A Guerra do Quilombo em Minas Gerais e a subversão da PM

Zema revelou a face mais cruel do partido Novo, que nada tem de novidade, pois apenas replica as velhas práticas dos coronéis que envergonham a história brasileira. As próprias polícias militares no Brasil surgiram dos bandos de jagunços que formavam os exércitos particulares dos coronéis do sertão no país. Portanto não há nada de novo no Novo, inclusive porque o governo Zema é uma continuação do aecismo. Os cargos mais importantes do governo mineiro são de velhos integrantes das equipes dos das administrações tucanas de Aécio e Anastasia.

Na ação policial é importante registrar as atitudes subversivas dos comandantes da operação. Um major da polícia, que é funcionário público do estado, ameaçou de prisão uma deputada, que estava no local cumprindo as suas funções e prerrogativas. Esta atitude que fere as constituições brasileira e estadual foi apenas um dos graves fatos, que ocorreram no episódio, envolvendo atitudes suspeitas de diversas autoridades do executivo e do judiciário em Minas Gerais.

Os relatos da deputada Beatriz Cerqueira e do deputado André Quintão, assim como o comentário da professora Adriana Aranha ajudam a entender o episódio.

Agricultores resistiram à truculência e à subversão da Polícia Militar

DIÁRIO DA REINSISTÊNCIA

Antônio Souza Capurnan

Por Beatriz Cerqueira – deputada estadual em Minas Gerais.

Quem esperava um povo resignado depois de 3 dias ininterruptos de resistências se decepcionou. Encontramos um povo machucado na alma pela violência sofrida, mas consciente do seu papel e saímos de lá com a certeza de que o derrotado foi quem fez da covardia sua política, o governo Zema. Este é o meu relato da ida ao Acampamento Quilombo Campo Grande nesta sexta-feira, dia 14 de agosto de 2.020.

Fomos impedidos pelo Comando Militar da operação na área de entrar pela via pública de acesso para nos encontrarmos com as pessoas. Questionado, afirmou que a operação de reintegração de posse não tinha terminado e que ele tinha protocolos a seguir. Informei que, como deputada estadual, tinha a prerrogativa de entrar, que os protocolos da Polícia Militar não são superiores a Constituição do Estado. Obtive como resposta de um Major voz de prisão se insistisse. Depois da ameaça do Comandante, dois sargentos começaram a filmar. Depois da ameaça. Para este Comandante, suas ações são absolutas e não passíveis de fiscalização ou acompanhamento. Demonstra o caráter autoritário presente na operação. Então, podem imaginar o que as pessoas passaram nos últimos dias. Tivemos acesso as pessoas passando por uma área queimada e pulando uma cerca. A obstrução da região feita pelo batalhão de choque não era na área de reintegração e tinha por objetivo isolar as pessoas.

Após analisar toda a operação montada, não resta dúvidas:  Zema aparelhou o governo, gastou dinheiro público para fazer uma disputa ideológica e política, além de autorizar a prática de violência contra a população. Nada teve a ver com cumprimento de decisão judicial. Foram cerca de 250 policiais, dezenas de viaturas, caveirão, helicóptero, bombas de gás lacrimogêneo, Batalhão de Choque, caminhão do Corpo de Bombeiros, três dias operações fora o tempo de deslocamento, diárias, hospedagens, alimentação. Tudo pago com dinheiro público para retirarem e destruírem a casa de 6 famílias, além da escola. O plano do governo era maior.

A resistência feita pelos agricultores e agricultoras nestes três dias tinha razão de ser. Já tinham passado por experiência semelhante em 2009 quando, a pretexto de cumprir decisão judicial, o governo desapropriou uma área bem maior constituindo uma ilegalidade. Pessoas perderam animais, casas e plantações de uma hora para outra. Então, agora sabiam que o aparato montado tinha o mesmo objetivo: aproveitar uma decisão para ampliá-la ao máximo. Não conseguiram pela resistência que encontraram e pelos gritos que todos começaram a multiplicar denunciando a covardia que era praticada. O plano original do governo não foi cumprido.

Foi uma reintegração cheia de ilegalidades: além do Comandante que acha que seu poder é superior a Constituição do Estado, a prerrogativa dos advogados presentes não foi respeitada; não houve protocolo para retirada dos animais; crianças e idosos foram expostos a violência; não houve qualquer protocolo que protegesse as pessoas da contaminação da Covid-19; as pessoas não sabem para onde seus pertences foram levados nem foram informadas previamente para onde iriam.

Um padre foi detido quando se dirigia ao local. Foi impedido de falar com as pessoas.

Agentes públicos se recusaram e socorrer quem passou mal durante o ataque das bombas.

O judiciário local precisa ser investigado pelos órgãos competentes. Sua parcialidade é gritante. Como também foi absurda a manifestação de opiniões de policiais que ao abordarem assessores da Assembleia Legislativa disseram que deveriam “escolher um trabalho melhor”. O próprio Comandante ao externar sua posição de que iria me prender começou a dar opiniões sobre meu trabalho parlamentar!

A destruição da escola começou quando a Secretaria de Estado da Educação retirou o ensino regular do acampamento. Isso aconteceu no início de 2019. Para estudar, as crianças precisariam se deslocar longas distâncias. Mas isso não foi uma preocupação que incomodou o governo Zema. Criança fora ou dentro da escola, para ele tanto faz. Mesmo assim, a comunidade continuou com a escola, principalmente na tarefa de alfabetização de adultos. A sua destruição no dia 13 demostra o desprezo do governo com a educação. Foi simbólico. Os opressores destroem aquilo que é mais simbólico, que afeta a alma de uma comunidade. Foi o que fizeram.

Nesta sexta à noite participamos de uma Assembleia com todos que estavam na resistência. Nos comprometemos em ajudar na reconstrução da escola e de tudo o que foi destruído, no empoderamento das mulheres com a geração de renda através dos projetos com ervas e raízes que é desenvolvido no Acampamento; tudo o que foi destruído, vamos reconstruir. Mais forte e mais bonito. Também nos comprometemos em denunciar as violações de direitos humanos praticadas e seguir com as medidas que já iniciamos tanto na Câmara dos Deputados como na Assembleia Legislativa; acompanhar até que tenham a liberdade garantida as 4 pessoas que foram detidas. Ao final da Assembleia o balanço foi de vitória de todos que resistiram ao conseguirmos que as operações encerrassem. Ainda mais sabendo que o plano original não foi alcançado, que era expulsar muitas famílias de suas terras, mesmo sem decisão judicial que amparasse tal medida. Viva o povo que resistiu m! Viva o Quilombo Campo Grande! Viva o MST!

Rogério Lula Correia, André Quintão, Ulysses Gomes, Odair Cunha e eu, deputados federais e estaduais do PT fomos a Campo do Meio nesta sexta-feira. Antes disso atuamos em várias frentes para suspender esta crueldade: no judiciário, Defensoria Pública, Ministério Público, denúncias a Organizações internacionais e tentamos diálogo com o Governo, que se recusou, apesar das nossas insistentes tentativas.

Por André Quintão – deputado estadual em Minas Gerais

Estamos saindo neste momento do Quilombo Campo Grande, em Campo do Meio. Conseguimos fechar um acordo com o Comando da Polícia Militar no sentido de que a PM não vai mais avançar em outras áreas e amanhã se retirem do local. Infelizmente, seis famílias foram desalojadas e a escola destruída. Viemos, eu, os deputados Rogério Correia, Odair Cunha, a deputada Beatriz Cerqueira e o deputado Ulysses Gomes.

Conseguimos apaziguar o clima e quero parabenizar as famílias que resistiram bravamente, esperando que elas tenham agora uma noite mais tranquila e retomem suas vidas a partir de amanhã. Queremos agradecer, também, toda essa corrente de solidariedade que se formou em torno desta decisão absolutamente repugnante, de ataque às famílias e despejo em meio a uma pandemia. Toda a mobilização foi fundamental!

Comentário da professora Adriana Aranha

Não acho que alguém aqui pensa que a luta pela posse da terra é feita com tapinhas nas costas.

Não me senti enganada. Só sei que na luta temos que confiar mais nos nossos. Eles têm estratégias e táticas que nem sempre temos o conhecimento do todo. Mas estamos juntos na causa. Essa sim ninguém tem dúvida.

O MST tem uma estratégia de luta e a mobilização e comunicação são fundamentais nessa luta. Todos aqui concordam com isso, né?

Eles escolheram essa tática de colocarem o número total de famílias às estratégias de mobilização e comunicação e, pelo visto, deu certo.

A gente fica aqui falando que precisamos ter estratégias mais exitosas enquanto esquerda e quando um movimento luta a maneira deles a gente fica criticando.

Eu também não sabia que não eram todas as famílias ameaçadas. Inclusive já me comprometi em fazer um resumo de toda essa história depois.

O que sei é que são várias ações e que elas envolvem pedaços diferentes de toda área.

O que tomei conhecimento agora é que um Desembargador mandou desapropriar uma parte que tinha 6 famílias e o juiz local ampliou a área para mais famílias. Isso já tinha ocorrido antes. Em 2009 foram desapropriar 10 famílias e tiraram 50. As famílias estavam desesperadas e com medo de que isso acontecesse agora de novo.

A Defensoria pediu para esperar o julgamento final que será em 28 de agosto e mesmo assim foram com aquele aparato todo para desocupar o terreno em plena pandemia.

A luta nos acampamentos é coletiva. É o todo que está em constante ameaça sempre. Acredito que seja por isso que o MST fez toda comunicação envolvendo o todo, 450 famílias. Estratégia de guerrilha, mobilização e adesão à causa deles, para além das montanhas. E conseguiram! Ou vocês acham que eles mobilizariam esse apoio todo para 6 famílias? A estratégia da direita é clara, vão de grão em grão. Enquanto a direita vai nos comendo e tirando pela beirada até acabarem com a gente, a estratégia do MST foi ao inverso. É o todo que está ameaçado! É a floresta, não a árvore! Fizeram essa aposta e olhando agora pelo retrovisor, foi acertada!

Um comentário

  1. Meu Deus, quanta insensibilidade, mas isso não é novidade, só tinha(tenho) convicção de que com o momento atual, a espiritualidade desses FDP estivesse em andamento, mas vimos que não, somos nós por nós, meu irmão, HAMILTON MOURA, já previa, só o coletivo de protege, e a revolução e de idéias, tamos juntos. 👁️

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