2021 E O GUARDA DA ESQUINA

Brizola inspeciona posições da Brigada Militar (a PM gaúcha) na Campanha da Legalidade, em 1961

A oligarquia e os militares estão fragmentados, como em 1961. Não existe a unidade de 1964 e o controle das armas e do dinheiro, como havia então. Porém há uma diferença fundamental, que distingue o agora do passado: o guarda da esquina nunca esteve tão empoderado.

Nas redes sociais da Internet tem aparecido muitas discussões sobre os paralelos e afinidades entre a Campanha da Legalidade, em 1961; o golpe de 1964, que não conseguiu organizar reação semelhante. Os debates procuram referências nos fatos que aconteceram nestes dois eventos, para debater a conveniência de participar de mobilizações no dia Sete de Setembro, mesmo com o risco do enfrentamento de grupos armados no feriado da independência do Brasil.

Brizola reconheceu anos após os acontecimentos que Jango estava certo, com relação à incapacidade de resistir ao Golpe de 1964 e pediu desculpas públicas póstumas à filha do presidente golpeado. Com mais informações, ele entendeu que o cenário de 64 era diferente daquele de 61, quando ele conseguiu organizar uma rede de apoio à legalidade.

Aqui vale a pena reproduzir um trecho do escritor Luiz Augusto Erthal, no qual relata uma conversa entre Brizola e Denize Goulart, filha do presidente João Goulart.

(Teu pai tinha razão

Duas semanas antes de morrer, o ex-governador Leonel Brizola ligou para Denize Goulart – sobrinha de sua mulher, Neuza, e filha do ex-presidente João Goulart – e pediu que ela fosse ao seu apartamento, em Copacabana. Denize foi acompanhada pelo sobrinho Christopher Goulart, filho do seu irmão, João Vicente, e pela amiga Ana Guimarães.

Ela chegou por volta das 11 horas e, embora ainda fosse de manhã, Brizola propôs abrir um vinho. A atitude pouco usual do velho líder trabalhista sugeria uma conversa longa e, talvez, para ele, um tanto difícil.

Começou com um preâmbulo intimista – as reminiscências do exílio, a vida no Uruguai e a própria família – como preparação para algo mais solene que viria em seguida.

“De repente ele olhou para mim e, para minha surpresa, me disse: ‘Eu tenho que te pedir perdão por tudo que vocês passaram. Tenho que pedir perdão a ti, ao teu irmão e aos meus próprios filhos’”, revelou Denize durante um debate organizado pelo Cineclube Macunaíma, da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), (…) após a exibição do filme “Jango”, de Sílvio Tendler.

“Mas perdão por quê? Não há nada que perdoar”, respondeu Denize, confessando que jamais pensou em ouvir algo assim de Brizola. Ela narrou, então, a declaração feita por ele com lágrimas nos olhos no final daquela manhã no antigo edifício da Avenida Atlântica, esquina com a Rua Xavier da Silveira:

“Eu fui muito contra o teu pai, muito contra o Jango. Rompi com ele em 64, nos afastamos, apesar de termos depois nos reconciliado. Mas eu fui responsável por muitas coisas e hoje acho que teu pai tinha razão. Não existia a mínima possibilidade de resistência naquele momento. Teu pai já sabia o que eu não sabia”.

“Ele falou isso olhando nos meus olhos. Eu chorava e ele também”, contou Denize.)

Em 1961, Brizola contava com o poder armado da Brigada Militar, a PM gaúcha, que como todas as outras forças estaduais ainda era uma organização controlada pelas elites de cada estado; além do apoio das tropas do exército estacionado no Rio Grande do Sul e de outros militares espelhados pelo país. Simbolicamente ele chegou a ocupar a fábrica de armas Taurus e distribuiu um revólver e duas caixas de balas, para alguns milhares de cidadãos.

Em 1964, esta possibilidade não existia e Jango sabia disso. Há várias fontes sobre o período, como Samuel Wainer, Flávio Tavares, Anita Prestes, Marco Aurélio Santana, Adriano Codato, Décio Saes, João Quartim de Moraes, Lincoln Secco, Jorge Ferreira, Angela de Castro Gomes, Carlos Chagas, Hélio Silva, Elio Gaspari e Moniz Bandeira, entre outros. Alguns viveram os acontecimentos e outros pesquisaram os documentos liberados pelo Governo dos Estados Unidos, arquivados na Biblioteca do Congresso Estadunidense.

DESVENDANDO 1964

Moniz Bandeira conta em dois livros – “A formação do Império Americano” e “Brasil, Argentina e Estados Unidos” – que a revolução cubana abalou o governo dos EUA. Washington, ainda governada por Kennedy ficou muito preocupada com a possiblidade de uma nova revolução ou, pelo menos, um movimento nacionalista independente ocorrer na América Latina.

De acordo com o professor Moniz Bandeira, o Brasil à época era o foco das suas apreensões, pelo tamanho e importância do país e porque a Argentina à época já estava enquadrada no esquema da OEA (um braço da geopolítica dos EUA). Os acontecimentos de 1961, quando Brizola comandou a Rede pela Legalidade, foram acompanhados com atenção pelos serviços de espionagem estadunidenses.

Um dos documentos da Biblioteca do Congresso analisados por Moniz Bandeira alertava que se ocorresse outro episódio como o de 1961, seria incomparavelmente pior – do ponto de vista deles – do que a Sierra Maestra, pois além de abalar o Brasil, poderia atingir a Argentina, o Uruguai, o Paraguai, a Bolívia, o Peru e o Chile.

Desta forma, conforme as apurações de Bandeira, os EUA começaram a atuar no Brasil com mais vigor desde 1962, para cooptar as oligarquias regionais do dinheiro e as Forças Armadas. Moniz observa que o processo envolveu dinheiro, ideologia, promessas de poder e relações pessoais.

Segundo os documentos aos quais o autor teve acesso, desde junho de 1963, os Estados Unidos começaram a formular vários planos, para desencadear uma operação batizada de Brother Sam, a fim de intervir militarmente contra o governo João Goulart.

Ainda naquele ano, foi descoberto um Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, perto de uma propriedade de Jango, um arsenal com armas de guerra, bombas e aparelhos de comunicação, em caixas do Programa Ponto IV, da embaixada dos EUA. As investigações evidenciaram uma trama para assassinar o presidente brasileiro, sua família, políticos e oficiais favoráveis ao governo. Documentos desclassificados revelaram que a CIA estava por trás da trama. 

Uma das primeiras providencias foi substituir na surdina os comandos militares que haviam se revelado nos eventos de 1961, como simpáticos à democracia e a fidelidade ao governo de João Goulart.

Em paralelo, a oligarquia foi estimulada a criar organizações civis anticomunistas ou ultrareligiosas, para atrair a classe média.

As ações dos EUA também ocorreram fora do Brasil. O exército argentino recebeu um importante reforço de armamento, bastante superior a tudo o que dispunham as forças armadas brasileiras. Enquanto isso sob a égide da Agência Interamericana de Desenvolvimento, os EUA financiaram a construção de rodovias para facilitar a invasão do território do Rio Grande do Sul por forças argentinas, que entrariam no Brasil atendendo solicitação da OEA.

Quando a operação Brother Sam foi desencadeada, uma poderosa Força Tarefa, encabeçada pelo porta-aviões Forrestal, com unidades da marinha e dos marines, recebeu ordens para rumar em direção ao Brasil.

O ataque ao Brasil, de acordo com as pesquisas de Moniz Bandeira, seria provavelmente o primeiro ensaio de uma força interamericana permanente, conforme eram os planos do Pentágono.

Na época, o governo João Goulart contava com 76% de aprovação popular, de acordo com pesquisa realizada entre junho e julho de 1964. Entretanto o povo estava desarmado e as principais unidades das forças armadas, em função das providências tomadas na obscuridade, estavam dominadas pelos oficiais mais reacionários. Essas forças militares antipopulares, conforme conta Moniz Bandeira, recorreram aos métodos de guerra civil, para destruir a oposição e esmagar toda e qualquer resistência, inclusive aquela existente dentro do aparato militar. Os primeiros a serem caçados, presos e humilhados foram os oficiais legalistas.

2021 O ANO DO GUARDA DA ESQUINA

O que isso tem a ver com o momento atual? Pouca coisa. Entretanto há lições.

O Brasil de hoje é mais parecido com o de 1961, do que com o de 1964. A oligarquia e os militares estão fragmentados, como em 1961. Não existe a unidade de 1964 e o controle das armas e do dinheiro, como havia então.

Porém há uma diferença fundamental, que distingue o agora do passado: o guarda da esquina, mencionado por Pedro Aleixo, nunca esteve tão empoderado.

Os brasileiros aprenderam na prática que uma mentira repetida mil vezes, de fato, pode se tornar verdade. Ocorreu no caso do impeachment de Dilma, que era uma das melhores presidentes da história, até que grande parte da população foi convencida por mentiras recorrentes a odiá-la. Aconteceu também no caso da lavajato, quando as calúnias reiteradamente ecoadas pela mídia levaram a população a considerar como um bandido corrupto, aquele que era considerado o melhor presidente do país.

Mentiras repetidas tem potencial inegável de convencimento.

Há mentiras sendo reiteradamente dirigidas ao guarda da esquina, para estimular esta gente abrigada nas polícias militares e baixos escalões das forças armadas a tomar uma atitude violenta contra inimigos imaginários. Essa pregação pode, infelizmente, levar às vias de fato.

Se os generais só levantam as armas de acordo com os determinantes políticos que não se verificam no país, este não é o padrão dos movimentos de grupo, bem estudados pela psicanálise. Em grupos, sem comando, os indivíduos podem atuar de maneira descontrolada, até mesmo contra seus interesses.

Depois de tantas convocações, hoje o que parece provável é a participação de grupos de policiais militares e outros indivíduos nas manifestações bolsonarista do Sete de Setembro. Os focos dos atos pro-governo serão Brasília e São Paulo, podendo ocorrer algum resíduo destes movimentos em outros locais do país.

Sem querer estimular o medo, a possibilidade de um incidente provocado por uma pessoa armada não pode ser descartada. Um ato violento, com a possibilidade de morte, vai provocar um trauma no país, que pode justificar a convocação de uma GLO, a lei infelizmente proposta pelo governo Dilma. Na prática é um estado de emergência.

Um cenário como este somente beneficia o bolsonarismo, pois a oposição vem caminhando em um trajeto sem muitos sobressaltos que indica as possibilidades do impeachment de Bolsonaro, a cassação da chapa com Mourão, e mais à frente a eleição de Lula.

Tumultuar o cenário a ponto de levar a uma ruptura, que seria um estado de emergência, não interessa à oposição a Bolsonaro. A cada pesquisa ele releva maior enfraquecimento e seu governo não tem competência política e técnica, para reverter o quadro.

A derrota do bolsonarismo, na atual trajetória é um dado anunciado, falta definir a forma.

O que 1961 e 1964 nos ensinam é que há hora de lutar e tem momentos em que o combate não serve à causa. Mao Tsé-Tung foi um mestre na estratégia – John Keegan, o maior pesquisador sobre temas militares, considera que a maior contribuição à formulação estratégica no século XX veio do líder revolucionário chinês – e ele sempre soube escolher a hora de lutar e o momento de evitar o combate. Uma das manobras mais geniais de Mao foi o recuo na Longa Marcha, que preparou os comunistas para as batalhas decisivas.

A oposição no Brasil enfrenta este dilema: sair às ruas com o risco de encontrar um bolsonarista descontrolado armado, o que só interessa aos milicianos; ou evitar os riscos desnecessários, para acumular forças, apoio popular e deixar que os gangsters e fascistas se desgastem ainda mais. O tempo favorece à oposição e, principalmente, a esquerda. 

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