A IMPORTÂNCIA DOS INTELECTUAIS PROGRESSISTAS NA RECONQUISTA DO BRASIL

A famosa entrevista feita por W.G. Wells com Stalin, que circula atualmente na Internet chama a atenção para a questão da formação dos intelectuais de esquerda. Wells é o genial autor de diversos livros, entre eles A Guerra dos Mundos e da Máquina do Tempo. O tema é importante para o Brasil de hoje, quando o país enfrenta seu momento mais terrível e a guerra pelo futuro do país atinge níveis cada vez maiores de violência. É preciso educar politicamente a população, para vencer a guerra ideológica e assegurar a estabilidade de um futuro governo Lula.

A vanguarda intelectual formada nas universidades pelas organizações de esquerda teve papel decisivo, para forjar os quadros da direção sindical, que mudou a história do Brasil, a partir do final dos anos 1970.

STALIN E WELLS

Stalin é daquelas pessoas que costumam gerar adoração e ódio, ambos os sentimentos produzidos por carência de reflexão ou de conhecimento histórico. Há aqueles que apontam o dirigente da URSS como facínora e genocida, outros como desequilibrado mentalmente e ainda existem os admiradores que o consideram um “guia genial dos povos”. Parte dos socialistas acreditam que o georgiano (Stalin é natural da Geórgia, um dos países que integrou a URSS) traiu a Revolução Bolchevique, enquanto outro grupo o vê como salvador da União Soviética.

A entrevista, que é mais uma conversa entre duas celebridades mundiais da época (início da década de 1930), revela facilmente as limitações intelectuais de Stalin, que apesar de grande conhecimento histórico, mostrou dificuldade de raciocinar fora de um esquema simplista e maniqueísta, do “bem contra o mal” – homens bons e homens maus. Wells por seu lado revela a mesma ingenuidade esperançosa, que está presente em suas melhores obras, como o já mencionado Guerra dos Mundos e, também, a “Máquina do Tempo”.

O genial e inventivo escritor era socialista e voluntariosamente pretendia cumprir uma missão de reunir a esquerda mundial, independente as diferenças programáticas. Porém, na conversa ele e o dirigente da URSS tiveram, somente concordaram com a importância do planejamento econômico, embora discordassem de como este método deveria ser aplicado.

Enquanto Stalin se aferrava em uma visão do mundo esquematizada entre bem ou mal, no qual somente os proletários eram os portadores da esperança, o que é uma concepção mais religiosa do que marxista; Wells insistia em uma simplória crença em um suposto papel progressista, que poderia ser cumprido pela classe dos bilionários.

Pela conversa, Stalin demonstra crer em um mundo permanentemente em conflito, entre o bem e o mal, até a eterna redenção do comunismo. Wells, por seu lado, defendia a colaboração de todos para a implantação do socialismo, que traria o bem-estar para a humanidade.

STALIN NEGOU A PROPOSTA ECONÔMICA DE LÊNIN

A visão econômica de Stalin, que negava a Nova Política Econômica sugerida por Lênin – NEP, na sigla em russo – assim como sua concepção imperial do poder, que o levou a repetir a violência do czarismo, plantou os germes para a implosão da União Soviética, menos de quatro décadas após sua morte.

Além disso, o sucesso da economia chinesa é um ótimo exemplo para demonstrar que o perpétuo Secretário Geral do Partido Comunista Soviético estava equivocado. Mantendo os princípios do socialismo (e introduzindo elementos confucionistas no seu modelo), a China não apenas elevou a taxas aceleradas o  seu PIB, como criou a base industrial mais avançada do planeta e distribuiu renda, o que resultou no mais espetacular caso de redução da miséria da história.

Um caso pitoresco contado por Henry Kissinger, no seu livro “Sobre a China”, que ilustra bem a ineficiente máquina estatal legada por Stalin a seus sucessores.

A última reunião de Mikhail Gorbatchov, o derradeiro primeiro-ministro da URSS, com um presidente dos EUA, ocorreu na Cúpula de Malta, em dezembro de 1989. O encontro aconteceu com George H.W. Bush, que havia acabado de suceder a Ronald Reagan. Após a reunião Gorbatchov voou para a China, antes de voltar ao seu país. Kissinger, que na época participava informalmente do relacionamento diplomático entre Washington e Pequim, entrou em contato com Chou En Lai (Zhou Enlai, na grafia atual), que respondia pela chancelaria chinesa, para apresentar a versão estadunidense sobre o encontro em Malta. Para a surpresa do diplomata estadunidense de origem alemã, o ministro chinês respondeu que o dirigente soviético não tinha ido a seu país falar sobre o encontro, mas para pedir dinheiro emprestado. E completou: “eles estão em dificuldades, os soviéticos não entendem nada de economia”.

Quanto a Wells, a história revelou seus enganos mais cedo, quando grande parte dos bilionários donos do dinheiro ou dos meios de produção apoiaram os governos fascistas de Hitler, Mussolini e Franco, não somente na Alemanha e Itália, como nos próprios países que viriam a combater as potencias autoritárias. Exemplos são o industrial Henry Ford, o banqueiro Prescott Bush e os donos das empresas IBM, Coca-Cola, GM, Dr. Oetker, Nestlé, entre outras.

STALIN TINHA RESSENTIMENTO DOS INTELECTUAIS

Um ponto sobre o qual Wells insistiu e Stalin manifestou imensa desconfiança foi sobre a importância da intelectualidade, seja técnica ou filosófica, nos processos de avanço para o socialismo, seja pela via democrática ou em episódios revolucionários. Nesta questão, Wells se revelou à esquerda do dirigente soviético e mais afinado com as teses de Marx e Lênin, ao valorizar com mais assertividade a vanguarda.

Stalin define que o partido é a “vanguarda do proletariado”, mas ao mesmo tempo menospreza a formação clássica dos quadros socialistas. Na visão de Stalin, os intelectuais são relegados apenas à função de técnicos, sem espaço como dirigentes políticos ou na formulação da organização de uma nova sociedade.

Wells enfatiza a importância de intelectuais bem-preparados, que teriam a função de conceber a nova sociedade socialista e ainda teriam a responsabilidade de compor com os trabalhadores a vanguarda transformadora, assim como seriam encarregados da formação do conjunto do proletariado – e da sociedade.

A HISTÓRIA DAS REVOLUÇÕES DÁ RAZÃO A WELLS

Todas as principais revoluções modernas contaram com intelectuais clássicos na sua vanguarda.

A Revolução Inglesa, da década de 1640, que colocou em conflito a burguesia contra a aristocracia, teve na sua direção personagens bem-preparadas como Oliver Cromwell. Os burgueses, na maioria puritanos, valorizavam a educação (por exemplo, menos de uma década após desembarcar na baia de Boston, os puritanos fundaram o que seria a Universidade de Harvard). Com isso desenvolveram técnicas e táticas de guerra mais eficientes, que resultaram na sua vitória. Com a conquista do poder pelo exército burguês, foi instalado o único período republicano britânico (1649 a 1660), com o governo sendo exercido de forma ditatorial por Cromwell, até 1658 e, depois, por seus filhos, até a restauração monárquica.

A Guerra da Independência dos Estados Unidos, em 1776, foi dirigida por uma elite intelectual influenciada pelo iluminismo. As 13 colônias, que originaram o novo país, principalmente as do Norte, disputavam a honra de possuir os melhores centros acadêmicos do território. Além de Harvard, fundada em 1636, são exemplos The College of William and Mary, 1693, onde estudou Thomas Jefferson; St. John’s College; 1696; Yale, 1701; e Universidade da Pensilvânia, 1740.

A Revolução Francesa, 1789, surgiu como uma explosão popular, porém as condições subjetivas do levante vinham sendo construídas laboriosamente pela propaganda iluminista, concebida por intelectuais como Cesare Beccaria, Voltaire, Denis Diderot, Jean-Jacques Rousseau, David Hume e Immanuel Kant. Já na primeira fase do período revolucionário, a nova república adotou uma constituição fundamentada nos princípios iluministas, como igualdade de todos perante a lei; o voto censitário; a confiscação das terras eclesiásticas; o fim do dízimo; a constituição civil do clero, dentre outros pontos. Eram propostas que estabeleciam a primazia da razão sobre a fé e o ser humano, de forma igualitária, passava a ser o centro da realidade. Os líderes da primeira fase revolucionária e responsáveis pelo estabelecimento dos alicerces do novo estado francês – que permaneceram mesmo após o arrefecimento da onda revolucionária – foram intelectuais, como Robespierre, Saint-Just e Danton.

A explosão do Império Czarista, que gerou a União Soviética, também seguiu  trajetória semelhante. A Revolução Russa foi influenciada por uma corrente de pensamento que se desenvolvia desde o século XIX, a partir dos estudos e formulações de pensadores, sendo os mais proeminentes Marx e Engels. A liderança do Partido Bolchevique, que aglutinou a vanguarda revolucionária, contava com quadros intelectuais clássicos ou formados em altíssimo nível pelas estruturas partidárias. Entre esses quadros destacam-se Vladimir Ilyich Ulyanov (Lênin), Lev Bronstein (Trotsky), Alexandra Kollontai, Anatóli Lunatcharski, Avel Enukidze, Mikhail Kalinin, Nikolai Bukharin, Mikhail Tomsky, Lashevich, Lev Kamenev, Preobrazhensky, Serebryakov e Aleksei Rykov.

A Guerra Popular Prolongada, que resultou na conquista do poder pelo Partido Comunista Chinês, também teve na sua direção uma vanguarda de intelectuais clássicos, a maioria com origem nas escolas confucionistas e influenciados pelo Marxismo-leninismo. Na famosa Longa Marcha, à medida em que as forças comunistas se retiravam para sua base nas montanhas, quadros do partido ficavam pelo caminho com a missão de formar politicamente os camponeses encontrados ao longo do trajeto. Essa estratégia multiplicou as forças populares e preparou a tomada do poder. O preparo da vanguarda comunista chinesa era excepcional.

Mao Tsé-Tung, por exemplo, de 1913 a 1918 estudou na Escola Normal de Hunan, onde aprendeu filosofia; história e literatura chinesa. Continuou estudando e assimilando o pensamento ocidental e política. Tornou-se líder estudantil com participação em várias associações, mudou-se para Pequim em 1919, onde iniciou seus estudos universitários em Filosofia e Pedagogia, trabalhou na Biblioteca Universitária. No ambiente acadêmico, conheceu Chen Tu Hsiu e Li Ta Chao fundadores do Partido Comunista Chinês.

O número dois da vanguarda chinesa, Zhou Enlai, teve uma educação refinada. Frequentou a Dongguan Model Academy, uma escola cujo estilo era considerado o mais moderno do país. Lá, foi exposto aos escritos de autores reformistas e radicais como Liang Qichao, Kang Youwei, Chen Tianhua, Zhou Rong e Zhang Binglin. Em 1913, Zhou ingressou na famosa Nankai Middle School. Os métodos de ensino da Nankai eram incomuns para os padrões chineses contemporâneos. No período em que Zhou frequentou a escola, a instituição havia adotado o modelo educacional usado na Phillips Academy, dos Estados Unidos. Os talentos de Zhou chamaram a atenção da direção da escola, que investiu em Zhou e o ajudou a pagar por seus estudos no Japão e na França.

Os exemplos apresentados revelam a importância dos estudos clássicos, para a formação da vanguarda partidária e o estabelecimento de um quadro de intelectuais orgânicos. Sem esta vanguarda, os levantes populares não têm rumo, se dissolvem ou são sequestrados.

ELIMINAÇÃO DE INTELECTUAIS COMPROMETEU O SOCIALISMO

Stálin, após assumir o controle da máquina governamental, exterminou ou afastou quadros brilhantes, que seriam extremamente valiosos para a construção da nova sociedade socialista.

O general do Exército soviético Dmitri Volkogonov encerrou sua longa carreira no Exército Soviético, como diretor dos Arquivos do PCUS. Tendo acesso a um imenso volume de documentos, entre eles alguns mantidos secretos por décadas, Volkogonov  reuniu dados para narrar de maneira detalhada a biografia de Stalin. O autor descreve a única participação de Stalin em um congresso do partido na Suiça, onde se reuniram os principais líderes partidários, a maioria deles forçado ao exílio. Tais reuniões eram caracterizadas por intervenções fulgurantes, plenas de conteúdo e com elevado nível de oratória. Stalin ficou calado, não se pronunciou neste encontro, como evitava falar nas reuniões que ocorreram na Rússia, após o início da espiral revolucionário.

De acordo com o general, Stalin não havia chegado à cúpula partidária pelos mesmos motivos dos outros membros do Diretório Central do então Partido Bolchevique. Seus pares foram alçados ao comando, devido às suas qualidades como pensadores, teóricos, estrategistas, propagandistas, mobilizadores e organizadores das massas e dos processos revolucionários – eram formuladores do novo mundo socialista, que estava para nascer.

Stalin, por seu lado, era um sicário, que havia sido criticado algumas vezes por sua insistência de substituir a mobilização popular, pelo terrorismo. Entretanto, de acordo com o general Volkogonov, o futuro secretário geral do partido conseguia levantar fundos para a organização, através de roubos e saques na imensidão do Império. Sua capacidade de levantar dinheiro, extremamente necessário antes da grande doação feita pelo Império Alemão, pavimentou sua entrada na cúpula do partido.

(Veja: Stalin, Dmitri Volkogonov, Nova Fronteira, 2000)

Porém, conforme relata seu biógrafo, Stalin sempre ficava muito desconfortável nessas reuniões, nas quais falas brilhantes se sucediam.

Volkogonov credita alguns traços da personalidade de Stalin ao ressentimento que o dirigente desenvolveu, por sua evidente limitação intelectual em comparação com seus pares. Stalin; ao contrário dos outros quadros da vanguarda partidária, educados em padrões cosmopolitas clássicos; havia feito estudos incompletos em seminários da Igreja Ortodoxa.

A formação inferior, conforme seu biógrafo, gerou um sentimento de inferioridade, que resultou em forte ressentimento e de rejeição aos intelectuais em geral.

Além disso, a base de conhecimento transmitida a ele pela Igreja Ortodoxa, que era absolutamente conservadora e paroquiana, marcou a sua compreensão do mundo, com elementos religiosos (embora ele se declarasse ateu), introduzindo ainda rudimentos do modelo do estado imperial czarista (a Igreja Ortodoxa Russa era um suporte ideológico do Império), assim como de preconceitos contra os comportamentos cosmopolitas (a Igreja Ortodoxa era visceralmente contra a modernização e às influencias ocidentais na sociedade russa).

O ressentimento, o preconceito, o anti-cosmopolitismo e os traços religiosos de sua formação determinaram o comportamento de Stalin, caracterizado por atitudes frontalmente contrarias ao Marxismo-leninismo (embora formalmente se reivindicasse seguidor de ambos); equivocadas do ponto de vista da organização do estado, da política e da economia (responsáveis pela derrocada da União Soviética, em 1991); e terrivelmente violentas (como denunciado pelo próprio PCUS, após sua morte).

O comportamento de Stalin – determinado por seu ressentimento, pela incompreensão do marxismo e influenciado pela ortodoxia religiosa – o levou, quando chegou ao poder, a promover o extermínio de uma geração de quadros valiosos do PCUS, a rejeitar o estabelecimento da democracia socialista e a estabelecer um modelo de estado inviável, em termos sociais, econômicos e sociais – o que ficou comprovado pela implosão do Estado Soviético, apenas 36 anos após sua morte.

Na sua trajetória, para se consolidar no poder, Stalin exterminou toda uma geração dos melhores intelectuais do Partido Bolchevique, que haviam comandado a Revolução e o Exército Vermelho, na Guerra Civil. Esses quadros, afastados, assassinados, executados, presos na Sibéria ou obrigados a fugir do país fizeram muita falta para a construção e consolidação do socialismo.

A AUSÊNCIA DA VANGUARDA DE MASSAS E O BRASIL PÓS 2013

A presença de uma vanguarda com capacidade de formulação estratégica, mobilização e organização é, portanto, essencial para impulsionar os processos de avanço socialista. Os levantes populares, que não contam com a direção de uma vanguarda tendem a ser extintos ou sequestrados. Isso é mais relevante em um país continental, como o Brasil.

O fenômeno pode ser estudado na avaliação do movimento que ocorreu no Brasil, em 2013.

Na ocasião, houve uma explosão espontânea inicial, detonada pelo repúdio à violenta repressão da Polícia Militar de São Paulo (PMSP), contra o Movimento pelo Passe Livre (MPL), que organizou uma manifestação na capital paulista. Para demonstrar sua crítica à violência policial dezenas de milhares de pessoas de esquerda foram à próxima manifestação convocada pelo MPL. O sucesso do ato desencadeou uma série de manifestações à esquerda em todo o país, que foram esquentadas pelo então raquítico movimento contra a realização da Copa do Mundo no Brasil.

Tendo um objeto de protesto visível, a Copa das Confederações, evento preparatório para a Copa do Mundo, o movimento cresceu, com a participação de milhares de pessoas alinhadas com a esquerda, que foram mobilizadas romanticamente pela dimensão do acontecimento em si (as manifestações).

Uma das características dos acontecimentos de 2013 é que o movimento somente encontrou um eixo motivador racional, depois que as manifestações já enchiam as ruas. No momento em que a duvidosa bandeira do “Não vai ter Copa” se esvaziava, devido à sua ingenuidade estratégica e exacerbado radicalismo, surgiu o “Saúde e Educação”.

(Veja Wilson Roberto Vieira Ferreira: Por que  aquilo deu nisso?)

Até então, os acontecimentos eram principalmente atos de uma esquerda confusa, sem que uma direção conquistasse a hegemonia, e alimentados pela incapacidade do Governo Dilma Rousseff (e do PT) de entender como lidar com a situação.

GEOPOLÍTICA DOS EUA PERCEBE OPORTUNIDADE NO BRASIL

Os núcleos de inteligência do imperialismo estadunidense sempre estão atentos às possibilidades criadas pelas contradições dos países que considera adversários, ou daqueles que retende enquadrar. As “revoluções coloridas” ou as “primaveras” orquestradas recorrem às contradições dos países alvo, para serem plantadas e cultivadas.

No caso brasileiro, os serviços secretos dos Estados Unidos vinham monitorando o governo federal e suas principais estatais, especialmente a Petrobras, desde antes de 2012, como denunciado pelo dissidente estadunidense Edward Snowden, através do WikiLeaks e do jornal britânico The Guardian.

Provavelmente, o plano original era promover através da Lavajato um ataque à democracia brasileira, para desorganizar o país; retirar o Brasil do jogo das grandes potenciais; e demolir a Petrobras (que avançava para ser uma das cinco maiores empresas do planeta). Paralelamente à espionagem promovida comprovadamente pela NSA, mas provavelmente também pela CIA, Washington trabalhava, através de diversas agências do governo dos EUA, para cooptar (via ideologia, dinheiro ou promessas de benesses) integrantes do judiciário brasileiro, da Polícia Federal e de órgãos de controle.

(Veja: https://www.youtube.com/watch?v=X7rzUEjKVos)

A explosão de 2013, aparentemente, foi um surto inesperado e bem-vindo para os interesses das agencias governamentais estadunidenses, que já atuavam na desorganização do Brasil. Com grande experiencia acumulada neste tipo de eventos, como descreve Moniz Bandeira, no livro “Desordem Mundial”, os diversos braços oficiais e privados responsáveis pelas operações pela intervenção camuflada dos EUA em países estrangeiros, rapidamente se articularam com grupos antipetistas brasileiros.

As relações entre as entidades secretas e públicas dos Estados Unidos com personalidades e entidades brasileiras em alguns casos remontam de décadas, como a formação de oficiais das Forças Armadas do Brasil na notória Escola das Américas. Entretanto, desde os primeiros anos dos governos petistas começaram a ser criados canais para influenciar a sociedade brasileira, principalmente o baronato capitalista.

Uma das entidades mais importantes, entre as que foram criadas para influenciar e organizar a elite brasileira foi o Instituto Millenium, fundado em 2005, para reunir milionários, bancos, mídia, intelectuais e líderes de opinião.

Através desta ampla operação, que contou com projetos diretamente ligados ao governo dos EUA e, também, com iniciativas privadas interessadas em disseminar modelos neoliberais, conservadores e religiosos, um pequeno, mas eficiente, exército de ativistas começou a ser formado para atuar na sociedade brasileira. Com base neste terreno cultivado há anos, quando houve a explosão de 2013, rapidamente foi concebida uma estratégia para explorar as manifestações.

Surgiram, então, os elementos básicos para inchar, orientar e conduzir as manifestações: (1) um discurso com o qual todos concordavam, “saúde e educação”; (2) um objetivo, “contra tudo o que está aí”; (3) um inimigo, o governo Dilma; (4) um comportamento, a proibição de bandeiras dos partidos nas manifestações, especialmente as vermelhas; (5) e uma direção, Movimento Brasil Livre (MBL), Vem pra Rua (VPL) e outros.

Alguns desses movimentos criados para liderar as manifestações tem cordões umbilicais diretamente ligados a entidades governamentais ou privadas estadunidenses, outros surgiram de forma oportunista, para ganhar dinheiro com o clima de comoção popular, como é o caso do Revoltados Online.

(Veja: https://brasil.elpais.com/brasil/2015/03/13/politica/1426285527_427203.html)

A Lavajato e os movimentos fabricados, que levaram centenas de milhares de brasileiros às ruas, aliados à mídia conservadora e neoliberal, estabeleceram as condições políticas para o golpe de 2016.

ESQUERDA ESTAVA DESPREPARADA PARA 2013 E 2016

Enquanto a direita nacional e o imperialismo estavam preparados para intervir nos acontecimentos que explodiram em 2013 e mudaram os rumos políticos do Brasil, o campo progressista se revelou incapaz de disputar as ruas e a direção política da grande convulsão social que explodiu.

Um dos motivos para a esquerda ter sido atropelada pelos acontecimentos foi a carência de quadros preparados para compreender o momento e com capacidade para orientar e liderar as ruas.

A carência de quadros preparados para atuar nos movimentos de massa – o que é diferente da atuação em movimentos sociais, que são fundamentais, porém de dimensão menor – se deve a inúmeras variáveis, sendo suas as mais importantes.

A primeira foi a necessidade de sugar os quadros disponíveis para os aparelhos governamentais, o apoio legislativo e a máquina partidária, cada vez maior. A demanda de quadros para governos e legislativo não correu somente no governo federal, mas também em todas as esferas, como estados e município.

O segundo motivo para a ausência de quadros com capacidade de atuação nos movimentos de massa foi o abandono das universidades (que são os principais polos de formação de intelectuais na sociedade – Jesse de Souza) nas políticas de formação dos principais partidos da esquerda – talvez com exceção do PCdoB.

Nos anos 1960, 1970 e início da década de 1980, as organizações de esquerda brasileiras consideravam as universidades como os mais importantes celeiros de quadros. Mesmo com a violência da repressão, a esquerda mantinha uma arrojada política de atuação no movimento estudantil (ME), no corpo docente e nas representações sindicais dos funcionários. Com isso, muitas salas de aula se transformavam em espaços sofisticados de reflexão e de formação progressista, enquanto o ME desenvolvia na prática e em elevado nível as habilidades políticas, que geravam intelectuais orgânicos e preparavam quadros para a formação de uma vanguarda socialista.

Ao partir para políticas de atuação social, essa vanguarda contribua na atração e preparação de quadros nos movimentos populares. A formação de quadros populares de alta qualificação ocorria através da ação direta dos quadros intelectuais nos locais de trabalho, sindicados, bairros e comunidades, associações, igrejas e organizações diversas; ou de entidades de assessoramento, como o DIEESE.

Lula e uma geração de sindicalistas brilhantes tiveram importante influência na sua formação de intelectuais do DIEESE, assim como de quadros das organizações de esquerda e da igreja, na sua formação.

Essa rede de pequenas ações, interligadas intencionalmente ou espontaneamente, estabeleceu um imenso complexo de formação de quadros, que foi importante nas lutas contra a ditadura, no reestabelecimento da democracia e na formação dos partidos progressistas. Era um complexo com fios ligando diretamente às universidades.

COM OUTRAS PRIORIDADES A ESQUERDA DEIXA UM VÁCUO

Após a segunda metade dos anos 1980, outras prioridades políticas afastaram as organizações progressistas do projeto de formação quadros de vanguarda em conexão com as universidades. As exceções, que confirmam a regra são o trabalho do PCdoB no movimento Estudantil, que formou alguns dos melhores quadros que atuam na esquerda atualmente, como Flávio Dino, hoje do PSB; Manuela Dávila e Lindbergh Farias, atualmente no PT; além de umas poucas iniciativas voluntariosas e desconexas.

O hiato de mais de duas décadas não foi responsável apenas pela rarefação de novos quadros no campo progressista, como também para o surgimento de gerações de profissionais alinhados às teses liberais e conservadoras, com grande influência na sociedade. Um exemplo são os médicos brasileiros, que na sua maioria nutrem enorme preconceito pela esquerda, mesmo sem compreender o que é. Em sua maioria os formados em medicina no Brasil se insurgiram de forma vergonhosa contra os profissionais que vieram de Cuba e grande parte deles apoia tratamentos sem comprovação científica contra a Covid19.

Os médicos são apenas um sintoma de uma doença maior, que fez a esquerda perder a hegemonia do pensamento no país: o colapso da formação de quadros de vanguarda e consequentemente da influência ideológica sobre a sociedade.

Aparentemente os partidos de esquerda percebem a carência da renovação de quadros de vanguarda, para enfrentar a guerra ideológica. Porém, a solução encontrada, via as fundações partidárias é medida insuficiente, seja pela restrição do alcance, pois o número de pessoas formadas será pequeno, comparado com o tamanho da necessidade; assim como pela limitação das ideias e temas abordados, que obviamente serão maiores e muito mais diversos no conjunto das universidades brasileiras.

O Brasil enfrenta um dos momentos mais terríveis de sua história e somente dará a volta por cima, de forma sustentável, através do aumento da influência das teses progressistas na sociedade. Para isso, é preciso ampliar, e muito, a capacidade de formulação das ideias, para encontrar novos caminhos e desenvolver a capacidade de convencer a maioria dos brasileiros. Essa meta somente será alcançada com uma política decidida de formação de quadros e a história mostra que este objetivo passa pelos centros de produção do conhecimento, que são as universidades.

Ao invés de desconfiar dos intelectuais; como fez Stalin e com isso comprometeu o futuro do socialismo não somente na União soviética, como no mundo; é preciso valorizá-los, pois são elementos importantes para a construção da sociedade socialista.    

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