OS BANCOS CENTRAIS E O CONTROLE DO DINHEIRO

Mercadores genoveses criaram as bases do sistema capitalista moderno, ao perceber que investir investir em grandes empréstimos era mais lucrativo do que o comércio tradicional. Expulsos dos entrepostos orientais pelos rivais venezianos, os comerciantes genoveses financiaram as grandes navegações e as guerras dos países ibéricos, obtendo assim lucros inéditos.

Os banqueiros, rentistas e financistas não têm pátria e a independência ou não dos bancos centrais tem a ver com o controle do dinheiro de um país. Significa escolher se as decisões sobre a moeda são prerrogativas dos estados nacionais ou dos banqueiros privados, uma corporação que visa lucros e não os interesses nacionais. As experiencias da história ensinam que permitir o controle da moeda por interesses privados é um ótimo negócio para os banqueiros e pode ser péssimo para os países e suas populações.

O QUE A HISTÓRIA ENSINA

Pesquisar a experiencia histórica é fundamental para as decisões do presente. Maquiavel, um autor mais citado do que lido e, portanto, muito pouco compreendido pelo senso comum, foi um mestre em recorrer às experiencias do passado, para analisar o presente. Utilizando este método, o intelectual florentino estabeleceu as bases da ciência política moderna.

Para o caso da independência dos bancos centrais, bons exemplos são as relações dos banqueiros com as grandes potências, nos últimos 600 anos.

Um pesquisador que se destaca nesse estudo é o italiano Giovanni Arrighi, autor do premiado livro O longo século XX. Utilizando conceitos de Marx, Hegel, Schumpeter, Braudel e outros autores, Arrighi analisa os ciclos de expansão e contração do capitalismo, desde quando essa prática começou a intervir com mais força no mercado nas cidades estado italianas, nos séculos XIV e XV.

As cidades mercantis italianas tornaram o norte da Bota o centro do mercado eurasiático, a partir dos séculos finais da Idade Média. Sem entrar em detalhes, os mercadores de algumas dessas cidades, especialmente os de Florença e Gênova, perceberam ou foram forçados a entrar em um novo negócio que oferecia lucros maiores do que o reinvestimento no comércio ou na produção. Eram as altas finanças, que consistiam em empréstimos para os projetos estados territoriais que se consolidavam na época.

A primeira experiencia de porte, foi quando comerciantes das casas florentinas Bardi e Peruzzi financiaram Eduardo III, da Inglaterra, na fase final da Guerra dos 100 anos, contra a França. Foi um desastre, que levou os mercadores florentinos à falência e a própria Florença a uma profunda crise econômica, em 1340, que abalou toda a Europa.

O vácuo deixado pela falência dos Bardi e Peruzzi foi ocupado pela família Medici, responsável por seguir os passos dos antecessores, porém de uma maneira mais segura, ao estabelecer uma longa e profícua relação com poder papal e os estados pontifícios.

Os Medici só viram seus lucros declinarem, quando o negócio de indulgências entrou em colapso, com a Reforma Protestante.

A “NAÇÃO GENOVESA” E O SURGIMENTO DO CAPITALISMO

Porém, tanto Marx, quanto Braudel e Arrighi demarcam o surgimento do capitalismo moderno na experiencia dos comerciantes genoveses. Gênova era a mais fraca, entre as maiores cidades estado comerciantes do Norte da Itália. Embora rivalizasse com Veneza no aspecto comercial e do enriquecimento de seus mercadores, os genoveses enfrentavam disputas internas entre sua elite mercantil e a aristocracia (que também havia prosperado com o comércio), além de possuírem menor poder militar, em comparação com as cidades rivais.

Com o bloqueio de suas rotas comerciais tradicionais, em direção ao Oriente Médio, mas com muito dinheiro em caixa, os comerciantes genoveses procuraram novas oportunidades de investimento.

Na época, séculos XV, XVI, a Espanha era a maior potência militar (territorial – como preferem Braudel e Arrighi) do mundo. A coroa espanhola estava metida em praticamente todas as disputas dinásticas europeias. Guerras custam caro e os comerciantes genoveses aproveitaram a oportunidade, oferecendo financiamento aos espanhóis, em um arranjo que Braudel chama de contratação de proteção.

Com o tempo, a chamada “nação genovesa”, que era a corporação de comerciantes de Gênova, que começaram a se expandir pelas feiras tradicionais no centro da Europa, em cidades como Piacenza, Lion, Sevilha, Genebra e Antuérpia, passou a gerir as finanças da Espanha. O momento decisivo foi quando o ouro e a prata começaram a chegar das Américas em grande quantidade e os genoveses concentraram seus negócios no grande porto de Antuérpia, então território controlado pela coroa espanhola. Na prática, a “nação genovesa” assumiu as funções de banco central da coroa espanhola.

Evidentemente, neste processo, os genoveses financiaram também as navegações portuguesas, além das castelhanas.

Entre os quatro ciclos do capitalismo, o período ibérico-genovês foi o mais longo, de acordo com a análise de Arrighi. O mais importante, entretanto, é que ele estabeleceu o padrão de comportamento do capitalismo.

Quando a Espanha começou a perder força, os genoveses – que já tinham se internacionalizado e eram uma corporação internacional – mudaram de lado, se aliaram a comerciantes alemães e holandeses e passaram operar com a Holanda.

Durante dois séculos, os detentores do dinheiro, que já não eram mais somente genoveses, mas uma corporação sem pátria, foram os principais financiadores do novo modelo de operação capitalista desenvolvido na Holanda, as companhias de navegação.

O DINHEIRO TROCA A ESPANHA PELA HOLANDA

A diretoria das companhias holandesas de navegação e comércio, na prática, operavam como o banco central da Holanda e tomava as principais decisões políticas, não só as financeiras. Por exemplo, foi a Companhia de Navegação e Comércio das Índias Ocidentais que decidiu a venda do Brasil para a coroa portuguesa. A taxa de lucros na operação brasileira havia caído e sua venda para Portugal era mais atraente financeiramente – os portugueses pagaram com a melhor parte de seus entrepostos comerciais no Oriente e uma fortuna em dinheiro, que demoraram mais de um século para quitar.

As Províncias Unidas, ou Holanda, apesar de todo o seu poder, durante quase dois séculos, nunca foi um poder territorial competitivo entre as grandes potências europeias que estavam sendo consolidadas, a partir do século XV. Seu pequeno território servia mais como um entreposto de negócios, armazéns, oficinas e trocas, à semelhança da atual Singapura. A maioria dos operadores dos interesses holandeses, principalmente de suas duas grandes companhias de navegação e comércio, eram estrangeiros. Embora, diferente da “nação genovesa” tivessem internalizado os custos de defesa (que no caso dos genoveses dependia do poder territorial espanhol), das quase 300 unidades militares dos Pises Baixos, comandadas pela família aristocrática Orange, menos de 20 eram compostas por naturais da região. A maioria, portanto, era composta por mercenárias, cuja lealdade era assegurada pelo bom crédito holandês.

Desta forma, o banco central informal da Holanda, ou a direção das grandes companhias de navegação e comércio, não tinha compromisso inquebrantável com o país. Tudo dependia da taxa de juros. Enquanto os negócios no sistema holandês foram lucrativos, eles foram mantidos – e persistiram séculos.

A extensão da rede comercial holandesa exigiu maiores custos de proteção, contra o crescimento do poder dos estados territoriais, que se consolidavam e passaram a competir com o sistema holandês, utilizando métodos capitalistas, porem com maior poder demográfico, territorial e militar. Com a acelerada decadência da Espanha, abandonada pelos seus financistas (que, antes, transferiram a riqueza do país para a bolsa de Amsterdã – a primeira do mundo), os mais poderosos competidores, no século XVIII, eram a França e o Reino Unido.

A França entrou na corrida mercantil por entrepostos, associada a uma política imperial de colonização, com base em sua grande população. Porém, o país sempre priorizou a disputa por hegemonia no continente europeu.

O Reino Unido, por sua vez, o competidor mais fraco de todos no início da primeira onda de globalização do mercado, no Século XV – talvez por causa disso – tomou medidas; inicialmente sem grande efeito prático, mas que, com o tempo, serviram de base para o poder mundial britânico. Aconselhada pelo mercador inglês Thomas Grescham, que atuava na bolsa de Amsterdã, a rainha Elizabeth I estabilizou a moeda do país, decretando que a libra seria fundida com 11 partes de prata e uma de cobre. Isso transformou a libra na moeda mais estável da história – mantendo seu valor entre o final do Século XVI, até 1931. O outro conselho de Grescham foi a criação de uma bolsa de Londres, concorrente à de Amsterdã.

Se no começo tiveram pouco efeito, em longo prazo as decisões da primeira Elizabeth foram fundamentais, para o Reino Unido se consolidar como a maior potência do mundo.

FINANCISTAS COROAM UM REI HOLANDÊS NO REINO UNIDO     

Ao perceberem a necessidade de um esquema de proteção mais robusto, para enfrentar o fortalecimento dos estados territoriais, os grandes investidores de Amsterdã buscaram um novo acordo com um poder territorial mais forte. Por sinergia, circunstâncias políticas afinidade de métodos econômicos foi natural a opção dos investidores da banca holandesa com o Reino Unido.

Depois de derrotar o Reino Unido em uma sucessão de conflitos pelo controle dos caminhos do mar, os banqueiros internacionais que atuavam na bolsa de Amsterdã preferiram investir seu dinheiro em um poder territorial mais robusto, para assegurar proteção. Migraram para Londres e contribuíram para a instalação de um rei holandês no trono britânico.

Não foi uma transição tranquila, holandeses e britânicos disputaram, inclusive com a força das armas, os fluxos mundiais do comércio. A marinha holandesa chegou a invadir o Tamisa e bombardear Londres.

Porém, sob a alegação de uma conspiração católica comandada pelo rei Jaime II, aristocratas e comerciantes britânicos convidaram o príncipe Guilherme de Orange, governante formal dos Países Baixos, a desembarcar na Inglaterra à frente de um exército holandês, em 1688.

Os financistas que atuavam na bolsa de Amsterdã foram se transferindo para Londres, e somente os de nacionalidade holandesa (naturais de vários países negociavam na Holanda) chegaram a controlar um terço dos negócios no embrião da City londrina.

Estes acontecimentos foram consolidando uma nova aliança entre um poder financeiro multinacional e uma potência territorial, que foi capaz de estabelecer um domínio inédito sobre as rotas marítimas mercantis.

Os mercadores genoveses, que se transformaram em banqueiros são o embrião desse sistema de poder que estabeleceu o Reino Unido como maior potência do mundo. Na segunda metade do Século XIX, algumas famílias controlavam os rumos da economia britânica, sendo a principal os Rothschild, que atuavam nas principais capitais da Europa e controlavam o fabuloso negócio de empréstimos estatais. Um exemplo ocorreu no Brasil, cujo governo contratou financiamento da casa Rothschild de Londres, para comprar o Acre. O dinheiro foi em menor parte para a Bolívia e o bolo principal se destinou a pagar aventureiros estadunidenses, que haviam comprado o território, para estabelecer um enclave dos EUA no coração da América do Sul.

FERROVIAS NOS EUA E O CAPITALISMO MODERNO

Na segunda metade do Século XIX, o negócio de ferrovias no imenso território dos Estados Unidos – o domínio territorial de Washington na América do Norte foi um tipo de imperialismo colonial, menos evidente – se tornou o melhor negócio do mundo e movimentou as indústrias de mineração, metalurgia e mecânica em uma escala avassaladora. As grandes empresas multinacionais familiares, que foram as responsáveis pela Revolução Industrial no Reino Unido, não suportaram a demanda, o que abriu as portas de oportunidades, para o surgimento do capitalismo de alta escala estadunidense – que adotou um modelo mais parecido com o holandês, de empresas de capital aberto; do que o britânico, na sua maioria composto por grandes firmas familiares.

A implantação da maior malha ferroviária do mundo foi financiada por banqueiros europeus e foi a base do poderoso capitalismo dos EUA

Independente disso, os processos de financiamento inaugurados pelos genoveses, no Século XV, estiveram em ação nos Estados Unidos, desde o início da industrialização do país. A US Trust Corporate, foi estabelecida por Walter Rothschild, em 1853, e atualmente é propriedade do Bank of America.

O novo arranjo de poder, com a aliança entre as altas finanças e o poder territorial dos EUA (o maior que o mundo já viu) somente superou definitivamente a era britânica, a partir de 1945, embora o domínio do Reino Unido sobre os fluxos mundiais do comercio já estivessem abalados, desde 1918.

A era estadunidense está chegando a um impasse. Como nos ciclos genovês, holandês e britânico, as oportunidades de expansão dos lucros parecem migrar para um novo arranjo, no qual os EUA terão menor importância. Porém, há circunstâncias inéditas. As principais talvez sejam a extraordinária vantagem do poder Militar dos Estados Unidos – coisa que Espanha e o Reino Unidos nunca tiveram na mesma proporção; e a aversão dos modelos confucionistas orientais em perder (ou mesmo compartilhas) o controle de suas economias nacionais.

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