O QUE OS MILITARES QUEREM?

O nascimento do exército brasileiro em Guararapes é uma falácia.

O exército brasileiro é uma continuação do exército português, que por sua vez foi criado pelos ingleses, como milícia auxiliar nas guerras contra a Espanha. A Inglaterra apoiou a família Bragança, até então nobres obscuros, na separação União Ibérica e, desde então, Portugal se transformou em semicolônia britânica, situação que perdurou até a Revolução dos Cravos, em 1974.

Países latino-americanos continuam enviando seus oficiais, para cursos na Escola das Américas, mantida pelo Departamento da Defesa dos Estados Unidos

O MITO DE GUARARAPES FOI FABRICADO PELA PROPAGANDA DO ESTADO NOVO

A batalha dos Guararapes, aliás, não foi o que definiu o fim da dominação holandesa sobre o Nordeste brasileiro. Para o padrão mundial da época não passou de uma escaramuça, na qual jagunços, escravos e índios aculturados pelos missionários católicos enfrentaram mercenários a serviços da Companhia das Índias Ocidentais (WIC, na sigla em holandês). Os mercenários estavam desmotivados, porque não recebiam soldo nem alimentos há vários meses, porque a WIC havia simplesmente desistido o Brasil. A companhia holandesa era um empreendimento privado, que media seus projetos como qualquer empresa por ações, lucros ou perdas. O empreendimento no Brasil, após um período muito bem-sucedido, no qual revolucionou o mercado do açúcar no mundo (na época um dos produtos mais lucrativos), com a adoção de novos métodos técnicos e de administração, assim como modelos modernos de financiamento, passou a gerar sucessivos prejuízos para a WIC.

As perdas eram causadas principalmente pelo comportamento “caloteiro” dos produtores brasileiros de origem portuguesa. A WIC concedeu vultosos empréstimos aos senhores de engenho, para que modernizassem e aprimorassem seus meios de produção, a fim de melhorar a qualidade do açúcar e aumentar as exportações. A maioria dos fazendeiros brasileiros simplesmente não pagava os empréstimos. Quando a administração holandesa impôs sanções de exportação aos inadimplentes, os caloteiros passaram a contrabandear seu açúcar via a Bahia, território sob domínio português.

A WIC poderia facilmente estancar o vazamento, ocupando Salvador. A marinha dos países baixos tinha força para isso, porém a geopolítica europeia havia aproximado Holanda e Portugal, em uma aliança contra a Espanha, ainda uma grande potência.

Medindo a contabilidade de perdas e ganhos, a WIC concluiu que o Brasil não era um bom negócio e iniciou um processo normal nas empresas de passar para a frente um ativo deficitário, obtendo os maiores lucros possíveis na operação. A solução encontrada foi vender o Nordeste brasileiro aos portugueses, recebendo em troca uma fortuna em dinheiro e as melhores colônias portuguesas na Índia, além de um porto no próprio território português.

Em valores atuais, o montante equivaleria a cerca de R$ 3 bilhões. O cálculo foi feito por Sam Williamson, professor de economia da Universidade de Illinois, em Chicago, nos Estados Unidos, e cofundador do Measuring Worth, ferramenta interativa que permite comparar o poder de compra do dinheiro ao longo da história.

Segundo o historiador Cabral de Mello, que é especialista no período de domínio holandês, “Portugal teve de pagar 10 mil cruzados (moeda da época) aos holandeses. Também fez parte do acordo a transferência do controle de duas possessões territoriais portuguesas na Índia ─ Cranganor e Cochim ─ e o monopólio do comércio do Sal de Setúbal (matéria-prima importante para a indústria holandesa para a salga do arenque)”.

Prova de que a WIC poderia se manter no Nordeste, caso quisesse, foi o bloqueio naval do Rio Tejo e ameaça de invasão de Lisboa, em 1661, até que Portugal iniciasse o pagamento das parcelas acordadas.

MISSÃO MILITAR FRANCESA FOI PONTO FORA DA CURVA 

A mitologia inventada no período getulista, para fabricar o Brasil, convenientemente “esqueceu” do detalhe da transação entre Holanda e Portugal, que é crucial para a história da “libertação” do Nordeste.

O exército brasileiro, portanto, nasceu como uma continuidade da armada terrestre portuguesa. Com a fuga da corte portuguesa para o Brasil, a marinha britânica transferiu as melhores tropas de Portugal para colônia, onde teriam a missão de combater interesses franceses a serviço da Inglaterra. Com este objetivo foram organizadas duas expedições, nas quais as forças lusitanas foram transportadas em navios britânicos; a invasão do Uruguai, para impedir que barcos franceses tivessem abrigo nos portos do Rio da Prata a tomada da Guiana Francesa.  

Com a Independência do Brasil, as forças armadas mantiveram a herança portuguesa de submissão à potência dominante. O núcleo principal do exército brasileiro se manteve nesta linha até a Primeira Guerra Mundial, porém a repressão interna sempre contou com o apoio de tropas de jagunços dos coronéis regionais – que vieram a constituir as polícias militares dos estados.

A Primeira Guerra Mundial marcou o começo do naufrágio do mundo eurocentrado. As ondas sísmicas do desastre europeu se espalharam pelo mundo e forçaram as elites à reflexão.

No Brasil as conclusões sobre a modernidade do conflito se juntaram à decepção com os desastres, em campanhas internas de repressão contra miseráveis praticamente desarmados – Canudos (1896 e 1987) e no Contestado (1912 a 1916).

No final da Primeira Guerra Mundial, os comandantes militares convenceram o governo oligárquico da República Velha a investir na modernização do exército brasileiro. Isso resultou em um acordo com a França, país que de fato foi o grande vencedor do conflito nos campos de batalha, para o envio de especialistas que teriam a missão de formar a nova oficialidade do Brasil. A chamada Missão Militar Francesa chegou ao Brasil em 1920 e permaneceu até 1940, quando a França se rendeu, na Segunda Guerra Mundial.

A geração formada pela Missão Militar Francesa foi um ponto fora da curva.

Os franceses introduziram a geopolítica, o racionalismo, a ciência na formação dos militares brasileiros, mas infelizmente também inocularam o vírus de um nacionalismo autoritário.

O autoritarismo foi consequência da forte influência do positivismo, uma corrente filosófica muito prestigiada pelos oficiais da França, que pregava um regime político no qual as nações deveriam ser governadas por uma elite de sábios, que visava o bem comum – o que é provavelmente um reflexo do platonismo.

SURGE O TENENTISMO

Os militares brasileiros, que tiveram mestres franceses, se dispersaram em diferentes matizes políticos, indo da esquerda, como Prestes, à extrema direita, a exemplo de Filinto Müller. Porém, no conjunto desencadearam um terremoto político e social, que contribuiu para transformar decisivamente o Brasil. Os “jovens turcos”; como eram também chamados, em alusão a um movimento semelhante, que havia ocorrido no Império Otomano, na virada dos séculos XIX e XX; participaram ativamente dos processos de modernização do Brasil.

O marco da influência dos “jovens turcos” brasileiros foi o levante do Forte de Copacabana, iniciando o movimento tenentista, em 1922. O levante obteve substancial apoio das populações urbanas e provocou forte agitação nos quartéis. Ocorreram vários levantes militares ao longo da década de 1920, até que os tenentes aderiram à Revolução de 30, comandada por Getúlio Vargas. Muitos oficiais do movimento integraram o governo do novo regime.  

Antes do governo Vargas, o Brasil ainda era, na prática, uma colônia semifeudal, comandada por uma aristocracia subserviente aos interesses das grandes potências, principalmente ao Império Britânico, que exportava as commodities agrárias, produzidas em regime se semiescravidão. O café, produzido principalmente em São Paulo dominava mais de 40% da pauta de exportações, vindo a seguir o açúcar, o algodão e produtos naturais da selva Amazônica, tendo destaque a borracha. O minério de ferro começava lentamente a ter importância econômica,

Vargas, assessorado pelos oficiais formados pelos franceses, introduziu várias reformas para consolidar a unidade de um país segmentado em vários territórios, controlados pelas oligarquias latifundiárias, com pouquíssima presença do poder central. Entre as novidades introduzidas pelo governo varguista, uma delas foi a invenção de uma mitologia nacional, para despertar o  nacionalismo ainda rarefeito antes dos anos 1930. Obviamente a mitologia oficial foi criada a partir da história real do país, com alguns episódios ressaltados e levados à condição épica, e outros relegados.

Guararapes foi um desses mitos, a inconfidência mineira acabou sendo reescrita com tons mais heroicos (foi outro movimento de sonegadores), assim como as batalhas da Guerra do Paraguai (que omitiram a selvageria dos massacres de mulheres e crianças). O mesmo ocorreu com diversos outros sinalizadores da brasilidade, não só no campo histórico, como também religioso. Foram eleitos os heróis, enquanto artistas e intelectuais inventavam o brasileiro. O samba foi exaltado (o que é muito bom), surgiu um novo teatro com temas brasileiros, que influenciaram o cinema mais popular da história brasileira, as chanchadas. Enquanto isso, intelectuais inspirados por Gilberto Freire descobriam o brasileiro, um povo fruto de mistura racial, mais alegre, esperto e superior em vários aspectos.

Junto com as reformas sociais e econômicas, este foi com altos e baixos o Zeitgeist do Brasil entre os anos 1930 até 2016. O golpe de 2016 quebrou esta trajetória. Vamos explicar.

A GENESE DA REVIRAVOLTA

A semente que estabeleceu uma profunda mudança na percepção do Brasil pelos próprios brasileiros, incluindo aí as suas elites pensantes, ocorreu no longínquo ano de 1940, quando a França foi derrotada na Segunda Guerra Mundial e foi obrigada a retirar sua Missão Francesa do país.  

Após esse episódio, o Brasil iniciou o giro de suas antenas da Europa, para os Estados Unidos.

O primeiro sinal da influência cultural estadunidense, que iria crescer com o tempo, foi na formação das forças armadas, que mandaram um contingente para lutar ao lado dos Aliados contra o nazifascismo.

A preparação dos militares brasileiros pelos estadunidenses começou na própria Itália, se limitando inicialmente ao fornecimento de uniformes, armas, veículos e ao treinamento técnico, para utilização dos novos equipamentos.

A doutrina militar continuou sendo a mesma que havia sido ensinada pelos franceses e, em combate, se revelou superior à dos EUA. Um general, que integrou como capitão de artilharia a Força Expedicionária Brasileira (FEB), a divisão que combateu na Itália, conta que as baterias do Brasil precisavam de apenas dois tiros, para acertar toda a carga posterior no alvo, o que era fruto do ensinamento de física balística pelos franceses. Segundo ele, a artilharia estadunidense sempre disparava intensamente uma carga poderosa, muitas vezes sem acertar um disparo no alvo. 

Com o fim das hostilidades, já na estratégia da Guerra Fria, os EUA perceberam que seria mais fácil e racional exercer seu domínio sobre a América Latina, que consideram “seu quintal”, utilizando os próprios exércitos dos países do continente. A providência central foi cooptar os chefes das forças armadas latino-americanas, para o cumprimento da missão determinada pelos EUA. Para isso, fundaram a Escola das Américas, no Panamá.

A Escola das Américas (School of the Americas), fundada logo após a Segunda Guerra, em 1946, é mantida pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Em 1961, assumiu oficialmente que seu propósito é a “formação anticomunista”, seja lá o que foi isso. A Escola treinou vários ditadores latino-americanos e incluiu o uso de tortura em seu currículo. Em 2001 foi renomeada Western Hemisphere Institute for Security Cooperation (WHINSEC – Instituto do Hemisfério Ocidental para a Cooperação em Segurança). Em 1984, a escola mudou sua sede para Fort Benning, Columbus, Geórgia, EUA. Na Escola das Américas não há nenhuma preocupação com o ensino da arte da guerra convencional, que é a preparação para a defesa de um país contra agressões. O único assunto ensinado é a repressão contra os compatriotas dos participantes.

OS GOLPISTAS DE 1964 AINDA ERAM FRANCESES

O golpe de 1964, atendeu à oligarquia brasileira, que mantinha a mentalidade anterior a 1930, mas também foi fruto do interesse geopolítico dos EUA. Os militares, na sua maioria anti-esquerda, embarcaram na aventura, porém tinham visões distintas da oligarquia. Havia setores militares que reprimiam um ressentimento surdo com a política estadunidenses, que proibia o país de adquirir equipamentos modernos desde o fim do conflito mundial. 

Na Guerra, os Estados Unidos forneceram as armas mais modernas da época ao Brasil. Mas depois foi somente sucata obsoleta. Para piorar o mal-estar, o Departamento de Defesa dos EUA autorizou a venda de armas modernas para a Argentina, principalmente caças. A venda aos argentinos tinha a intenção de convencer aquele país a abandonar seu projeto de produzir localmente equipamento moderno.

Na época os portenhos tinham capacidade técnica para tal. De acordo com o pesquisador Rodolfo Almeida e Gabriel Zanlorenssi, na primeira metade do século 20, a Argentina era um dos países mais ricos do mundo, com grande produção de matérias-primas. O país chegou a ter uma renda per capita superior à dos Estados Unidos.

Com a liberação da venda das armas mais avançadas para as Forças Armadas argentinas, o país renunciou à fabricação própria, decisão que se mostra até hoje um terrível erro geopolítico e histórico. Após a Guerra das Malvinas, a Argentina sofre persistente proibição para a compra de equipamentos dos países da União Europeia e dos Estados Unidos, o que faz de sua capacidade militar das mais frágeis da América Latina.

Os militares no comando do golpe de 1964 eram integrantes das últimas gerações formadas pela Missão Militar Francesa. A grande maioria mantinha o espírito nacionalista e forte rejeição à velha oligarquia agrária, que tinha grande peso na política brasileira. Suas relações eram mais próximas ao capitalismo industrial, que na época se fortalecia no país.

Desta forma, os militares se recusaram a cumprir o combinado de entregar o poder à oligarquia, e se instalaram no governo.

No poder, os formados pelos franceses demonstraram desde o início autoritarismo, pragmatismo, nacionalismo e desenvolvimentismo tosco, que não previa a sustentabilidade.

Enquanto atuavam cautelosamente para estabelecer o seu poder, os militares aceitaram enviar tropas para participar da agressão dos EUA à pequena República Dominicana, em 1965.

A consolidação dos militares no controle do país não foi um processo tranquilo. As estranhas mortes de Castelo Branco e Costa e Silva, os mais alinhados com a oligarquia, são fatos que indicam atritos internos.

Afastados os dois marechais, líderes do golpe, oficiais oriundos do Rio Grande do Sul passaram a dominar o cenário. A fronteira gaúcha com a Argentina abriga as mais poderosas formações militares do Brasil.

O AUTORITARISMO PRAGMÁTICO

Com os gaúchos, o autoritarismo endureceu, mas o nacionalismo, o pragmatismo e o desenvolvimentismo tosco passaram a orientar o governo.

Uma série de decisões de cunho geopolítico foram reposicionamento a diplomacia do Brasil. O país não rompeu a aliança com o “Ocidente” contra o comunismo, porém os generais comandados por Médici, Geisel e Golbery do Couto e Silva demostraram desconforto em aceitar automaticamente o papel determinado pelos EUA, para o Brasil.

A primeira decisão importante foi a recusa em mandar tropas para o Vietnã. Depois houve o reconhecimento da China imediatamente após os EUA, enquanto os europeus ocidentais ainda estavam confusos com a reunião entre Nixon e Mao.

Na sequência veio o estabelecimento de relações diplomáticas com as ex-colônias africanas de Portugal, atitude que contrariou os desejos de Washington. Os Estados Unidos também se decepcionaram com o tratado nuclear com a Alemanha e o rompimento do Acordo Militar Brasil-EUA, que significava o abandono da política de equipar as forças armadas com sucata obsoleta dos EUA.

O Brasil dos generais formados pelos franceses fez acordos de transferência tecnológica, para fabricar em instalações nacionais os fuzis FAL, as fragatas classe Niterói, os submarinos U 209 (classe Tupi), comprou os Mirage da França, transformou o Brasil em um dos maiores produtores de blindados sobre rodas (Cascavel e Urutu) e capaz de desenvolver tanques sobre esteiras de primeira linha (Osório).

Um grande programa de obras, semelhante ao dos tempos JK, foi iniciado e legou ao país várias obras úteis, outras faraônicas. A ciência recebeu incentivos e cientistas brasileiros avançaram no ciclo atômico e, apesar dos atritos e tentativas de enquadramento das universidades, a produção acadêmica e científica registrou avanços.

A CRISE DO PETRÓLEO ABALOU OS GENERAIS

As crises conjugadas dos anos 1970 e 1980, eurodólares, petrodólares, a derrota dos EUA no Vietnã, assim como a ampliação de democracia nos países ibéricos e na América Latina, além da queda dos últimos redutos coloniais na África, provocaram uma ebulição econômica e política mundial, o que acirrou as contradições internas no Brasil, criando uma situação caótica de crescimento da penúria e cobranças democráticas, que os militares não tiveram capacidade de administrar.

O crescente isolamento interno e mundial, aliado aos desastres econômicos e administrativos, além da mais absoluta incapacidade de fazer política, levaram ao estabelecimento das condições políticas, para a remoção dos militares do poder.

Os militares, então, foram obrigados a sair do poder.

Diferente do que ocorreu com as ditaduras em outros países da América Latina, onde os militares foram escorraçados dos governos, no Brasil houve um processo de negociações e os políticos aceitaram estabelecer um acordo de anistia que incluía dos crimes cometidos por pessoal das forças armadas.

Os militares saíram do governo e passaram a viver pacificamente no ócio esplêndido dos quarteis, onde cultivaram silenciosamente, durante décadas, um terrível ressentimento pela sua expulsão da política.

A FALÊNCIA DO RACIONALISMO

Os militares que se enfurnaram nas casernas, nos anos 1990, eram bastante diferentes daqueles da geração de 1964. Desta vez eles eram inteiramente formados de acordo com a doutrina da Escola das Américas, onde, como mencionado, eram doutrinados no anticomunismo mais primitivo e treinados para reprimir seus concidadãos (e não para defender seus países).

A maioria dos observadores externos imaginava que a corporação estava envergonhada do comportamento primitivo, antidemocrático, da violência e da incompetência revelada nos anos da ditadura.

Foi um engano. Durante os anos de reclusão política, os militares não só adubaram o ressentimento, pelo que consideravam críticas injustas da sociedade, como também viram chegar aos mais altos postos uma nova classe de oficiais, sem o preparo intelectual e o nacionalismo daqueles golpistas que assumiram o poder em 1964. Os novos oficiais formados no padrão da Escola das Américas, foram doutrinados em um anticomunismo primitivo e obsoleto; com uma compreensão da geopolítica limitada e arcaica, ainda presa nos conceitos da antiga Guerra Fria; e a partir de uma visão tosca e deformada de “patriotismo”, que admite um Brasil sem autonomia, submetido a um sistema internacional liderado pelos Estados Unidos. Tecnicamente esta nova geração de militares brasileiros foi preparada para policiar e reprimir a população e não para defender o país.

No primitivismo intelectual dos atuais oficiais brasileiros – que pode ser conferida nas manifestações dos generais Luiz Carlos Gomes Mattos (presidente do Supremo Tribunal Militar – STM), Etchegoyen, Heleno, Vilas Boas, Santos Cruz, Mourão, Paulo Chagas – a maioria da corporação acredita nesta mitológica e maniqueísta luta do bem contra o mal.

Se há oficiais cultos, preparados e com o intelecto mais sofisticado nos quadros das Forças Armadas Brasileiras, como o Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, responsável pelo programa nuclear, eles são uma absoluta raridade e no ambiente de deserto mental ficam calados, para evitar a exclusão ou punição. Ficaram para trás os tempos de oficiais brilhantes como o Marechal-do-Ar, Casimiro Montenegro Filho, os generais Juracy Magalhães e Golbery do Couto e Silva ou o almirante Álvaro Alberto da Mota e Silva.

FORÇAS ARMADAS SÃO DESPREZADAS PELOS LIBERAIS COLONIALISTAS

Após a redemocratização, nos tempos de Collor, Itamar e FHC as forças armadas foram desprezadas. Itamar teve que lidar com uma situação econômica difícil, herdada da ditadura militar e dos delírios do governo Collor. As motivações durante os mandatos de Collor e de FHC foram outras, além da incompetência econômica que caracterizou os dois governos. Ambos concordavam com as teses dominantes pós-guerra fria de que o Brasil deveria se submeter a uma ordem mundial unipolar, dominada pelos Estados Unidos, no qual cada país deveria cumprir uma função econômica, sendo que ao Brasil caberia apenas a exportação de commodities e a importação de produtos industrializados. Neste sistema neoimperialista, países como o Brasil não teriam necessidade de forças armadas, pois a defesa seria responsabilidade exclusiva dos Estados Unidos e seus aliados da OTAN.

Próspera nos anos 1970 e 1980, a indústria brasileira de equipamentos bélicos foi praticamente extinta nos governos Collor, Itamar e FHC. O segmento era um dos mais importantes na pauta de exportação de produtos brasileiros com alto valor agregado. Os equipamentos vendidos em todo o mundo pelo Brasil – inclusive para a França e Reino Unido, que compraram aeronaves militares da Embraer – exploravam o nicho dos compradores que buscavam artigos de alta qualidade por preços baixos. Foi o caso, por exemplo, dos aviões Tucano e Super Tucano, assim como dos blindados sobre rodas da Engesa.

Os brindados Cascavel e Urutu da Engesa provaram sua qualidade em duras batalhas no Oriente Médio. As Forças Armadas da Líbia usaram blindados Cascavel com êxito contra tanques pesados egípcios T-54/55 e T-62 de produção russa em 1977. Na guerra do Iraque contra o Irã (1980 a 1988), os blindados sobre rodas brasileiros destruíram vários tanques pesados de fabricação estadunidense.

LULA VALORIZOU AS FORÇAS ARMADAS

Quando Lula chegou à presidência, a situação dos quarteis era de absoluta penúria. A maioria das instalações militares funcionava em regime de meio expediente, porque não havia dinheiro nem para comprar o rancho (como é chamada a alimentação dos militares).

O governo Lula mudou o cenário. Além de melhorar a situação econômica dos militares, iniciou um dos mais ambiciosos programas de modernização da história. Todas as armas – exército, marinha e aeronáutica – receberam grandes investimentos para adquirir equipamentos modernos, comprados no mercado nacional e internacional, neste caso sempre com a transferência completa de tecnologia. É o caso dos contratos para a aquisição dos submarinos franceses, os blindados da Itália e os caças suecos.

O projeto de modernização iniciado no governo Lula também aqueceu a indústria militar no país. Além dos acordos com fornecedores estrangeiros, que previam a fabricação no país, os produtores que sobreviveram aos anos de penúria voltaram a obter lucrativos de fornecimento para as forças armadas, como foi o caso da Avibras, com a adoção de mísseis de cruzeiro no seu sistema Astros;  Embraer, que lançou o moderníssimo cargueiro C390; e Imbel, que criou, desenvolveu e passou a equipar o exército brasileiro com um dos mais modernos fuzis de assalto do mundo, o IA2. O ambiente favorável levou à entrada de novos players na indústria de armamentos de alta tecnologia, sendo um deles a Odebrecht, que criou algumas empresas para desenvolver equipamentos de alta tecnologia, como a Mectron, para produzir misseis e eletrônicos de monitoramento e transmissão de dados, ou holding que participa do Prosub, responsável pela construção dos submarinos brasileiros, inclusive os de propulsão nacional.   

Sob os governos liderados pelo PT, as forças armadas brasileiras caminhavam para se posicionar entre as mais relevantes do planeta, o que seria importante para a afirmação do país entre as vozes mais ouvidas do mundo e da construção de um mundo multipolar.

BAIXO NIVEL INTELECTUAL DOS MILITARES DA ATUALIDADE DIFICULTA PERCEBER A REALIDADE

Mesmo valorizados pelos governos liderados pelo PT, os militares não aprenderam nada e continuaram presos às velhas doutrinas primitivas anti-intelectuais do tempo da guerra fria. As forças armadas também passaram a financiar para seus oficiais cursos de MBA, que na sua absoluta maioria não passam de cursinhos de formação do neoliberalismo, disfarçados de mestrados de gestão.

A doutrina antiquada da Escola das Américas, somada à formação neoliberal rasteira dos militares brasileiros, fez dos quarteis e clubes de oficiais reformados antros de conspiração contra o PT (e a esquerda em geral), desprezando a valorização que os militares tiveram nos governos do partido. Na prática a doutrina absorvida na Escola das Américas fez as forças armadas brasileiras retrocederam ao padrão da velha herança legada por Portugal. As forças armadas brasileiras, como as portuguesas que lhes deram origem voltaram a ser um braço auxiliar de uma potencia estrangeira. Os portugueses eram auxiliares do Reino Unido, os brasileiros prestam continência aos Estados Unidos.

A princípio, a rejeição dos militares ao PT e à esquerda foi canalizada para sucessivos movimentos de apoio aos candidatos neoliberais, que se apresentavam como a “esperança branca” (parafraseando um termo do boxe estadunidense) contra Lula, depois Dilma. Embora por lei fossem impedidos de participar da política, os oficiais clandestinamente apoiaram Alkmin, Serra e Aécio.

No mesmo espírito apoiaram o golpe contra a democracia de 2016, sendo que desta vez não ocultaram sua participação em um dos mais tristes episódios da história do Brasil.

O governo golpista, dirigido pelo traidor, Temer, iniciou a abertura das portas do governo federal para os militares, nomeando oficiais para ministérios e estatais. O militar mais influente na época foi um dos mais sectários, reacionários e intelectualmente deformados quadros da extrema direita brasileira, o general Sérgio Etchegoyen, cuja família sempre apoiou tudo de ruim politicamente que acontece no país.

CONSPIRAÇÃO COM APOIO DOS MILITARES ERROU A MÃO

A conspiração dos quarteis pretendia levar Geraldo Alckmin a suceder o desmoralizado Temer. Porém, o conluio golpista que provocou uma duríssima guerra hibrida contra a democracia brasileira errou a mão e queimou também a imagem dos principais políticos neoliberais e liberais. A candidatura Alckmin nem chegou a zarpar, naufragou no próprio porto, como a de todos os candidatos da direita.

Ao assistirem a surpreendente ascensão de Fernando Haddad, mesmo com Lula convenientemente preso por uma armação comandada pelo juiz ladrão Sérgio Moro (provavelmente a serviço de interesses de Washington), os militares abandonaram os escrúpulos e se voltaram para aquele que o general Geisel considerava “um mau militar”, o absolutamente desqualificado Jair Bolsonaro, um sujeito que rastejou décadas no submundo do baixo clero, promovendo pequenos golpes e tentando legislar a serviço das milícias criminosas do Rio de Janeiro.  

Atualmente é evidente que a alta cúpula dos militares fez um acordo com Bolsonaro. O que não se sabe é o que foi combinado entre o “mau militar” e o general Villas Boas.

A sinalização e as ações práticas dos militares no apoio a Bolsonaro geraram um movimento, que se consolidou no segundo turno, quanto todo o campo conservador apoiou o amigo das milícias, de maneira envergonhada ou não.

Esse arco de alianças contribuiu para a vitória de Bolsonaro muito mais do que as tão propaladas redes sociais. De fato, elas foram importantes, mas não teriam tido tanto sucesso se não ocorresse a sanção dos aparelhos de produção cultural e de informação dominados por vários atores sociais, que participaram do processo.

Com isso, até as fakenews foram ratificadas, por centros de produção cultural, como a Rede Globo; tiveram a chancela de organizações religiosas e de políticos como João Dória e Romeu Zema, que concorriam aos governos de São Paulo e Minas Gerais, respectivamente.

GENERAIS AJUDAM O MAU MILITAR A CHEGAR AO PODER

Os aparelhos clandestinos das forças armadas também contribuíram, para dar credibilidade à narrativa bolsonarista, especialmente no que se refere a apagar da história o desmoralizante processo que levou à exclusão do militar acusado de terrorismo e insubordinação do exército. Entre os documentos que o exército procurou fazer com que fossem esquecidos há um laudo psicológico, que define o candidato miliciano como problemático.

Os documentos do exército definem Bolsonaro como “dono de uma excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente”; e ainda que ele “deu mostras de imaturidade ao ser atraído por empreendimento de ‘garimpo de ouro’, (…) com “grande aspiração em poder desfrutar das comodidades que uma fortuna pudesse proporcionar” (…) e que teria “confirmado sua ambição de buscar por outros meios a oportunidade de realizar sua aspiração de ser um homem rico”. O documento define Bolsonaro como imaturo e que ele “tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos”.

A ILUSÃO DA TUTELA

Como vários atores políticos, os militares também acreditaram que Bolsonaro poderia ser tutelado devido ao seu baixíssimo nível intelectual e absoluta falta de habilidade de gestão. Para ter certeza de que o projeto de conquista do poder não teria falhas, os chefes militares através do comandante do exército, o general Villas Boas, combinaram com Bolsonaro que ele faria uma terapia psicológica.

Com tudo combinado, Bolsonaro ganhou as eleições e montou o seu gabinete com ampla presença militar.

Desde então, ocorreram vários conflitos entre os militares e as diferentes alas que constituíram o governo boçalnaristas, principalmente a autoproclamada “ala ideológica”. Essas rusgas levaram a baixas de ambos os lados, porém a “ala ideológica” perdeu quadros menores, enquanto os militares padeceram o expurgo de alguns de seus oficiais mais importantes: Maynard Marques de Santa Rosa, Carlos Alberto dos Santos Cruz, Franklimberg de Freitas, Juarez Cunha, João Carlos Jesus Corrêa e Marco Aurélio Vieira.

Bolsonaro contrabalançou a exoneração de militares respeitados, que se recusaram a cumprir ordens absurdas, com o inchamento da União com a nomeação de oficiais menos influentes para diversos cargos no governo ou nas estatais. Atualmente há quase sete mil militares em diversos postos do Governo Federal, onde gozam de poder, vantagens e remunerações inéditas nas suas carreiras.

Paralelamente, Bolsonaro submeteu as forças armadas às humilhações institucionais mais graves da história, como a exoneração do Ministro da Defesa; a substituição intempestiva dos comandantes dos três ramos das forças armadas; e mais tarde obrigou o exército a se ajoelhar e não punir o general Eduardo Pazuello, que ostensivamente desobedeceu ao regulamento da corporação e cometeu indisciplina grave.

Já é obvio para todos os atores políticos do país, mesmo aqueles que acompanharam Bolsonaro desde os primeiros passos de seu projeto presidencial, que o presidente ligado às milícias não admite ser tutelado, rejeita conselhos racionais e se nega a cumprir combinados. Os militares, mesmo os que se mantiveram no governo, estão absolutamente cientes de que entraram em uma cilada.

DIFICULDADE DE LARGAR AS SINECURAS

Mesmo com grande desconforto, os militares ocupam mais espaço no governo do que tinham durante a ditadura e muitos mudaram seu padrão de vida graças aos cargos que ocupam.

Jornalistas com fontes nas forças armadas garantem que há desconforto entre os militares, porém eles não pensam em largar o osso. Com isso surgem discussões sobre manter um governo neoliberal, no qual os militares tenham influência, sem Bolsonaro.

Alguns sinais apontam nesta direção. Após as crises da mudança do comando e de engolir a insubordinação de Pazuello, os militares estão tentando se afastar do palco onde a política e os fatos ocorrem. Heleno desapareceu e há informações de que padece de grave depressão psicológica. Os ministros da defesa e casa civil se limitam a cumprir suas funções, procurando facilitar as reformas neoliberais, mas não fazem pronunciamentos públicos há algum tempo e evitam ser vistos nas viagens de Bolsonaro.

Neste cenário obscuro, o vice-presidente Mourão tem garantido em diversas ocasiões que não participa do governo Bolsonaro, portanto não é cumplice dos desacertos do Planalto. O vice é considerado por alguns círculos políticos como parte da solução para o neoliberalismo sem Bolsonaro.

Além de desequilibrado, o que prejudica os negócios da oligarquia agrária e financeira, as pesquisas sugerem que Bolsonaro sofreria uma derrota avassaladora para Lula, no primeiro turno, em 2022. O atual presidente, desta forma, além de problemático, nem mesmo seria capaz de assegurar a continuidade do projeto neoliberal.

NOVO GOLPE PREJUDICA OS NEGÓCIOS

As oligarquias e os militares têm dificuldade em aceitar a possibilidade de um golpe armado, como é o desejo de Bolsonaro, pois isso aumentaria o isolamento do país, o que não é bom para os negócios e nem para a geopolítica do patrono internacional ao qual os militares se submetem, os EUA.

O melhor dos mundos para esses dois setores – militares e a oligarquia – seria a eleição de um representante da direita liberal em 2022. Bolsonaro no poder é um obstáculo para este projeto, pois ocupa o espaço eleitoral à direita e o antibolsonarismo é um antidoto para o antipetismo.

Portanto, para a oligarquia e os militares a garantia da permanência do neoliberalismo geopoliticamente submisso no Brasil dependeria do afastamento de Bolsonaro da cena política antes das eleições de 2022. Nos cálculos da direita neoliberal, o banimento do genocida abriria o espaço para o surgimento de uma candidatura alinhada politicamente com seus interesses econômicos e geopolíticos. Esta candidatura, de acordo com os planos do capital financeiro e do agronegócio, cresceria e teria grande chance de ganhar as eleições, impulsionada pela fabricação de uma nova onda de estímulo ao antipetismo.

O NEOLIBERALISMO TOSCO SEM BOLSONARO

Para estabelecer este cenário é preciso afastar Bolsonaro, preservando Mourão, que ficaria responsável por assumir a máquina do governo e colocá-la a serviço do candidato liberal.

Este cenário somente poderia ser estabelecido com o impeachment de Bolsonaro.

Muitos consideram o impeachment uma possibilidade remota, acreditando que Arthur Lira e o centrão são uma blindagem suficiente para afastar essa possibilidade.

No entanto, Lira e o centrão estão na política par fazer negócios. Seus votos dependem do valor que a oligarquia está disposta a pagar por eles. E ninguém detém tanto dinheiro no país, como os banqueiros, agiotas e o agronegócio. Se a oligarquia conseguir estabelecer um acordo, não faltará dinheiro para comprar o centrão.

O comportamento de Mourão, que ficou longo tempo em silêncio e agora volta a falar insistentemente, é um sinal de que há movimentos tectônicos ligando Campo Grande (a capital do agronegócio), a Faria Lima, o Jardim Botânico (sede da Globo) e o Forte Apache (quartel general do exército). O sumiço dos militares palacianos também é um sintoma do clima de conspiração que aquece Brasília neste inverno.

FALTA COMBINAR COM OS RUSSOS

É um grande jogo de xadrez e a esquerda, comandada por Lula também faz seus movimentos, até agora bem-sucedidos, como indicam as pesquisas e o reconhecimento da inocência do ex-presidente. Todos os processos contra Lula caíram, por parcialidade no julgamento,  ou foram extintos devido à falta de provas. Por outro lado, os números das últimas pesquisas sugerem que o candidato petista pode vencer por 56% dos votos válidos no primeiro turno.

Entretanto o jogo ainda está sendo jogado. Do lado jurídico Lula está bem protegido, não há como impedir a candidatura do ex-presidente por este lado. Porém, apesar da consistente tendência das séries históricas, as pesquisas não são absolutas e diversas variáveis podem mudar o humor da população.

A mídia continuará tendo um papel importante e caso a direita liberal indique um candidato, seus veículos se unirão em torno do escolhido e voltarão a mirar sua artilharia contra Lula.

Por enquanto, abrir espaço para Lula faz parte do jogo. A “ameaça” Lula unifica a direita e fortalece o projeto do afastamento de Bolsonaro.

Parte do jogo será jogado agora nas ruas. A esquerda já fez duas manifestações com muito sucesso e a direita aprendeu que um processo de impeachment depende da força das ruas. Portanto, a direita liberal também já fala em convocar suas bases para as ruas.

CONVENCER A MAIORIA É DECISIVO

A discussão das cores nas manifestações pode parecer esdruxula. No entanto a representação simbólica faz parte das técnicas de projeção de mensagens nos grandes ambientes sociais. A militância sempre critica a fragilidade da comunicação da esquerda. Mas não compreende que os fundamentos da comunicação são muito mais sofisticados do que o controle dos meios de reprodução cultural (a mídia) e o domínio doa algoritmos.

O que de fato importa é a capacidade de produzir um efeito psicológico na formação do imaginário, coisa que é determinada pelos conteúdos difusos. Para convencer grandes populações é preciso parecer que não se pretende mudar convicções e, desta forma, é necessário utilizar sinais compreensíveis, que tenham sentido para os grupos sociais e que pareçam confirmar as suas convicções arraigadas. Assim os signos serão assimilados com mais facilidade pelos grupos sociais e, a partir da sua aceitação podem ser gerenciados em diferentes direções.

A direita liberal estuda o poder da comunicação, para exercer o domínio cultural desde 1920, a partir de experiencias ocorridas na Europa e nos Estados Unidos, para justificar a mortífera guerra contra as potências centrais.

A esquerda chegou a desenvolver uma impressionante e competente comunicação no processo da Revolução Russa e da guerra civil que veio na sequência, porém a partir do final da década de 1920, esta experiencia foi abortada em benefício do psicologicamente ineficiente realismo socialista, que vigorou na União Soviética até a queda do regime.

Quando a direita liberal não bolsonarista pede aos seus apoiadores para irem às ruas de verde e amarelo, há uma mensagem simbólica com forte efeito psicológico, pois é fundamentada mais de um século da sedimentação cultural iniciada no Governo Vargas, que fabricou o Brasil e o amor pelo país. Desta forma, a direita liberal  quer sinalizar que eles estão “a favor do Brasil”. Assim, querem se diferenciar da esquerda, que através do vermelho parece sinalizar para o conjunto de uma sociedade, malformada e confusa, que não está a favor do Brasil e sim de um projeto político específico, que a maioria não compreende.

OS TRÊS CENÁRIOS PROVÁVEIS

A discussão da comunicação, portanto, é importante agora quando o tabuleiro para as eleições de 2022 está sendo preparado.

Há três alternativas:

O Partido Militar engole sapos, se unifica em torno de Bolsonaro e viabiliza um esquema com o centrão, para levar o atual presidente às eleições, nas quais ele, mesmo desgastado, ainda entrará com força, tendo por base seus apoiadores mais fundamentalistas, que constituem pelo menos 20% do eleitorado. Neste caso, estaria afastada a possibilidade de uma candidatura da direita liberal, pois Bolsonaro bloquearia as possibilidades desta terceira via chegar ao segundo turno. É um cenário que beneficia Lula, pois o crescente antibolsonarismo poderia pavimentar um acordo amplo, para derrotar o atual presidente.

Outra possiblidade é o Partido Militar buscar sua continuidade no poder sem Bolsonaro. Desta forma, haveria uma unificação dos militares em torno do General Mourão e a adesão clandestina à conspiração pelo impeachment do atual presidente. Os indícios de que esta possibilidade pode estar em curso são os já mencionados sumiço dos generais governistas da cena política e a nova onda de entrevistas de Mourão, após um período de ausência, nas quais ele procura sinalizar que não participa do governo Bolsonaro. Para viabilizar esta possibilidade os militares teriam que negociar com o centrão e com os principais financiadores da política brasileira, o sistema bancário-financeiro e o agronegócio, primeiro com o objetivo de obter o impeachment e em segundo lugar para estabelecer uma candidatura viável, pois o atual vice é frágil eleitoralmente. Nesta composição, Lula ainda teria grandes chances de vitória, principalmente se a economia que realmente importa à maioria da população continuar no descompasso atual, mantendo altas taxas de desemprego, informalidade cruel, inflação acelerada, crescimento da miséria e volta da fome. O auxílio emergencial somente poderá suavizar este cenário caso atinja uma grande amplitude o que exige um volume imenso de recursos. Mas, aparentemente não há consenso nos sócios financeiros da conspiração quanto ao desembolso de tanto dinheiro assim.

O terceiro cenário visível nas nuvens tempestuosas do futuro, seria um grande acordo da direita para afastar Bolsonaro e derrotar Lula. Neste caso o Partido Militar ampliaria seu leque de acordos, indo além do centrão e dos poderes econômicos dominantes, buscando também incluir os segmentos da centro-direita liberal, representados pelo PSDB, os escombros do capital industrial, os interesses estrangeiros (principalmente o sistema financeiro internacional e a geopolítica dos EUA), o baronato da velha mídia e as corporações públicas de elite, como o judiciário, o MPF, a Polícia Federal, executivos das estatais e dos bancos públicos e outras categorias da plutocracia. Neste caso, os militares teriam que ceder algum espaço no governo, mas ainda manteriam grande poder estatal (que incluem os privilégios financeiros corporativos). O resultado seria uma frente ampla liberal contra Lula, ressuscitando o velho antipetismo e o discurso de que o PT governa em causa própria e não pelo Brasil. Seria o cenário mais difícil para uma vitória de Lula.

É PRECISO DISCUTIR A QUESTÃO DAS FORÇAS ARMADAS

Em qualquer das hipóteses a esquerda precisa criar vacinas contra os argumentos falsos, porém de fácil assimilação popular que serão lançados contra o partido, para ressuscitar e alimentar o antipetismo. É preciso mostrar nas ruas e na comunicação que a esquerda é o centro da luta contra o bolsonarismo e faz isso pelo Brasil os brasileiros.

Mas, como se vê, em qualquer dos cenários prováveis, o papel dos militares na política é central. Se os militares inspirados pelo tenentismo – na maioria e apesar das diferenças políticas – cultivavam o nacionalismo e, consequentemente, o desenvolvimentismo (embora autoritário e tosco, porque não se preocupavam com a sustentabilidade); os atuais estão mais atraídos pelas vantagens materiais, acreditam acriticamente no neoliberalismo mais grosseiro e são intensamente doutrinados por uma visão rebaixada, que submete o Brasil a uma ordem mundial controlada pelos Estados Unidos.

A participação dos militares na política é inconcebível em qualquer país civilizado e democrático. Esta regra básica dos estados civilizados é aprofundada no Brasil, pois aqui nada se pode esperar dos militares. Além das distorções da rasa formação, que os leva a atuar contra o país, a corporação revelou impressionante incompetência. A espinha dorsal do governo Bolsonaro são os militares e nunca a administração publica brasileira atingiu um nível tão baixo de qualidade.

Nos anos Lula e Dilma, a questão militar foi relegada a segundo plano. Lula acreditou que o projeto de modernização das Forças Armadas – parte de um projeto de nação, desenvolvido no seu governo – era um grande benefício aos militares. Foi um engano, porque os militares brasileiros há décadas substituíram a missão de defender o país, pelo policiamento de seu próprio povo a serviço de uma potência estrangeira. Militares que aceitam esta condição, obviamente são muito sensíveis à possibilidade de riqueza material.

Militares assim não servem para o país.

Portanto, desde agora, quando está sendo preparada a campanha de 2022 e o programa de salvação do Brasil, a questão militar deve ocupar um dos pontos centrais da discussão. A formação dos militares é questão estratégica para o país. Deixar de lado o tema – mesmo com uma eventual estrondosa vitória de Lulas nas próximas eleições – seria apostar mais uma vez na história de um golpe anunciado.       

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