra Bolsonaro são capazes de fazer.  

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