Lula se fortalece no mês mais agitado do ano

Com o grave abalo sofrido pelo projeto da terceira via, no naufrágio da manifestação organizada pelo MBL e o VPR, o que está de fato em discussão é a estratégia de enfrentamento do bolsonarismo e a luta pela restauração da democracia no Brasil. Significa que há dois debates centrais: o programa de salvação nacional e o caráter da aliança (ampla ou limitada à esquerda) para derrotar Bolsonaro.  

Lula vai tecendo suas alianças com muita conversa e paciência.

A terceira via levou um golpe duro dia 12 de setembro, com o fracasso da manifestação organizada pelo MBL e o VPR. A falência de uma alternativa a Lula e Bolsonaro é mais visível no comportamento dos candidatos a esta posição do que ao reduzido público, que o ato conseguiu reunir. Apenas cerca de seis mil pessoas estiveram na Avenida Paulista.

Os presidenciáveis Ciro Gomes, Henrique Mandetta, João Dória e João Amoedo estiveram presentes ao ato, que teve o apoio do PSB, PDT e PCdoB, considerados partidos de esquerda.

A participação de siglas e políticos alinhados com a direita, como João Dória, Mandetta e Amoedo é perfeitamente coerente, pois eles estão alinhados com o MBL e o VPR desde os primeiros eventos, que culminaram no golpe de 2013. Difícil de justificar é a adesão dos setores autoproclamados democráticos ou de centro-esquerda e esquerda.

O que está em discussão nem é estratégia mais geral de enfrentamento do bolsonarismo e da luta pela restauração da democracia no Brasil, que tem como um dos pontos centrais uma frente ampla ou mais estreita reunindo somente a esquerda e a centro-esquerda.

A questão central se refere à pertinência de aceitar que grupos como o MBL e o VPR têm lugar na política brasileira. Se o bolsonarismo é uma escória que surgiu.do incêndio da democracia brasileira, ao qual se uniram fascistas, militares ressentidos e oportunistas, o MBL e o VPR foram as tropas de choque dos incendiários.

Entretanto o mais grave é que essas organizações não surgiram espontaneamente no calor dos eventos de massa de 2013 e nem mesmo têm origem no Brasil.

Os principais membros do MBL têm origem na ONG estadunidense Estudantes pela Liberdade (EPL), um braço da Atlas Network, nome fantasia para Atlas Economic Research Foundation. A organização é um dos think tanks, ou “tanques de ideias”, centros de formulação que surgiram para combater as esquerdas no país e no mundo. O propósito da Atlas Network não é apenas derrotar eleitoralmente as esquerdas, mas fazer prevalecer o liberalismo em sua versão mais perversa, o ultraliberalismo. A fundação é financiada pela família Koch, uma das mais ricas do mundo, com fortuna calculada em mais de US$ 100 bilhões.

Diversos pesquisadores ao redor do mundo têm publicado vastos estudos sobre a ligação das fundações estadunidenses com a CIA, o Pentágono e o Departamento de Estado, para a obtenção dos objetivos geoestratégicos dos Estados Unidos. As pesquisas revelam que atualmente a maior potência do planeta não atua somente pelos meios bélicos. Há outra forma de “ataque”, que o estrategista militar norte-americano Thomas Barnett denominou de “sistemas administradores”, na apresentação da Technology, Entertainment, Design (TED) 2005, intitulada “The Pentagon’s New Map for War & Peace”.

De acordo com Moniz Bandeira, que foi o maior estudioso brasileiro sobre geopolítica, as novas formas de “ataque” são efetivadas em países alvos de desestabilização econômica ou social, através dos meios de comunicação, jornais, ONGs, redes sociais, ativistas, empresários, organizações.

A Atlas é uma das organizações mais atuantes dos EUA. Com sede em Washington, e atualmente presidida pelo Alejandro Chafuen, argentino-norte-americano, a Atlas está no centro de uma rede com mais de 500 entidades parceiras, alcançando 99 países, segundo o site oficial da entidade. É possível, ou mesmo provável, que nem todas as parcerias ou financiamentos possam ser declarados, por questão de estratégia ou de infração à alguma legislação.

O diretor executivo EPL, Juliano Torres, não tem receio de falar sobre a ligação entre sua organização e o Movimento Brasil Livre (MBL), onde despontou a estrela de Kim Kataguiri, conforme seu relato ao Agência Pública: “a gente estava procurando alguém para assumir, e aí encontramos o Kim [Kataguiri] e o Renan [Haas], que afinal deram uma guinada incrível no movimento [do passe livre], com as passeatas contra a Dilma e coisas do tipo. Inclusive, o Kim é membro da EPL, então ele foi treinado pela EPL também. E boa parte dos organizadores locais são membros do EPL. Eles atuam como integrantes do Movimento Brasil Livre, mas foram treinados pela gente, em cursos de liderança.”

Segundo o The Intercept, o modelo da Atlas e de seus institutos parceiros se preocupa menos com a formulação de novas soluções inovadoras para os problemas dos países em que estão presentes, e mais com o estabelecimento de organizações políticas disfarçadas de instituições acadêmicas, como forma de melhor conquistar o público para a ideologia liberal.

Fazem parte da rede brasileira da Atlas: Instituto Atlantos (Porto Alegre), Instituto de Estudos Empresariais (Porto Alegre), Instituto de Formação de Líderes de Belo Horizonte, Instituto de Formação de Líderes de Santa Catarina, Instituto de Formação de Líderes de São Paulo, Instituto Liberal de São Paulo, Instituto Liberdade (Porto Alegre), Instituto Liberal (Rio de Janeiro), Instituto Líderes do Amanhã (Vitória), Instituto Ludwik von Mises (São Paulo), Instituto  Millenium (Rio de Janeiro), Livres (Rio de Janeiro), Centro Mackenzie de Liberdade Econômica (São Paulo), Estudantes pela Liberdade (São Paulo).

Todas essas organizações, que refletem o modelo dos think tanks ultraliberais dos Estados Unidos, atuaram contra a democracia brasileira e, pior, fizeram isso a serviço dos interesses de uma potência estrangeira, de forma consciente ou não.

Partidos políticos fazem parte da política, eles disputam o poder em um país, defendem suas bandeiras e interesses em determinado momento (mesmo que a maioria dos partidos no Brasil sejam cartórios eleitorais) e podem mudar de opinião, de acordo com a conjuntura. Assim é compreensível que vários partidos e políticos individuais tenha apoiado Bolsonaro, mas depois tenham rompido com ele, porque o cenário mudou. Recorrendo a um conceito de Clausewitz, assim é a política verdadeira.

Por outro lado, construtos, como o MBL, não tem nada a ver com a política real do Brasil. São instrumentos criados por interesses estrangeiros, para intervir no país.

Existe um tipo de nacionalismo que é execrável, porque é racista e sempre está contra o “outro”, como o nazismo ou fascismo. Porém, há um tipo de nacionalismo que em determinado momento se conecta com a revolução socialista, como o que impulsionou as lutas em Cuba, na Argélia, Vietnã, China, Angola e a defesa da Rússia, na 2a Guerra, entre outros. O Brasil está sob ataque, pelo menos desde 2012, quando Snowden denunciou a espionagem dos EUA, que atingiu a Petrobras e Dilma. No ataque ao país foram articuladas quintas colunas, como a lavajato e grupos de agitação e propaganda treinados, organizados e financiados pelos Estados Unidos. O MBL e o Vem para a Rua são duas dessas organizações criadas para desestabilizar o ambiente sociopolítico brasileiro.

Desta forma, apoiar de qualquer iniciativa desses grupos de quinta coluna é traição ao Brasil.

Ir em uma manifestação convocada por uma frente de partidos – mesmo os que participaram da preparação do golpe e foram empurrados pela realidade, para a defesa da democracia e do estado de direito – é uma coisa. Mesmo que dê engulhos e vontade de vomitar, uma frente como esta faz parte do jogo de articulações e alianças políticos.

Na Segunda Guerra Mundial, a União Soviética se juntou às potências capitalistas, a fim de enfrentar o nazismo; e durante a Revolução Chinesa os comunistas se aliaram ao Kuomintang, para derrotar o Japão. São dois exemplos históricos importantes e lembram que algumas alianças são muito difíceis, porém necessárias, pois na política ou na sua continuação, a guerra, é preciso usar o cérebro para vencer e não o fígado.

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