BOLSONARO TENTOU O GOLPE E PERDEU

A manifestação de Brasília foi planejada para provocar um ato limite, que seria a invasão do STF; e a de São Paulo tinha o objetivo de exibir o poder de Bolsonaro sobre a PM paulista (a mais poderosa do país), não podendo ser descartado inclusive algum ato violento. Os objetivos do gangster foram frustrados por dois eventos combinados.

Em post anterior, disse que o Sete de Setembro não iria definir o futuro do Brasil, pois o desafio bolsonarista seria mais um capítulo de uma tragédia que se arrasta desde 2013. Foi o que ocorreu. Bolsonaro não foi além de suas habituais ameaças e, principalmente, suas mais tenebrosas expectativas não se cumpriram.

A manifestação de Brasília foi planejada para provocar um ato limite, que seria a invasão do STF; e a de São Paulo tinha o objetivo de exibir o poder de Bolsonaro sobre a PM paulista (a mais poderosa do país), não podendo ser descartado inclusive algum ato violento.

Os dois objetivos foram frustrados por duas eventos combinados.

O primeiro foi a surpreendente (pelo menos para mim) mostra de disciplina e respeito à hierarquia de comando das PMs do Distrito Federal e São Paulo. Após os episódios iniciais, quando os bolsonarista romperam as barreiras policiais e invadiram a Esplanada dos Ministérios, assustando a população brasileira, na sequência dos fatos a Polícia Militar manteve um comportamento correto. Sete tentativas de invasão do STF, inclusive utilizando caminhões como aríete, foram detidas pelo policiamento.

Em São Paulo, a ordem para que os policiais em folga não participassem das manifestações foi cumprida, sendo que os serviços de reservados da PM paulista registraram apenas militares reformados nos atos, o que não é proibido.

Enquanto isso, a PGR e o STF atuaram para deter os bolsonaristas mais perigosos, como o que estimulou o assassinato do ministro Alexandre de Moraes, ou os principais responsáveis pela organização e convocação dos atos antidemocráticos. Várias pessoas foram detidas no dia anterior ou no próprio Sete de Setembro, incluindo o cidadão estadunidense Jason Miller, especialista em mídia digital, ex-assessor de Trump e ligado a Steve Bannon, o maestro da direita mundial. Certamente as prisões serviram como um recado para o núcleo íntimo do gangster na presidência, que teme a prisão de um de seus filhos a qualquer momento.

O receio de prisão foi um dos pontos mais recorrentes dos pobres discursos do miliciano na presidência, proferidos em Brasília e São Paulo.

O PLANO DO GANGSTER NA PRESIDÊNCIA

Uma declaração de Bolsonaro revela que ele esperava algum tumulto dos atos do Sete de Setembro. O miliciano declarou que convocava para o dia seguinte ao feriado o Conselho da República, que pela constituição tem a competência de deliberar sobre intervenção federal, estado de defesa e estado de sítio. Provavelmente o núcleo duro do bolsonarismo esperava ter o seu incêndio do Reichstag, para convocar um estado de exceção.

Cabe registrar que Hitler seguiu um roteiro semelhante. Chegando ao poder através de um processo democrático, a partir das nas eleições de 1933, o cabo austríaco se viu tolhido pela constituição. Com a comoção causada pelo incêndio do prédio do parlamento, em um episódio confuso até hoje, Hitler recorreu a um artigo constitucional de defesa nacional, com isso assumiu poderes ditatoriais até 1945.

Sem conseguir um tumulto, para justificar seu plano golpista, o miliciano foi obrigado a recuar e na manhã do dia seguinte ao feriado anunciou que o Conselho da República não seria mais convocado, em seu lugar haveria uma reunião do Conselho do Governo, integrado pelos titulares dos ministérios. Convidados para esta reunião, os presidentes do STF e do Senado anunciaram que não iriam.

DERROTA DE BOLSONARO

As falas do gangster recheadas de ameaças explícitas à democracia, às instituições e a representantes do STF, ainda que sem citar os nomes, tiveram como resultado a agudização do seu isolamento. Na noite do feriado lideranças políticas de centro, que se mantinham na expectativa, vieram a público manifestar seu repúdio ao presidente extremista e já consideram seriamente a possibilidade de um impeachment.

Na noite do Sete de Setembro, o Jornal Nacional, que ainda mantém grande audiência no país, abre sua edição com um ataque fulminante aos atos bolsonarista e, surpreendentemente, faz uma breve cobertura positiva das manifestações antibolsonaristas, organizadas pela esquerda.

Na manhã do dia oito de setembro, a Folha de São Paulo traz reportagem na qual o vice Hamilton Mourão diz estar “cansado da forma desrespeitosa como é tratado por Bolsonaro e quer conversar com o centro”.

Há algum tempo o andar de cima do capitalismo brasileiro vem se posicionando pela remoção o mais breve de Bolsonaro, pois para os grandes negócios globalizados o gangster é disfuncional.

O projeto do topo da oligarquia brasileira é uma terceira via neoliberal, entretanto para que essa ideia seja viabilizada é preciso remover Lula ou Bolsonaro do páreo. Como Lula atravessou o inferno jurídico e sobreviveu, não há como retirar o petista da corrida eleitoral. Além disso, mesmo com toda a ojeriza que a direita empresarial verdadeiramente rica tem do petista, ele é considerado um negociador confiável e mais palatável do que o gangster na presidência.

O novo imperador em Washington, Biden, provavelmente concorda com o projeto dos seus aliados do andar de cima das oligarquias brasileiras. Apesar dos receios provocados pelas eleições na Argentina, Chile, Bolívia e Peru, assim como os protestos que continuam na Colômbia, talvez seja mais prudente estabilizar a América do Sul. Afinal o inimigo do império é outro império e a guerra é comercial.

Em outro contexto, há exemplo histórico, para fundamentar as opções do império estadunidense. Franklin Delano Roosevelt era crítico ao nacionalismo sincero de Getúlio Vargas, porém isso não o impediu de ceder imensas vantagens ao Brasil, para viabilizar uma aliança contra o Eixo,  

Independente de conjecturas, cresce o bloco dos que consideram imprescindível remover Bolsonaro antes das eleições de 2022. Alguns para deter a destruição do país e minimizar a tragédia sanitária, outros por cálculo eleitoral.

AS MANIFESTAÇÕES

Tanto em São Paulo, como em Brasília, os atos bolsonarista foram bastante inferiores ao que seus organizadores esperavam, depois de tento esforço de convocação e da montanha de dinheiro despejada.

Porém ocorreram em todo o Brasil e atraíram surpreendentemente muita gente.

Significa que o gangster ainda engana muita gente e possui bases reais, de gente moralmente tão deformada como ele. As cenas da multidão bolsonarista ovacionando o miliciano Fabrício Queiroz foram deprimentes e confirmam traços terríveis de parte da população brasileira.

As imagens e a experiencia pessoal revelaram que a base do bolsonarismo é da classe média alta mais velha. Após passar na manifestação da esquerda, em Belo Horizonte, cruzei com dezenas de pessoas tinham participado do ato bolsonarista. Todos de meia idade, para cima, o que é compatível com o que indicam as pesquisas de opinião. É o mesmo padrão que pode ser visto nas fotos e vídeos dos atos antidemocráticos em todo o país e isso dá a sensação de algo moribundo.

Os protestos contra Bolsonaro, ao contrário, embora menores do que os de apoio ao gangster (o que pode ser explicado pela divisão da esquerda, em particular, e do campo democrático, em geral), tiveram proporcionalmente muito mais jovens do que os anteriormente organizados. É um indicador que também confirma as pesquisas de opinião e trazem a certeza de que a defesa da democracia e da civilização é um organismo vivo, vigoroso e portador da esperança.

Talvez o ato mais importante contra Bolsonaro tenha ocorrido não nas ruas das capitais e das cidades, mas nas imediações da Favela do Vidigal, no Rio de Janeiro. Tradicionalmente grupos de motoqueiros bolsonarista se reúnem na Barra da Tijuca e descem para a concentração na Zona Sul. Na primeira motociata, com Bolsonaro, a população do Vidigal vaiou o cortejo. Desta vez os moradores se prepararam com requinte para receber os trogloditas e, além das vaias, houve uma chuva de ovos podres.

O FUTURO

A população dos bairros populares e da classe média baixa do imenso Brasil gradualmente vão rejeitando o governo miliciano, conforme indicam as pesquisas, porque são as que mais sofrem com a crueldade neoliberal, vigente no país. No entanto, ainda não há consciência crítica suficiente neste contingente social, que motive esta imensa população a ir para as ruas.

Além disso, – diferente de outros momentos da história brasileira – apesar da auspiciosa presença da juventude nos atos pela democracia, há grande despolitização nos meios estudantis. É um ponto de atenção para os setores progressistas, pois este setor possui forte poder de mobilização e de atualização do pensamento.

Outro ponto de atenção é com relação ao novo perfil do trabalho. Sem dúvida a participação da CUT, de outras centrais sindicais e diversos sindicatos foi muito importante para a realização dos atos pela democracia. Porém, o ambiente operário mudou, há novas categorias nas quais a organização sindical apenas engatinha ou não existe. São setores atingidos duramente pela perversidade neoliberal cega de Bolsonaro e Guedes, como os motoristas de aplicativos, como o Uber, entregadores, atendentes de call-center e outros. As centrais sindicais devem preparar programas urgentes, para atrair e organizar essas novas categorias.    

A tarefa agora é encontrar pontos de consenso, com base na defesa da democracia, da civilização e da justiça social, para unificar a imensa maioria em atos cada vez maiores, trazendo também os brasileiros que mais sofrem com a crueldade do governo neoliberal.

Para isso, há algumas tarefas curto prazo:

  1. A união da esquerda em um programa mínimo;
  2. A unificação dos temas centrais da propaganda progressista, com a descentralização da criação, produção e veiculação;
  3. Todo apoio às mídias progressistas;
  4. A união dos democratas, com base na defesa de democracia;
  5. O afastamento de Bolsonaro, via impeachment ou, preferencialmente, a cassação da chapa com Mourão.

E, também, existem as tarefas de médio prazo:

  1. Começar a organizar a eleição de Lula;
  2. Preparar as alianças estaduais, parta viabilizar o apoio a Lula.

Além das tarefas de longo prazo:

  1. Organizar grupos de formação, para estabelecer conexão com os setores populares da sociedade, onde não há presença de movimentos organizados (favelas, fábricas, novos setores de trabalho – Uber, entregadores, trabalhadores de call-centers, faculdades etc.);
  2. Incentivar a organização de estruturas de direção progressista nesses locais.

São apenas ideias lançadas ao debate.

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