ACORDO MISTERIOSO DEIXA O BRASIL EM SUSPENSE

Temer certamente patrocinou acordos nada republicanos, como é a sua natureza. Os termos jamais serão conhecidos pela opinião pública. Os próximos dias poderão esclarecer alguns aspectos do que foi combinado, mas os pontos mais importantes provavelmente nunca serão revelados.

Poucas pessoas conhecem os termos do acordo feito sob mediação de Temer. Sendo coisa do ex-presidente golpista não é republicano nem é bom para o Brasil

A primeira impressão é a de que Bolsonaro foi derrotado na batalha de Sete de Setembro. Os eventos que ocorreram depois e que tiveram como figura central um Temer tentando ressuscitar, sugerem não apenas a rendição do gangster na presidência, como também a sua humilhação.

A carta de Bolsonaro; publicada no site da presidência, na qual ele desdiz tudo o que disse, somada ao constrangedor telefonema ao ministro Alexandres de Moraes; sugere a desmoralização do miliciano presidente.

Outros elementos contribuem para a percepção de que Bolsonaro perdeu a aposta que fez no feriado da Independência. Na manhã do dia sete, quando participou da cerimônia do hasteamento da bandeira, a expressão facial de Bolsonaro já demonstrava elevado grau de tensão. Seu discurso em Brasília, quando ele chegou à Praça dos Três poderes foi pífio. A mesma expressão de grande preocupação era perceptível, quando ele sobrevoou a capital federal em um helicóptero camuflado para a guerra (deixando de lado a aeronave branca da presidência).

Logo após o voo, um de seus assessores confidenciou a um jornalista do Distrito Federal que o presidente se decepcionou com a quantidade de apoiadores na Esplanada dos Ministérios.

Chegando a São Paulo, a tensão era visível. O discurso, como observa Jânio de Freitas, apesar de agressivo foi desconexo, sem orientações à multidão que aguardava instruções e acabou de repente, deixando os seguidores bolsonarista confusos.

Os relatos dos jornalistas que acompanharam de perto os acontecimentos garantem que estava sendo preparado um desafio perigoso às instituições. O ato antidemocrático foi cuidadosamente preparado, houve muito dinheiro disponível, a convocação via o esquema de redes sociais bolsonarista começou há dois meses e o alvo foi muito bem definido: a remoção do ministro Moraes do STF ou o envio dos inquéritos que ameaçam a “famiglia” presidencial para Augusto Aras.

Na virada da noite do dia seis para sete, o plano dos estrategistas que apoiam o gangster começou a dar errado. De acordo com o relato do professor Fernando Horta, da UNB, depois confirmado pela mídia das oligarquias, houve frenética troca de telefonemas entre as autoridades do STF, o governador do DF e os responsáveis pela segurança da capital federal.

Na madrugada do dia sete, Bolsonaro foi informado pela Abin que o público seria menor, nos dois principais focos da concentração antidemocrática, e as PMs do DF e de São Paulo não iram romper a disciplina. Embora com maioria bolsonarista, os policiais temiam principalmente pelas suas carreiras.

Parte do plano era a paralização das estradas em todo o país, o que foi organizado por empresas transportadoras, a maioria delas ligadas ao lumpesinato do agronegócio.

No dia sete, antes da chegada do miliciano à Esplanada dos Ministérios, seus apoiadores já haviam tentado invadir o prédio do STF várias vezes e foram detidos pela PM.

O que restou ao miliciano, depois do Sete de Setembro, foram as barreiras nas estradas, onde jagunços do agronegócio atacavam os verdadeiros caminhoneiros, que tentavam trabalhar. O gangster foi informado que a Polícia Rodoviária Federal e as PMs de diversos estados iniciaram uma operação para desobstruir as estradas. Muitos apoiadores da criatura instalada indevidamente no Palácio do Planalto poderiam ser presos.

Os ministros mais sensatos do Governo Federal perceberam um risco muito maior do que a prisão de apoiadores. Os bloqueios poderiam provocar um terremoto na combalida economia brasileira, o que abalaria de maneira fulminante o que resta da popularidade do miliciano. A rápida corrosão da aprovação do gangster tornaria inviável a reeleição do presidente miliciano e poderia determinar o seu afastamento antes de 2022.

A possibilidade de afastamento via impeachment foi transmitida a ele pelos seus elos com o Congresso federal, o deputado Arthur Lira e o senador Ciro Nogueira.

TEMER É RETIRADO DO SARCÓFAGO

Entendendo que estava preso em uma armadilha, preparada por ele mesmo, Bolsonaro começou a ceder na noite do dia oito, quando gravou a contragosto a mensagem aos jagunços que tentavam paralisar as estradas. Neste mesmo dia, o gangster estabeleceu contato com o traidor Temer, que se dirigiu a Brasília em um jato da FAB, na manhã seguinte.

No dia nove, são registrados os dois principais momentos da humilhação do gangster na presidência, com a assinatura e divulgação da carta, escrita pelo marqueteiro de Temer, e o telefonema a Moraes.

O conjunto da obra trouxe imenso desgaste na base mais furiosa de Bolsonaro, que se sentiu traída. Os depoimentos de diversos desses personagens são muito claros, na afirmação de que foram chamados para a invasão do STF, uma intervenção militar e a consolidação de um golpe destinado a concentrar todos os poderes nas mãos do executivo.

Como tal não ocorreu, essas pessoas passaram a atacar Bolsonaro e a duvidar da sua liderança.

Em texto anterior, sugiro que o bolsonarismo segue uma estratégia semelhante à do nazifascismo clássico: testa limites; quando é possível avança, se há reação insuperável recua, porém não desiste, acumula força e ataca novamente. O bolsonarismo é bronco, o gangster, seus filhos e os generais do seu entorno são deficientes intelectualmente e desastrados. Porém, contam com cérebros de estrategistas internacionais reunidos em torno do jornalista Steve Bannon e do trumpismo. Foram eles que traçaram o eixo da estratégia bolsonarista.

Para tais cérebros do novo nazifascismo, com a derrota de Trump é no Brasil que ocorre a principal batalha pelo futuro do planeta. Portanto, é temerário pensar que o bolsonarismo se rendeu e será enquadrado.

Temer certamente patrocinou acordos nada republicanos, como é a sua natureza. Os termos desses acordos jamais serão conhecidos pela opinião pública. Os próximos dias poderão esclarecer alguns aspectos do que foi combinado, mas os pontos mais importantes provavelmente nunca serão revelados. É possível que Moraes tenha cedido de alguma forma. O relaxamento da ordem de prisão do blogueiro Oswaldo Eustáquio, que se encontra no México, traz um sinal. Por outro lado, a ordem de prisão do indivíduo obscuro que se apelida de Zé Trovão continua valendo, o que também possui um significado.

O DESESPERO PARA MANTER AS BASES

Outro fato relevante é a operação desesperada do bolsonarismo para conter a hemorragia das suas bases mais fundamentalistas. O próprio Zé Trovão gravou um vídeo, no qual relata que Bolsonaro gastou boa parte do dia 11 de setembro, para fazer uma reunião online com seus apoiadores mais radicais, quando se disse vitorioso. De acordo com o suposto caminhoneiro (que segundo outros bolsonarista nem CNH possui), o gangster presidente assegurou que todos os seus apoiadores presos serão libertados ou terão seus processos arquivados, nenhum outro blogueiro ou ativista será detido e as redes sociais serão liberadas para fakenews.

Caso isso seja verdade, quem ganhou de fato a parada foi o presidente miliciano. Resta saber o que ele deu em troco para Temer e outros predadores sociais reunidos no centrão – campo não só político, como também social.

A CONJUNTURA MUDOU

Para quem está na planície é impossível ver todos os fatos, para estabelecer uma análise correta. A única conclusão razoável é que a conjuntura mudou. Novos atores entraram em cena e outros foram fortalecidos. Por exemplo, o senador mineiro Rodrigo Pacheco, uma das figuras mais importantes do centrão; que se manteve cuidadosamente em uma órbita na qual ele não se aproximou muito do presidente e nem se afastou demasiadamente dele; poderá ter valorizadas as suas fichas na corrida presidencial.

Desta forma, a corrida pelo governo de Minas gerais entra em um novo cenário. A tendencia mais provável é que o prefeito da capital mineira, Alexandre Kalil, o mais forte candidato para enfrentar o governador Zema, dê o seu apoio ao senador, de quem se declarou admirador. Caso este cenário se configure, a perspectiva de uma aliança entre Kalil e o PT passa a ser bastante remota.

Como Minas Gerais e o termômetro das eleições presidenciais – quem ganhou no estado, venceu todas as eleições desde a redemocratização – a estratégia nacional das esquerdas tem que levar em conta qual o melhor caminho para o PT mineiro.

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