Para entender a Palestina.

Conquista de Jerusalém pelo Califa Omar ©Selva/Leemage

O contexto histórico

Os romanos de fato erradicaram com extrema violência as revoltas judaicas. Entretanto, como Shlomo Sand (professor da Universidade de Tel Aviv) descobriu nas suas pesquisas e registrou no ótimo livro A invenção do povo judeu, a expulsão forçada do território é um mito. Nunca ocorreu.

O que aconteceu, de fato, foi uma intensa migração de um povo, que como seus irmãos do norte, os fenícios, passou a se envolver intensamente no movimentado comércio do mediterrâneo. Então muitos empreendimentos mercantis familiares abriram entrepostos nas cidades mais ricas do Império Romano, inclusive a própria Roma. Os mercadores construíam extensas redes, que iam do leste do Mediterrâneo, enviando famílias inteiras de empregados, que já saiam da Palestina – na época Filistina, palavra grega que define a terra dos Filisteus – sabendo que jamais voltariam, dado a dificuldade das viagens na época.

Shlomo Sand obteve evidências da presença dos comerciantes judeus e siŕacos em todo o império. Eles chegavam logo após as conquistas e contribuíram para a romanização (ou helenização, visto que a cultura romana é o helênismo falado em latim) desses territórios.

Lira Neto encontrou registros da presença judaica na península ibérica desde o primeiro século, depois de Cristo.

Mas a base econômica, cultural e étnica desse imenso complexo mercantil nunca saiu da Palestina, porque ali era a extremidade oeste da Rota da Seda, que foi estendida à região, desde a conquista do Império Persa, por Alexandre o Grande.

Assim, os judeus nunca foram expulsos, exceto uma pequena elite rebelde, e continuaram na região controlando vastas redes comerciais.

A mudança no status dos judeus – e também dos cristãos – ocorreu com a expansão árabe, no século VII. A lei de Maomé determinava que os povos do livro, judeus e cristãos, fossem tratados com respeito. Porém havia uma diferença, os que adotassem o Islã não precisariam pagar impostos, os outros povos do livro (Torá, Bíblia ou Alcorão – que tinham a mesma origem) poderiam continuar na sua fé, desde que aceitassem ser tributados.

Por uma questão de oportunismo econômico a absoluta maioria dos judeus e cristãos adotou o Islã.
Comntinuaram vivendo no seu lar tradicional durante séculos e acabaram se tornando de fato árabes. Árabes da Palestina, ou seja, palestinos.

Algumas famílias judaicas, como outras cristãs, mantiveram sua região, sem conflitos com os muçulmanos, como acontecia em todos os territórios islâmicos. Nesses locais não havia pogrons, como nos territórios cristãos.

As perseguições que ocorriam na Europa cristã levaram ao surgimento, no século XIX, de um movimento no leste europeu, onde a perseguição era maior. O movimento pregava a volta para a Terra Santa. No começo não havia a intenção de criar um país, a intenção era apenas migrar para um local seguro, como era o cosmopolita Império Otomano, na época.

Com o tempo, começou a prosperar a ideia de um intelectual austríaco, Theodor Herzl, que pregava a criação de um estado judeu, o sionismo. Ele vendia a ideia para os banqueiros judeus, argumentando que seria bom para os negócios ter um país confiável em uma das regiões mais prósperas do mundo.

Entretanto, enquanto a ideia ainda não se firmava, houve divergência, com relação ao local onde deveria ser este país. A compra de um grande território no Brasil chegou a ser cogitada. Após a Primeira Guerra Mundial, os britânicos e o movimento sionista passaram a focalizar o projeto na Palestina.

Na época residiam no local 6,5 milhões de palestinos e 85 mil judeus.

Para viabilizar o projeto, ainda secreto, os britânicos separaram a administração da Palestina dos outros territórios controlados pelo Império Britânico na região. Enquanto isso os banqueiros judeus estimulavam e financiaram um novo e muito mais vigoroso movimento de migração para a região, assim como uma agressiva compra de terras.

É bom lembrar que a verdadeira causa principal da Primeira Guerra Mundial foi a disputa industrial e por recursos entre a Alemanha e o Reino Unido, sendo o estopim a estrada de ferro Bagdá-Berlin, que os alemães estavam construindo para o Império Otomano. A via daria aos alemães o controle dos maiores suprimentos de petróleo do mundo. O assassinato do Arquiduque Ferdinando é sua esposa, foi apenas um pretexto cuidadosamente armado. Hoje há fortes suspeitas de digitais dos serviços secretos britânico e russo no episódio, pois a presença germânica ao sul do Cáucaso e o fortalecimento dos otomanos, eram considerados ameaças ao Império Czarista.

A intenção dos britânicos era instalar uma população confiável, para guarnecer a rota do petróleo, que passava nas proximidades. O plano coincidia com o interesse dos grandes banqueiros europeus, assim como à dos magnatas do petróleo dos EUA, os Robber baron.

O resultado da Segunda Guerra e o genocídio nazista dos judeus permitiu acelerar o processo. Milhões de famílias aterrorizados pelo terror racista fugiram para a Palestina. Essas pessoas amedrontados foram facilmente convencidas, de que somente estariam seguras em um estado judeu.

O fim da guerra no Oriente Médio foi caótico. O Império Britânico enfraquecido aumentou seu padrão de exploração, para tentar se recompor. Esses esforços foram sabotador tanto pelos EUA, como pela URSS.
Além disso, os britânicos tinham feito promessas para os dois lados, árabes e judeus, que obviamente não tinham como cumprir sem prejudicar um ou outro.

A população judaica crescia rapidamente com a imigração e as melhores terras passavam para as mãos de kibutz ou de famílias judias.

Os países árabes, na medida em que se livravam do domínio direto britânico e francês, protestavam contra a incessante chegada dos judeus. Em 1947 ameaçaram empurrar os judeus, que pareciam indefesos, para o mar. Uma poderosa coligação de países árabes foi estabelecida, para cumprir a promessa.

Porém, os judeus não estavam tão indefesos. Além do robusto financiamento que nunca faltou, muitos integrantes da comunidade tinham lutado na Segunda Guerra Mundial ao lado dos aliados, tanto os ocidentais, quanto da União Soviética. O núcleo das forças armadas judaicas era uma brigada de elite, que integrou o exército britânico. Os experientes e endurecidos integrantes da brigada formaram a primeira força de defesa de Israel, que lutou em uma relação nada confortável ao lado do grupo terrorista sionista Irkud.

Os países árabes e foram derrotados de forma humilhante. Com medo de retaliações, a maior parte da população palestina fugiu para os estados árabes vizinhos, principalmente Jordânia e Líbano, criando os campos de refugiados que existem até hoje.

O estado de Israel foi, então, proclamado em 1948, contra a vontade dos britanicos, porém tendo o apoio dos EUA, União Soviética e da maioria da recém nascida ONU.

A primeira geração de dirigentes israelenses era composta por socialistas e sociais-democratas. Apesar das várias guerras contra os vizinhos, sempre vencidas por Israel, até a década de 1980, houve a intenção sincera de um acordo e vigorou a política de trocar terra por paz – significava devolver territórios conquistados em guerras por Israel para o estabelecimento de um estado palestino, por um acordo definitivo.

A partir do final dos anos 80, com a queda do muro de Berlim e, principalmente, a dissolução da União Soviética, houve uma nova onda de migração para Israel, o que alterou profundamente a base cultural e política do país. Ao invés dos cosmopolitas judeus da Europa Ocidental, vieram ortodoxos fundamentalistas extremamente ressentidos com o socialismo. E o pior, absolutamente crentes nos preceitos religiosos de que têm a missão de reestabelecer o Grande Israel, assim como de reconstruir o templo de Salomão, no local onde existem hoje algumas das principais mesquitas islâmicas.

A nova composição social de Israel levou ao poder políticos que, por oportunismo ou fundamentalismo medíocre, abandonaram a política de terra por paz, não admitem o estabelecimento de um estado palestino e nem mesmo a convivência entre árabes e judeus. Essa liderança está levando o país a se comportar com relação aos palestinos, talvez, pior do que os nazistas fizeram com os judeus.

A Faixa de Gaza é, de longe, o maior campo de concentração da história. Mesmo sem os bombardeios, as dificuldades provocam dezenas de mortes diariamente no local. Os palestinos provavelmente devem ter sentimentos semelhantes aos dos judeus durante o holocausto nazista: medo, desesperança e raiva..

O que a atual liderança política israelense está fazendo com a população da Faixa de Gaza é um genocídios.

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