COMO FOI FORMADO O TALIBÃ

Jovens são entregues pelas famílias miseráveis, para serem criados nas escolas religiosas financiadas pela Arábia Saudita, onde são formados nos princípios do whabismo, a mais reacionária corrente do Islã, e recebem treinamento militar.

O Talibã foi formado cuidadosa e cirurgicamente para defender interesses estranhos ao Afeganistão, tanto em termos religiosos, como geoestratégicos, pois sua lealdade é ao wahabismo saudita.

O Talibã voltou à agenda de debates públicos, após a ocupação de quase todo o Afeganistão, marcando mais uma humilhante derrota do império estadunidense.

O conceito de império estadunidense já é consenso entre os principais intelectuais dos EUA, como Noam Chomsky, que concedeu uma interessante entrevista para o Brasil247. Vale a pena conferir.

Não há dúvida de que o Talibã é fruto da longa intervenção do império no Afeganistão, que não começou em 2001. A presença dos Estados Unidos no infeliz território afegão começou inclusive antes da intervenção soviética, em 1979, a pedido do governo socialista, que havia chegado ao poder no país.

O CINTURÃO SANITÁRIO CONTRA A URSS

O início da atuação desestabilizadora dos Estados Unidos na região começou no governo do imperador Carter, em 1977, que colocou na prática uma estratégia formulada por um intelectual ligado aos Think Tanks do Partido Democrata, Nicholas Spykman. O intelectual sugeriu o estabelecimento de um cerco defensivo contra a URSS, ou política do “cordão sanitário”.

O principal assessor de segurança nacional de Carter, o polonês Zbigniew Brzezinski, aplicou a estratégia no flanco sul da URSS, visando envolver o Afeganistão em um conflito interminável, com vistas a desestabilizar a região e influenciar as populações islâmicas no interior da União soviética.

Para viabilizar o projeto, os EUA e os países muçulmanos aliados colocariam bilhões de dólares e toneladas de armas para armar os mujahidins, chamados pelos americanos de “guerreiros da liberdade” na luta contra o comunismo.

Provavelmente, a ameaça de contaminação das comunidades islâmicas da Ásia Central soviética foi o que impeliu a liderança do Kremlin, a decidir por aceitar o chamado do governo comunista Afegão e mandar tropas para além da fronteira.

A reação soviética foi utilizada como propaganda do império, para motivar os povos islâmicos a apoiar a luta contra a intervenção. Milhares de jovens muçulmanos partiram para a luta no Afeganistão, principalmente saindo da Arabia Saudita, país governado pelo regime teocrático mais reacionário do mundo árabe.

Apesar do entusiasmo religioso, o que viabilizou a guerra contra o governo afegão e a URSS foi um exército mercenário organizado pelo império, armas estadunidenses que irrigaram o país, através da fronteira com o Paquistão e bilhões de dólares da Arábia Saudita.

O objetivo do império se limitava a provocar problemas para o seu grande adversário na Guerra Fria, porém os da Arábia Saudita eram mais ambiciosos e se alinhavam com os milenares conflitos internos do mundo islâmico.

A MONARQUIA SAUDITA DESPEJOU MILHÕES NO AFEGANISTÃO

Embora logo após a revolução teológica do Irã, o país tenha sido atacado pelo Iraque de Saddam Hussein, os objetivos dos atacantes se limitassem a ganhos territoriais. Quem se consolidou como o principal adversário do regime xiita iraniano foi a dinastia medieval da Arábia Saudita, que lidera o ramo mais sectário e intransigente do Islã, o Wahabismo.

Enquanto os EUA se limitaram aos aspectos militares, para derrotar a URSS, os sauditas investiram bilhões de dólares em um programa de formação ideológica-religiosa.

Os agentes sauditas criaram um programa para a fundação de centenas de escolas religiosas, as madrastas, com o objetivo de formar soldados treinados para defender o wahabismo, uma corrente islâmica estranha ao Afeganistão.

A estratégia saudita tem ecos na história islâmica, na qual diversas dinastias utilizavam estratégias semelhantes para formar exércitos, cuja lealdade escapava ao sistema tribal e étnico, que caracterizava os estados muçulmanos.

Desde a estabilização da onda islâmica, que varreu o mundo, após o século VII, os principais dirigentes muçulmanos, os califas rivais de Bagdá e do Cairo, adotaram um sistema singular de formação de exércitos mercenários.

AS ESCOLAS DOS GUERREIROS DO CALIFA

De acordo com os livros, “Uma história dos povos árabes”, de Albert Hourani, e “Impérios: Uma nova versão da história universal”, dos historiadores Jane Burbank, Frederick Cooper; após uma primeira leva de contratação de guerreiros das estepes da Ásia Central, os dois califados passaram a comprar crianças das tribos turcas do norte do Mar Negro, para serem colocadas em escolas religiosas, onde eram educados de acordo com os princípios do Alcorão e recebiam treinamento militar.

Com isso, no século IX, foram criados exércitos de soldados escravos, os mamelucos (do árabe mamlūk, que significa propriedade ou escravo). Esses exércitos somente prestavam lealdade ao Califa e ao Islã, rompendo o excessivo poder da aristocracia territorial muçulmana sobre o califado.

Apesar de formalmente serem considerados escravos, os mamelucos gozavam de enorme prestígio social e, com o tempo passaram a ocupar os cargos mais relevantes nos califados de Bagdá e do Egito. Essa tendência, com o tempo, fez com que os mamelucos se tornassem as entidades mais poderosas dos dois principais estados islâmicos, até que os soldados escravos tomaram o poder de fato. No caso de Bagdá, o califa foi mantido como uma figura decorativa, sem poder; enquanto no Egito, os mamelucos passaram a exercer diretamente o poder.

O Império Otomano adotou uma estratégia semelhante, para criar suas forças de elite, ferozmente leais ao Sultão, que, desta forma, passou a ter capacidade de submeter a nobreza territorial. A elite militar do sultanato Otomano eram os janízaros, crianças cristãs capturadas ou compradas de seus pais, para serem criadas em escolas islâmicas, onde recebiam formação religiosa e militar. Os janízaros não tinham o caráter de escravos, como os mamelucos, porém eram obrigados a seguir regras estritas de comportamento. Mesmo assim, também gozavam de imenso prestígio na sociedade otomana, até a sua extinção, nos processos de modernização do século XIX.

TALIBÃ SIGNIFICA “ESTUDANTE”

O Talibã foi formado de acordo com um modelo semelhante. Desde o início dos tumultos que desorganizaram o Afeganistão, na década de 1960, uma multidão de refugiados abandonou o país, para se instalar no Paquistão em acampamentos miseráveis. Os responsáveis pelas escolas religiosas fundadas com o dinheiro da Arábia Saudita percorriam estes campos, buscando convencer os pais para permitir a criação dos seus filhos em escolas islâmicas, onde poderiam ter uma vida melhor. Sem opções, muitas famílias concordavam em entregar os filhos. Este padrão se manteve por décadas.

Nas escolas religiosas, ou madrastas, os estudantes (a tradução de talibã é “estudante”) são doutrinadas nos princípios do wahabismo e da lealdade aos líderes desta corrente, ou seja, a monarquia saudita, e recebem intenso treinamento militar durante toda a vida. Após uma vida inteira nesses ambientes, os vínculos dos estudantes com suas famílias, tribos e etnias são quebrados, em troca do estabelecimento de sua lealdade ao seu grupo e a quem o comanda.

Desta forma, o Talibã, apesar de ser o resultado de mais de meio século de conflitos provocados pelo império estadunidense, não tem ligação a história milenar afegã e com os interesses das diversas etnias autóctones.

O Talibã foi formado cuidadosa e cirurgicamente para defender interesses estranhos ao Afeganistão, tanto em termos religiosos, como geoestratégicos, pois sua lealdade é ao wahabismo saudita. Quando foi concebido, os alvos eram a extinta URSS e o Irã.

Com todas as mudanças geopolíticas, que ocorreram no mundo, por exemplo, o afastamento do Paquistão dos EUA e sua aproximação com a China, é difícil prever como irá se comportar o Talibã, na sua nova fase.

Há indícios de que o movimento quer se apresentar como mais moderado e grupos étnicos que formam a população afegã começam a reagir, como ocorre no norte do país. Não é descartada inclusive a possibilidade de o Talibã seguir o exemplo histórico dos seus predecessores mamelucos, que romperam com os seus criadores e assumiram o seu próprio destino.       

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