BOLSONARO TESTOU LIMITES E VAI ATACAR NOVAMENTE

Primeiro-ministro britânico exibe acordo assinado por Hitler. Ele descobriu da pior forma, que o ditador alemão não honrava o que assinava. Bolsonaro vai cumprir o acordo armado por Temer?

A estratégia de Bolsonaro é testar os limites, para avançar quando possível e recuar se necessário, a fim de acumular força necessária a outro ataque. Ele usa a mentira como parte natural da política, portanto não dá para confiar nele.

No dia 30 de setembro de 1938, o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain foi recebido como um herói no aeroporto de Heston, quando chegou ao Reino Unido após ter participado da conferência de Munique. No aeroporto ele acenou com uma folha de papel para a multidão em delírio, enquanto fazia o discurso que ficou conhecido na história como “peace for our time” (paz para o nosso tempo). O primeiro-ministro, as principais lideranças políticas britânicas e a mídia avaliaram que Hitler havia sido detido, em sua fome territorial, após a assinatura do Acordo de Munique, na qual as potencias europeias concordavam em entregar para a Alemanha, em detrimento da Tchecoslováquia, a rica região industrial dos Sudetos.

O papel que Chamberlain exibiu era uma folha em branco e simulava para a multidão o acordo assinado por Hitler, no qual o líder nazista se comprometia a não reivindicar mais nenhum outro território.

À época Hitler havia assinado outro documento, estabelecendo uma aliança com a União Soviética, o que foi considerado por Stalin uma garantia de que a Alemanha não causaria mais problemas.

Hitler desprezou ambos os documentos assinados por ele. Menos de um ano depois do Acordo de Munique, as tropas alemãs invadiram a Polônia, iniciando o conflito mais mortífero da história humana. Em menos de dois anos, a União Soviética também acordou para a realidade: a palavra de Hitler não tinha nenhum valor.

Seguindo o modelo de Hitler e Mussolini, Bolsonaro tenta o domínio total do poder no Brasil, utilizando as mesmas estratégias e táticas dos dois líderes nazifascistas.

A estratégia geral empregada pelos líderes fascistas foi um processo de desgaste contínuo das instituições, das estruturas sociais, das bases civilizatórias, da cultura, dos adversários e inimigos reais ou fabricados, através da tática de testar limites. Tanto o Partido Fascista, na Itália, quanto o Nazista, na Alemanha, surgiram de pequenos grupos, que reuniam uma escória social, composta por indivíduos ressentidos com o seu próprio fracasso – as decepções provocadas pela Primeira Guerra contribuíram para o surgimento desse tipo de gente em alguns dos países mais civilizados do mundo.

Os grupos nazifascistas cresceram combatendo física e moralmente (através de veículos próprios de comunicação) os comunistas e os sindicatos. Esses movimentos eram ilegais, porém não eram reprimidas pelas autoridades, anticomunistas. Com o tempo o leque de adversários a serem combatidos foi sendo ampliado, passando a englobar os socialistas, os sociais-democratas, os intelectuais, além de outros grupos, e, na Alemanha, também os judeus.

Quando encontravam reação aos seus desafios, os nazifascistas refluíam. Eles não desistiam, apenas recuavam taticamente e se reorganizavam, como a tentativa de golpe contra o governo da Baviera, articulado por Hitler, a partir de uma famosa cervejaria Burgebräukeller, em Munique.  

A polícia local resistiu, 16 nazistas foram mortos, Hitler foi preso, mas aproveitou a publicidade obtida pelo evento para se transformar em uma personalidade nacional.

A partir de uma série de desafios para testar limites, eventuais recuos e acordos não cumpridos, os fascistas e os nazistas se transformaram nas principais referencias do combate ao comunismo nos seus países. Com isso, as oligarquias conservadoras e os liberais, que controlavam o andar de cima do capital, se aproximaram dos nazifascistas a partir do cálculo de que Hitler e Mussolini possuíam base de massa, para enfrentar a esquerda.

Neste arranjo de alianças, os nazistas e os fascistas chegaram ao poder dentro das regras institucionais dos seus países. Liderando os governos da Alemanha e a Itália, ambos levaram seus desafios ao plano internacional, até a derrota na Segunda Guerra Mundial.

BOLSONARO É BRONCO MAS CONTA COM ESTRATEGISTAS

Bolsonaro atua da mesma forma, a partir das formulações de seus estrategistas, pois o gangster é deficiente intelectualmente e cognitivamente. É um cachorro louco que sabe somente latir a agredir.

Porém, no seu núcleo de comando há estrategistas, que conhecem bem as táticas nazifascistas. O mais importante é o jornalista e empresário Steve Bannon, que anunciou nesta mesma semana do Sete de Setembro o lançamento em Washington de um documentário sobre a ascensão de Jair Bolsonaro à presidência do Brasil. De acordo com Bannon, o filme produzido pelo cineasta pernambucano Josias Teófilo, com o nome de “The Brazilian Revolution”, terá estreia em novembro.

Steve Bannon foi o estrategista-chefe de Trump, até ser afastado pela pressão do “Deep State” e por sua exagerada exposição na mídia, que o transformava em figura mais importante do que seu chefe. O estrategista é uma figura importante na ascensão da extrema direita mundial. O livro “Os engenheiros do caos”, do cientista político Giuliano Da Empoli traça o retrato dos ideólogos e, cada vez mais, dos cientistas e especialistas do Big Data, que vêm mudando as regras do jogo político e a face das nossas sociedades. De acordo com Da Empoli, o estadunidense é descrito como o “Grande Manipulador”, pela Time Magazine, ou “personagem político mais perigoso dos Estados Unidos”, citando a Bloomberg News. O cientista político italiano ressalta que este personagem contribuiu decisivamente para a eleição de Donald Trump à Casa Branca, em 2016.

Bannon teve presença destacada na origem e desenvolvimento das novas organizações e partidos nazifascistas, que ocupam espaço no mundo. Ele tentou montar sua principal base mundial em um mosteiro do século XIII, onde pretendia instalar uma escola de formação para de “gladiadores do povo”, junto com seu parceiro italiano Gianroberto Casaleggio. Os dois participaram do explosivo surgimento do Movimento Cinco Estrelas, em torno do comediante Beppe Grillo, que mudou o panorama político da Itália.

Quando a política italiana começou a voltar ao normal e a aliança entre o Movimento Cinco Estralas e a Liga Norte entrou em colapso, o governo do país expulsou Banner e seus seguidores do mosteiro, que ocupavam.

Bannon, então girou sua atenção para o Brasil. Olavo de Carvalho é apenas uma pequena peça da grande engrenagem que junta fascistas de raiz, oportunistas e gangsters, para apoiar Bolsonaro.

Toda a estratégia para o Sete de Setembro revela digitais da participação do grupo de Bannon, desde as táticas utilizadas, até a organização de um evento internacional da extrema direita mundial em Brasília, o CPAC (Conservative Political Action Conference), nos dias que antecederam a tentativa de golpe (sexta-feira, 3, e sábado4), assim como a prisão de um cidadão dos EUA ligado ao jornalista estadunidense. Jason Miller, o estadunidense detido, foi assessor do ex-presidente Donald Trump. A Polícia Federal deteve Miller por suspeita de participação nos atos antidemocráticos de Sete de Setembro.

AS CONCLUSÕES DA CRISE

O que se pode concluir dos acontecimentos que abalaram o país nos dias 6, 7, 8 e 9 de setembro e do seu contexto é que Bolsonaro segue uma estratégia semelhante àquelas utilizadas pelos fascistas italianos e nazistas alemães, para conquistar o poder: ir testando os limites, para avançar quando fosse possível e recuando se necessário, para acumular força necessária a outro ataque. Fiel às estratégias formuladas pelos seus guias, Bolsonaro usa a mentira como parte natural da política, portanto não é aconselhável confiar nele. A carta publicada, que parece registrar uma rendição ou o recuo do gangster, provavelmente tem o mesmo valor do Acordo de Munique ou do tratado com a União Soviética, assinados por Hitler.

Além disso, as oligarquias do andar de cima de todos os setores e seus operadores, a exemplo do que já ocorreu na Itália e Alemanha, parecem insistir em uma aliança com o nazifascismo gangsterista, para deter a esquerda. Sem o componente gangsterista (pelo menos não tão explicito), a aliança funcionou para as oligarquias alemãs e italianas. Porém o resultado foi a dolorosa derrota na Segunda Guerra Mundial, a punição ou a morte dos líderes e operadores nazifascistas.

Por outro lado, Hitler e Mussolini – embora ambos fossem frágeis intelectualmente – eram muito mais preparados para compreender a realidade do que Bolsonaro e as pessoas que ele confia de verdade, seus filhos. Desta forma, a possibilidade de atropelos, mesmo sob o risco de auto suicídio, é grande.

De qualquer forma, a conjuntura mudou. Amplos setores da direita se reposicionaram, avançaram sobre o poder e isso afasta a possibilidade de um impeachment em curto prazo. Na prática, o bolsonarismo aceita, pelo menos temporariamente, compartilhar o poder com o velho esquema descrito pelos ex-senador Romero Jucá, como “com o judiciário, com tudo”. É uma turma gulosa e seu apoio a Bolsonaro vai custar caro.

Outros grupos importantes da oligarquia, principalmente ligados ao capital financeiro e aqueles que mantém relações com os centros do capitalismo mundial, parecem não ter ficado satisfeitos, provavelmente pelos danos que o bolsonarismo provoca na imagem do país, portanto aos negócios globalizados.

Os próximos dias irão revelar o posicionamento deste grupo, antecipado por Armínio Fraga, com uma fala bastante crítica ao arranjo de Temer.

É HORA DE FAZER PERGUNTAS

Fica também a dúvida com relação ao comportamento do STF. Ao aceitar conversar por telefone com Bolsonaro, Moraes passou um sinal muito ruim. O que conversaram, provavelmente, não está na carta publicada pelo gangster.

O centrão, com certeza, está feliz.

As bases de Bolsonaro sofreram sério abalo e grandes segmentos do bolsonarismo estão abandonando o barco. Isto pode ser comprovado tanto pelos vídeos e áudios que circulam pela internet, nos quais seguidores fazem duras críticas ao miliciano; quanto pelos conteúdos postados pelos ministros, inclusive o General Heleno, que tentam desesperadamente estancar a hemorragia da base.

Por outro lado, a esquerda parece ter sido pega de surpresa. Foi marcada uma manifestação para dois de outubro, a presidente do PT anuncia que vai procurar outros partidos, para pautar conjuntamente a bandeira do impeachment e Lula continua suas articulações.

Porém cabe uma leitura melhor da conjuntura.

Bolsonaro será candidato em 2022? Qual será sua força, em caso positivo? O esquema de proteção montado por Temer vai apoiar Bolsonaro em 2022? Caso Bolsonaro não seja candidato, por impedimento, quem será o candidato da sua base? A extrema direita não morre com sua remoção do gangster do poder. E o centrão, que pode sentir-se fortalecido com o compartilhamento do poder, vai lançar candidato? Quem? Rodrigo Pacheco? Se for Pacheco, o cenário eleitoral em Minas Gerais poderá ser reconfigurado. Como Ciro e Dória não abrem mão da candidatura, como ficará o cardápio de candidatos em 2022? O cenário caminha para obstruir a possibilidade de uma frente ampla? Como será o comportamento da esquerda?

São perguntas que precisam ser respondidas rapidamente, para que a esquerda possa definir uma estratégia.

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