SOCORRO. ACORDEI EM UM TALIBANATO FUNDAMENTALISTA CRISTÃO

Até que eu gostava de dormir e sonhar. Mas desta vez foi exagerado. Foi um sono de 15 anos, sem sonhos. Pelo menos nenhum que eu lembre.

O médico disse que o estado de coma havia sido provocado pela Covid19, a pandemia que matou gente no mundo inteiro, principalmente no Brasil, durante cinco anos. Fiquei sabendo que vieram várias ondas, trazendo novas variantes do vírus, cada uma mais mortífera do que a outra, a maior parte das novas cepas oriundas do Brasil.

Minha família, que já tinha perdido as esperanças veio me visitar. Em meio a muita felicidade, senti uma sensação estranha. Na época pensei que era sintoma da surpresa.

Aos poucos, no longo período de exames e fisioterapia, fui percebendo que tinha acordado em um mundo diferente. Considerei normal esta possibilidade, afinal foram 15 anos fora de órbita.

Reparei, não sei por que, uma mudança nos hábitos das médicas e enfermeiras. Elas não usavam mais calças compridas, como na época em que fui internado. Eram sempre vestidos longos, meias e toucas antigas, prendendo os cabelos. Também chamou a atenção que a equipe tinha poucos negros e todos tinham os cabelos cursos e alisados.

Não dei muita importância a essas impressões. O que chamou mais minha atenção foi a relutância de minha mulher e filho, em falarem sobre os acontecimentos do mundo e política. Sempre procuravam conduzir as conversas para assuntos familiares, futebol ou sobre a minha recuperação.

Pedi uma TV no quarto e a equipe de atendimento informou que esse serviço não era mais oferecido, pois era muito caro. Minha mulher explicou que a TV aberta havia sito extinta e a opção por assinatura tinha se tornado muito cara, acessível apenas a uma minoria de pessoas. O padrão, agora, segundo ela era um telefone móvel preso ao pulso, com um dispositivo holográfico, para o acesso a diversos aplicativos.

O telefone era distribuído gratuitamente pelo governo, todos os cidadãos eram obrigados a usar, pois o aparelho continha documentos, dinheiro virtual e informações sobre o usuário. O equipamento também continha aplicativos de entretenimento, comunicação, relacionamento entre pessoas e redes sociais, gratuitas, oferecidas pelo governo. Caso eu quisesse ver um filme, poderia assistir no próprio dispositivo ou conectar com uma espécie de aparelho de TV, com capacidade holográfica, exclusivamente produzido para funcionar como monitor do telefone móvel pessoal.

No Brasil e em boa parte dos países do mundo, não eram utilizados dinheiro, cartões de crédito ou outras formas de pagamento. Toda a movimentação financeira pessoal ou das empresas estava concentrada nas pulseiras móbiles.

Confesso que em um primeiro momento, achei a novidade ótima. Somente depois, percebi que a pulseira era um mecanismo de controle sofisticado. Funcionava como uma tornozeleira eletrônica, entretanto, além de monitorar os movimentos, também controlava a vida inteira das pessoas, como encontros, compras, conversas, estado de saúde, relações sexuais. Tudo o que um individuo fazia era captado e transmitido para o controle do estado.

Quando conheci o móbile padrão, achei que era uma ótima invenção.

Somente depois que terminou meu período de recuperação em tempo integral no hospital e pude ir para casa, é que comecei a entender como o mundo havia mudado.

Para minha surpresa, o carro do meu filho ainda era movido a gasolina ou etanol. Comentei minha admiração, pois achava que os carros elétricos tinham tomado o espaço. Meu filho informou que em vários países era assim, mas não no Brasil.

Depois que nos afastamos do hospital, meu filho fez o motor roncar mais alto e minha mulher aumentou o velho som do carro. Ela pegou toalhas que estavam no banco de trás, enrolou na pulseira, me abraçou a falou baixinho. “Cuidado, as coisas mudaram muito, depois que você apagou e o mundo está muito perigoso”.

Rapidamente retirou as toalhas dos nossos pulsos e passou a falar futilidades, junto com meu filho, que entrou na mesma linha de conversas.

Aquilo me chocou, mas entrei na estranha conversa deles.

Perplexo, passei a prestar mais atenção no ambiente. Reparei que minha mulher usava um vestido longo, como as pessoas no hospital, e meu filho uma camisa social, coisa que ele só fazia em ocasiões muito especiais. Parecia uma dupla muito conservadora.

As pessoas nas ruas também se vestiam de maneira parecida. Mulheres de vestidos ou saias longas, de cores escuras e os homens, com camisas sociais, sempre enfiadas para dentro das calças.

Percebi, também que havia uma multidão de moradores de rua. Antes de dormir, lembro que isso era comum, mas não na quantidade que estava vendo.

Pedi para ir a um bar. Meu filho disse que não existiam mais bares. Bebidas alcoólicas somente podem ser encontradas em supermercados, para o consumo domiciliar e, quem compra é registrado na polícia.

Angustiado, pedi para me explicarem o que estava acontecendo. Meu filho foi para uma praça vazia, perto de um templo evangélico que fazia um imenso barulho. Parou o carro, abriu a tampa do motor, pegou uma caixa dessas de papelão, onde estavam furados dois buracos, pequenos suficientes apenas para passar o pulso de uma pessoa. Ambos enviamos os pulsos, minha mulher cobriu as pequenas lacunas que sobrara, com toalhas. Colocamos os pulsos voltados para o barulho do motor.

Meu filho me abraçou, ficou próximo ao meu ouvido e contou uma história de terror.

“Depois que você entrou em coma, aconteceram as eleições de 2022. Lula era o favorito, mas por uma série de circunstâncias não foi possível lançar uma candidatura única contra Bolsonaro. Ocorreram as eleições, Lula venceu o primeiro turno, seguido por Bolsonaro. Faltou pouco para Lula ganhar na primeira fase. Os outros candidatos somaram tiveram pouco menos de um terço dos votos. A vitória de Lula estava praticamente certa no segundo turno. Os bolsonaristas denunciaram fraude e convocaram um golpe militar. A maior parte dos oficiais de alta patente das forças armadas não concordou com o golpe. No entanto, a baixa oficialidade e as polícias militares aderiram ao motim, tendo o apoio das milicias criminosas e grupos evangélicos armados. No mesmo dia todas as principais cidades do país estavam ocupadas por tropas golpistas. As principais lideranças do país, ministros do STF, generais resistentes, deputados, governadores, prefeitos e políticos e qualquer um que se opusesse ao levante foi preso. Milhares de pessoas morreram, foram torturados e muitos continuam presos. Muita gente ainda é detida e desaparece todos os dias. Apoiadores do bolsonarismo vigiam toda a população, o tempo inteiro. Basta uma denúncia, não precisa ter provas, para ocorrer uma prisão. Esta pulseira serve para monitorar as pessoas. Podemos burlar o equipamento, como agora, mas isso só pode ser feito raras vezes, ou desperta desconfiança. Minha mãe quase foi presa porque é psicanalista, os evangélicos que mandam hoje no país não aceitam isso. Portanto, todo cuidado é pouco”.

Retiramos o estranho aparato de papelão e fiquei tonto, com as informações. Encostei no carro, para respirar e vi que o culto na igreja havia terminado. Percebi que aquela era uma antiga igreja católica. Os vultos saiam lentamente em pequenos grupos, os homens de terno ou o que parecia serem uniformes militares. As mulheres, todas de preto, vestiam uma roupa que parecia uma burca, sem o véu que acobertava todo o rosto, porém, com os cabelos cobertos. Lembrei que no caminho pela cidade, tinha visto muitas mulheres e homens, com roupas parecidas com aquelas.

Fiquei tão deprimido, que minha vontade era voltar ao coma. Passava dias dormindo, até que para melhorar meu ânimo, meu filho convidou a mim e minha mulher, para passar uns dias no Rio de Janeiro, coisa que sempre gostei.

Fomos de carro, porque avião no Brasil que acordei era para um pequeno grupo de pessoas muito ricas e ligadas ao governo golpista. Nos hospedamos em um pequeno hotel no Jardim Oceânico, começo da Barra da Tijuca. No dia seguinte, fomos dar uma caminhada no calçadão da praia cheios de cuidados, por causa da proibição a bebidas alcoólicas e porque minha mulher alertou para evitar ler livros em público, pois poderia chamar a atenção e provocar uma abordagem polícia.

O mais estarrecedor, no entanto, ocorreu quando chegamos à praia. Estava cheia homens de shorts largos e camisetas e mulheres inteiramente vestidas de preto, dos pés à cabeça, naquele sol abrasador. A sensação era de não estar no Brasil, mas em um talibanato fundamentalista cristão.           

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