O AGRONEGÓCIO É ANTIPOP E ALIMENTA A DESTRUIÇÃO DO BRASIL

A oligarquia agrária – que hoje atende pelo nome fantasia de “agronegócio” – e os militares já estavam juntos com o imperialismo e os banqueiros no ato da Proclamação da República. Atualmente a mesma aliança foi reestabelecida, para destruir o Brasil como estado moderno e soberano.

A sociedade brasileira está novamente percebendo que os militares do país são gestores incompetentes e as forças armadas atuam contra o país. A discussão sobre o papel das instituições armadas segue viva na sociedade e vai sendo formado um consenso de que é preciso afastar os militares da política e da gestão do estado, exceto no que é o objeto da existência dessas organizações: a defesa do país contra agressões externas.

Procurar ir além do plano das avaliações imediatas e tentar compreender a essência das Forças Armadas, poderia contribuir muito para o debate. Para este aprofundamento é preciso buscar as raízes das instituições militares no brasil, a fim de entender qual é o seu verdadeiro propósito.

DE ONDE VÊM OS MILITARES BRASILEIROS

Diferente do que circulou na internet no bojo desta discussão, o exército brasileiro não foi formado na Guerra do Paraguai. A força que lutou naquele conflito foi constituída por civis voluntários ou convocados e escravos negros, enviados para substituir os seus senhores. Logo após o conflito, a força que combateu no Paraguai foi desmobilizada e deixou um legado irrisório para o exército brasileiro, que não foi muito além dos troféus, que estão nos museus militares e a narrativa romanceada dos combates, que na fase final do conflito foram massacres contra uma população escassamente armada. 

As exceções ao padrão de uma força de cidadãos convocados e escravos obrigados a combater foram a cavalaria gaúcha forjada nas lutas de fronteira e na Guerra dos Farrapos – cuja carga Garibaldi descreveu com a mais poderosa arma sobre a terra –; e a marinha que era uma força profissional.

O exército brasileiro, na verdade, surgiu das tropas portuguesas que acompanharam o príncipe Dom João, quando a corte lusa fugiu da invasão napoleônica.

Por sua vez, o exército português foi criado pelos ingleses, em meados do século XVII, quando a coroa britânica estimulou a obscura família Bragança a iniciar uma revolta contra o governo de Madri, que na época controlava Portugal. Parte da aristocracia lusa foi cooptada via vantagens pecuniárias (que hoje seria corrupção), para a empreitada que visava enfraquecer a Espanha, então uma das maiores potenciais do mundo.

O interesse maior em jogo era o da Inglaterra, que mantinha uma longa disputa com a coroa espanhola.

Desde que foi criado, o exército lusitano atuou como uma força auxiliar do poder britânico, enquanto Portugal se tornou uma semicolônia ou um protetorado do Reino Unido. Esta situação persistiu até a Revolução dos Cravos, na década de 1970.

Foi este exército, cuja natureza era ser uma força auxiliar do poder de uma potência dominante, que chegou ao Brasil em 1808.

Oficiais e praças deste exército que acompanhavam Dom Pedro, quando o príncipe português declarou a independência do Brasil, em 1822.

O exército imperial foi mantido aquartelado na sua base principal no Rio de Janeiro, capital do país, durante todo o período do império, sendo utilizado ocasionalmente para sufocar rebeliões regionais. Neste caso sempre com o apoio das oligarquias agrárias regionais, como é o caso da Guerra dos Farrapos, na qual grande parte das forças monarquistas eram compostas por gaúchos.

A natureza do exército brasileiro, de manter uma relação umbilical com uma potência dominante não mudou durante todo este período.

Porém, o exército brasileiro também tinha uma outra característica muito forte, que era a fidelidade à monarquia, seja em Portugal ou no Brasil. É uma característica medieval muito presente nos países ibéricos: o rei é sagrado. O salazarismo e o franquismo são movimentos de restauração monárquica, que se concluiu na Espanha e em Portugal não.

Os outros exércitos latino-americanos foram formados de maneira distinta. Na América Espanhola não houve a transferência de poder dentro de uma mesma família, como ocorreu no Brasil. A independência nas colônias da Espanha ocorreu com guerra e sangue.

PLANTATIONS NA ORIGEM DOS EXÉRCITOS SUL-AMERICANOS

Embora no comando dos exércitos libertadores estivessem figuras notáveis, como Simon Bolivar e San Martin, as forças que comandavam eram na sua maioria formados por tropas de bandoleiros dos latifundiários locais.

Bolívar e San Martin também eram latifundiários. O que diferenciava os dois da maioria dos integrantes da oligarquia tosca da América do Sul era uma educação refinada de padrão europeu e a influência que ambos tiveram do iluminismo e do nacionalismo, que florescia no velho continente.   

A forte presença das oligarquias agrárias foi decisiva na formação das novas repúblicas. Logo foram abandonados os altivos ideais dos inspiradores da libertação dos países da América Espanhola.

Sem uma ideologia inspiradora, substituída pela sede de poder e a rivalidade entre os latifundiários, a maior parte da América do Sul explodiu em guerras entre os senhores da terra que ficaram conhecidos como caudilhos.

Os exércitos dos países das antigas colônias da Espanha, portanto, surgem das tropas dos bandoleiros da oligarquia agrária e, mesmo após o refinamento institucional desses estados, as forças armadas mantêm sua essência original. Significa que o propósito primário das forças armadas das novas nações que surgiram na América Espanhola não é a defesa dos seus países, mas, sim, proteger as oligarquias agrárias ou extrativistas.

Como Gilberto Freyre, Darci Ribeiro e Jesse de Souza descrevem nas suas obras o poder real no Brasil colonial estava nas mãos dos grandes proprietários de terras, seja os que exploravam as plantations ou aqueles que controlavam as minas e o contrabando. Formalmente os latifundiários locais deviam fidelidade à coroa, porém, como Jesse de Souza ressalta, o poder monárquico estava tão distante que era extremamente rarefeito no Brasil e o mesmo ocorria em toda a América Ibérica. Assim, quem detinha o poder de fato sobre a terra, as pessoas, a vida e a morte, eram os latifundiários selvagens e com parcos limites morais.

Este foi o padrão da colonização em toda a América, do Alasca à Terra do Fogo, com exceção do Nordeste dos Estados Unidos.

AS PLANTATIONS ESTÃO NO DNA DAS NAÇÕES DA AMÉRICA

Em todo este imenso território vigorou o brutal regime das plantations ou extrativismo, associado ao genocídio dos povos nativos e a escravidão. O poder de fato estava nas mãos dos senhores da terra. Quando os estados nacionais foram estabelecidos, a estrutura estatal foi organizada para atender aos interesses desta elite abrutalhada, cujo único propósito sempre foi ter os canais abertos para a exportação de suas commodities primarias e importar artigos de luxo.

O sistema de financiamento desde o início foi muito bem-vindo, pois o dinheiro pode aumentar o padrão técnico das plantations ou dos métodos de extrativismo, reduzindo a necessidade de mão de obra, ao mesmo tempo que  amenta o volume das comodities a serem exportados. Além disso, facilita o ciclo de negócios, ao oferecer seguros, meios de transporte cada vez mais modernos e todos os demais aspectos que podem facilitar a economia de plantation ou o extrativismo vegetal, animal ou mineral.

Sem dúvida o padrão de plantations e extrativismo exportador gera muita riqueza, porém é o mais brutal esquema de concentração de renda e exclusão social entre todos os modelos econômicos. Gera pouquíssimos empregos e quase nenhum benefício para a sociedade.

As forças armadas da América Latina foram organizadas para defender este modelo e hoje continuam defendendo os senhores das plantations, que adotaram o nome moderno de “agronegócio”.

Os Estados Unidos escaparam desta sina, devido à Guerra Civil, que contrapôs os estados do Norte e do Sul do país.

Embora na mitologia estadunidense (eles são bons para criar mitos) o motivo da guerra tenha sido a questão da escravidão, o que de fato foi uma das motivações, o principal casus belli foi o esquema tarifário, que beneficiava o Sul exportador de commodities e prejudicava o Norte, que entrava na revolução industrial.

West Point, a principal academia militar das Américas, formava em meados do século XIX os seus oficiais para defender a oligarquia agrária. No início da guerra, os oficiais formados na academia com maior destaque se juntaram às forças do Sul. Com os melhores generais e contando com tropas mais aguerridas e experientes, tudo indicava a vitória do Sul. Porém, o conflito foi a primeira guerra industrial da história e a força das fábricas no Norte se revelou decisiva, levando os Estados Unidos para um caminho diferente dos outros países na América.

Enquanto a América, com exceção dos Estados Unidos, seguia o caminho de organizar suas forças armadas a partir dos bandoleiros dos latifundiários, com o objetivo primário de defender a oligarquia agrária, no Brasil a forte tradição monárquica nos meios militares adiou essa tendência.

IMPERADOR DECEPCIONA OLIGARQUIA AGRÁRIA

No entanto, os processos de mudança não permaneceram estagnados no país. A oligarquia agrária manteve o seu poder regional e o governo imperial tinha escassa presença em grande parte do território do país continental.

O Imperador era uma presença aglutinadora, porém os diversos movimentos de ideias que vinham de fora e circulavam, principalmente na segunda metade do século XIX, como movimento abolicionista, o liberalismo e o republicanismo contribuíram para dessacralizar o monarca.

Os movimentos progressistas que dessacralizavam a figura do imperador, criaram um ambiente instável para o regime monárquico. Enfurecida com a libertação dos escravos, a oligarquia agrária aproveitou o desgaste do regime, para estimular os militares a desfechar o golpe, que derrubou o Império, em 1889.

Oficialmente a “Proclamação da República” foi um processo militar, porém as forças armadas não sustentariam o poder, sem absoluto apoio do que havia de mais poderoso no país, a oligarquia agrária. Na prática, apesar das acomodações que precisaram de tempo para serem ajustadas, a República do Café com Leite começa com o golpe de 1889.

As oligarquias mais poderosas do país – as de São Paulo e Minas Gerais, que exportavam a principal commodity da balança comercial brasileira, o café (as fazendas mineiras ainda forneciam leita para as maiores metrópoles do país) – assumiram as maiores parcelas do poder, em acomodações com os latifundiários das outras regiões.

Neste processo, o exército brasileiro começou a entrar em uma trajetória semelhante ao as outras forças armadas da América Latina, estabelecendo uma espécie de acordo para prestar serviços de proteção à oligarquia agrária do país.

MODERNIZAÇÃO QUEBRA TEMPORARIAMENTE AS ALIANÇAS

A trajetória das principais organizações militares da América Latina foi definida, em grande parte, pelo estabelecimento do sistema de compra de proteção dos militares pelas oligarquias agrárias. Em troca, os militares recebiam benesses diversas, que poderiam ser pecuniárias, participação no poder ou status social.

Na América Central e Caribe as alianças entre militares e oligarquias agrárias se alinharam multo cedo aos Estados Unidos, nos princípios da doutrina Monroe. O México foi o país que mais sofreu, pois além do imperialismo, teve que aceitar a perda de mais da metade do seu território.

A América Central e o Caribe não foram totalmente integrados ao território estadunidense pelo preconceito da elite branca dos Estados Unidos, que rejeitou aceitar a multidão de índios, negros e mestiços latinos como cidadãos do país, conforme é relatado no livro A história não contada dos Estados Unidos, de Peter Kuznick e Oliver Stone.

Na América do Sul, os eventos ocorreram de maneira diferente. No sul do continente a presença britânica era muito forte no século XIX. O Reino Unido mantinha fortes interesses na maioria dos países do território sul-americano, com exceção da Colômbia e Venezuela, que faziam parte do Mar do Caribe, que os britânicos preferiram abandonar à sua ex-colônia.

Os Estados Unidos, por seu lado, evitaram confrontar os interesses britânicos, por temer outra guerra, como a de 1812, quando um exército do Reino Unido invadiu e incendiou Washington. A elite industrial estadunidense também temia perder os imensos investimentos de bancos ingleses e escoceses, que viabilizavam as ferrovias e a industrialização estadunidense.

Desta forma, até as primeiras décadas do século XX, os principais países da América do Sul se mantiveram na órbita do Império Britânico.

O modelo de imperialismo britânico nunca foi homogêneo, indo do controle direto, como na Índia, à cooptação das elites que dominavam as fontes de suprimentos necessários ao sistema imperial.

Este último arranjo vigorava na América do Sul, onde as oligarquias possuíam grande margem de manobra. A relativa independência produzia rivalidades entre os governos oligárquicos do continente, o que provocou várias guerras. O estado de hostilidade entre as nações sul-americanas levou à uma corrida armamentista e de modernização dos exércitos regionais, um movimento que começou no final do século XIX.

Embora o Brasil tenha participado da corrida armamentista, equipando sua marinha com modernas belonaves compradas nos estaleiros britânicos, os governantes do país entraram tarde no movimento de modernização de suas forças armadas. Somente após a Primeira Guerra Mundial é que o país estabelece um acordo com a França, para trazer uma missão de instrutores

Onze anos antes da chegada dos franceses, outros países da América do Sul haviam contratado missões militares estrangeiras e procuravam modernizar seus exércitos. Em 1885, o Chile havia contratado um grupo de oficiais alemães para reorganizar e profissionalizar seu exército. Seu exemplo foi seguido pelo Peru, que contratou uma missão militar francesa em 1896. Também a Argentina contratou uma missão militar de instrução alemã, logo após o triunfo germânico na Guerra Franco-prussiana, que provocou a unificação da Alemanha e terminou em 1871. Os exércitos chileno e argentino, inclusive nas atitudes e nos uniformes de seus integrantes mantêm viva a tradição germânica […]” (MALAN, 1988, p. 12). Mesmo um país pequeno, como a Bolívia, recebeu pequenas missões militares alemã e francesa no começo do século XX (ARANCIBIA, 2002).

A chegada dos militares europeus aos países sul-americanos provocou abalos sísmicos nas forças armadas dessas nações. As corporações militares passaram a se autovalorizar e, em alguns casos romperam com as oligarquias agrárias.

Os casos mais notáveis e de maiores consequências foram no Brasil e Argentina.

No Brasil houve o tenentismo e a Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas e o projeto nacional-desenvolvimentista autoritário ao poder. Na Argentina ocorreu o golpe de 1943, que levou ao governo do país um grupo de oficiais desenvolvimentistas contrários ao imperialismo, entre eles Juan Perón. Nos dois casos houve rompimento com o agronegócio e um forte investimento na industrialização.

Com altos e baixos, em períodos mais ou menos democráticos, os dois países mais relevantes da América do Sul avançaram na modernização das suas economias e criaram potentes parques industriais. O Brasil foi mais bem sucedido do que a Argentina, porque conta com autossuficiência de recursos naturais e seu projeto desenvolvimentista começou pela indústria de base e a ampliação da oferta de energia.

Porém, com o tempo, em ambos os países o agronegócio se reaglutinou e estabeleceu novas alianças com o imperialismo da vez, os Estados Unidos, que ocuparam o vácuo deixado pelo enfraquecimento do Reino Unido.

A OLIGARQUIA ALIADA AO IMPERIALISMO QUEBROU A ARGENTINA

Desde os anos 1950 a aliança entre o imperialismo dos EUA e a oligarquia agrária, rebatizada de com o nome fantasia de “agronegócio”, procura afastar o nacional-desenvolvimentismo do poder tanto na Argentina, quanto no Brasil. Entretanto, as raízes da modernização estavam muito fortes e nem mesmo com o suicídio de Vargas, em 1954 e a remoção de Perón do poder, em 1955, conseguiram deter a marcha modernizadora.

O processo avançou na Argentina, até 1976, quando os militares, novamente na sua aliança histórica com o agronegócio, promoveram um golpe contra a Presidenta Isabelita Perón e assumiram o poder.

A partir desta data iniciaram o processo de desmonta da economia industrial argentina, utilizando uma doutrina antiga (o liberalismo), como um novo nome, neoliberalismo, um modelo que serviu como uma luva para os interesses do agronegócio.

O impacto da destruição provocada pela aliança (entre os militares, o agronegócio e o imperialismo estadunidense) foi de proporções cataclísmicas. De acordo com as pesquisas de Moniz Bandeira, a renda nacional declinou ao nível mais baixo, desde 1935. Entre 1976 e 1908 a junta militar vendeu cerca de 120 empresas comerciais, enquanto o Banco Nacional de Desarrollo e a Caja Nacional de Ahorro y Seguro venderam as ações de outras 207 empresas e reduziram sua participação em mais 297. A abertura de mercado devastou as indústrias nacionais, que estavam entre as mais avançadas do mundo, porém não tiveram condições de competir com os financiamentos que viabilizaram as importações a baixo preço do Japão, outros países asiáticos, Europa e Estados Unidos. A participação do PIB da indústria argentina no PIB do país caiu de 30%, em 1974, para menos de 25%, em 1980, enquanto a dívida externa saltava de US$ 7,8 bilhões, em 1975, para mais de US$ 27 bilhões, em 1980. Os excedentes que os grandes empresários e banqueiros de apropriaram no negócio de exportação de commodities naturais e importação de bens industrializados evadiram-se do país, em meio à incontrolável especulação financeira, deixando o povo argentino, com a maior dívida externa per capita do mundo.

O economista Mario Report observou que o programa neoliberal da aliança dos militares, o agronegócio e o imperialismo conseguiram “um êxito rotundo nos objetivos implícitos de transformar radical e irreversivelmente a dinâmica econômico-social, ao reimplantar um modo de acumulação baseado na reprimarização da produção”. Com isso restaurado a primazia do setor primário extrativista e o agronegócio, enquanto setores da pequena e média indústria, as classes médias e os trabalhadores perderam grande parte de sua capacidade de influência e pagam os custos da crise em que a Argentina continua se afundando.

Rogério Frigeri, que foi ministro do presidente Arturo Frondizi, que governou o país na virada dos anos 1950 e 1960, afirmou no final do século XX, que a Argentina foi o único país no mundo a caminhar no sentido inverso da história da humanidade: desindustrializou-se.

Frigelo estava errado, o Brasil também começou a seguir este caminho a partir da última década do século XX.

ABALO DO DESENVOLVIMENTISMO COMEÇA NA REDEMOCRATIZAÇÃO

Mesmo com o golpe de 1964, os militares brasileiros não embarcaram imediatamente no caminho seguido pela Argentina, descrito acima. As estratégias neoliberais ainda não estavam amadurecidas na época e entre os oficiais de 1964 a influência do positivismo modernizador autoritário francês ainda não havia se dissipado. No poder, os militares brasileiros continuaram seguindo o projeto nacional-desenvolvimentista, principalmente a partir da gestão Medici, porém de uma maneira muito mais autoritária do que no período Vargas.

A manutenção do nacional-desenvolvimentismo, provavelmente, foi um dos motivos pelos quais o imperialismo se desinteressou em continuar apoiando a ditadura militar no Brasil. Outro dos motivos da queda dos militares foi a tradicional incompetência de gestão dos oficiais, que vivem uma vida de ócio nos quartéis e não são preparados para a vida real; além do crescimento do sentimento antiautoritário na população.

A inauguração do neoliberalismo no Brasil foi obra do governo Collor, que de maneira estabanada começou a implantar o ideário de demolição do estado no Brasil. Collor sofreu o impeachment, em um caso bem conhecido.

O governo que o sucedeu foi fruto de um acordo, tendo na presidência Itamar Franco, uma pessoa bem-intencionada, porém com pouco poder e escassa criatividade.

O poder ficou nas mãos de seus ministros, principalmente os tucanos, um racha neoliberal do PMDB, que fundaram o PSDB.

Desde então, os tucanos (cujo nome se confunde com as ultrapassadas teses do neoliberalismo) estabeleceram uma aliança semelhante à que foi formada na Argentina, porém excluindo os militares. No Brasil dos tucanos a aliança foi estabelecida entre a oligarquia agrária, com o seu nome de fantasia, agronegócio, e o imperialismo, tendo o apoio do sistema financeiro, mais preocupado em lucrar do que em ajudar.

Fernando Henrique Cardoso (FHC), o presidente que sucedeu a Itamar e foi o grande campeão das privatizações no Brasil, chegou a escrever na sua carreira acadêmica um livro onde defende o arranjo que ele procurou estabelecer para o Brasil: a teoria da dependência, que na visão de FHC é benéfica. Segundo ele o mundo tem que ser dividido entre as potências líderes e os países dependentes, que seriam os fornecedores de recursos naturais e mercados de consumo para produtos industrializados importados.

Lula interrompeu o ciclo, estabelecendo uma aliança direta com a população, porém sem descartar boas relações com os diferentes setores do capital, que lucraram muito com o PT no poder. O petista também elevou a relevância dos militares, que haviam sido relegados ao ostracismo nos governos petistas.

Com este formato independente, porém extremamente cuidadoso, Lula aumentou o prestígio internacional do Brasil, até um ponto em que o país era presença obrigatória nas principais mesas do grande jogo da geopolítica.

Isso foi intolerável para o imperialismo, que via sua influência na América do Sul ter uma forte concorrência do Brasil. O incomodo causado pela ascensão da brasileira nas dimensões diplomática, econômica, cultural, social e, até militar, provavelmente foi o que levou às movimentações do imperialismo contra os governos progressistas no país.

REESTABELECIDA ALIANÇA CONTRA O BRASIL

A estratégia hoje está evidente percepção dos episódios que ocorreram no país, desde 2013. O ponto fulcral é o reestabelecimento da aliança entre o agronegócio, o setor mais atrasado em termos civilizatórios da sociedade brasileira; os militares, ressentidos com questões corporativas e doutrinados com uma ideologia arcaica; e o imperialismo. Em torno desta aliança há os bucaneiros de sempre: o sistema financeiro, que espera arrancar pedaços da carcaça do país que agoniza como estado nacional. Desta vez o capitão do navio pirata é o esdruxulo Paulo Guedes.

Sobre a presença da oligarquia agrária atrasada no esquema de poder, é interessante refletir sobre as origens de Sérgio Moro e dos principais procuradores e policiais da Lavajato: o interior do Paraná, um dos principais polos do agronegócio no Brasil.

A chegada de Bolsonaro ao poder representou a chegada de mais um braço a esta aliança: o crime organizado – as milicias, os predadores das florestas, o jogo, o tráfico, os garimpeiros, os especuladores imobiliários e outros.

Desta forma, a aliança anti-Brasil estabeleceu o ambiente, para que o país avance rapidamente em direção a um colapso semelhante (ou pior) ao que chegou a Argentina.

A argamassa que mantém a aliança para destruir o Brasil é o agronegócio. Sem a oligarquia agrária atrasada, os militares não teriam recursos, nem base política; e o imperialismo não contaria com traidores dentro do país. O bolsonarismo, sem esta aliança nem existiria.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s