Relato do front: a guerra de Zema para exterminar os pobres

Aécio e Zema: a mesma mentalidade, os mesmos métodos, a mesma equipe de governo, o mesmo desprezo pelos povo trabalhador

Camilla Müller. (15/08/2020 23:00)

Ontem, eu e outros 3 amigos, militantes, assessores e um frei franciscano da Comissão Pastoral da Terra, saímos de Beagá em direção ao sul de Minas, ao QUILOMBO CAMPO DO MEIO, com uma missão.

Isso mesmo! Uma missão de solidariedade. De amor. De levar a paz. Queríamos evitar uma tragédia. Uma chacina.

Era o carro que a Maria da Consolação Rocha (PSol) nos cedeu, eu (PCdoB/Executiva Estadual da Marcha das Margaridas/Alvorada), a Laura e o Patrick (PT) mais o Frei Augustino (CPT). Já nos conhecíamos! Laura é uma amiga! Patrick é um companheiro de luta!

Há cerca de 24 horas, famílias, em sua maioria, formada por pais, mães, crianças e idosos, resistiam, bravamente, ao todo aparato policial e ao braço coercitivo do Estado. (Todos com certa experiência. Reintegração de posse nem era novidade para a gente.)

A gente levava doações. Arroz, feijão, açúcar. Levávamos um sopro de esperança de que como tínhamos obtido êxito em nossas últimas missões, dessa vez não seria diferente.
(Que bobinha. Como eu estava enganada.)

Faltando pouco para chegar, numa viagem de quase quatro horas, as notícias já eram tensas. Cabulosas!

A tropa de choque e todo o seu orçamento, 2 ônibus, 2 ‘caveirões’, helicóptero e drones avançavam sobre trabalhadores rurais, idosos, crianças com livros em mãos.

Teve bomba, bala de borracha e até trator para demolir uma escola rural ali instalada. Se isso não te revolta?! Não te indigna?! Pânico.

Aglomeração. Como um governador, em plena pandemia, autoriza tal operação. Ninguém podia entrar. Nem comida. Nem ambulância. Nem advogados. A Comissão de Direitos Humanos fora barrada. A Comissão de Prerrogativas da OAB MG foi barrada. A Globo foi barrada. Um padre foi impedido de celebrar uma missa. A filha do Pastor foi presa junto com outros dois trabalhadores. A Deputada Estadual Beatriz Cerqueira quase foi presa.

Era um cenário de guerra. Abusos e truculência. Enquanto éramos barrados, o herdeiro da massa falida, em sua 4×4 entrou. Levou mais empregados que ali já cercavam as áreas e sonhos que iam sendo esmagados pelo Poder Público.

Esse Quilombo está assentado há mais de 20 anos no local, mais de 400 famílias, produzem milho, milhares de pés de café e várias outras coisas.

Em sua maioria eram trabalhadores da usina, boias frias, que tinham ali um serviço análogo ao escravo e nunca foram indenizados, não receberam seus acertos devidos dessa usina quebrada e que hoje possui uma dívida ativa com o Estado de 406 milhões de reais. Isso mesmo! 406 milhões!!!

Cortadores de cana de açúcar que revitalizaram aquela terra. Que a deixou produtiva. Que construíram ali seus lares e suas famílias.

Conheci um jovem adulto, uns 19-20 anos que tinha estudado na escola. Conheci uma senhora que veio do Nordeste cortar cana ali e teve seis filhos. 4 dos filhos ainda moravam nessa terra. Um deles está esperando o 1o filho. Que cresceria ali. Que provavelmente estudaria naquela escola que tinha acabado de ser demolida.

Um dos policias, nervoso com nossas indagações e imagens, chegou a nos sugerir procurar emprego melhor. Mas será que emprego melhor para ele é sufucar com gases tóxicos pessoas indefesas? Ou destruir plantações de agricultura familiar para proteger interesses obscuros?!

Cheguei em casa, hoje. Chorando. Vomitei. Estou com dores nas pernas e no peito. Vomitei, de novo. Pode ser Covid-19, visto que não posso negar que fiquei exposta e todos que ali estavam. Expostos porque o governo perdeu a noção!

Mas estou angustiada mesmo é pelas famílias que tiveram suas casas, casebres, derrubados. Pela professora do Quilombo que lecionava naquela escola e chorava copiosamente. Em plena pandemia!

No momento em que mais se escancarou a desigualdade social. Estou revoltada pelo Estado fascista que derruba escola e coloca fogo em plantações familiares sem nenhum agrotóxico.

Quero ir embora. Quero colocar fogo em banco. Quero mandar tomar no c*, juiz, desembargador ou ministro, que expede tal despacho em plena pandemia. A favor de um devedor do Estado, um condenado pela Justiça do Trabalho.

Enquanto isso, mais de cinco Recursos sobre essa ação aguardam julgamento. Desde quinta feira. Que não foram julgados. E semana que vem já é tarde demais.

Enquanto eles taxam livros e destroem escolas, me agarro à promessa que construiremos mais escolas. E ainda melhores! Resistimos.

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