TRÊS TRILHÕES DE DÓLARES DOS EUA NÃO FORAM CAPAZES DE DERROTAR UMA CAUSA.

O filme Rambo 3 é uma espécie de confissão de que os EUA participaram da gestação do Talibã e da Al Qaeda

Uma causa foi a força motriz dos adversários dos Estados Unidos, nas duas derrotas mais evidentes sofridas pelo império no último meio século. No Vietnã, mais do que o marxismo, a causa foi o nacionalismo histórico, que levou os vietnamitas a enfrentar inúmeras invasões. Agora, no Afeganistão o islã é uma fonte de motivação, mas há também o nacionalismo e a defesa do modo de vida tradicional das diferentes etnias que vivem na região.

O PREÇO DA DESTRUIÇÃO

De acordo com reportagem da Forbes, “morreram 2.500 militares dos EUA no Afeganistão e quase quatro mil civis prestadores de serviços. E isso nem se compara aos estimados 69 mil policiais militares afegãos, 47 mil civis e 51 mil combatentes da oposição mortos. “O custo até agora para cuidar dos 20 mil feridos estadunidenses foi de US$ 300 bilhões, com mais meio trilhão ou mais para vir”.

A revista estadunidense afirma que “os EUA seguirão arcando com custos muito depois que a retirada do Afeganistão for concluída. Naturalmente, o país financiou a guerra do Afeganistão com dinheiro emprestado (Forbes). Pesquisadores da Brown University estimam que já foram pagos mais US$ 500 bilhões em juros (incluídos na soma total de US$ 2,26 trilhões), e eles calculam que, em 2050, apenas o custo dos juros de dívida da guerra afegã pode chegar a US$ 6,5 trilhões. Isso equivale a US$ 20 mil para cada cidadão americano”.

A maior parte dos U$ 3 trilhões foi gasta na compra de armamento das gigantes da indústria militar dos EUA, como Lockheed Martin, Boeing, Northrop Grumman, Raytheon e General Dynamics. Boa parte do dinheiro pagou as forças mercenárias ou foi para as contas dos agentes afegãos dos EUA.

A montanha de dinheiro, que saiu dos cofres públicos estadunidenses, foi um ótimo negócio para o complexo industrial-militar, o poder de fato nos Estados Unidos. Esta quantia estratosférica é apenas uma parte da imensa fortuna consumida pelos EUA, para tumultuar os países do Oriente Médio e da Ásia Central, com o propósito de desestabilizar a estratégica região, situada no flanco sul da Rússia e oeste da China, onde estão os maiores suprimentos de petróleo do planeta.

DESESTABILIZAÇÃO DO AFEGANISTÃO É OBRA DOS BRITÂNICOS

A queda do poder estadunidense chama a atenção para a terrível situação que o Afeganistão vive o país há quase dois séculos. Sim, séculos! A maioria dos analistas se concentra na entrada da URSS no conflito, em 1979, que desencadeou os eventos que culminam com a tomada do poder pelo Talibã, neste 2021.

Porém, as agruras da região conhecida como Afeganistão, tem origem muito mais remota. A região era um local prospero, com importantes cidades comerciais situadas no trajeto da Rota da Seda, como Kandahar, antiga Alexandria de Aracósia, e Herat, fundada como Alexandria Ariana. As duas cidades foram criações de Alexandre o Grande, nas rotas de comércio entre Oriente e Ocidente.

Herat chegou a ser um dos principais centros culturais do mundo, graças à riqueza gerada pelo comércio. Sua história se confunde com movimentada Rota da Seda, que pavimentou a aproximação entre culturas e civilizações muito antes da globalização moderna. Ainda há marcos da presença do rei macedônico na cidade, como a Torre de Observação na Cidadela de Alexandre, o Grande, construída há 2.300 anos, no centro de Herat.

O nome Rota da Seda indica apenas um dos produtos que eram comercializados ao longo do trajeto. Cerâmica, peles, tempero e armas de metal rumo eram despachados do Oriente para o Oeste, que enviava na direção oposta ouro, pedras e metais preciosos.

A invasão ocidental aos portos do oriente, no período das Grandes Navegações, abalou a Rota da Seda, porém não eliminou a via como importante trajeto comercial. Herat, Kandahar e Cabul permaneceram por muito tempo como cidades prósperas e dinâmicas, até serem atingidas pelas disputas entre os impérios Britânico e Russo.

O Afeganistão era uma zona tampão (como dizem os especialistas em geoestratégia), separando a Índia britânica do Império Czarista. Ambos procuravam evitar a ocupação da região pelo adversário, pois temiam uma ameaça nas suas fronteiras. Os britânicos foram mais agressivos e invadiram o Afeganistão três vezes, de 1838 a 1842, entre 1878-1880, e em 1919. A última invasão era visava conter a expansão bolchevique, após a vitória de 1917.

As tropas do Império Britânico foram derrotadas e expulsas em todas as ocasiões, porém desarticularam as estruturas econômicas, sociais e culturais, que mantinham o dinamismo econômico e o equilíbrio da região. As cidades comerciais, que eram o polo aglutinador do território nunca se recuperaram, o que dificultou a estabilização do país, pois vácuo de poder político passou a ser disputado por tribos com padrão cultural e social medieval.

No final do século XIX, as tribos locais concordaram em adotar um governo monárquico, declarando rei um dos chefes tribais, que se declarava descendente de Gengis Khan. Porém, o país se manteve conturbado, com sucessivos golpes de estado e assassinatos políticos, até que o último rei, Zahir Shah, foi destronado em 1973. Foi instalada uma república, que na prática era uma ditadura, encabeçada pelo ex-primeiro-ministro Mohammad Sardar Daoud Khan, primo do monarca deposto.

O governo Daoud Khan durou até 1978, quando militares comunistas tomaram o poder, nos eventos que ficaram conhecidos como Revolução Saur. O movimento militar foi uma reação à prisão e o assassinato de membros do Partido Popular Democrático do Afeganistão (PDPA), que representava os comunistas afegãos. O país foi rebatizado de República Democrática do Afeganistão (RDA), e o regime comunista durou até abril de 1992.

A tentativa dos comunistas de declarar o estado laico e a insistência na modernização acelerada da sociedade afegã, encolerizou as lideranças tribais e a hierarquia do clero islâmico. O Paquistão, à época um dos principais aliados dos EUA na Ásia, financiou, apoiou e ajudou a organizar levantes armados tribais em vários pontos do país. Os soviéticos, então, cometeram o erro de enviar uma grande força de intervenção militar, para apoiar os comunistas, em 24 de dezembro de 1979.

 A REAÇÃO DO IMPÉRIO ESTADUNIDENSE

Nos anos que antecederam a intervenção soviética o socialismo havia avançado para conquistar vários países, como Angola, Moçambique, Nicarágua e um governo hostil aos Estados Unidos, foi instalado no estratégico Irã.

Mesmo com tantos recuos no mundo, o centro das preocupações da geoestratégia estadunidense foram o Irã e o Afeganistão, porque as defecções dos dois países comprometiam o sistema de contenção da União Soviética, na fronteira Sul, que os estadunidenses denominavam como “cordão sanitário”, um conceito estabelecido pelo teórico Nicholas Spyman. A aliança informal com a China, estabelecida por Nixon, completou o “cinturão”, que ia da Turquia, até o leste da China.

A virada política no Irá e no Afeganistão quebrou o cerco ao flanco sul da União Soviética.

O governo Reagan percebeu uma oportunidade, para colocar em prática uma ideia estratégica de Zbigniew Brzezinski, um teórico de geopolítica polonês, naturalizado estadunidense, que tinha sido o principal conselheiro do presidente Jimmi Carter.

Brzezinski defendeu uma nova estratégia, de cerco “ofensivo” contra a URSS, que consistia no envolvimento da União Soviética em um conflito interminável no Afeganistão, onde os EUA e os países muçulmanos aliados colocariam bilhões de dólares e toneladas de armas para equipar os mujahidins, chamados pelos americanos de “guerreiros da liberdade” na luta contra o comunismo.

A estratégia funcionou. Armados com moderno equipamento e treinados em escolas religiosas no Paquistão, os guerreiros tribais das diversas etnias do Afeganistão conseguiram estabelecer uma corrosiva guerra de desgaste contra o exército soviético. Percebendo a inviabilidade de vencer uma custosa guerra contra um inimigo que recusava o combate, mas tinha poder de fogo para causar baixar permanentes a suas fileiras, a União soviética resolveu abandonar o conflito.

Na sequência, o Talibã (termo que pode ser traduzido como “estudantes”), organização mais rica e organizada, assumiu o poder no Afeganistão.

Os integrantes do Talibã são, na sua maioria, filhos de refugiados afegãos, deslocados de suas terras pelos conflitos, entregues ainda crianças por seus pais, para estudar em escolas religiosas, chamadas madrastas. Existem dezenas dessas escolas no Paquistão e no Norte da Índia e eles são financiadas pela Arábia Saudita. Nas madrastas os jovens recebem treinamento ideológico (religioso) e militar.

É correto dizer que o Talibã é um produto de interesses externos ao Afeganistão, já que surgiram a partir de uma estratégia dos EUA, em escolas financiadas pela Arábia Saudita.

A CRIAÇÃO DE UMA TEOCRACIA MEDIEVAL

Embora financiassem e armassem os guerrilheiros do Talibã, como os de outros grupos, inclusive o que se tornou a Al Qaeda, os EUA não tinham nenhum controle (e nem muita noção) sobre o que era ensinado nas madrastas. As escolas financiadas pela monarquia saudita eram centros de pregação do Wahabismo, um movimento do islamismo sunita, criado no século XVIII, ultraconservador, extremista, austero, fundamentalista e puritano. Os seguidores do Wahabismo pretendem restaurar aquilo que, na sua visão, seria o culto monoteísta puro, e têm grande ressentimento contra os valores ocidentais, principalmente os Estados Unidos, que acusam de ter desrespeitado o solo sagrado do Islã, com suas bases na Arábia Saudita.

No controle do Afeganistão, o Talibã acolheu grupos islâmicos sectários, como a Al Qaeda, que, segundo as informações disponíveis, organizou o ataque de 11 de setembro.

O governo Bush não perdeu tempo, menos de um mês após o ataque de 11 de setembro, em 7 de outubro de 2001, começou a invasão do Afeganistão. A rapidez para enviar uma força invasora a um local tão remoto, parece indicar que o esquema do ataque estadunidense já estava preparado, talvez para outro local (provavelmente o Iraque) e foi desviado para o Afeganistão.

Foi a oportunidade para fincar o poder do império dos Estados Unidos em uma região de alto valor estratégico, o que poderia levar as vendas do sistema industrial-militar a um valor estratosférico.   

Os Estados Unidos travaram uma guerra impelidos por considerações imperiais e alimentada pelo dinheiro.

Seus adversários tinham uma causa, a superioridade do Islã e a restauração muçulmana, que – concordemos ou não com ela – foi capaz de manter a resistência do Talibã, durante vinte anos, até a vitória.  

PARA CLAUSEWITZ UMA CAUSA FAZ UM EXÉRCITO INVENCÍVEL

A derrota dos Estados Unidos mesmo desperdiçando tantas vidas e gastando uma montanha de dinheiro, pode encontrar explicações na afirmação de Carl von Clausewitz de que a guerra se mistura com a política.

O termo mistura, ao invés de continuação, provém das observações do teórico britânico John Keegan, que foi professor de história militar na Real Academia Militar de Sandhust. Para Keegan, um dos maiores especialistas em Clausewitz, a tradução da obra do alemão, Da Guerra, para o inglês é falha. O professor britânico explica que o alemão não pretendeu dizer “continuação”, mas sim que a guerra é misturada à política.

O oficial prussiano chegou a esta conclusão ao lutar contra os exércitos franceses, que se formaram após a revolução.

Logo após a abolição da monarquia e a instauração da República Revolucionária, em 1792, a França foi invadida por um exército prussiano. O país estava desorganizado e o velho exército monárquico havia sido dissolvido.

Os franceses convocaram os cidadãos para defender o país. Movidos pelo entusiasmo revolucionário, milhares se apresentaram. Foram rapidamente armados e organizados sob o comando de oficiais que haviam rompido com o antigo regime.

No dia 20 de setembro de 1792, foi travada a Batalha de Valmy, quando se enfrentaram as tropas francesas e prussianas. De um lado estava um exército que era o resultado de uma revolução popular e do outro uma armada convencional, como as criadas pelas monarquias absolutas da Europa.

O resultado militar da batalha foi inconcluso, porém os prussianos foram obrigados a recuar, talvez surpresos com a capacidade da República Revolucionária de enviar um poderoso exército de defesa.

A verdadeira importância desta batalha é a mudança de paradigmas, pois mobiliza todos os recursos humanos e materiais disponíveis de um país e introduz o exército de cidadãos nos conflitos europeus na idade moderna. De 1792 a 1815, a França vai enfrentar quase toda a Europa com este novo tipo de exército, conquistando triunfos mesmo contra formas maiores e melhor armadas.

Os exércitos franceses eram motivados por uma causa. Mesmo após Napoleão ter se autonomeado imperador, os militares franceses acreditavam que cumpriam a missão de eliminar a aristocracia em todo o continente europeu, em uma espécie de revolução permanente.

Os exércitos franceses levavam a política aos campos de batalha. A história comprova a percepção de Clausewitz, pois nas campanhas secundárias, meramente imperiais e nas quais os soldados cidadãos não viam importância política, ou seja, nas quais a eliminação da aristocracia não se aplicava, o desempenho das forças francesas era inferior, como foi o caso da ocupação da Espanha.    

As monarquias absolutas europeias não tinham capacidade para mobilizar os povos que dirigiam e, por isso, não conseguiam ultrapassar o tipo de recrutamento profissional e mercenário que gerava exércitos de efetivos e lealdade reduzidos. (“La Révolution Française – Acte 5 | Cultura Francesa”) Enquanto a Revolução Francesa veio alterar este paradigma, porque o Poder era considerado o intérprete da vontade geral da comunidade e isso conferia-lhe a capacidade de mobilizar recursos humanos leais e materiais numa escala nunca atingida.

Clausewitz confirmou seus conceitos, quando ofereceu serviços ao czar da Rússia, para enfrentar a invasão napoleônica, em 1812. Nos vastos campos de batalha do império czarista, o militar prussiano testemunhou o surgimento de um antidoto contra o fervor revolucionário: o nacionalismo.

A propaganda czarista, contando com ajuda da igreja ortodoxa, conseguiu motivar seus exércitos, compostos por camponeses mantidos no regime medieval de servidão, com uma causa: defender a mãe Rússia.

Não chegou a ser uma causa nacionalista, porém esteve perto disso, pois o Czar conseguiu parecer aos seus súditos o defensor do interesse comum: defender a terra de todos (que não era de todos).

A extinção da servidão provavelmente seria um dos resultados da invasão francesa, mas só ocorreu em 1861, meio século depois. Os camponeses servos, que lutaram no exército czarista, foram convencidos a assumir uma causa, que era contra os seus interesses, mas para a monarquia dos Romanov, a estratégia funcionou.

O teórico alemão percebeu a importância das causas, para ampliar a potência dos exércitos, e adotou o nacionalismo como um elemento central, capaz de fortalecer a força militar do seu próprio país, a Prússia.

De fato, o nacionalismo foi a força motriz das maiores transformações, a partir de 1812, na Europa, nas Américas, continente colonizado por europeus e até na Ásia, com a ascensão do Japão. A Itália e a Alemanha se unificaram com base no nacionalismo, a mesma motivação que fez surgirem novos países na Europa Oriental, nos Balcãs e na Escandinávia.

A obra de Clausewitz, consolidada no livro Da Guerra, teve pouca influência nesses grandes acontecimentos mundiais, exceto na Prússia, onde o oficial foi diretor da Escola Militar de Berlim. Seu livro só foi publicado após sua morte, em 1831 e somente veio a se tornar uma referência, quando o comandante das tropas alemãs na Guerra Franco-Prussiana (1870), Helmuth von Moltke, declarou que Da Guerra era um dos seus livros preferidos, junto com Homero e a Bíblia.

GRANDES DERROTAS DOS EUA FORAM PARA UMA CAUSA

Nas duas derrotas mais evidentes do império estadunidense no último meio século, seus adversários foram motivados por causas particulares.

No Vietnã, mais do que o marxismo, o motor foi o nacionalismo.

Recentemente o mundo vê o insucesso do império no Iraque, onde o governo foi conquistado em eleições pelos xiitas aliados do Irã; e na Síria, país que resistiu à tentativa de destruição. No Iraque a defesa do islã se mistura com o nacionalismo e na Síria há motivações semelhantes, porém em torno do da corrente alauita do islamismo, aliada aos cristãos e drusos (outro grupo islâmico).  

Agora no Afeganistão, há o islã e a restauração do prestígio do mundo muçulmano, mas também o nacionalismo em algum grau e a defesa do modo de vida tradicional das diferentes tribos que vivem na região.

A massa dos guerreiros talibãs acredita em uma ideologia medieval, que com muita probabilidade não vai contribuir para o seu país, mas foi esta causa que deu sentido, energia e confiança, para uma resistência de 20 anos contra a maior potência do mundo.

Que tal falar de causas aqui no Brasil, para derrotar os gangsteres irresponsáveis, que estão no poder?

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