DNA das PMs é o mesmo das antigas volantes, ou bandos de jagunços, do velho coronelismo

O Brasil assistiu estarrecido as cenas da invasão de um policial, fora do serviço e sem uniforme, ao apartamento de algumas vizinhas, onde se reuniam algumas mulheres, que comemoravam a aprovação de uma delas na conclusão de um curso acadêmico. Foram imagens de extremo descontrole e violência.

PM de Santa Catarina invade casa de universitárias e agride quatro mulheres com cassetete. Amigas estavam comemorando a conclusão de um TCC.

O episódio ocorreu em Santa Catarina, porém retrata uma prática comum no Brasil, onde policiais com o sem uniformes têm demonstrado extrema violência no seu relacionamento com os cidadãos, especialmente os mais pobres e negros, que são a maioria da população.

Isso faz com que os policiais militares no Brasil, ao invés de inspirar respeito, como nos países civilizados, gerem terror, medo e desconfiança.

O Brasil teve ao menos 5.804 pessoas mortas por policiais no ano passado – um dado maior que em 2018. É o que mostra um levantamento feito pelo G1 com base nos dados oficiais de 25 estados e do Distrito Federal. Apenas Goiás se recusa a passar os dados.

O número de vítimas em confronto com a polícia cresceu 1,5% em um ano. A alta vai na contramão da queda de mortes violentas no país, a maior da série histórica do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (19%).

Os dados, inéditos, compreendem todos os casos de “confrontos com civis ou lesões não naturais com intencionalidade” envolvendo policiais na ativa (em serviço e fora de serviço).

O levantamento faz parte do Monitor da Violência, uma parceria do G1 com o Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A maioria das mortes (cerca de 95%) aconteceu com policiais em serviço. Os 5% restantes são vítimas de policiais civis e militares na ativa, mas que não estavam trabalhando no momento.

Uma das mortes emblemáticas no ano foi a da menina Ágatha Félix, de 8 anos. Ela foi baleada no dia 20 de setembro dentro de uma Kombi quando voltava para casa com a mãe na comunidade da Fazendinha, no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A perícia concluiu que não houve confronto no momento do tiro e que a bala saiu do fuzil do policial militar Rodrigo José de Matos Soares. Ele responde na Justiça por homicídio qualificado. Caso condenado, poderá cumprir pena de 12 a 30 anos de prisão.

Outro caso de repercussão foi a morte do garçom Francisco Laércio de Paula Lima, de 26 anos, baleado na cabeça na comunidade Barreira do Vasco, em São Cristóvão, na Zona Norte do Rio. Ele trabalhava em um bar na Lapa, no Centro. Testemunhas contaram que Francisco voltava para casa com uma sacola nas mãos e um copo de café quando foi surpreendido por PMs que saíram de um beco atirando.

O aumento no número de mortes, que é somente um aspecto da violência policial – há prisões desnecessárias, excessivo uso da força, humilhações, agressões e outras formas de abuso – vem acelerando desde que Bolsonaro assumiu a cadeira de presidente.

No entanto, Bolsonaro não criou os monstros. Ele estimulou, mas os monstros já existiam.

Policiais e suas famílias são a bucha de canhão do bolsonarismo

Há pesquisas indicando que o grosso dessas poucas dezenas de pessoas, que hoje saem nas agressivas e intolerantes manifestações de apoio ao bolsonarismo, têm algum vínculo com as PMs, que no Rio Grande do Sul é chamada de Brigada Militar.

A origem das polícias é diferente das forças armadas.

Jesse de Sousa dá um “en passant” sobre o assunto nos livros dele.

A origem das polícias militares são os bandos de jagunços formados pelos donatários ou grandes latifundiários, que muito distante das leis da coroa tinham poder de vida e morte sobre quem vivia em suas terras. Eram como reis, sem a mediação das tradições, da aristocracia feudal, da igreja ou das leis, para limitar seu poder, como era o caso dos monarcas na Metrópole.

Os bandos dos latifundiários eram integrados por bandidos violentos e saqueadores da pior espécie. Na virada do século IXX para o XX, os grupos de jagunços começaram a ser organizados como as polícias estaduais ou as “volantes” – que caçavam os jagunços rebeldes.

Esse DNA continua vivo nas polícias de hoje, daí a facilidade de migração para o estágio de milícias ou esquadrões da morte.

Os policiais são adestrados ainda hoje como cães, para serem ferozes com as pessoas. Pesquisadores do setor de segurança dizem que a prioridade no treinamento é a repressão, não o combate ao crime, a inteligência preventiva e a investigação.

As PMs continuam sendo organizadas como volantes, as antigas polícias dos coronéis, formadas por jagunços, como a que exterminou Lampião e levam essas características para a sua vida nos ambientes civis. O resultado são cenas como as que o Brasil assistiu no apartamento invadido em Santa Catarina.

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