BEZOS VAI AO ESPAÇO E BATMAN DIZ QUE SEU PODER É SER RICO

A viagem de Bezos não teve nenhuma importância científica e nem de inovação. A tecnologia utilizada foi criada na década de 1960, pelos cientistas da União Soviética.

O marketing do super-herói facilita as ações e os planos do bilionário, que na prática abalam a saúde da sociedade, ao promover o individualismo e, principalmente, porque distorcem processos econômicos e determinam uma concentração de renda cada vez mais perversa.

Um dos assuntos mais comentados deste mês de julho de 2021 foi o breve passeio do bilionário Jeff Bezos à órbita da Terra. A viagem nada teve de extraordinário, pois utilizou a tecnologia e os métodos criados pelos soviéticos no início dos anos 1960. Porém foi fartamente utilizada no marketing pessoal de Bezos, que visa a lhe conferir uma certa aura de herói, ou de uma pessoa que está degraus acima dos seres humanos comuns.

O marketing do super-herói facilita as ações e os planos do bilionário, que na prática abalam a saúde da sociedade, ao promover o individualismo e, principalmente, porque distorcem processos econômicos e determinam uma concentração de renda cada vez mais perversa.

A empresa que fez a fortuna de Bezos, a Amazon, provoca um violento assédio contra o tradicional negócio de livrarias, levando à falência de negócios pequenos, médios e grandes dedicados ao comércio de livros – ou seja do conhecimento. O projeto Amazon caminha para se transformar (se já não é) em um formidável monopólio da literatura mundial, o que significa que o bilionário pode vir a ser uma figura decisiva no processo de desenvolvimento e transmissão do conhecimento e da ciência em escala global.

Bezos avança neste processo de controle do saber em outras áreas importantes, além do mercado literário. Nos Estados Unidos, ele assumiu o controle de um dos principais jornais do mundo, o The Washington Post, e investe em redes de escolas gratuitas para crianças do tipo Montessori, concebida pela italiana Maria Montessori em 1898. Observadores estadunidenses denunciam que é apenas o primeiro passo em direção a um complexo de educação infantil: “Amazon Primary”. Depois o céu é o limite.

O bilionário também investe em outras áreas de conteúdo, como filmes e música, além de atividades em inúmeros setores, muitos ainda não visíveis para o público.

A imagem cuidadosamente construída por Bezos como um super-herói, dotado de capacidades além dos humanos normais desperta enorme admiração pública e facilita seus projetos. O marketing do bilionário procura convencer que Bezos, como os super-heróis, visa o bem da humanidade. Porém o monopólio sobre a circulação de informações e o conhecimento, que ele gradativamente vai estabelecendo, assim como a concentração de riqueza que será produzida por suas atividades – além do monopólio sobre determinados mercados, as empresas do bilionário estão entre as que mais sofrem denuncias por problemas de exploração trabalhista – são extremamente prejudiciais às sociedades humanas.

RICOS GENOCIDAS FORAM TRATADOS COMO HERÓIS

Bezos não é o único nem foi o primeiro milionário a adorar a estratégia de marketing pessoal de se vender publicamente como um super-herói. Desde o século XIX, quando o capitalismo atingiu enorme velocidade, em decorrência da mecanização, das máquinas, da energia a vapor e da eletricidade; os mais ricos se apresentam como seres superiores, que contribuem para o progresso da humanidade. Suas mais absurdas atitudes são vistas na época – e mesmo depois – como parte do processo de desenvolvimento promovido pelos “capitães da indústria”.

As primeiras figuras do tipo surgiram nos Estados Unidos, ligadas à indústria das ferrovias e do aço. A penetração das ferrovias no território continental do país, ligando os oceanos Atlântico ao Pacífico, foi responsável pelo maior genocídio do século XIX (talvez o mais terrível da história), quando quase toda a população nativa foi exterminada, para dar lugar à “civilização”. Foi uma política eugenista admirada até por Hitler.

Cerca de duas dúzias de milionários geriram as transcontinentais (os seus sobrenomes são famosos – Harriman, Cooke, Gould, Adams, Huntington, Stanford e outros). Tratavam com truculência as comunidades locais e mantinha práticas criminosas nos seus negócios. Esses milionários, que ficaram conhecidos como “barões”, por seus desafetos financiaram uma nascente literatura popular no país (que deu origem à Pulp fiction), com histórias heroicas sobre os barões e seus agentes, como Búfalo Bill, um dos maiores responsáveis pela quase extinção das manadas de búfalos que eram a base da alimentação e do modo de vida das tribos das pradarias; ou o Coronel Custer, um matador de comunidades inteiras.

Orson Welles aborda com brilhantismo o tema no seu fabuloso filme “O cidadão Kane”. O personagem principal, Charles Foster Kane, um magnata da mídia retrata à perfeição os bilionários que buscam a admiração popular, ao se apresentarem como seres superiores, para facilitar seus projetos de concentração de poder e riqueza.

John Rockefeller, Thomas Edison, Henry Ford, Howard Hughes, William Randolph Hearst (este último foi a inspiração para o Kane de  Welles), entre outros, adotaram a estratégia de se apresentarem como figuras superiores ao restante da humanidade. Mais recentemente a mesma estratégia de marketing, com técnicas mais sofisticadas, é utilizado pelos magnatas do capitalismo 3.0, como Bill Gates, Steve Jobs, Elon Musk e Richard Branson.

EU SOU RICO

A cultura popular contribui para cultivar esta mitologia de que os ricos são seres superiores e benéficos para a sociedade. Vários autores consciente ou inconscientemente ajudaram no marketing dos bilionários, por exemplo, o francês Júlio Verne, em vários dos seus romances, como Viagem à Lua, Os filhos do capitão Grant ou Volta ao mundo em 80 dias. A britânica Jane Austen, como observa Thomas Piketty, nos seus livros, também pintou os milionários como uma espécie à parte dos humanos, embora com mais profundidade do que Verne.

Várias outras obras de artistas diferentes podem ser citadas. Mas é na cultura popular que o fenômeno é mais visível. Afinal a propaganda é voltada para as classes médias e populares e não para os seus.

Além da Pulp fiction, no século 20 vieram as novelas de rádio, o cinema e, especialmente, as histórias em quadrinho (comics) deram grande contribuição à esta metodologia moderna. Como Joseph Campbell, Edgar Morin e outros estudiosos observaram, os super-heróis nos tempos atuais substituem os deuses e semideuses de antigamente na cultura  popular. Se as populações atuais não creem na realidade dos super-heróis; como os antigos acreditavam que as figuras divinas eram reais; a percepção popular, a partir desta fabricação de arquétipos, acaba vendo os bilionários, identificados com os super-heróis, como seres de poder, acima da humanidade.

No filme “Liga da Justiça”, há um momento em que um jovem e ansioso Flash (Ezra Miller) pergunta ao carrancudo Batman (Ben Affleck) qual é o seu superpoder.

Batman responde: “Eu sou rico”.

É uma piada e não é uma piada. A vasta fortuna de Bruce Wayne, o álter ego do super-herói Batman, é de fato o que permite que Batman seja o Batman, um adulto que passa a maior parte de seu tempo livre perseguindo seu passatempo obsessivo de ser um combatente do crime fantasiado, com um imenso arsenal de equipamentos. E Wayne está longe de ser o único capitalista mascarado nos quadrinhos. Seus companheiros super-heróis ricos incluem Oliver Queen (Arqueiro Verde) e Tony Stark (Homem de Ferro). Stark, foi inspirado em Howard Hughes.

Esses homens (e a maioria deles são homens) nasceram do impulso americano muito real de acreditar que grande riqueza vem com grande virtude, mesmo quando grande parte da riqueza é herdada, como é o caso desses três super-heróis.

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