O INCÊNDIO DO MONUMENTO AO GENOCIDA, TÁTICAS E ESTRATÉGIAS

O incêndio da estátua de que leva o nome do genocida Borba Gato foi o assunto mais comentado, nos dias seguintes às novas manifestações contra a aliança autoritária entre os milicianos, os militares e o agronegócio, que se empenha em manter o Brasil como um país atrasado, injusto, desigual e colonial. Monumentos a figuras como os bandeirantes, que estiveram presentes em algumas das páginas mais tristes da história do Brasil, merecem ser dinamitados. Entretanto, será que estrategicamente foi o melhor momento, tendo em vista a necessidade de ampliar a mobilização da sociedade contra um governo antidemocrático. Ocorrendo neste momento, a ação de alguma forma contribuiu para a prioridade politica, que é enfraquecer o poder miliciano-militar-agrário?

O incêndio da estátua do bandeirante Borba Gato, um monumento feio e sem valor artístico, tomou toda a atenção nos dias seguintes à vigorosa manifestação contra o bolsonarismo, que ocorreu em mais de 500 cidade do Brasil e pelo mundo afora. Um recorde, que indica a interiorização do movimento pela democracia no país, assim como o forte apoio fora do país.

Não pretendia mais falar sobre o assunto, entretanto resolvi dar uns pitacos, visto que há mais fígado do que cérebro no debate sobre o assunto.

Primeiro é preciso dizer que Borba Gato, como os bandeirantes são figuras históricas contraditórias. De fato, foram genocidas, escravocratas, facínoras, invasores e destruidores de culturas originárias. Porém, foram também, em grande parte responsáveis pelo mapa do Brasil, sendo uma das forças que romperam a linha do Tratado de Tordesilhas. É bom dizer aqui que eles nem foram os principais responsáveis por ultrapassar a linha instituída sob a mediação do Vaticano, mas sim os navegadores portugueses, que penetraram profundamente no Rio Amazonas e bloquearam a passagem para o lado leste dos Andes.

Mas, vá lá, os bandeirantes ajudaram e nessa empreitada cumpriram um papel semelhante ao de Fernão Cortez e Francisco Pizarro, os espanhóis que exterminaram os impérios Asteca, no México; e Inca, que se estendia em territórios onde hoje estão os territórios do Peru, Bolívia, Chile, Equador e Colômbia. A diferença é que os bandeirantes eram o que poderíamos chamar atualmente de empreendedores privados, enquanto os castelhanos, mesmo mantendo algumas divergências, cumpriam uma missão da coroa espanhola e da Igreja Católica.

Os bandeirantes foram sem dúvida genocidas e antes da chegada dos sequestrados da África, eles iniciaram as suas expedições pelo interior da colônia, para capturar índios, que seriam vendidos como escravos. Após a preferência pelos escravos africanos – principalmente porque os índios, quando fugiam, podiam encontrar comunidades de semelhantes que os acolhiam; os africanos não contavam com essa possibilidade e eram estranhos à nova terra – os bandeirantes se tornaram os mais requisitados capitães do mato da colônia portuguesa.

Bandeirantes nos tempos coloniais eram contratados para caçar escravos fugitivos na região das minas e, até mesmo, no Nordeste, onde prosperavam os engenhos de açúcar. Domingos Jorge Velho, um bandeirante, foi o responsável pela destruição do Quilombo de Palmares e o assassinato de Zumbi, no território atualmente dividido entre Pernambuco e Alagoas.

Uma curiosidade histórica é que os bandeirantes, conhecidos na época de suas atividades como sertanistas, na sua maioria eram mestiços de brancos com índios ou seus descendentes, e a língua que falavam era o tupi-guarani. A maioria da população de São Paulo era constituída etnicamente desta forma, pelas particularidades da formação da capitania, muito pobre, comparada com as opulentas capitanias do Nordeste, exportadoras de açúcar uma das comodities mais valiosas da época.

E A ESTÁTUA?

Entrando no assunto da estátua, os bandeirantes, que eram bandos de matadores, saqueadores, sequestradores, torturadores e invasores de terras ancestrais (semelhantes aos predadores de metais preciosos, que destroem a Floresta Amazônica e os rios da região) foram ressignificados pela oligarquia paulista, para estabelecer uma contra narrativa à historiografia varguista, que pretendia inventar o Brasil como nação.

Os intelectuais alinhados com Vargas, consciente ou inconscientemente, estabeleciam os mitos fundadores do país, com vibrantes tons épicos, ressaltando o heroísmo e a originalidade do brasileiro. Surgem os mitos de Guararapes, a Inconfidência Mineira, os heróis da Guerra do Paraguai, da cordialidade inter-racial e outros.

A oligarquia paulista do café, em oposição a Vargas, criou o mito dos bandeirantes, transformando os bucaneiros que partiam para saquear os povos tradicionais e suas terras em heróis, que enfrentavam o perigo do sertão, em busca de riquezas e, assim, foram “os” responsáveis pela construção do Brasil.

Essa história fabricada sob encomenda, que transmutava bandoleiros em heróis inventados entrando para a história oficial do Brasil e foi saudada com algumas das estátuas mais feias e sem valor artístico já erguidas, como a de Borba Gato em São Paulo; ou a de Fernão Dias, que fica na rodovia que leva o seu nome e liga a capital paulista a Belo horizonte. De todas as estátuas alusivas ao tema que já vi, a única com relevância artístico é o Monumento aos Bandeirantes, também em São Paulo.

Sem dúvida, a história tem que ser recontada. E sempre é.

A HISTÓRIA SEMPRE MUDA

Há o caso dos que perderam e tiveram a sua história escrita pelos vencedores e, depois, quando o jogo vira, os antigos derrotados, agora vencedores, contam a sua versão – por exemplo, no leste europeu, onde a narrativa da libertação pelos soviéticos na Segunda Guerra foi substituída, após a queda do Muro, pelo rancor à dominação comunista, gerando a onda de destruição das estátuas de Marx e Lenin.

A melhor forma de reescrever a história é através da ciência, pelos novos métodos de pesquisa e as descobertas, que não param de acontecer. Este é o caso da retirada dos bandeirantes panteão dos heróis e do envio das suas biografias para o lixo da história. Após a reconfiguração política do papel histórico dessas figuras, a ciência os reduziu à sua verdadeira dimensão e vergonhosa dimensão histórica.

O ataque aos monumentos aos criminosos contra a humanidade politicamente transformados em heróis, já é um ato simbólico comum em vários países – como no já mencionado leste europeu, onde os marcos do comunismo sofreram ataque; nos Estados Unidos e Europa Ocidental, locais que descarregam ódio contra os monumentos aos escravagistas e opressores.

Como toda onda mundial, a tendência certamente chegaria ao Brasil. Chegou até bem antes do incêndio do Borba Gato. Já em 2016, o Monumento às Bandeiras, em São Paulo, foi pichado com tinta vermelha.

ONDA ICONOCLASTA MUNDIAL

O ataque aos símbolos da opressão tem sentido.

A questão é em que eles contribuem para o estágio da luta política popular em cada local.

Na Europa Oriental, houve uma catarse quando houve a libertação dos países da região de uma longa ocupação militar. Milhares de estátuas e monumentos a Marx e Lênin foram destruídos. Hoje talvez muitos moradores desses locais possam estar se perguntando se Marx e Lênin eram de fato seus inimigos.

No autodenominado “Ocidente”, as razões variam. Na Espanha há um forte movimento para a remoção dos símbolos do franquismo. No país ibérico o movimento acontece depois da vitória do povo espanhol contra o franquismo. Os que querem a preservação desses monumentos são parcela insignificante da população. Porém, na Espanha são preservadas as estátuas de Colombo (como em vários países das Américas), assim como de Cortez e Pizarro.  

No Reino Unido e Estados Unidos, os alvos são os símbolos da escravidão. Lembrando os livros do jornalista Laurentino Gomes, Liverpool foi o maior entreposto do comercio de escravos nos séculos XVII e XVIII, superando Salvador, que vinha em segundo lugar. O mercado de Liverpool abastecia os diversos portos, onde os escravos eram negociados nas 13 Colônias e no Caribe.

O movimento nos Estados Unidos é feito com limites. George Washington, Thomas Jefferson e Benjamin Franklin, todos grandes proprietários de escravos e racistas não figuram nas listas dos monumentos a serem atacados. Todos os três, assim como outros “pais da nação”, se opunham à presença de negros no Exército Continental (como eram conhecidas as forças regulares da nova república). Os negros somente foram aceitos no desespero das derrotas iniciais.

No Canadá, os protestos se voltam contra os símbolos da realeza britânica, o que tem mais a ver com a absoluta separação do país com o Reino Unido e a adoção de um regime republicano. O movimento é mais forte nas regiões de língua francesa do país.

Há um aspecto que difere profundamente a agitação iconoclasta nos países citados e os protestos semelhantes no Brasil: em nenhum desses locais o movimento pela revisão da história ou contra símbolos de opressão visa uma ruptura de um regime repressor, que ameaça a democracia, como é o caso do Brasil.

As milhares de pessoas que derrubaram a estátua do traficante de escravos Edward Colston, em Bristol, estavam cientes de estar participando de um ato político de estrema importância, mas quase nenhum deles participou do evento com o objetivo de derrubar o governo britânico.

Uma situação diferente já pode ser observada, quando uma multidão de reuniu em Richmond, Virgínia, EUA, e derrubou a estátua de Jefferson Davis, presidente dos estados confederados na Guerra Civil Estadunidense. Ali, o ato foi resultado de um processo político cuidadosamente construído por negros, brancos e latinos, cidadãos dos EUA. Ao longo de um trabalho paciente que durou anos as lideranças políticas com raízes nos movimentos dos direitos humanos dos anos de 1960 conseguiram transformar a luta antirracista em um movimento de massas atuante e influente. Principalmente, após o assassinato de George Floyd, as lideranças progressistas vincularam a luta antirracista à derrota do trumpismo.

No Brasil, o incêndio da horrorosa estátua em homenagem a Borba Gato foi um ato de extrema coragem e força simbólica, o que é inegável, haja visto a força da imagem que circulou o mundo e a atração que gerou na agenda pública.

Porém, diferente do que ocorre nos Estados Unidos ou mesmo na Grã-Bretanha, atos como este ainda não são fruto de um movimento de massa. Podem atrair atenção, superando outros temas, entretanto não há acúmulo de discussão sobre a questão; é escassa a percepção social sobre o significado do episódio; a tática não é consensual, por falta debate; desta forma pode provocar apreensão em grupos sociais que ainda precisam ser conquistados para o objetivo estratégico do momento, que é derrotar o bolsonarismo antidemocrático.

TÁTICAS E ESTRATÉGIAS

Algumas lições podem ser aprendidas no longo processo que levou à Revolução Russa.       

As contestações políticas ao império czarista se tornaram mais nítidas no século XIX, principalmente na sua segunda metade. Neste período surgem grupos inspirados por Michel Bakunin e Pierre Proudhon. O objetivo era a destruição do Estado e a tática visava a destruição de símbolos do estado imperial e o assassinato de autoridades, inclusive os monarcas.

Eram pequenos grupos voluntaristas, sem ligação com a imensa maioria paupérrima da população das nações que formavam o império.

Em 1881, uma dessas pequenas organizações, a Narodnaia Volia (A Vontade do Povo), conseguiu matar o czar Alexandre II, em um atentado a bomba.

Nenhuma das ações desses grupos, muitas vezes espetaculares, causou abalos ao regime czarista, que prosseguiu até o início do século XX como um dos maiores jogadores da geopolítica mundial.

Ainda antes do atentado contra Alexandre II, Gueorgui Plekhanov e, mais tarde, Vladimir Ilyich Ulianov, Lênin, começaram a introduzir o marxismo no império. Ao longo de suas trajetórias os dois seguiram caminhos distintos, porém concordavam que atentados pontuais contra símbolos e personalidades não era a melhor estratégia para abalar o czarismo.

Lênin optou pelo trabalho intenso e paciente de educação política, mobilização e organização popular, para estabelecer uma aliança entre os operários e camponeses. Na concepção leninista, as tarefas de dirigir as massas no processo de disputa do poder seriam viabilizadas por um partido com quadros preparados.

A estratégia de Lênin visava ao que Gramsci definiu como hegemonia moral na sociedade, ou seja, obter a compreensão da maioria da população para os motivos e os objetivos da disputa política, o que gera a ação popular para a conquista do poder, através do voto ou em processos revolucionários. Em qualquer um dos casos – voto ou revolução – a vitória progressista (e principalmente a sustentação no poder) somente ocorrerá através da atração da maioria.   

FOGO NOS

A ação dos militantes do grupo Revolução Periférica foi espetacular e um ato de extrema coragem, além de ter sintonia com uma onda mundial importante.

No entanto, é preciso avaliar se a iniciativa de um pequeno grupo (por mais importante que seja) está de acordo com o momento do estágio de luta do Brasil a suas necessidades estratégicas.

A luta do povo brasileiro visa preservar questões básicas, como democracia; direitos humanos; as ainda insuficientes conquistas sociais; a civilização; e a própria vida. O país vive sob sombra de um retrocesso inédito, que se ocorrer, certamente prejudicará, ainda mais milhões de pessoas.

O episódio do incêndio teve o mérito de gerar discussão, porém somente terá a relevância política que merece, quando for um tema compreendido pela maioria da sociedade e tiver a capacidade de levar muito mais pessoas às manifestações.

No nível de compreensão atual sobre o assunto e com grande parte da população politicamente confusa, como indicam as pesquisas, a tendencia é que parte da sociedade se afaste das manifestações por temor à violência.

A participação e os votos dessas pessoas confusas e assustadas é essencial. São segmentos que rejeitam o governo bolsonarista e que imprescindivelmente devem ser atraídos para o campo progressista, pois as eleições 2022 não serão fáceis. A vitória sobre o bolsonarismo precisa ser esmagadora, ou a aliança democrática e progressista corre o risco de ganhar e não levar.     

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