O QUE FERNANDO HENRIQUE CARDOSO QUER

Fernando Henrique Cardoso (FHC) foi uma das personalidades mais importantes para a implantação do que se convencionou chamar de neoliberalismo no Brasil, seja na sua trajetória intelectual ou política. Entender a trajetória do sociólogo, contribui para a compreensão da mudança da concepção de país; que desde a Era Vargas desenvolvia um dos mais bem sucedidos programas de nacional desenvolvimentismo e rompimento com a dependência do mundo e, a partir dos anos de 1980, girou para as teses formuladas no que ficou conhecido como consenso de Washington. Essa inversão de rumo fez o Brasil abandonar a política desenvolvimentista e nacionalista, que levou o país a entrar no clube das maiores economias do planeta. Em lugar da política soberana e desenvolvimentista, o Brasil adotou  uma nova orientação política e econômica, que abria mão de grande parte da soberania e aceitava o status de país semicolonial, dependente de uma potência estrangeira.

FHC foi o maior sucesso da Fundação Ford, ao se tornar presidente do Brasil

TRAJETÓRIA DE FHC

Fernando Henrique Cardoso (FHC) foi uma das personalidades mais importantes para a implantação do que se convencionou chamar de neoliberalismo no Brasil, seja na sua trajetória intelectual ou política. Entender a trajetória do sociólogo, contribui para a compreensão da mudança da concepção de país; que desde a Era Vargas desenvolvia um dos mais bem sucedidos programas de nacional desenvolvimentismo e rompimento com a dependência do mundo e, a partir dos anos de 1980, girou para as teses formuladas no que ficou conhecido como consenso de Washington. Essa inversão de rumo fez o Brasil abandonar a política desenvolvimentista e nacionalista, que levou o país a entrar no clube das maiores economias do planeta. Em lugar da política soberana e desenvolvimentista, o Brasil adotou  uma nova orientação política e econômica, que abria mão de grande parte da soberania e aceitava o status de país semicolonial, dependente de uma potência estrangeira.

O intelectual e político Fernando Henrique Cardoso foi personagem central no cenário onde ocorreram essas mudanças.

O sociólogo, que chegou a presidente do Brasil, teve uma trajetória acadêmica regular nos anos de 1950. Na época de sua formação as portas das universidades não eram facilmente abertas para qualquer pessoa, principalmente na elitista USP, uma instituição fundada pela oligarquia paulista para dar um verniz cultural ao seu poder econômico. Entretanto, a qualidade do corpo docente da instituição e de suas pesquisas, assim como a visão cosmopolita, que levou a universidade a trazer ao Brasil os melhores cérebros do mundo, logo levaram a instituição a romper com suas amarras iniciais com a elite que a havia criado, para se transformar em um dos maiores centros de produção de conhecimento do planeta.  

Como membro de um clã com tradição militar, com raízes no período imperial, Cardoso não teve dificuldade para ingressar na USP, onde conviveu com alguns luminares da inteligência brasileira, como Florestan Fernandes. Ele concluiu sua formação com um período de estudos na França, como era comum na época a vários intelectuais brasileiros oriundos da elite, que optaram pela carreira acadêmica. Sua tese de doutorado, Capitalismo e a escravidão, não despertou chamou maior atenção.

Após 1964, FHC se autoexilou no Chile. A capital chilena havia se tornado a meca dos intelectuais latino-americanos, atraídos pela Comissão Econômica para a América Latina (hoje Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe – Cepal), cuja sede funciona naquela cidade.

A Cepal, desde a sua fundação pela ONU, em 1948, teve como tema central o debate sobre a superação do subdesenvolvimento, objeto de estudo que levou à concepção da teoria da dependência dos países atrasados com relação aos países centrais.

A maioria dos estudos sobre a dependência indicava a necessidade de uma ruptura com o imperialismo hegemônico, para superar o atraso dos países subdesenvolvidos. Entre as pesquisas mais relevantes sobre este tema na Cepal, estavam os trabalhos de intelectuais brasileiros, como Celso Furtado, Theotonio dos Santos, Ruy Mauro Marini, Luís Fernando Victor, Teodoro Lamounier, Albertino Rodriguez, Perseu Abramo e Vania Bambirra.

Foi somente quando lançou, em 1969, um livro, em coautoria com o chileno Enzo Falleto, com uma visão oposta à teoria da dependência desenvolvida pelos principais estudiosos da Cepal, é que FHC começou a aparecer nos principais círculos acadêmicos.

Em uma explicação sumária, a maioria dos intelectuais da Cepal defendia a ideia de que a dependência é provocada pelo imperialismo econômico dos países ricos, enquanto Fernando Henrique Cardoso e seu parceiro preferem culpar os próprios povos das nações dependentes por seu subdesenvolvimento.

O sociólogo brasileiro e seu parceiro negam que a dependência implica em estagnação econômica e subdesenvolvimento, portanto, a ruptura com o imperialismo não seria, de acordo com eles, a única via possível para a industrialização do continente. Ao mesmo tempo, Cardoso criticou a ideia de dependência, alegando ser a-histórico, fugindo do objetivo da análise, que deveria ser a realidade concreta das diferentes sociedades situadas na América Latina. Desta forma, Cardoso colocou em relevo o papel dos fatores internos na compreensão dos processos estruturais de dependência, desprezando o imperialismo em qualquer uma de suas formas.

Enquanto preparava seu livro, o sociólogo atraiu a atenção dos centros formulação de ideias ligados aos governos dos países centrais, que tinham forte interesse em negar as teorias que responsabilizavam o imperialismo pelo subdesenvolvimento.

Em 1968, antes da aprovação da Lei da Anistia, Cardoso volta tranquilamente ao Brasil. A história diz que o professor foi perseguido pela Ditadura Militar e aposentado compulsoriamente do seu cargo de professor na USP. Esta é uma das várias aposentadorias de FHC.

O sociólogo fundou em 1969 o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e trabalhou também no Centro de Estudos Latino-Americanos da Smithsonian Institution, esta última uma instituição umbilicalmente ligada aos interesses do governo dos EUA.

Em 1969 ocorre um episódio que se revelaria decisivo na trajetória do intelectual. Segundo o jornalista Sebastião Nery, nesta data, “nos escritórios da Fundação Ford, no Rio de Janeiro, FHC teve uma reunião com Peter Bell, o representante da instituição estadunidense no Brasil”.

Segundo Nery, “Peter Bell oferece (a FHC) uma ajuda financeira de 145 mil dólares – em valores de hoje US$ 1.060.686,82, ou R$ 5.303.434,1). Com essa contribuição, nasce o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Desenvolvimento)”.

Nery ainda sustenta que após o primeiro financiamento, a Fundação Ford transferiu à entidade criada por FHC mais de US$ 800 mil dólares, ao longo da década de 1970. Convertido para o valor atual, o Cebrap dirigido por FHC embolsou mais de R$ 30 milhões. Esta versão é comentada nos meios uspianos, porém não há comprovação.

Entretanto é comprovado que a Fundação Ford não contribuiu apenas com dinheiro para Cardoso. Graças às suas novas relações, ele teve as portas abertas em algumas das principais instituições acadêmicas do mundo, como a Universidade de Paris X – Nanterre, Stanford, Berkeley, Cambridge e na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais na França.

Nery com estranheza que a reunião com a Fundação Ford ocorreu dois meses após a ditadura, em tese “financiada, comandada e sustentada pelos EUA”, baixar o AI-5. “Centenas de novas cassações e suspensões de direitos políticos estavam sendo assinadas. As prisões estavam lotadas e Fernando Henrique recebia da poderosa instituição estadunidense uma primeira parcela de 145 mil dólares para fundar o Cebrap”.

O QUE É A FUNDAÇÃO FORD

Documentos desclassificados dos arquivos federais dos EUA confirmaram a antiga suspeita de que a Fundação Ford (FF), como outras ONGs estadunidenses, atuou como braço da geopolítica do Departamento de Estado (responsável pelas relações externas dos Estados Unidos), prestando apoio também à CIA.

A escritora estadunidense no livro “Quem pagou a conta? A CIA na Guerra Fria da cultura”, descreve a Fundação Ford, como uma das instituições recrutadas para “vender melhor a cultura dos EUA aos povos nativos da América do Sul”. 

A aproximação formal da FF com as instituições governamentais de Washington começou em 1948, quando o Governo dos EUA convidou algumas das fundações filantrópicas mais importantes do país, para definir um acordo de atuação conjunta, com vistas a moldar a ordem mundial estadunidense, com ações internas e externas.

A carta programática assumida pela Fundação Ford em setembro de 1950 revela alinhamento com os propósitos governamentais e registrava em seu texto de redação as tensões e perigos que o establishment estadunidense com relação à afirmação internacional dos Estados Unidos e emergência da Guerra Fria.

Na carta programa, a FF atualizou sua missão e definiu que o propósito da instituição seria “estabelecer influência sobre a sociedade, através de seus centros de produção de inteligência, conhecimento e ideologia”.

A partir desta definição a FF estabeleceu o padrão de recrutar para os quadros de sua equipe principalmente contatos dos serviços de informação e órgãos Departamento de Defesa, presidentes de universidades, diretores de instituições acadêmicas e chefes de órgãos de classe. Com esse perfil, a instituição passou a atuar, conforme diz em seus documentos programáticos, com o objetivo de direcionar “seu imenso potencial de recursos e influência para engajar-se nos enfrentamentos entre mundo livre e mundo comunista”.

O foco da Fundação Ford, conforme seus documentos originais seria buscar “afirmar-se institucionalmente por meio do apoio às Ciências Sociais, e das atividades de patrocínio à área”. A proposta da Fundação, para alcançar as metas da “boa sociedade”, era a formação de quadros e sua mobilização para propaganda e debate, com vistas à educação das elites intelectuais que, deveriam ser convencidas a identificar-se com proposta norte-americana de defesa da livre concorrência, igualdade de oportunidades e elevação dos padrões de vida como agenda democrática. Essas elites deveriam ter potencial para interferir nas dinâmicas universitárias, econômicas e governamentais.

A Fundação julgava poder atuar como fiel procuradora em duas áreas consideradas de interesse imediato do governo norte-americano e que estariam demandando ações urgentes: na construção de uma agenda de propaganda, voltada a esclarecer o público norte-americano e comunidade internacional da posição do governo dos Estados Unidos no embate ao “inimigo totalitário soviético”; e no estabelecimento de um modelo de operações para as atividades de inteligência (CIA), para permitir aos operadores da política externa a obtenção, através da Fundação Ford, de informações indisponíveis nos canais diplomáticos.

O acordo informal com o Governo dos EUA, gerou um programa cujo nome fantasia era “estabelecimento da paz”. O projeto tratava especificamente da contribuição da Fundação às demandas do Departamento de Estado. Deveriam ser três os principais esforços da Fundação nessa estratégia de colaboração: fornecer informações de ultramar ao segmento executivo do governo para liberar as ações dele das limitações legislativas, jurídicas e da política doméstica norte-americana (em outras palavras, espionagem); orientar os membros dos comitês executivos das Nações Unidas e de organismos internacionais, para através deles, conduzir os países filiados a estas instituições, na direção da aliança militar liderada pelos Estados Unidos.

Em paralelo, a Fundação Ford seria responsável por uma agenda de longa-duração, visando a formação e treinamento de elites políticas do mundo, para que pudessem vir compor futuramente os quadros executivos nacionais e internacionais – nesse aspecto a chegada de FHC à presidência no Brasil foi um extraordinário sucesso.

A Casa Branca esperava também, no acordo com as fundações, que o público internacional modificasse suas imagens negativas da proposta democrática dos EUA e certos temas afetavam especialmente esse esforço de convencimento. Este propósito gerou o maior programa de falsificação da história de todos os tempos. Um exemplo foi a “Questão Negra”. Os formuladores da instituição, ligados ao Departamento de Estado dos EUA propuseram que “os conflitos raciais, abordados na literatura como um drama das tensões sociais norte-americanas, fossem retrabalhados, especialmente academicamente, para serem apresentados e divulgados como uma expressão saudável de aperfeiçoamento da esfera pública nacional e da democracia estadunidense”.

A Equipe de Pesquisa Externa (ERS), seção do Escritório de Pesquisa de Inteligência (OIR) do Departamento de Estado, foi (ou ainda é) a principal ponte de ligação da comunidade de informações com universidades e organizações não-governamentais, sendo o contato formal da Fundação Ford nessas transações. Mantida e servindo também à CIA e ao Departamento de Defesa, a ERS tinha entre suas responsabilidades concentrar serviços de networking, contratação e disseminação de dados, particularmente de pesquisas de ciências sociais e estudos de áreas externas e sobre problemas do esforço de “guerra psicológica”.

O QUE A FUNDAÇÃO FORD QUERIA DE FHC

Os anos 1970 abriram uma intensa crise nos centros do capitalismo. A história oficial se concentra mais nas questões econômicas, na análise do terremoto do período, porém havia também um forte abalo geopolítico, que ameaçava a hegemonia dos Estados Unidos no autodenominado “mundo livre”.

Como subproduto do cenário mundial, estava se consolidando também um forte de afluxo de ativos de alta liquidez, para os cofres do sistema financeiro – eurodólares, petrodólares, recursos de especulação com a flutuação das moedas e outros eventos – o que conferiu um poder desproporcional a este braço do capitalismo.  

Preocupada com a intensa mudança do cenário inaugurado após a vitória na Segunda Guerra Mundial, a elite Estados Unidos iniciou um movimento de formulação, que pretendia redesenhar o mundo nos aspectos sociais, econômicos e culturais, que viria a ser conhecido como “Consenso de Washington”.

O modelo estabelecido no pós-guerra, que afirmou  da hegemonia dos Estados Unidos sobre as antigas potenciais imperialistas – com exceção da Rússia, transformada pela revolução em União Soviética – teve suas regras definidas na Conferência de Bretton Woods, em 1944. Como resultado das decisões de Bretton Woods, o mundo inteiro foi alinhado pelo dólar, que se tornou o novo padrão monetário internacional. Até mesmo a URSS, que oficialmente estava fora do sistema, na prática assumiu o dólar como meio de troca, para pagar suas importações. Para tanto a União Soviética (segundo Giovanni Arrighi), buscou acumular reservas da moeda estadunidense e depositar em bancos europeus, para facilitar as transações internacionais, o que resultou no fenômeno dos Eurodólares – que posteriormente atraiu ativos líquidos de outros governos e particulares.   

A mudança de rumos teve sua crise sinalizadora (Arrighi) ainda na década de 1960, com o início do desgaste da hegemonia estadunidense, por uma série de fatores.

De acordo com o pesquisador André Novaes, em artigo para a revista Ensaios, edição do 2º semestre de 2008 ( Consenso de Washington: crise do Estado Desenvolvimentista e seus efeitos sociais – um balanço crítico), “o Japão e a Alemanha Ocidental estavam alcançando e ultrapassando os EUA em diversos campos da economia e a superpotência demonstrava dificuldades em desempenhar o papel de polícia da democracia. A Guerra do Vietnã provocou sérias consequências econômicas, políticas e sociais. No auge deste conflito, os EUA apresentaram déficits orçamentários e comerciais preocupantes. Para evitar a implosão da sua economia, o presidente Nixon rompeu unilateralmente, com o sistema fixo de câmbio e com o padrão dólar-ouro, um dos pilares do Acordo de Bretton Woods”.

Outro dado relevante para o quadro de crise que se abate sobre os “anos gloriosos do capitalismo” foi o choque do petróleo em 1973. A Organização dos Países Produtores de  Petróleo (OPEP) aumentou os preços deste insumo, além de os árabes terem decidido pelo embargo à exportação desta matéria-prima para o Ocidente durante a Guerra Árabe-Israelense de 1973.

Enquanto o mundo capitalista sofria abalos, nos anos 1979, o sistema financeiro, ao contrário, era fortalecido. Os bancos e especuladores foram beneficiados pela inflação dos anos de prosperidade e, também, devido à bolha dos eurodólares e à “reciclagem” dos petrodólares, o principal ativo produtivo da época, que era resultado dos significativos aumentos dos preços do petróleo em 1973 e 1979.

A dimensão da crise, que atingiu duramente o financiamento do Welfare State, tanto na Europa, como nos Estados Unidos, abriu brechas para a restauração dos postulados liberais, com receitas mais radicais e sob a “alcunha” de neoliberalismo.  

O termo neoliberalismo é compreendido como uma teoria das práticas político-econômicas que propõem a plena liberdade das capacidades empreendedoras individuais, com uma intervenção mínima do Estado. Os direitos que importam são à propriedade privada e ao livre mercado (onde os mais ricos têm o direito de impor suas condições aos pobres). Cabe ao estado assegurar estes direitos nem que seja pela utilização do monopólio da coação física.

A outra função essencial do estado, de acordo com o neoliberalismo, é garantir a qualidade e a integridade da moeda.

AS PROPOSTAS DO CONSENSO DE WSHINGTON PODEM SER SINTETIZADAS EM 10 PONTOS:

1. Ajuste fiscal: o Estado limita seus gastos à arrecadação, eliminando o déficit público.

2. Redução do tamanho do Estado: limitação da intervenção do Estado na economia e redefinição de seu papel, com o enxugamento da máquina pública.

3. Privatização: o Estado vende empresas que não se relacionam à atividade específica de regulamentar as regras sociais e econômicas e de implementar políticas sociais.

4. Abertura comercial: redução das alíquotas de importação. Estímulo ao intercâmbio comercial, de forma a ampliar as exportações e impulsionar o processo de globalização da economia.

5. Fim das restrições ao capital externo.

6. Abertura financeira: fim das restrições para que instituições financeiras internacionais possam atuar em igualdade de condição com as do país. Redução da presença do Estado no setor.

7. Desregulamentação: Redução das regras governamentais para o funcionamento da economia.

8. Reestruturação do sistema previdenciário.

9. Investimento em infraestrutura básica.

10. Fiscalização dos gastos públicos e fim das grandes obras de infraestrutura.

É interessante observar que todas as 10 propostas estão no programa do PSDB e no documento “Ponte para o Futuro, lançado no governo golpista  Michel Temer. Também orientam o desastre econômico de Paulo Guedes, no governo Bolsonaro.

O país que se tornou pioneiro na implementação deste receituário neoliberal foi o Chile, sob o governo do ditador Augusto Pinochet, na década de 1970. No caso chileno, o monopólio de coação física foi utilizado sem limites.

Um dos primeiros intelectuais responsáveis por trazer o debate sobre o neoliberalismo para Brasil foi Fernando Henrique Cardoso.

Quando o sociólogo se aproximou da Fundação Ford, o Brasil e grande parte da América Latina vinham de experiencias bem-sucedidas de projetos desenvolvimentistas.

No que se refere ao Brasil, a pesquisadora Sonia Regina de Mendonça, explica que o país havia acelerado seu ritmo de crescimento na década de 1950 e, com as transformações na economia ocorridas no governo Juscelino Kubitscheck (JK), o novo setor industrial passou a ser privilegiado pelo Estado (automóveis, eletrodomésticos etc.). Para isso foram introduzidas novas estratégias para o financiamento da industrialização brasileira, internacionalizando-a, porém sempre a partir do planejamento estatal.

De acordo com Argemiro Brum (2003), o governo JK, além de ampliar a atividade do Estado na área econômica, defendia uma postura favorável à entrada de investimentos externos, oferecendo estímulos e facilidades. Incentivava o ingresso destes investimentos nos setores produtivos de bens de consumo duráveis (automóveis, eletrodomésticos etc.), atraindo empresas multinacionais.

Voltada para a consolidação da industrialização brasileira, a política econômica de JK buscava congregar a iniciativa privada, que deveria estabelecer alianças com capital e a tecnologia externa, sempre com a intervenção do Estado, atuando como planejador, orientando os investimentos.

Desta forma, estruturaram-se as bases para o modelo do “tripé” industrial brasileiro: o capital privado nacional, produzindo bens não duráveis; o capital estrangeiro, dominando a produção de bens duráveis; e o capital estatal, atuando na esfera dos bens de produção, sob a égide do Plano de Metas – inspirado nas formulações de economistas como Celso Furtado e os estudiosos da teoria da dependência, que defendiam o afastamento do imperialismo.

Os governos da ditadura militar não alteraram essencialmente o tripé estabelecido por JK, sendo que na verdade garantiram a consolidação do modelo implantado nos anos 1950. Entretanto, a “modernização autoritária” dos ditadores, diferente dos governos anteriores, apoiou-se em grande parte na compressão salarial e não apenas na expansão dos capitais multinacional, nacional e estatal.

Entre os anos 1968-1974, ocorreu o chamado “milagre econômico” brasileiro, período beneficiado por vários fatores e circunstâncias, dentre eles: um clima favorável aos investimentos econômicos; estabilidade sociopolítica, embora sob a égide de um governo autoritário; mão-de-obra relativamente barata e “disciplinada”; e uma conjuntura internacional com disponibilidade de capitais e créditos (Brum, 2003). Esse contexto, viabilizou um crescimento acelerado (taxas de 9% a 10% ao ano), enquanto a inflação apresentava índices relativamente baixos. Esse cenário ocorreu a um alto custo social.

As crises conjugadas do capitalismo nos anos 1970, principalmente o crash do petróleo, em 1973, assim como o excesso de autoritarismo e a incompetência dos generais provocaram o naufrágio modelo econômico com viés autoritário.

Os erros dos generais no enfrentamento da crise mundial foram vendidos pelos centos neoliberais como ineficiência estrutural do estado soberano desenvolvimentista.

A crítica ao estado desenvolvimentista e soberano foi disseminada por toda a América Latina, com decisivo apoio organismos financeiros internacionais (FMI, Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID). A atuação das instituições internacionais do capitalismo adquiriu a configuração de chantagem, porque ocorreu em um quadro de renegociação das dívidas externas destas nações que foram obrigadas a aceitar um programa de governo imposto por essas entidades, ligadas ao capitalismo e à geopolítica dos Estados Unidos. Tal programa exigia desregular os mercados, abrir as economias, implementar práticas não intervencionistas, bem como abdicar de todo o projeto de cunho soberano e desenvolvimentista.

Um exemplo do avanço do ideário neoliberal no pensamento das elites brasileiras é uma proposta apresentada em 1995, pela Federação das Indústrias do Estado São Paulo – Fiesp (defendida pelo Banco Mundial). Paulo Nogueira Batista, em artigo para a Fundação Alexandre de Gusmão, do Ministério das Relações Exteriores, reproduz a visão de do que em tese deveriam ser intelectuais, que em um trecho oficial da entidade surpreendentemente defendem que “a inserção internacional de nosso país fosse feita pela revalorização da agricultura de exportação”.

Ou seja, a própria Fiesp, que deveria representar o capital industrial, estava propondo que o Brasil girasse a sua economia para um padrão colonial agroexportadora. Isso significa renunciar à industrialização, como locomotiva da economia.   

Foi muito importante para a assimilação destes pressupostos neoliberais a ação de economistas e cientistas políticos latino-americanos formados em universidades estadunidenses e europeias. Além destes intelectuais orgânicos, fundações estrangeiras, organismos internacionais e a imprensa também cooperaram para a absorção das teses neoliberais.

FHC: MAIOR SUCESSO DA FUNDAÇÃO FORD

O começo da derrocada do estado soberano desenvolvimentista no Brasil ocorreu na eleição de Fernando Collor de Melo. Com o seu afastamento, após o interregno de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso assume a presidência do país. Isso significou que um quadro da FF, um braço da geopolítica dos Estados Unidos (e da CIA), chegou ao poder no Brasil.

Sob Cardoso, o país investe num alinhamento inédito com os EUA e num projeto de globalização liberal, acatando, a internacionalização dos centros de decisão brasileiros e a fragilização estatal.

A adoção do receituário oriundo do Consenso de Washington coloca, num primeiro plano, a abdicação de um projeto de nação. Segundo o pesquisador André Novaes, isto é, o “desmonte do estado brasileiro”, sob a tutela da forte retórica que aponta para um “único caminho”.

O neoliberalismo defendido pioneiramente por um grupo pequeno de intelectuais, dos quais FHC foi uma das referências, acabou ganhando terreno, graças aos imensos recursos canalizados para os meios de produção cultural, os canais de difusão do conhecimento científico, o financiamento da pesquisa e a mídia.

Os impressionantes recursos disponibilizados para a afirmação desta corrente de pensamento, mais política do que científica, associados à aflição dos responsáveis pela maioria dos países do mundo, na época atropelados pela crise do capitalismo, levou ao crescimento da influência das propostas do consenso de Washington, até que estágio em que se transformou no que se convencionou chamar de “pensamento único”.  

Quase meio século após o estabelecimento do consenso de Washington e seu trasbordamento para boa parte da Terra, o modelo revela terríveis fragilidades. A feroz concentração de renda provocada pela cartilha neoliberal, associada à fulminante queda nos padrões de proteção social, assim como a brutal desindustrialização e o exacerbado poder do sistema financeiro comprovam que o consenso de Washington é um equívoco econômico e responsável por uma tragédia social de dimensões épicas.

O CONSENSO DE WASHINGTON NÃO DEU CERTO

Porém, o mais preocupante para elites mundiais dominantes é que o consenso de Washington, criado para preservar a hegemonia estadunidense, acabou sendo um dos responsáveis pela implosão da Ordem Mundial estabelecida após a Segunda Guerra Mundial e fortalecida com a queda da União Soviética.

A ordem mundial perfeita imaginada por aqueles que pregavam “o fim da história” não se confirmou.  

A excessiva concentração de renda, associada ao aprisionamento do estado, além de provocar empobrecimento massivo, também é responsável pela fulminante queda nos níveis educacionais dos cidadãos médios da maioria dos países centrais, especialmente nos Estados Unidos.

O rebaixamento da qualidade educacional e social do cidadão médio dos Estados Unidos (que faz dele pior trabalhador e soldado), enfraquece o poder militar estadunidense, e isso é aprofundado pela desindustrialização dos países centrais, a partir do estímulo neoliberal à transferência de plantas industriais para locais com custos menores de produção.

Atualmente grande parte dos equipamentos militares dos Estados Unidos, no papel o mais poder bélico do mundo (tendo orçamento militar maior que os três países que o seguem no ranking), depende da importação peças, eletrônicos e outros itens fabricados fora de suas fronteiras, inclusive na China. Como explica Adam Tooze, no seu magnifico livro O Preço da destruição, a guerra moderna é essencialmente um conflito industrial.

Enquanto era levado a uma espécie de auto suicídio por uma política econômica equivocada, os Estados Unidos assistiram a ascensão de novos países ao Olimpo das grandes potências, especialmente China, Índia e Rússia. Os poderes emergentes – e outros do Oriente, por exemplo, Vietnã, Cingapura, Coreia do Sul e Indonésia – passaram ao largo das políticas neoliberais e atualmente estão entre as mais saudáveis economias do mundo.    

A emergência destas novas potências, especialmente a China, que provavelmente já ultrapassou os Estados Unidos, como a maior economia do planeta, é uma ameaça diferente da que foi feita pelos japoneses e alemães, nos anos 1979 e 1980. Japão e Alemanha, países que foram derrotados na Segunda Guerra Mundial, abriram mão no projeto imperial, estão sob ocupação militar até hoje (sob a desculpa de proteção contra o comunismo), e na década de 1980 aceitaram a determinação de Washington, para que arrefecessem o ritmo das suas economias, como descreve Giovanni Arrighi.

COMO FHC SE COMPORTARÁ NA MUDANÇA DE VENTOS

O cenário cada vez mais nebuloso está levando a elite mais preparada dos Estados Unidos a uma mudança de rumos. O reposicionamento estadunidense, que está sendo levado adiante pelo Governo Biden, implica na retomada dos princípios do New Deal keynesiano. O restabelecimento de políticas keynesianas para consumo interno (que visam recuperar a força do país), no entanto não significa que os EUA pretendam renunciar ao seu papel imperial.

A nova estratégia, entretanto, inclui um cuidado muito mais sofisticado com a imagem internacional dos Estados Unidos como o “campeão da democracia e do mundo livre”. Provavelmente essa mudança de comportamento terá algum efeito no governo Bolsonaro.

Grande parte do arcabouço intelectual que Fernando Henrique Cardoso defendeu em grande parte de sua vida, está sendo jogado no lixo pelo governo Biden. O consenso de Washington agora é passado e a nova bandeira é o New Deal.

FHC não apenas contribuiu decisivamente mudar o padrão dominante da sociedade brasileira, que era nacionalista e desenvolvimentista, desde a década de 1940; como também orientou se mandato, quando foi presidente, para iniciar a demolição do estado brasileiro e avançar bastante neste propósito.

O cumprimento de sua missão cultural, talvez tenha sido mais importante do que a corrosão do estado brasileiro, que promoveu na presidência da República. Cardoso foi a principal referência, para enquadrar os mais influentes centros de produção cultural, conhecimento (universidades, institutos de pesquisa) e de distribuição de informação (mídia e entretenimento) na camisa de força do pensamento único.

Os formuladores que contestavam o pensamento único eram isolados ou boicotados. As obras alternativas encontravam tremendas dificuldades para serem editadas e distribuídas no Brasil.

É o caso da obra seminal da teoria da dependência, o livro Subdesenvolvimento e Revolução, do mineiro Ruy Mauro Marini. A edição brasileira demorou 43 anos ser lançada no Brasil. Publicada pela primeira vez no México em 1969, a obra clássica do marxismo brasileiro ganhou edições em diversos países, inclusive naqueles da América Latina, mesmo em países sob o jugo de ditaduras. O público brasileiro somente teve acesso ao trabalho, em 2012.

Ruy Mauro Marini (1932-1998), autor de Dialética e Dependência, passou 20 anos no exílio a partir do golpe de 1964. Professor no México e no Chile, onde dirigiu o Movimento de Izquierda Revolucionária (MIR), era natural que sua obra fosse censurada pela ditadura brasileira.

      Seus trabalhos continuaram a ser boicotados durante a chamada “transição democrática”. Nas palavras de Nildo Ouriques, autor da apresentação de Subdesenvolvimento e Revolução (Editora Insular), professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSC e ex-presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos da mesma universidade, “a hegemonia liberal monitorada por Washington queria uma transição isenta de teorias radicais como aquelas de subdesenvolvimento e dependência de Marini”.

Segundo Ouriques, nessa empreitada para marginalizar radicais, “Fernando Henrique Cardoso e José Serra serviram à hegemonia liberal e, entre outros feitos, adulteraram um famoso texto de Marini”.

Segundo o professor da UFSC, Cardoso inverteu o conceito original da Teoria da Dependência e introduziu elementos liberais na teoria, que culpavam  os próprios povos desenvolvidos pelo seu atraso.

Ouriques reafirma que “os fatos agora demonstram claramente que FHC estava a favor de um projeto de Washington de conter movimentos intelectuais radicais no Brasil. Uma das metas de Fernando Henrique e José Serra era minar o terreno de radicais como Marini”.

Graças a FHC ou não, fato é que mesmo após sua saída da presidência, pensamento único neoliberal se afirmou como verdade inabalável, dando a impressão de que não havia solução fora do liberalismo.

Sofrendo grande pressão política, mas também intelectual,  governo Lula foi forçado, em troca da governabilidade, a entregar o Banco Central para banqueiros, defensores do consenso de Washington. Além disso, as pesadas cobranças que a gestão petista da economia recebia, não só da mídia, mas também das universidades e instituições de produção do conhecimento, limitaram decisivamente a possibilidade de avanços maiores.

A tentativa de Dilma, para romper com o ideário do consenso de Washington enfrentou violentos ataques. Até mesmo setores da esquerda ainda criticam a presidenta, acusando sua gestão de ineficiente na economia, exatamente por ter procurado se afastar do neoliberalismo.

Temer comandou o golpe e assumiu o poder brandindo um programa, que reproduz exatamente a receita do consenso de Washington, batizado come fantasia de “Ponte para o Futuro”.

O resultado foi o aprofundamento da terrível crise econômica – iniciada pela demolição da cadeia do petróleo provocada pela Lavajato e o boicote parlamentar a Dilma – que afeta cruelmente a maioria da população.

O quadro desalentador, provocado pela conspiração liberal, provocou um resultado inesperado: a eleição de um presidente anticivilizatório, autoritário, suspeito de ligação com o crime, que nega a própria democracia.

Fernando Henrique Cardoso, um intelectual civilizado, tem repulsa pelo comportamento grosseiro do atual presidente, porém não nega que apoiou e votou em Bolsonaro. Fez isso, provavelmente acreditando, como muitos, que Bolsonaro poderia ser tutelado, mas principalmente porque a economia seria entregue a Paulo Guedes, um fundamentalista defensor do neoliberalismo.

Porém, os Estados Unidos estão mudando, com a eleição de Biden. FHC sempre foi próximo dos democratas na política e nos meios intelectuais. Os democratas com os quais Cardoso conviveu sempre foram neoliberais – Clinton, Gore, Obama.

Biden parece ser diferente dos amigos estadunidenses de FHC, pois está rompendo com o consenso de Washington. Não é boa propaganda para o novo governo dos Estados Unidos defender o keynesianismo para seu país e ser contra a sua implantação fora de suas fronteiras.

O que pode resultar deste novo caldeirão mundial? O que FHC e seus seguidores querem neste momento histórico tão delicado?

Para responder a ambas as questões, provavelmente a melhor solução seja perguntar em Washington.  

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