RAIO X DO GOLPE E A ASCENSÃO DO BOLSONARISMO

A chamada teoria da conspiração, termo criado para desmoralizar suspeitas envolvendo os poderosos, se revelou verdadeira. O estranho nesta história é a quantidade de gente informada, culta e preparada que acreditou no discurso de negação da presença central dos EUA no processo do golpe e na sua consolidação. Isso, porque a história posterior à Segunda Guerra Mundial é repleta de episódios de intervenção estadunidense em vários países, para remover governos não alinhados aos interesses do sistema financeiro internacional, dominado por Wall Street.

Castelo Branco e Lincoln Gordon, o embaixador estadunidense comandou o golpe de 1964. Documentos desclassificados recentemente provam que não era teoria da conspiração.

Participei, quando jovem, das lutas contra a ditadura oligárquico/militar, que tomou o poder no Brasil, através do golpe de 1964, que teve forte e decisivo apoio dos Estados Unidos. Durante décadas houve denúncias de que os serviços secretos norte-americanos estavam por trás da derrubada da democracia brasileira, porém até mesmo nos meios mais eruditos, essa questão era ironizada como sendo “teoria da conspiração”. Porém, documentos do governo norte-americano, que perderam a classificação de “top secret”, conforme determina a legislação daquele país, provam que a participação dos EUA no golpe foi intensa e decisiva. O mais chocante é que os documentos, fitas e vídeos, que foram transferidos do Pentágono e da Casa Branca, para o Arquivo Público dos Estados Unidos, revelam que as ordens para o envolvimento partiram diretamente do Presidente norte-americano, em reuniões no Salão Oval da Casa Branca.

A chamada teoria da conspiração, termo criado para desmoralizar suspeitas envolvendo os poderosos, se revelou verdadeira. O estranho nesta história é a quantidade de gente informada, culta e preparada que acreditou no discurso de negação da presença central dos EUA no processo do golpe e na sua consolidação. Isso, porque a história posterior à Segunda Guerra Mundial é repleta de episódios de intervenção estadunidense em vários países, para remover governos não alinhados aos interesses do sistema financeiro internacional, dominado por Wall Street.

Evidentemente a importância das oligarquias brasileiras, que comprovam todos os dias estar entre as mais atrasadas do mundo, foi decisiva no processo do golpe. A plutocracia brasileira compõe uma das classes dominantes mais venais do planeta, com elevado grau de preconceito, ausência de valores civilizados, nenhum sentido de soberania e inexistência de projetos de nação. Estas deformações são comuns a todas as oligarquias que surgiram a partir da colonização da América ibérica e distinguem as classes dominantes latino-americanas das elites orientais e asiáticas.

Esta relação simbiótica das classes dominantes brasileiras com a potência dominante da vez sempre determinou a história do Brasil. É uma história de frustração, de um país que é sempre “do futuro”, porque mesmo sendo um dos mais ricos do planeta em recursos de todos os tipos, convive eternamente com uma elite mesquinha, avarenta e usurpadora, que sabota o país todas as vezes que ele ameaça avançar para atingir o seu potencial.

Isso ocorreu na farsa da declaração da República; na deposição de Getúlio em 1946; na conspiração, que levou o presidente ao suicídio; na tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubitscheck; na armadilha parlamentarista contra João Goulart; na ditadura de 1964 e, agora, no surpreendente golpe de estado em pleno século XXI.

O novo golpe, guardadas as diferenças na aparência – não houve tanques nas ruas, tem o mesmo DNA profundo de todos os outros mentos de crise que ocorreram no país: a movimentação da oligarquia, o discurso falso moralista, a participação de uma corporação que tem a força do estado (até 1964 o exército, agora o aparato policial/judiciário), um congresso apodrecido e o apoio da potência dominante. Desta forma é fundamental compreender o momento, para saber os caminhos para evitar esta receita venenosa agora e no futuro.

A colonização definiu o mundo atual

Um ponto de partida, para en8tender o mundo atual, é o início das grandes navegações. Os marinheiros portugueses e, depois, os espanhóis descobriram um novo continente e inventaram o mundo de hoje.

Certamente os portugueses chegaram antes dos espanhóis à América, ao abrirem os caminhos do mar (mas isso é outra história, que fica para ser contada depois). O importante para esta narrativa é que; logo que as caravelas e naus ibéricas começaram a chegar aos portos europeus, carregadas de riquezas fabulosas; todas as nações da orla atlântica do velho continente saíram à caça dos mesmos tesouros.

Os ingleses foram originais e criaram a iniciativa privada moderna, quando marujos independentes organizaram grupos, para piratear os navios espanhóis que vinham carregados de tesouros pilhados dos incas e astecas. Mais tarde, o governo de Sua Majestade passou a apoiar com recursos e o aval político esses empreendimentos, que se fortaleceriam e criaram um padrão histórico: a iniciativa privada de um país somente se torna mundialmente competitiva com apoio governamental.

No Nordeste dos EUA ocorreu o modelo de colonização mais singular das Américas.

Os franceses, que já entraram nesta aventura com apoio governamental, preferiram disputar pedaços das terras descobertas pelos ibéricos ou, pelo menos, as commodities mais valiosas dessas terras “em que se plantando tudo dá”. Foram, então, os grandes concorrentes dos portugueses na disputa pelo pau-brasil – valioso na época, não se sabe bem por que (corante, beleza, madeira de lei? A ciência não chega a um consenso).

Mais tarde vieram os holandeses, que se tornaram no Século XVII a maior potência naval do planeta. A história oficial costuma justificar a rápida ascensão dos Países Baixos, alegando como causa uma inovação: a criação da Companhia das Índias Orientais, em 1602 e, depois, da Companhia das Índias Ocidentais, de 1621.

Uma leitura mais atenta da história revela outra possível causa: a Holanda foi beneficiada pelo êxodo de judeus e muçulmanos convertidos ao cristianismo. Expulsos pelas monarquias fundamentalistas ibéricas, os sefarditas (judeus da península ibérica) e os mouriscos (muçulmanos cristianizados) encontraram abrigo nas províncias holandesas, então rebeladas contra o Império dos Habsburgos, a família que reinava na Espanha e em boa parte da Europa. Em troca da acolhida, os refugiados ibéricos levaram suas imensas fortunas e os segredos da tecnologia naval utilizada pelos portugueses e espanhóis para dominar os oceanos.

A Holanda foi favorecida, também, pelo declínio das duas potências ibéricas. O primeiro a sair da cena das grandes potências foi Portugal, principalmente por causa da extinção da arrojada dinastia de Avis, cujo último rei, Don Sebastião, morreu em uma batalha contra os muçulmanos, em Alcácer Quibir, no Norte da África.

A Espanha reivindicou o direito de sucessão ao trono português, que declarou vago, e dominou o país pela força das armas. Mas logo a coroa espanhola começou a sentir o vultoso esforço movido pelos Habsburgos, para se consolidar como a força dominante na Europa. Essa tentativa exigiu sacrifícios insuportáveis dos territórios governados pela dinastia, que foram obrigados a arcar com imensos investimentos materiais e humanos em guerras sucessivas, responsáveis por corroer as finanças, e consequentemente, o poder militar e naval principalmente da Espanha – ponta de lança da dinastia.

Afastados os ibéricos, o novo adversário da marinha holandesa foi a Inglaterra, país com o qual a esquadra batava travou três guerras memoráveis. O conflito ocorreu em várias etapas, sempre com vitória da Holanda. Em 1667, a esquadra dos Países Baixos entrou no rio Tâmisa e destruiu a marinha britânica. Outra série de vitórias holandesas, nas quais se destacou o Almirante Michael de Ruyter, ocorreu entre 1672 e 1674.

Mas, surpreendentemente, os holandeses, ao que parece, resolveram se aproximar intimamente dos britânicos. Em 1688, ainda no “século holandês”, um nobre dos países baixos, Guilherme de Orange, assumiu o trono britânico, encerrando o conturbado período iniciado na Guerra Civil – que teve um rei decapitado e a ditadura de Oliver Cromwell.

Depois, os holandeses, principalmente os de origem ibérica, ensinaram os britânicos como organizar empresas mais eficientes do que os empreendimentos de pirataria, que era a especialidade dos ingleses. Sem dar muito na vista, os dois países dividiram o mundo, arrebatando partes do Império português, já muito fragilizado e sem a energia dos Avis.

O Nordeste do Brasil e Angola não mudaram de mãos, porque os senhores de engenho do Nordeste se recusaram a pagar impostos no padrão holandês e se rebelaram. Comandando exércitos de índios e mestiços, expulsaram os holandeses do Brasil e de Angola, porque os escravos africanos eram fundamentais para o modo de produção dos engenhos de açúcar.

Jesse de Sousa trata com maestria deste assunto nos seus livros.

A nova dinastia portuguesa, Bragança, não se envolveu na luta contra os europeus, o empreendimento foi totalmente uma iniciativa dos senhores de engenho, que financiaram e comandaram a rebelião.

Nessa época, os Bragança, sem ter a visão ou a coragem dos Avis, preferiram navegar na direção dos novos ventos internacionais e se transformaram em uma semicolônia britânica – situação que perdurou até a Revolução dos Cravos, no final dos anos 1970.

Restauração da independência portuguesa da Espanha, transformou Portugal em uma semicolônia do Reino Unido

Essa acomodação possibilitou a Portugal manter alguns pequenos enclaves, que serviam como ponto de apoio à política colonial Britânica, fundada sob inspiração dos holandeses.

Estimulados pelos comerciantes e banqueiros holandeses, que migravam para a Inglaterra, o Reino Unido disputou e ganhou dos franceses a Índia e a América do Norte.

Esta parte da história é fundamental, porque os modelos de colonização implantados nos imensos impérios britânico, holandês, espanhol e português foram decisivos para o mundo atual.

As experiências colonizadoras que fizeram mais diferença para o mundo de hoje foram as da Espanha, Portugal e Reino Unido. Todas as metrópoles aplicaram estratégias imperiais semelhante nas terras onde existiam culturas primitivas – colônias de extração predatória no primeiro momento (pau brasil, ouro dos astecas e incas, prata de Potosí e, depois, a produção extensiva de commodities rurais (que se tornou o agronegócio de hoje).

Espanha e Portugal iniciaram a sua aventura colonial saqueando riquezas biológicas (madeira, especiarias, peles, alimentos vegetais) e minerais de suas conquistas. Enquanto estas riquezas se exauriam, os dois países começaram a explorar o clima e as boas terras de suas colônias, para produzir commodities agrárias de alta demanda nos mercados europeus: açúcar, algodão, tabaco e café. No início da introdução do que ficou conhecido como regime de plantation, a mão de obra eram os nativos americanos e, mais tarde, africanos.

Os britânicos, depois de limpar o seu território na América dos concorrentes, suecos, alemães e franceses, também adotou o mesmo padrão de exploração agrária intensiva, com mão de obra escrava. Esta estratégia funcionou bem no sul do território britânico da América do Norte e nas terras tomadas dos franceses, no atual Canadá. No Sul do atual dos EUA foi estabelecida uma economia agrária de exportação e o Canadá – que manteve durante décadas a língua francesa, como principal idioma de comunicação de sua população – foi até o final do século IXX o maior exportador de peles para confecções de luxo do mundo.

Uma experiência original de colonização

A colonização do Nordeste da área de colonização britânica foi diferente. O clima era péssimo para a agricultura de plantation e as terras piores ainda. A região acabou se tornando algo próximo a um campo de concentração, para onde foram enviados à força ou incentivados a ir os indesejáveis, por motivos criminais ou diferenças religiosas. O território, então, passou a ser ocupado por minorias religiosas, grupos derrotados nas incessantes guerras sucessórias pela disputa do trono inglês, fugitivos da opressão, criminosos deportados e aventureiros, em busca de uma vida melhor.

A população que se formou no território que ficou conhecido como “Nova Inglaterra” foi praticamente abandonada pela metrópole, diferente daquelas que ocupavam os terrenos mais ao sul e o Canadá.

O território do sudeste norte-americano mantinha intensa relação com a Inglaterra, exportando açúcar, tabaco e algodão, produzidos mediante o trabalho escravo, e adotando um estilo de vida muito semelhante ao das colônias espanholas e portuguesas na América. Sem o comercio com as ilhas britânicas, o sul dos atuais Estados Unidos entraria em falência. O mesmo ocorreria com o Canadá, com a interrupção das suas exportações.

No Norte, as populações foram obrigadas a encontrar soluções de sobrevivência, como uma multidão de Robinson Crusoes, mantendo escassos contatos com a Inglaterra. A historiografia relata casos do desaparecimento de assentamentos inteiros, vitimados pela fome, o rigor do clima ou ataques dos nativos.

Entretanto, as colônias do Nordeste sobreviveram, sua população cresceu e, com o tempo, prosperaram.

Os “abandonados” na Nova Inglaterra no princípio viveram da agricultura e do pastoreio de subsistência, em pequena escala, depois se lançaram ao mar, para disputar com portugueses, franceses, espanhóis e noruegueses, principalmente, as ricas áreas de pesca do Atlântico Norte, entre a Costa do Canadá e a Groelândia.

Com o tempo surgiu uma incipiente indústria da pesca, que demandou barcos e navios, dando início a uma crescente produção naval. Com o desenvolvimento das técnicas navais, os europeus compravam barcos mais modernos dos estaleiros britânicos, franceses ou alemães. Devido à distância da Europa, os norte-americanos da costa nordeste tiveram que fabricar os seus próprios navios.  

Os marinheiros da Nova Inglaterra tiveram importante um papel nas atividades pesqueiras dos séculos XVIII e XIX, chegando, por exemplo, a dominar a caça à baleia. O clássico Moby Dick é um documento deste período.

Este padrão de sobrevivência gerou cadeias produtivas, que levaram à necessidade de materiais e ofícios, que não chegavam da Europa. Surgiram minerações e a produção em escala de metais, assim como aprendizes, escolas e, enfim, universidades.

Quando ocorreu a movimentação pela independência das 13 colônias, o território onde surgiriam os Estados Unidos era dividido entre um sul muito parecido com o Brasil, com poderosos latifundiários, donos de uma multidão de escravos; o norte a caminho acelerado da industrialização; e um centro dedicado ao comércio, que dominava as transações com a Europa e o Caribe.

Os colonos do norte – já contando com uma elite rica e instruídas nas suas próprias escolas – era muito menos dependentes da metrópole e tinha grande interesse pelos mercados do Sul. Por seu lado, as riquíssimas famílias do sul costumavam enviar seus filhos para estudar na Europa, onde toda uma geração foi influenciada pela propaganda revolucionária do Iluminismo.

Portanto, quando explodiu a rebelião, iniciada em Boston, o caldeirão para uma profunda mudança já estava fervendo e energizava a maior pare da elite financeira e intelectual de norte a sul das 13 colônias.

O novo país era regionalmente profundamente desigual. O Sul era rico e muito parecido com as colônias ibéricas, mantendo uma economia agroexportadora, baseada na escravidão. O Norte, começava a desenvolver uma base industrial e, por isso se movia em busca de riquezas minerais e mercados internos (pois seus produtos ainda não eram competitivos com os da Europa).

Logo que ultrapassaram os Apalaches, a cordilheira que separava a costa leste dos Estados Unidos do interior do país, os exploradores descobriram que o país era riquíssimo nos minerais mais importantes, para a primeira etapa da Revolução Industrial: ferro, cobre, estanho e carvão mineral).

Os anos seguintes determinaram diferentes interesses geoestratégicos das duas partes do país. Ao Sul interessava uma economia aberta, com o mínimo de taxação para exportações e importações. Os aristocráticos senhores de escravos, exatamente como os brasileiros, mexicanos, venezuelanos, costa-riquenhos, cubanos, e outros, pretendiam vender suas commodities agrárias nos mercados europeus e comprar todos os produtos que precisavam no Velho Mundo. Por seu lado, os empreendedores da jovem indústria do Norte, demandavam uma política externa, oposta à defendida pelos sulistas: reserva de mercado, através de altas taxas de importação. Os estados nortistas pretendiam substituir os produtos vindos da Europa, por outros fabricados no país.

Esta característica forjou no nordeste dos Estados Unidos uma burguesia diferente de todas surgidas nas outras colônias do Novo Mundo. Enquanto a economia com base em exportação de commodities agrárias e na mão de obra escrava, deu origem a uma burguesia preguiçosa, primitiva, semifeudal, mentalmente colonizada e sem nenhum senso de nacionalidade – em quase toda a América – a opção industrial da Nova Inglaterra forjou uma classe dominante com um aguerrido projeto nacional, que tem como centro colocar o estado a serviço da expansão de capitalismo local. Ao longo do tempo, este projeto nacional evoluiu para um sentido aguçado de geopolítica.

Enquanto as burguesias semifeudais de quase toda a América se mantinham no seu atraso esplendido, mantendo seus países como semicolônias e zonas livres para a exploração de riquezas e dos seus povos; a elite industrial do nordeste dos Estados Unidos embarcava no trem da Revolução Industrial, tendo como objetivo alcançar as economias mais avançadas do planeta.

Essa mutação, ocorrida por acaso e de uma forma quase darwiniana, começou a moldar o mundo atual. A origem do capitalismo norte-americano não é fruto de nenhuma moral religiosa, mas de circunstâncias materiais: uma população obrigada a viver em um local isolado, com escasso apoio da metrópole, portanto tendo como única alternativa vencer as adversidades, em um território que, posteriormente, se descobriu ser rico nos elementos necessários a uma economia industrial. Ou seja a oposição dos EUA como grande potencia não vem de nenhuma da realização de nenhuma crença supersticiosa, como o “destino manifesto” ou da “superioridade da moral protestante”, mas sim do acaso, que levou uma população a ter que se virar e da boa sorte de encontrar imensas reservas de insumos para a revolução industrial, em uma época na qual esses produtos (ferro e carvão mineral) não podiam ser exportados em larga escala.  

Nos primeiros anos de independência, enquanto os estados do sul faziam a fortuna de sua elite aristocrática vendendo algodão e tabaco para a Europa, o Norte construía, em um primeiro momento, uma competitiva marinha mercante e uma poderosa esquadra militar. Essa força naval ampliou o poder nacional norte-americano desde o alvorecer da República, ainda no Século XVIII, quando o jovem país desafiou a França, entre os anos de 1778 e 1800. Na sequência, de 1801 a 1805, a marinha norte-americana atravessou o Atlântico, desconhecendo as advertências do Império Britânico e entrou no Mediterrâneo, para invadir a Líbia e punir corsários berberes, que haviam assaltado barcos mercantes de armadores dos Estados Unidos. De 1812 a 1815, os EUA declararam guerra ao Reino Unido, que já eram a maior potência naval do planeta. Entre 1816 a 1852 frotas dos Estados Unidos operavam nas Américas, Caribe, África, Mediterrâneo, Ásia e ilhas do Pacífico.

O Japão – até então fechado para o comércio mundial, abrindo exceção apenas para os comerciantes holandeses – é humilhado pela esquadra do Almirante Perry. Na sequência, os japoneses abrem seu país para comércio mundial e, chocados com o poder das nações ocidentais iniciam, uma corrida para a modernidade.

Antes do início da Guerra Civil Norte-americana, a marinha dos EUA já tinha levado a bandeira do país ao mundo inteiro e contribuído para a incorporação de novos territórios, como na subtração à força da riquíssima Califórnia do México.

Marinha dos EUA forçou a abertura dos portos japoneses.

A indústria da Nova Inglaterra havia se diversificado e o país crescia como potência siderúrgica, o que permitiu entrar em novas áreas como a fabricação de armas, máquinas e ferrovias. Enquanto cada estado do Sul comprava equipamentos ferroviários do Reino Unido, da Alemanha e da França, o que criava problemas logísticos por causa da diferença de bitolas e modelos de trilhos entre um estado e outro; no Norte empresários agressivos começaram a implantar um sistema de ferrovias, com máquinas padronizadas, que em pouco tempo passou a ser o maior do mundo.

A mais sangrenta guerra do Século XIX começou em 1861 e foi até 1865. Foi o primeiro conflito em escala industrial do mundo e teve como consequência o nascimento, de fato, dos Estados Unidos.

A literatura tradicional credita a causa do enfretamento às divergências entre os estados, com relação à questão da escravidão. O abolicionismo foi uma das causas do conflito, porém o verdadeiro detonador da guerra foi a diferença da concepção de país entre o norte e o sul. O Sul pretendia manter um país de baixas taxas de importação e exportação, sem uma base industrial expressiva e mantendo o centro da economia na exportação de produtos agrícolas intensivos. Para os estados do norte era fundamental elevar barreiras de importação, para criar reserva de mercado e defender uma jovem indústria, ainda incapaz de competir com a concorrência da Europa.

Vitoriosos os Estados do norte não apenas protegeram as suas indústrias, como obtiveram mais duas conquistas decisivas: o amadurecimento do parque industrial, obrigado a superar seus limites no esforço da guerra, até atingir capacidade competitiva global; e a abertura do rico mercado do sul do país.

Vitória da União marcou o nascimento de fato dos Estados Unidos, sob a hegemonia dos estados do Nordeste

As forjas da guerra fabricaram um país de acordo com o projeto de nação da elite do Nordeste, que passou a dominar o país e mantém este domínio até hoje, seja explicitamente através dos seus presidentes ou manobrado nas sombras dos bastidores.

A antiga colônia entra no grande jogo das potências

Depois da entrada espetacular do país no grande jogo das potências mundiais – ainda euro centrado – através da guerra contra o decadente Império espanhol, os estrategistas do país perceberam na Primeira Guerra Mundial, o conflito que estava destruindo a Europa, uma oportunidade de situar o país no centro da geopolítica mundial.

De fato, os Estados Unidos já eram desde o fim do século XIX a maior potência industrial do mundo, e em 1913 tinham um PIB per capita cerca de 30% maior do que o da Grã-Bretanha, país mais rico da Europa. Porém, o isolacionismo fechava portas, que estavam abertas para os países europeus. A Europa atuava livremente no sistema financeiro mundial e os bancos com sede no velho mundo dominavam as transações bancárias no planeta. Os financiamentos externos de bancos da Grã-Bretanha, da França e, em menor medida, da Alemanha juntas representavam dez vezes os empréstimos concedidos por instituições dos Estados Unidos. Todos os grandes bancos europeus eram controlados por famílias tradicionais, sendo que as mais poderosas atuavam no negócio desde o final da idade média. Alguns surgiram na Itália e migraram para o norte da Europa.

No final da Primeira Guerra, o cenário estava completamente mudado. A Europa foi arrasada. As potências europeias perderam no conflito a maior parte de suas reservas de ouro. O metal precioso foi canalizado para os Estados Unidos, como pagamento pelas matérias primas, necessárias ao esforço de guerra: comida, aço, combustíveis e outros suprimentos. Nada menos do que 50% dos estoques de ouro mundial estavam sob o controle estadunidense, em 1923. Esta transferência de riqueza é o fundamento da supremacia internacional da moeda norte-americana.

A Segunda Guerra foi a alavanca que permitiu à elite norte-americana terminar o serviço.

Mais uma vez, contra a vontade da maioria da população, a elite da costa nordeste, levou o país ao conflito. O objetivo era claramente a hegemonia mundial, que seria viabilizado por algumas metas: a derrota da Alemanha, a contenção do Japão no oriente e a desarticulação do Império Britânico. Os estrategistas dos Estados Unidos esperavam que a URSS saísse praticamente destruída do conflito e nem remotamente cogitavam a possibilidade do domínio da China pelos comunistas.

Os maiores conflitos enfrentados pela humanidade tiveram como resultado a extinção do período euro-centrista da história. O domínio do planeta passou a ser dividido entre os Estados Unidos e a União Soviética, que ao contrário da previsão dos formuladores estadunidenses saiu do combate mundial como a mais poderosa força terrestre do planeta.

A Segunda Guerra Mundial enterrou o eurocentrismo

Desde então, os europeus procuram reencontrar o seu lugar no mundo, a partir de duas visões distintas. Por um lado, a unidade, no conceito de Comunidade Europeia, proposta pela Alemanha e a França. De outro, está o Reino Unido, que oscila entre o projeto de unidade europeia e a integração em longo prazo com os Estados Unidos – o que, na prática, consolidaria os países da Europa, como protetorados estadunidenses.

A nova ordem mundial posicionou a elite da costa nordeste no centro de comando da porção mais rica da Terra. Os acordos feitos no pós-guerra atraíram para a órbita norte-americana as tradicionais famílias de banqueiros europeus e desenharam o mundo atual, nos aspectos que são de fato decisivos para o exercício do poder: a economia – que inclui o domínio do sistema financeiro mundial; o estabelecimento da estrutura do comércio global; a abertura dos mercados internos da maioria dos países; o controle das fontes de energia; e o acesso às commodities vegetais e minerais estratégicas em qualquer ponto do planeta.

Descendentes de colonos pobres dominam o mundo

Com o colapso da União Soviética, em 1991, o poder da elite da costa nordeste dos EUA deixou de ter barreiras relevantes. Na última década do Século XX, a hegemonia dos Estados Unidos passou a ser de fato global. Neste período o mundo passou a ter apenas um polo incontestável, sem que nenhum país do planeta tivesse forças econômicas ou militares para contrariar a “Pax Americana”. Os maiores exemplos da nova ordem, determinada pelos interesses da elite norte-americana, são a desarticulação do Iraque, na Primeira Guerra do Golfo e a fragmentação da Iugoslávia.

Para aquelas populações abandonadas, praticamente à própria sorte no inóspito litoral nordeste dos Estados Unidos, a chegada ao virtual domínio do planeta foi o resultado de uma extraordinária caminhada. O sucesso do projeto geoestratégico da elite norte-americana parecia tão completo, que um polemista nipo-estadunidense, Francis Fukuyama, vaticinou: é o fim da história.

Queda da União soviética parecia estabelecer um mundo com uma única potencia hegemônica

Porém, a enorme autossuficiência da elite norte-americana provocou descuidos e erros, que acabaram por corroer o mundo unipolar. O ataque às Torres Gêmeas do World Trade Center, no dia 11 de setembro de 2001, em um impressionante episódio coberto em tempo real pela mídia mundial, foi o Pearl Harbor dos tempos pós-modernos. O atentado terrorista se transformou em um motivo sob medida, para justificar a invasão do Afeganistão e a Segunda Guerra do Golfo contra o Iraque.

O ataque ao Afeganistão é sintonizado com as teses do cientista político de origem polonesa Zbigniew Brzezinski, que serviu como Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos durante a presidência de Jimmy Carter. Articulando os conceitos de Heartland, desenvolvido pelo geógrafo inglês Halford J. Mackinder e Rimland, proposto por Nicholas J. Spykman, um estrategista norte-americano (duas teses muito populares durante a Segunda Guerra Mundial), Brzezinski, defendia uma estratégia, de cerco “ofensivo” contra a URSS, que consistia na ideia de envolver a União Soviética em um conflito interminável no Afeganistão – a política do “cordão sanitário”. A invasão do Iraque também é parte da formulação do cientista político polonês, o qual defendia a militarização estratégica, para assegurar o acesso seguro ao petróleo do Oriente Médio.

Enquanto os Estados Unidos e seus aliados estavam entretidos nos onerosos atoleiros do Afeganistão e do Iraque, outro poder global e multipolar estava surgindo, oferecendo ao mundo alternativas diferentes do modelo euro-americano de política externa, que se fundamenta em uma relação de força e poder. Este novo polo de influência adotou o acrônimo BRICS, criado pelo economista britânico Jim O’Neill, para designar as economias que mais cresciam no planeta: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

BRICS iriam mudar o mundo

O planeta termina a primeira década do segundo milênio assistindo o relativo declínio do poder euro-estadunidense, o crescimento da influência dos BRICS e a crescente possibilidade do surgimento de uma nova ordem multipolar no mundo. A concretização deste cenário era uma possibilidade inaceitável pela a elite euro-estadunidense.

BRICS poderiam ser um novo polo de civilização. Mas hoje se resumem à Rússia e China

A administração que sucedeu o governo Bush, responsável pelo mergulho descontrolado no Afeganistão e no Iraque, reviu toda a política externa dos Estados Unidos, o guardião dos acordos estabelecidos após a Segunda Guerra Mundial. Além do controle das fontes de energia e de commodities estratégicas, também passou a ocupar o centro do eixo estratégico norte-americano a desestruturação dos BRICS e a redução da capacidade competitiva destes países.

A opção militar, sempre muito dispendiosa, foi colocada em segundo plano, substituída por estratégias chamadas PsyWar (Guerra Psicológica), eficientes e baratas. Várias técnicas são usadas, em geral utilizando e amplificado as contradições, através do controle da mídia e cooptação de grupos de cidadãos dos países-alvo. O objetivo é influenciar os sistemas de valores, crenças, emoções, motivações, raciocínio e o padrão de comportamento das populações.

A comunicação como arma de guerra

As técnicas de PsyWar não são novas. A elite da costa leste debate este tema desde o final da Primeira Guerra Mundial. Um pioneiro nestes estudos foi Walter Lippmann, jornalista, comentarista político e filósofo, formado em Harvard. Inspirado nos estudos de Platão. Lippmann recorreu especialmente ao Mito da Caverna, do filósofo grego, para explicar a formação da opinião pública nas sociedades humanas.

            (- Vede! Homens vivendo em uma espécie de caverna subterrânea cuja entrada abre-se à luz que cobre o lugar em toda a extensão; têm estado aqui desde a infância, e têm suas pernas e pescoços algemados de modo que não podem mover-se, podendo ver somente o que lhes está à frente; pois as correntes foram colocadas de tal forma a impedir que virassem suas cabeças. Nua distância atrás deles a luz do fogo está brilhando, e entre o fogo e os cativos há um caminho escarpado; e você verá, se observar, um pequeno muro construído ao longo do caminho, como a cortina que encobre os manejadores de marionetes, atrás dos quais mostram os bonecos. (…) E você vê, eu disse, homens que aparecem sobre o muro, passando ao longo do muito carregando vasilhas; também figuras de homens e animais feitos de madeira e pedra e vários materiais; e alguns dos prisioneiros, como você pode supor, estão conversando, e alguns estão em silêncio? (…) E eles vêm somente as suas próprias sombras, ou as sombras dos seus companheiros, que o fogo projeta na parede oposta da caverna? E os objetos que estão sendo carregados de forma que podem ver somente sombras? E se pudessem conversar uns com os outros, não suporiam que estavam nomeando algo que estivesse realmente a suas frentes?) A República de Platão, Livro sete.

O ensaísta estadunidense concebia a humanidade, como os prisioneiros da caverna, segundo ele os seres humanos foram capazes de criar aparelhos para ver as estrelas mais longínquas, os objetos microscópicos, ir rapidamente a distâncias imensas, ouvir sons inaudíveis; porém a experiência viabilizada por esses equipamentos somente era acessível a uns poucos homens. Ao resto da humanidade restava conhecer a realidade em segunda mão: através de quem viu, ouviu, sentiu ou foi. Mesmo quem conta ao outro, na maioria das vezes, ficou sabendo de um intermediário.

Conforme disse Lippmann,

(“o único sentimento que alguém pode ter acerca de um evento que ele não vivenciou é o sentimento provocado por sua imagem mental daquele evento. O que cada homem faz está baseado não em conhecimento direto e determinado, mas em imagens feitas por ele mesmo ou transmitidas a ele. A forma como o mundo é imaginado determina num momento particular o que os homens farão. A propaganda é o esforço de alterar a imagem à qual os homens respondem, substituindo um padrão social por outro. Aquelas imagens que são feitas por grupos de pessoas, ou por indivíduos agindo em nome de grupos, se constituem na Opinião Pública em letras maiúsculas. Minha conclusão é que, para serem adequadas as opiniões públicas precisam ser organizadas para a imprensa e não pela imprensa”.)

O que o teórico norte-americano defendia era a possibilidade de “fabricar o consenso” ou fabricar a opinião pública. Algumas ideias sugeridas pelo filósofo foram experimentadas com extremo sucesso durante a Primeira Guerra Mundial. Um dos projetos foi o The Minute Men Service, implantado antes da declaração de guerra à Alemanha. Naquela ocasião a maioria da população norte-americana cultivava um sentimento de isolacionismo, com forte oposição à participação no conflito europeu. O programa concebido por Lippmann e sua equipe, a serviço governo dos EUA, contratou e treinou milhares de homens (os Minute Men), espalhados por todo o território do país, com a missão de fazer discursos de um minuto antes de todas os eventos públicos que ocorressem em grandes e pequenas cidades. Eram falas curtíssimas, antes de sessões de cinema, espetáculos de circo, peças de teatro, partidas de futebol americano, basquete, beisebol e outros eventos. As intervenções rápidas desses porta-vozes, que transmitiam informes enviados a eles por telegramas federais, eram impregnadas da versão do governo dos Estados Unidos. Em poucos meses a forte rejeição à guerra se transformou em apoio entusiasmado à aventura que enviou milhões de jovens aos campos de batalha do velho mundo.

Lippmann não é uma figura isolada, ele representa uma tendência da elite norte-americana dominada pelo sofisticado pensamento da costa nordeste. Em 1921, atuando como jornalista, o filósofo participou da fundação do mais influente thinktank norte-americano, o Council on Foreign Relations ou CFR, que desde então tem participado ativamente das principais formulações da política geoestratégica do país. Além de Lippmann, o CFR tem entre seus fundadores alguns dos mais poderosos magnatas dos Estados Unidos, como J.P. Morgan, John D. Rockefeller, Paul Warburg, Otto Kahn, Jacob Schiff e Edward M. House. Além da imensa riqueza de seus fundadores – assim como dos membros atuais – há ainda outros aspectos revelam a enorme influência da organização. Exceto Reagan, todos os presidentes norte-americanos desde Franklin Delano Roosevelt foram integrantes do CFR, assim como quase todos os chefes da CIA, a partir de Allen Dulles.

O conselho é reconhecido como “escola de estadistas” e, de acordo com C. Wright Mills (professor de sociologia das universidades de Maryland e Columbia), reúne a nata da elite do poder – um grupo de pessoas poderosíssimas, com interesses semelhantes e a intenção de moldar os eventos mundiais, a partir de posições invulneráveis e Invisíveis nos bastidores.

As Nações Unidas foram criadas a partir das estratégias do CFR, bem como o Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial. Entre seus membros atuais, o CFR conta com David Rockefeller, Dick Cheney, Barack Obama, Hilary Clinton, o influente pastor Rick Warren e os CEO’s de grandes empresas, como a CBS, Nike, Coca-Cola e Visa. É através do CFR que os banqueiros internacionais, o poder político e a comunidade de inteligência global se misturam. Certamente esses senhores não se encontram no CFR para tomar um inocente chá das cinco e conversar sobre o resultado do basebol.

Quando o primeiro presidente oriundo do CFR assumiu o poder, seu chefe da comunicação era um seguidor de Lippmann, o austríaco Edward Bernays, considerado o “pai da publicidade moderna”. Como Lippmann, Bernays acreditava que a população em geral é irracional e sujeita ao “instinto de manada”. Na sua trajetória profissional, o publicitário austro-norte-americano desenvolveu técnicas para obter este efeito na população, não só a dos Estados Unidos, como também de outros países que interessassem à geopolítica do governo estadunidense.

Uma fala de Bernays descreve suas concepções:

“a manipulação consciente e inteligente dos hábitos organizados e das opiniões das massas é um elemento importante na sociedade democrática”.

Quando a Segunda Guerra já havia começado na Europa, mas os Estados unidos ainda se mantinham neutros, a Fundação Rockfeller organizou na Universidade de Chicago uma série de debates, que ficaram conhecidos como “Seminários Secretos”, realizados entre 1939 e 1940. Diversos pesquisadores, entre eles Harold Lasswell, para debater o tema do controle da opinião pública, através da comunicação.

Lasswell dá o tom dos objetivos dos Seminários Secretos de Chicago:

 “quando as elites não têm a força necessária para obrigar a obediência, os gestores sociais devem se voltar para uma nova técnica de controle, em grande parte por meio de propaganda. De acordo com o cientista político, é preciso reconhecer a ignorância e estupidez das massas e não sucumbir à dogmatismos democráticos sobre os homens serem os melhores juízes de seus próprios interesses”.

Os Estados Unidos utilizaram as técnicas desenvolvidas a partir desses estudos na sua própria população, por exemplo, no convencimento da opinião pública a aceitar entrar na Segunda Guerra – claro, tiveram grande ajuda dos japoneses – e, depois, com o objetivo de desenvolver um forte sentimento antissocialista – utilizando a União Soviética como a representação da “ameaça do mal”.

Porém as técnicas do que Lippmann definiu como a fabricação do consenso foram mais utilizadas na viabilização do império informal dos Estados Unidos no pós-guerra. A política geoestratégica do país era orientada por dois imperativos: o acesso seguro a energia (petróleo e gás) e a commodities estratégicas minerais e vegetais; e a contenção agressiva da União Soviética. Estas políticas foram desenvolvidas através da vertente militar (HotWar) e das operações psicológicas (PsiWar). As guerras da Coréia e do Vietnam podem ser enquadradas no primeiro conceito e a derrubada do governo democrático de Mohammed Mosaddeq, no Irã, é uma clássica operação de guerra psicológica, assim como os diversos golpes militares que ocorreram na América do Sul (Brasil, Chile, Argentina e Uruguai, principalmente).

Novas estratégias depois da derrota no Vietnam

Após a derrota na dispendiosa Guerra do Vietnam, os estrategistas norte-americanos mudaram seu foco, passando a priorizar as estratégias menos custosas de PsyWar ou as guerras por procuração. A partir das doutrinas de Zbigniew Brzezinski, a inteligência estadunidense procurou explorar as contradições da política interna dos países-alvo, para manejar parte ou toda a população de acordo com os interesses dos Estados Unidos.

A derrota no Vietnã forçou o império informal estadunidense a buscar novas estratégias

Estas contradições poderiam ser de cunho religioso, como ocorre principalmente nas regiões islâmicas, econômicas, étnicas, tribais ou culturais. Para o teórico polaco-norte-americano, o interesse dos EUA não exige a ocupação física de outras nações, mas sim obter o controle político através de grupos aliados ou a desorganização desses estados, para neutralizar esses países, enfraquecê-los, ou viabilizar o acesso às suas riquezas.

O uso dos músculos militares deveria ser utilizado apenas para efeito de propaganda contra estados mais fracos – como foi o caso da guerra contra a pequena ilha de Granada, durante o governo Reagan, ou a invasão do Panamá, sob George W Bush, e os constantes bombardeios da Líbia, do Líbano, dos países do Chifre da África e da Iugoslávia em desintegração.

A Guerra do Golfo foi um ponto fora da curva e ocorreu para evitar a desmoralização mundial dos Estados Unidos. Caso Saddam Hussein não fosse detido, o poder norte-americano seria contestado no mundo inteiro.

A posterior invasão do Afeganistão – e não apenas uma expedição punitiva para prender Bin Laden e os líderes talibãs – está de acordo com a concepção de “cordão sanitário”, de Brzezinski, agora com o objetivo de conter o ressurgimento do poder russo – ainda uma potência nuclear; fincar forças na fronteira noroeste da China; e ter uma eventual plataforma contra a Índia. A segunda guerra contra o Iraque, que derrubou Hussein, também é parte da estratégia do estrategista polaco-norte-americano, pois visou desorganizar e colocar em constante stress a região de onde sai a maior parte do petróleo do planeta.

É interessante observar que todas essas guerras foram cobertas em tempo real por um poderoso aparato de comunicação, liderado pela CNN. No entanto, diferente do que ocorreu no Vietnam, toda a cobertura foi controlada pelas forças armadas dos EUA que, desta forma, asseguravam sempre uma visão unilateral e favorável aos interesses norte-americanos. Essa estratégia de comunicação desumanizou as populações islâmicas, ao apresentá-las ao mundo como bárbaras, irracionais e violentas, transformando as guerras norte-americanas em lutas maniqueístas do bem (os EUA) contra o mal.    

Com o avanço fulminante da Internet de banda larga, as técnicas de PsyWar atingiram outro nível. As redes sociais permitiram utilizar as mesmas técnicas de aproveitar as contradições internas dos países, para estimular contestações políticas. A Internet foi o canal para apontar os graves problemas de autoritarismo e falhas econômicas das ditaduras nos países do norte da África e na Síria. A movimentação na Internet em alguns casos foi apoiada pela organização de grupos armados em alguns países (islâmicos ou mercenários), para impulsionar a revolta popular e transformar protestos pacíficos em mobilizações violentas ou guerras abertas.

Esse padrão não foi seguido na Tunísia, onde uma revolta popular derrubou o governo, nem no Egito, país no qual o levante da população foi seguido, primeiro pela chegada ao poder de grupos fundamentalistas islâmicos e, depois, houve um golpe militar.

Funcionou na Líbia, país que deixou de existir, como estado soberano.

A estratégia quase foi bem-sucedida na Síria. Porém, a operação de mudança de regime foi detida pela grande complexidade do país de história milenar e o apoio da força aérea russa, tropas especiais iranianas e aguerridos militantes do Hezbollah.

Guerra psicológica na América Latina

A PsyWar também está em curso na América Latina. A estreia foi na Venezuela, onde uma minoria da população, contando com treinamento e muito dinheiro de ONGs norte-americanas, mantem o país conflagrado há anos.

Agora a PsyWar chegou ao Brasil. Na verdade, nunca esteve ausente.

Em 1964 houve uma operação de PsyWar no país, associada à organização de uma intervenção militar – que acabou não sendo necessária. O monitoramento norte-americano aos governos militares foi intenso, inclusive no treinamento de torturadores, até o período Geisel. O general gaúcho chegou ao poder trazendo os conceitos positivistas e nacionalistas que marcaram o seu estado e grade parte das forças armadas. Nesse período ocorreu uma ruptura com os Estados Unidos, explicitada pela recusa do Brasil em manter o acordo de aquisição de armamentos, que transferia equipamentos usados e obsoletos dos arsenais dos EUA para as forças armadas brasileiras e na adoção de uma política de domínio do ciclo nuclear contra a vontade dos norte-americanos.

O regime militar caiu por suas contradições políticas e econômicas, mas contribuiu para a queda a falta de apoio dos Estados Unidos. Na sequência, os governos Sarney, Collor e Fernando Henrique Cardoso escancararam as portas do Brasil para os interesses estadunidenses. Itamar Franco foi o único que manteve uma resistência débil à globalização comandada pelo Sistema Financeiro euro-americano, mas não teve força política para resistir à política de privatizações e de desnacionalização operadas por seus aliados tucanos – principalmente.

A chegada de Lula ao poder mudou pouco na política econômica nos seus fundamentos, porém a opção pela criação de um forte mercado interno e a opção pela indústria nacional; inclusive nas bilionárias compras do governo; levaram a economia brasileira a uma época de crescimento acelerado. Por volta de 2008, a economia brasileira ameaçava ultrapassar a do Reino Unido, para se tornar a quinta maior economia do mundo. A prosperidade permitiu um inédito investimento nas forças armadas, que caminhavam em direção a se posicionar entre as oito mais poderosas do planeta, e assegurou autoconfiança necessária, para que o governo Lula lançasse o país na arena diplomática internacional. Entre tantas notícias boas, ainda houve a descoberta do Pré-sal, a maior reserva de petróleo encontrada nos últimos 60 anos e que torna o Brasil uma das três fronteiras futuras da exploração petrolífera – ao lado da Ásia Central e África, locais que vão substituir os atuais produtores, a caminho da exaustão de suas reservas.

O pré-sal era o bilhete de entrada definitiva do Brasil no primeiro mundo. Foi tomado dos brasileiros no golpe de estado de 2016

A passos largos, o Brasil se encaminhava para se consolidar como uma potência mundial e, ao lado dos países que compõem os BRICS, seria um dos polos de um novo formato da economia planetária. O desenho que estava se materializando retirava os Estados Unidos da hegemonia global e ameaçava provocar o enfraquecimento das instituições que projetaram a ordem mundial, após a Segunda Guerra Mundial. 

A consolidação de uma nova potência mundial na América do Sul, local que sempre foi considerado um quintal dos Estados Unidos, é inaceitável para a elite norte-americana. É uma reação normal e da natureza dos impérios. Nenhum império quer ver sua hegemonia desafiada, seja em termos militares, políticos, econômicos ou culturais.

Como era de se esperar, o poder norte-americano passou a se empenhar para impedir a concretização do Brasil como potência mundial. A estratégia fundamental foi a mesma desenvolvida deste os pioneiros estudos de Lippmann e utilizada para operar a mudança de regime em diversos países, a começar do Irã, em 1954: a PsyWar, porém empregando também os recursos da Internet.

A denúncia feita pelo ex-administrador de sistemas da CIA dos Estados Unidos, Edward Snowden, e divulgadas mundialmente pelo Wikileaks, de que os serviços de segurança norte-americanos estavam espionando altas autoridades e grandes empresas brasileiras, entre elas a própria presidente da república e a Petrobrás, é uma prova contundente de intervenção externa nos assunto do Brasil. Então, duvidar de que os Estados Unidos têm forte interesse em intervir no Brasil é tão ingênuo, como o foram as dúvidas de que os serviços secretos norte-americanos – em alguns casos até mesmo tropas especiais – estiveram por trás do golpe de 1964 no Brasil ou da deposição de Salvador Allende.

Segundo o linguista norte-americano Noam Chomsky, reconhecido filósofo e Professor no M.I.T, a estratégia de PsyWar tem dez etapas.

1. A estratégia da distração: consiste em desviar a atenção da população dos problemas importantes, bem como das decisões e mudanças levadas a cabo pelas elites políticas e económicas, mediante bombardeamentos contínuos de informação insignificante. Esta estratégia é utilizada para impedir que as pessoas se interessem por questões essenciais da ciência, da economia, da psicologia, da política, da neurobiologia ou da cibernética, por exemplo.

2. Problema-reação-solução: apoiada pelos meios de comunicação, a classe dominante engendra um problema – uma “situação” prevista para causar uma determinada reação no público – de maneira a que, como resposta, a própria população proponha ou exija medidas eles desejam programar. Um exemplo é provocar a intensificação da violência urbana, de modo sejam demandadas novas leis e políticas de segurança, ainda que para visível prejuízo da liberdade das pessoas. Outro exemplo – muito em voga nos dias que correm – passa por forjar uma crise económica para forçar a aceitação, como um mal menor, do total retrocesso dos direitos sociais e da privatização e desmantelamento dos serviços púbicos.

3. A estratégia gradual: para fazer com que uma medida inaceitável não pareça intolerável, ela é aplicada gradualmente, como que a conta-gotas, por anos consecutivos. Durante as décadas de 1980 e 1990, nos EUA e Europa foram sendo impostas progressivamente condições socioeconómicas radicalmente novas – minimização do poder do Estado relativamente ao das corporações, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários miseráveis – mudanças estas que, se tivessem sido aplicadas de uma só vez, teriam provavelmente levado a algum tipo de revolução.

4. A estratégia de aceder: outra maneira de forçar a aceitação de uma decisão impopular é adiá-la como “dolorosa e desnecessária”, concordando momentaneamente com o descontentamento da maioria, mas abrindo por outro lado caminho para uma futura aceitação pública. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato, e as pessoas têm sempre tendência a acreditar ingenuamente que “tudo estará melhor amanhã”, e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Este processo faz com que com o tempo as pessoas se habituem à ideia de uma mudança indesejada, e de aceitá-la com resignação quando chegar o momento.

5. Dirigir-se ao público como se este fosse criança: a maior parte da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entoações particularmente infantis, muitas vezes próximas da debilidade mental, como se todos fossem crianças ou sofressem de distúrbios mentais.

6. Sobrepor o aspecto emocional ao racional: abusar do aspecto emocional de um fato é uma técnica clássica para causar um curto-circuito na observação racional deste e, em última análise, no sentido crítico. Por outro lado, recorrer a uma abordagem emocional garante ainda uma maior facilidade de acesso ao inconsciente para implantar ideias, desejos, medos ou compulsões. É típico, por exemplo, nas reportagens sobre os malefícios das drogas, em que se entrevista as pobres mães das vítimas, em vez de se focar as verdadeiras origens e contornos do problema.

7. Manter o público na ignorância: para conseguir manter um regime de controle e de escravidão convém os controlados sejam o mais possível incapazes de compreender as tecnologias e os métodos que para tal são utilizados. A qualidade da educação deve assim ser inteiramente focalizada os aspectos técnicos, eliminando os conteúdos sociais, humanistas e críticos, para dificultar a elaboração de percepções do mundo alternativas na sociedade.

8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade: esta estratégia consiste em levar o público a crer que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto. Passa pela divulgação preferencial de conteúdos medíocres como a “BBB Brasil”, “Domingão do Faustão”, “Programa do Huck”, e pela coroação de ícones populares, como Safadão, Datena ou Danilo Gentili, que não contribuem para a cultura nem à inteligência.

9. Reforçar a auto culpabilização: fazer acreditar que os cidadãos são culpados pela própria desgraça – seja por falta de inteligência, capacidade, esforço, moralidade ou mérito – é um truque antigo (pelo menos desde os primórdios da religião católica). Este é o sentido das matérias da mídia que culpam as pessoas por dívidas após o natal, festas de fim de ano e férias. Desta forma, em vez da revolta contra o sistema económico responsável pela crise e as dificuldades das famílias, as pessoas culpam a elas próprias: o estado depressivo que resulta dessa equação provoca muitas vezes a inibição da reação contra a situação opressora.

10. Conhecer os indivíduos melhor do que eles próprios: durante os últimos 100 anos (e não obstante o fenómeno da Internet) os avanços progressivamente mais rápidos da ciência geraram um abismo crescente entre os conhecimentos partilhados com o público e os possuídos pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, essas elites têm desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, em ambos os aspectos físico e psicológico.

Esses estudos sistemáticos de mais de um século fazem com que a classe dominante conheça melhor o indivíduo comum do que ele próprio se conhece.

Esta sistematização do professor Chomsky sintetiza um processo de intervenção utilizado para o controle social no interior dos Estados Unidos, assim como para interferir em outras nações.

O fundamento da estratégia de PsyWar no Brasil é o mesmo utilizado em todos os outros países, que sofreram intervenção dos serviços de espionagem dos EUA: manejar as contradições internas dessas nações e buscar alianças com setores sociais suscetíveis de aliança ou cooptação.

BRICS são o alvo

O verdadeiro alvo geoestratégico norte-americano na atualidade são os BRICS. Nos oito anos da administração Obama – um sofisticado político da tradição intelectual da elite da Costa Nordeste – cresceram as agressões dissimuladas ou explícitas aos BRICS.

O assédio à Rússia ocorre às claras, com o avanço da política de cooptação dos países situados na fronteira russa, os quais são atraídos para órbita da OTAN. O caso da Ucrânia é o mais emblemático. O país foi submetido a uma PsyWar agressiva, que utilizou dois estopins para provocar uma explosão cataclísmica: a grave crise econômica e as diferenças étnicas entre a comunidade de tradição ocidental, que vive no Oeste, e os ucranianos de cultura russa do Leste. Mas algumas coisas deram muito errado.

Embora a Ucrânia tenha sido o berço cultural da Rússia, o país se constituiu como um estado independente e poderoso no final da Idade Média, até que foi destruído pelas invasões mongóis. Quando os reinos dominados pelos tártaros, descendentes dos mongóis, entraram em colapso, o território da Ucrânia foi dividido entre as monarquias europeias, o leste ficou sob domínio russo, desde Ivan o Terrível, e o oeste passou pelas mãos de sucessivas coroas católicas, até cair sob o controle do Império Austro-húngaro, permanecendo assim até o final da Primeira Guerra Mundial.

As contradições determinadas pela história ucraniana facilitaram a conflagração no país, porém também determinaram a reação russa, visando manter o controle de um território que tradicionalmente faz parte da Rússia. O resultado foi a divisão do território ucraniano, com a fulminante ocupação da Criméia e o estabelecimento de um semi-protetorado nas áreas de população russa no leste do país.

O golpe neonazista na Ucrânia, financiado e apoiado pelos EUA, destruiu o país.

Outro subproduto da ofensiva contra a Rússia foi uma guinada radical na política externa do país. Antes da controvérsia ucraniana, o governo Putin encaminhava uma aproximação com a Europa e a OTAN. O país mantinha um observador permanente na Organização do Atlântico Norte, estabelecera fortes relações comerciais com os países europeus, era (e ainda é) o principal fornecedor de gás para a região e aumentava as compras de equipamentos militares no “Ocidente” – a marinha russa tinha adquirido à França três porta-helicópteros da avançada classe Mistral, sendo que o primeiro estava prestes a ser entregue; e o exército avaliava a compra de tanques alemães Leopard, para equipar suas divisões blindadas.

A questão ucraniana inverteu a trajetória da política externa russa. O país buscou alternativas geopolíticas ao “Ocidente”. A primeira medida foi iniciar um processo de aproximação com a China, depois de anos de afastamento e desconfiança, que vinham desde o período Mao Tsé-Tung (Máo Zedong). A iniciativa do governo da Rússia foi bem recebida pelos chineses, que também eram alvo de manobras mais ou menos sutis dos Estados Unidos, visando a desestabilização do país.

No caso Chinês, a potência que ameaça ultrapassar os Estados Unidos, como maior econômica mundial (alguns estudos asseguram que tal já ocorreu), a estratégia de PsyWar explora as contradições étnicas, religiosas e de modo de vida, entre as diferentes regiões do imenso e populoso país.

Hong Kong é pedra angular na penetração da inteligência norte-americana na China continental. Logo que foi arrebatada do “Império do Centro” (do mundo), após a vitória britânica nas hediondas Guerras do Ópio, a península onde se localiza Hong Kong se transformou na maior plataforma do comércio de drogas do globo, que eram dirigidas para o colossal mercado interno chinês. O pequeno domínio britânico prosperou com a venda de ópio no atacado, até que a prática se tornou por demais imoral e passou a denegrir a afetada imagem do Império Britânico. O entreposto passou, então, a explorar outros negócios não muito mais honrados do que o comércio de drogas: o jogo e o tráfico de mão de obra barata (semiescrava), para as Américas, especialmente o oeste dos Estados Unidos. A partir do final da segunda guerra mundial e, principalmente, depois da chegada dos comunistas ao governo chinês, a colônia de Sua Majestade Britânica optou por outro negócio da China, tendo se transformado em um dos mais prósperos paraísos fiscais da Terra.

Essa trajetória produziu na região uma elite fortemente ocidentalizada e adepta do neoliberalismo financeiro mais feroz. O epicentro do maior terremoto bancário, descoberto nos últimos anos, nasceu em na península, o HSBH (Hong Kong and Shanghai Banking Corporation). O banco foi criado por colonos britânicos e, depois de crescer para todo o mundo, tem sua sede atual em Londres.

O estilo ocidentalizado na elite de Hong Kong permaneceu, mesmo após a reintegração da colônia ao território chinês, em grande medida devido ao fato de que pelos acordos firmados com o Reino Unido, a península permaneceria sob um regime liberal diferente do resto do país. Através da metrópole peninsular, a inteligência norte-americana tenta plantar revoltas na China, semelhantes às revoluções coloridas, que semearam no leste europeu – no caso de Hong Kong, a revolução do Guarda Chuva.

A outra estratégia utilizada pelo Departamento de Estado norte-americano contra a China é bem mais perigosa e pode ameaçar todo o planeta com uma guerra termonuclear. Com o crescente poder econômico, cultural e militar da China, o país recupera a influência milenar no seu entorno. Praticamente toda a economia do extremo oriente é, de alguma forma, dependente da China. Para evitar uma maior aproximação provocada pelo aumento das relações econômicas e culturais, a inteligência dos Estados Unidos estimula o ressurgimento de antigos conflitos territoriais na região. É o caso das ilhas Diaoyu, disputadas com o Japão ou o arquipélago das Spratleys com o Vietnã e as Filipinas.

Até hoje o que os EUA conseguiram foi elevar a tensão na região e tiveram em troca a decisão do governo chinês de se aproximar de maneira inédita da Rússia.

O país continua realizando pesados investimentos na modernização de suas forças armadas, o que leva à suposição de que os alegados problemas econômicos do país talvez sejam um demarketing, para evitar que seu enorme enriquecimento continue assustando tanto os núcleos do poder do “Ocidente”, leia-se Estados Unidos.

Outro ataque contra os BRICS é a tentativa dos EUA de criar atritos entre a China e a Índia.

Embora a temperatura tenha aquecido neste ano de 2020, com os atritos de fronteira em uma remota e estéril região no alto do Himalaia, os movimentos para deslocar a Índia dos BRICS começaram a mais tempo.

Obama, durante o seu governo, fez uma festiva viagem de relações púbicas, levando empresários à Índia. O projeto de cooptação da elite do país parecia facilitado, pela chegada ao poder do antiquado partido ultranacionalista o BJP, cujos militantes foram responsáveis pelo assassinato de Gandhi.

Porém, o projeto esbarrou na época em barreiras de difícil transposição. A primeira delas é que, desde a independência, as potencias “ocidentais” sempre demonstraram simpatia pelo Paquistão, cuja elite menos sofisticada parecia mais fácil de ser controlada. A inteligência norte-americana acertou na avaliação da elite paquistanesa, pois desde o estabelecimento do país como estado soberano, o Paquistão nunca viveu um longo período de estabilidade e em grande parte de seu período independente foi vítima de sangrentas ditaduras militares.

O cenário começou a mudar na relação do Paquistão com as potências ocidentais – leia-se Estados Unidos – devido aos abusos e atrocidades cometidas no país pelas forças lideradas pelos generais estadunidenses, que utilizam (ainda) o país, como base para a operação no Afeganistão.

Além disso, os estrategistas de Washington sempre avaliaram que a Índia é a âncora estratégica da região, o que foi confirmado nas frequentes guerras indo-paquistanesas, vencidas pelas tropas de Nova Délhi.

Do outro lado da fronteira a Índia se consolidou como a maior democracia do mundo, em termos da quantidade de eleitores. É também um dos poucos países do planeta que, após conquistar sua independência dos colonizadores, mantém uma democracia estável que nunca esteve sob ameaça, como no Brasil ou Paquistão, por exemplo.

No período no qual os Estados Unidos mantinham grande proximidade com o Paquistão, a Índia buscou apoio da antiga URSS e manteve estreitas relações com a indústria militar russa, após a queda da União Soviética.

As forças armadas indianas continuam sendo tropas coloniais britânicas na aparência dos seus uniformes e tradições marciais, mas se transformaram em forças semelhantes às soviéticas em doutrina militar e no equipamento. O núcleo do armamento indiano vem da Rússia, abrindo espaço para uns poucos aparelhos “ocidentais”, comprados para aquisição de determinados itens tecnológicos, que depois serão copiados nas indústrias do país. Essa política que já dura quase 70 anos dificulta girar as compras militares da Índia para novas fontes. Esta realidade estrutural dificulta a aproximação com os EUA, em detrimento da Rússia.

Há que colocar na equação ainda o fato de que a Índia, como a China, é um país com um amálgama de cultura milenar, com longa tradição comercial e proto-industrial – no século XVII, as oficinas indianas eram mais produtivas do que as de qualquer país europeu.

Com a independência, as elites empreendedoras do subcontinente voltaram a controlar as enormes potencialidades do país. Atualmente a Índia é um dos principais players industriais e comerciais do planeta. Grandes empresários locais expandem seus negócios e dominam marcas clássicas ocidentais, como a Jaguar, hoje propriedade do grupo Tata Motors, ou a Acelor, que pertence à Mital. Apesar do avanço dessas e outras empresas nos mercados globais, através de parcerias e aquisições, a base de financiamento das corporações indianas ainda é estreitamente ligada aos bancos estatais do país, em um arranjo similar ao que ocorre na China. Dificilmente a elite industrial indiana abandonará um jeito de jogar, que está dando muito certo.

Com essa arquitetura a Índia é um país muito difícil para ser simplesmente dominada. Além da força econômica crescente de sua elite empresarial, é um dos locais do mundo mais difíceis para a penetração de modismos ocidentais – na Índia, o vestuário, a gastronomia, o cinema e a música continuam sendo indianos.

Neste cenário, mais provável é que a Índia, mesmo sob um governo ultranacionalista antiquado, procure jogar com as diferenças entre os grandes players globais para tirar o máximo de vantagens

Apesar de investir para desestabilizar ou controlar os quatro grandes países do bloco BRICS – a África do Sul é um país pequeno, comparado aos outros – os Estados Unidos somente submeteram com absoluto do sucesso no Brasil. Por quê? O que o Brasil tem de diferente dos outros BRICS?

A elite define a capacidade de enfrentar os desafios mundiais

O sociólogo brasileiro Jesse de Sousa aprofunda esta questão nos seus livros, nos quais analisa a elite rica, branca e racista brasileira.

À luz das pesquisas do sociólogo, é possível perceber que a resposta para a incrivelmente fácil submissão do país ao império informal dos EUA está na configuração da elite (entendida de forma ampla e não apenas econômica) do Brasil.

China, Índia e Rússia são países de cultura antiga e consolidada. Mesmo que os dois primeiros tenham sido dominados e desorganizados nos últimos três séculos são os locais de origem de duas das mais antigas civilizações do planeta.

Gore Vidal, escritor e intelectual norte-americano defende a existência de três grandes civilizações no mundo, que seriam formas distintas de ver a realidade, a chinesa, a hinduísta e a ocidental. Para o escritor, tanto os europeus cristãos (assim como os habitantes de suas colônias) e os povos islâmicos são frutos de duas fontes: a cultura clássica greco-romana e o monoteísmo judeu (na verdade egípcio, mas isso é outra história).

Sempre é bom lembrar, que a maior parte da tradição greco-romana foi salva para o renascimento europeu por estudiosos muçulmanos, como Al-Kindi, Al-Razi, Ibn Sina (Avicena) e Ubn Rushd (Averróis).

Para quem se interessar, há um livro interessante sobre o assunto, A casa da sabedoria, de Jonathan Lyons. O autor é um ex-correspondente de guerra no Oriente Médio, onde entrou em contato com a cultura árabe. A atualmente mantém estudos sobre o assunto no Centro de Pesquisas sobre Terrorismo Global da Universidade Monash, em Melbourne, Austrália. Lyons defende um olhar diferente sobre a chamada “Guerra de Civilizações”, visto que não há duas civilizações em confronto, mas apenas formas culturais diferentes (mas muito próximas) da mesma civilização.

Se China e Índia são civilizações originais e orgulhosas de sua história, portanto países que possuem projetos nacionais sólidos e estabelecidos, a Rússia seguiu outro rumo histórico, mas que também produziu uma elite orgulhosa e autossuficiente. O país foi forjado em guerras sangrentas e sucessivas, nas quais derrotou com grande sacrifício todos os invasores do seu território, desde os tártaros, descendentes dos mongóis, até os exércitos nazistas. Sua origem cultural provém diretamente da matriz grega, através do último baluarte do classicismo helenista, Bizâncio – os czares (césares) russos se consideravam herdeiros dos bailéus do Império Romano do Oriente e consideravam Moscou a nova Roma. 

Essas três grandes nações do BRICS são sedes de culturas (e, até mesmo, de civilizações) consolidadas, com elites – não só os ricos, mas também a academia, as lideranças religiosas, os políticos, as direções dos movimentos sociais, os militares, a burocracia estatal, o aparato policial e judiciário, assim como as classes médias – com forte sentido de nacionalidade e do lugar dos seus países no mundo.

Em muito maior medida devido ao seu modelo de colonização (ver J. de Sousa) do que por ser um país novo (em comparação com os outros BRICS), o Brasil nunca desenvolveu uma elite sofisticada, autossuficiente e que reivindicasse um lugar no mundo.

No Brasil, como em toda a América, exceto no nordeste dos Estados Unidos, foi plantada uma elite primitiva, extrativista, predatória, anti-humanista, feudal, racista e com mentalidade colonizada. As elites dominantes de quase toda a América nunca deixaram de considerar seus países como colônias, mesmo depois dos movimentos de independência que incendiaram o continente, depois das Guerras Napoleônicas. Todos estes movimentos foram movidos muito mais por interesse em sonegar impostos das metrópoles, do que pelos ideais humanistas e libertários desencadeados pela Revolução Francesa.

O Brasil tem nuances diferentes, mas isso é outro assunto.

O Brasil é Belgladesh – mistura de Bélgica com Bangladesh

Com tanta fragilidade ideológica e a absoluta falta de projetos nacionais, não é de se estranhar a fragilidade dos governos instaurados nos países da América Latina. Nenhum caudilho confia no outro e as oligarquias desses países vivem em conflito permanente.

O Brasil é perfeitamente enquadrado nesse esquema. A colonização foi movida pela exploração das imensas riquezas minerais e vegetais. O projeto de sempre das elites é explorar as riquezas, através da exploração da mão de obra. A mão de obra explorada nos séculos iniciais da colonização foi composta pelos escravos, primeiro os índios (o que contribuiu para o seu extermínio), depois os africanos. Após a libertação oficial dos escravos, a elite continuou explorando os trabalhadores livres, mediante péssimos salários, condições de trabalho desumanas e condições de vida degradantes, com moradias inadequadas, ausência de saúde e inexistência de educação.

Este foi o Brasil que entrou Século XX como Belíndia, acrônimo criado pelo economista Edmar Lisboa Bacha. Embora não fosse esta a intenção do seu criador, o termo Belíndia descreve o Brasil: uma pequena elite privilegiada usufruindo as benesses de um país europeu, a Bélgica; e uma gigantesca população sobrevivendo com condições sociais da Índia, nos primeiros anos da independência do subcontinente – o termo hoje, provavelmente seria Begladesh, Bélgica e Bangladesh.

Colônia ou país independente, a elite brasileira nunca desenvolveu um projeto nacional, sempre preferiu enriquecer com uma economia extrativista exportadora, importando bens dos países desenvolvidos. Os brasileiros que ousaram apostar em projetos de industrialização ou inovação geralmente foram tratados como loucos excêntricos, são os casos de Delmiro Gouveia, pioneiro na industrialização do nordeste, e Santos Dumont, inventor do avião – os vira-latas brasileiros, termo criado pelo imortal Nelson Rodrigues, acreditam que o avião foi inventado por um norte-americano, o qual segundo defendem voou em um estranho episódio sem nenhuma testemunha, ao contrário de Dumont que pilotou seu aparelho na presença de uma multidão em uma das capitais do mundo, Paris.

Até mesmo as incursões culturais dos ricos brasileiros tentavam reproduzir os padrões da alta cultura europeia, como foi o caso do Teatro Brasileiro de Comédia e os Estúdios Vera Cruz, ambos em São Paulo. Com frequência, as manifestações culturais brasileiras, como o Samba, o Chorinho e a capoeira eram descartados, como subcultura.

Filmes da Vera Cruz foram uma tentativa da elite paulista, para copiar a estética europeia

O padrão de subserviência colonial nunca foi aceito unanimemente no país. Sempre houve questionamentos ao comportamento das elites dominantes, de forma organizada, consciente ou não. O samba rompeu as fronteiras dos guetos onde era originalmente confinado e acabou se tornando a alma da musicalidade brasileira, expressa até mesmo nas formas sofisticadas dos clássicos de Vila Lobo ou da Bossa Nova, que levou para os salões da zona sul carioca um estilo domesticado da música dos morros. Um processo semelhante ocorreu com a capoeira, que se tornou o estilo marcial genuinamente brasileiro. O teatro rebolado e as chanchadas da Atlântida são outros exemplos da brasilidade entrando no ambiente colonizado das elites dominantes brasileiras.

No entanto, os questionamentos mais vigorosos ao modelo de (des)nação colonial, implantado no Brasil pelas elites dominantes predatórias e exploradoras, surgiram no Rio Grande do Sul. O estado mais meridional país, situado na fronteira com a Argentina, o adversário tradicional do Brasil, era a maior concentração do exército brasileiro.

O positivismo e o getulismo

As escolas militares, a partir de 1850, começam a sofrer forte influência positivista, uma doutrina de origem francesa, criada por August Comte, que propunha a construção de um mundo melhor e mais justo, através da ciência, via ensino da matemática e da geometria analítica, devido à difusão do Curso de filosofia positiva. Benjamim Constant e o Marechal Roberto Trompowsky foram expoentes da difusão positivista na Escola Militar; mas, além deles, havia também: Pereira de Sá, Augusto Dias Carneiro, Almeida Fagundes, Lauro Sodré, Gabriel de Moraes Rego, Antônio José Osório, Manuel Almeida Cavalcanti, Saturnino Nicolau Cardoso, entre outros.

Foram numerosas as influências do positivismo na organização formal da República brasileira, entre elas o lema “Ordem e Progresso” da bandeira; a separação da Igreja e do Estado; o decreto dos feriados; o estabelecimento do casamento civil e o exercício das liberdades religiosa e profissional; o fim do anonimato na imprensa; a revogação das medidas anticlericais e a reforma educacional proposta por Benjamin Constant. Porém, a penetração do positivismo foi pouco profunda e efêmera. Passados os anos conturbados de consolidação da República, a elite feudal brasileira (o coronelismo) iniciou o período da política do “café com leite”, época em que os latifundiários paulistas e mineiros, os mais poderosos do país, se revezavam na presidência da República.

A doutrina do positivismo prosperou com mais vigor Rio Grande do Sul, onde a instalação do regime republicano ocorreu de maneira distinta do resto do país. Desde os primeiros anos da República, o novo governo gaúcho foi dominado pelos positivistas, liderados por Júlio Prates de Castilhos. Embora a base de apoio do partido positivista do rio-grandense, o PRR (Partido Republicano Rio-grandense), fosse composta por latifundiários, como o próprio Castilhos, suas lideranças implantaram no estado uma constituição com aspectos racionais, baseados na História e na Ciência a fim de superar aspectos populares ou metafísicos. Embora autoritária, a visão estratégica dos positivistas gaúchos também era nacionalista e desenvolvimentista.

O chamado castilhismo dominou o Rio Grande do Sul cerca de quarenta anos. Após a morte de Júlio de Castilhos, ele foi sucedido por Borges de Medeiros à frente do governo estadual e em 1930, com Getúlio Vargas, os as ideias nacionalistas e desenvolvimentistas chegaram ao poder, com a implantação da ditadura Vargas.

Nesse interim, entre a queda da monarquia o feudalismo coronelista dominou o país. Exceto pelos gaúchos a elite coronelista não possuía nenhum projeto de nação, apenas de enriquecimento, através da predação das riquezas nacionais através da exploração da mão de obra popular pelo menos custo possível – significa abusiva carga horária de trabalho, educação precária e limitada, saúde inexistente e moradias insalubres e improvisadas. A imensa maioria da população neste Brasil majoritariamente rural sobrevivia quase nas mesmas condições dos escravos recém-libertados. As elites dominantes não se preocuparam em aproveitar as oportunidades oferecidas pela Primeira Guerra Mundial, como o fez a Argentina, que iniciou sua industrialização. Aqui no Brasil, os coronéis se limitaram a vender commodities vegetais e minerais, sem nenhum beneficiamento, e continuaram a importar todos os bens que o país precisava. Os escassos empreendimentos de industrialização ocorreram por iniciativa de imigrantes, principalmente, europeus.

Após a Primeira Guerra Mundial, no entanto houve um fato que estabeleceu sinergia com as tradições positivistas do Sul e contribuiu para uma mudança na trajetória histórica do Brasil. Foi a chegada da missão militar francesa, para modernizar a formação dos oficiais do exército brasileiro. A missão exerceu forte influência e lançou as sementes para o surgimento do tenentismo (assunto que merece um artigo mais aprofundado).

O tenentismo, estimulado pela Missão Militar Francesa, se inspirou em movimentos nacionalistas modernizadores, como o dos jovens turcos

O positivismo gaúcho comandado por Getúlio Vargas, aliado à corrente majoritária do tenentismo, mudou a história do país.

Embora de maneira autoritária e compartilhando o terror irracional do “perigo vermelho”, presente a maior parte das elites do mundo nos anos que se seguiram à vitória bolchevique na Rússia, o governo na Era Vargas abalou a letargia do país e começou a levar o Brasil tardiamente ao Século XX.

Apesar das polêmicas, em nenhum outro momento da história do Brasil houve avanços comparáveis nos direitos dos trabalhadores.  Por outro lado, a política desenvolvimentista aproximou o país definitivamente da modernidade.

O Brasil iniciou o desmonte da estrutura escravagista, que persistia de forma dissimulada, no governo Vargas. O gaúcho instituiu a CLT, o salário-mínimo, limitação da jornada de trabalho, férias remuneradas, a proibição de demissão sem justa causa do empregado após 10 anos no emprego (caída em desuso, posteriormente, com o advento do FGTS em 1966), e criou as condições políticas para a instituição do 13º salário, pelo seu seguidor João Goulart. As leis trabalhistas criadas por Getúlio Vargas estão entre as mais avançadas do mundo. Estas leis, quase todas em vigor até hoje, são um legado de proteção ao trabalhador formal, aqueles que possuem a Carteira de Trabalho (CT), também criada por Getúlio.

Com a Era Vargas, pela primeira vez, o Brasil desenvolveu um projeto nacional. Com isso o país rompeu com o paradigma exclusivamente exportador de minerais e vegetais (culturas extensivas ou extrativismo), que vigorava desde o início da colonização.

O Governo promoveu a diversificação agrária, incentivando a policultura, que foi um dos instrumentos, para superar a crise do café. Foram criados os Institutos do Açúcar e do Álcool, do Mate e do Pinho, responsáveis pelo financiamento, experimentação e divulgação de técnicas mais aperfeiçoadas de cultivo. Em São Paulo foi expandida a produção algodoeira, com a aplicação dos capitais que antes eram aplicados no setor cafeeiro.

Vargas não perdeu as oportunidades oferecidas pela Segunda Guerra Mundial, como o fez a elite dominante brasileira no conflito anterior. Com uma política econômica nacionalista, desenvolvimentista e ousada, o governo Getúlio aproveitou diversos fatores impostos pelo conflito mundial, para iniciar a implantação de um parque industrial no Brasil.

Quando a Guerra começou, o país já estava pronto para aproveitar todas as janelas de oportunidades para a industrialização, como a diversificação agrária, com a produção abundante de matéria-prima, principalmente do algodão; a desvalorização da moeda e o natural aumento do preço dos produtos importados; o aumento do mercado consumidor interno com a abolição das taxas interestaduais e o início dos projetos de mineração de ferro em Minas Gerais.

Na ausência de espírito empreendedor, coragem e determinação das elites coronelistas brasileiras – que sempre refugaram frente aos desafios de um capitalismo verdadeiro – Getúlio Vargas e Sousa Costa, seu ministro da Fazenda, prepararam um Plano Quinquenal, a partir de 1939, que previa a implantação das peças fundamentais do desenvolvimento e a entrada do Brasil tardiamente na Revolução Industrial: uma siderúrgica para produção de aço, uma fábrica de aviões, a hidrelétrica de Paulo Afonso, ferrovias e rodovias cortando todo o país. Dessa política surgiram a Companhia Siderúrgica Volta Redonda, a Vale do Rio Doce e a Petrobras.

Vargas modernizou o Brasil, através de empresas estatais e obras públicas, porque o empresariado nacional sempre foi tíbio e evitou correr qualquer risco. Na foto a Central Elétrica de Paulo Afonso.

O salto econômico do país, a mudança do eixo econômico (que tirou poder dos coronéis) e a política nacionalista, foram elementos que incomodaram a nova e incontestável potência líder do mundo “Ocidental” e às velhas elites oligárquicas domésticas. O período foi marcado pela Guerra Fria, no plano internacional, e pela intensa propaganda para estimular o medo do “perigo vermelho”, lançada tanto dentro dos Estados Unidos (macarthismo), como em todo o mundo sob a influência norte-americana.

Contraditoriamente o principal eixo de resistência a Vargas foi a elite coronelista paulista, que recebeu todo apoio do governo federal, para iniciar um processo de industrialização, especialmente voltado para o beneficiamento de commodities agrárias. A aliança desta elite paulista com o coronelismo oportunista e grupos antinacionalistas, que persistiam desde os tempos do Império e dominavam a mídia nacional, levou o país a um processo acelerado de desorganização e de gestação de um golpe militar, que culminou com o suicídio de Getúlio.

O suicídio de Vargas gerou uma comoção popular, que impediu a consolidação do golpe militar, que era preparado nos hangares da base aérea do Galeão. Depois de um período conturbado, novas eleições acabaram levando ao poder um político liberal desenvolvimentista da base de apoio de Getúlio Vargas, o mineiro Juscelino Kubitscheck – JK. O governo Kubitscheck manteve as grandes linhas da política desenvolvimentista de Vargas, porém com uma dose menor de nacionalismo.

Com Getúlio, JK e os militares o estado substituiu os coronéis

Para substituir a elite econômica brasileira refratária a riscos, JK atraiu capitais industriais internacionais e implantou um vigoroso parque industrial no Estado de São Paulo. Paralelamente o mineiro lançou um arrojado programa de investimentos estatais na infraestrutura, construindo hidrelétricas, rodovias, ampliando o papel da Vale do Rio Doce, da Petrobras e iniciando a instalação de novas siderúrgicas. O símbolo máximo do período JK foi a construção da nova capital federal, Brasília, responsável por levar o desenvolvimento para o imenso interior brasileiro.

Com idas e vindas a elite econômica e coronelista, coordenada pelos serviços secretos norte-americanos (conforme está comprovado por documentos dos arquivos do governo dos EUA, que se tornaram públicos), se movimentou para deter a política nacionalista e desenvolvimentista, atingindo seu objetivo máximo, em 1964, com o golpe político-militar, que derrubou o presidente João Goulart.

Os documentos que comprovam a participação decisiva do governo norte-americano no golpe, depois de perder a condição de arquivos secretos por ter vencido prazo legal, estão disponíveis em vários centros de estudos de universidades dos Estados Unidos. Parte deste material está no documentário “O Dia Que Durou 21 Anos”, do jornalista e escritor Flávio Tavares, em parceria com seu filho, cineasta e diretor Camilo Tavares. Há gravações de áudio e vídeo que mostram de forma chocante a forma banal e quase jocosa, como os presidentes norte-americanos John Kennedy e Lyndon Johnson, tratavam do assunto com altas autoridades do país.

Porém o golpe de 1964 não saiu de acordo com a encomenda. Os militares não entregaram o poder para os políticos representantes das elites – as cartas do jogo ficaram nas mãos das forças armadas – e, depois dos confusos primeiros anos dos generais Castelo Branco e Costa e Silva, o governo da ditadura adotou uma visão estratégica nacionalista, apesar de autoritária.

Os três gaúchos Médici, Geisel e Golbery – este último a eminência parda dos governos militares – aos poucos afastaram relativamente a influência estadunidense, para colocar em prática um projeto nacional, que pode ser sintetizado nas suas linhas gerais: associação do Estado à iniciativa privada, de forma a fortalecer a segurança nacional, com a criação de uma elite tecnocrática, civil e militar, ideologicamente comprometida com um conjunto de objetivos nacionais permanentes. Esta concepção, junto com o autoritarismo defendido por Golbery para viabilizar a implantação deste projeto de modernização do país, em forte influência positivista.

O ponto culminante do afastamento da orbita dos Estados Unidos ocorreu, em 1977, durante o Governo do General Geisel, quando o Brasil rompeu unilateralmente o acordo militar firmado em 1952, em retaliação à oposição estadunidense ao tratado nuclear com a Alemanha.

Rompendo o acordo com os Estados Unidos, que impedia o Brasil de adquirir armas modernas, Geisel dotou o Brasil de novos equipamentos no estado da arte, como os supersônicos Mirage III.

Os governos militares foram desenvolvimentistas e levaram adiante o projeto original de modernizar o Brasil. Obras de infraestrutura importantes e ambiciosas se espalharam pelo país – muitas delas hoje seriam impossíveis, devido aos atuais padrões ambientais. Houve também forte investimento na autossuficiência de equipamentos para as forças armadas, com a adoção de uma política de transferência de tecnologia e fabricação local de diversos armamentos, como fragatas e submarinos, para a Marinha; fuzis de assalto semiautomáticos e veículos blindados para o Exército; e aeronaves para a Aeronáutica. Diversas empresas dedicadas ao setor prosperaram, como a Engesa e a Avibras e a estatal Embraer, que alcançou o status de player global do setor aéreo.

Além das indústrias diretamente voltadas para o setor militar, pela primeira vez, empresários brasileiros estimulados pelo protecionismo do mercado interno adotado pelos militares ousaram iniciar indústrias para a produção de bens de consumo de valor agregado mais alto, como a Gurgel, que chegou a lançar um carro de passeio brasileiro; e a Gradiente, empresa de aparelhos de som, que chegou a exportar para mercados maduros como os dos Estados Unidos e Inglaterra.

A crise econômica produzida pelo crash do petróleo, cuja explosão ocorreu na segunda metade dos anos 1970. Sem acesso aos capitais baratos que circulavam no mercado internacional e obrigados a pagar muito mais caro pela importação de petróleo, os governos militares passaram a ter sérios problemas com seu balanço de pagamentos. As primeiras empresas afetadas foram aquelas que mantinham contratos com o governo, mas logo toda a economia brasileira enfreava sérios problemas.

Os militares, que já não contavam com a simpatia dos Estados Unidos – patrocinadores do golpe de 1964 – rapidamente perderam o apoio das elites dominantes, que apoiaram o governo enquanto tiveram expressivos ganhos econômicos. Na década de 1980 começou a crescer a resistência à ditadura, enquanto os militares perdiam uma a uma de suas bases de apoio. O momento decisivo da mudança foi a campanhas “Diretas Já”, que unificou grande parte das forças políticas do país e expos a histórica dificuldade de unificar a elite dominante.

Racha nas oligarquias abre espaço para ciclo progressista e democrático

Da mesma forma, como ocorrera em 1930, quando um racha entre os coronéis abriu espaço para a chegada de Getúlio Vargas ao poder, o movimento das Diretas Já culminou no afastamento dos militares das eleições indiretas que escolheriam o novo presidente do país, em 1985. Pela primeira vez, desde 1964 não haveria um militar disputando no colégio eleitoral. Foram dois civis: Paulo Maluf representando as forças mais reacionárias da elite brasileira e Tancredo Neves, político mineiro, cuja carreira cresceu nas proximidades de Vargas e dos seus herdeiros, que conseguiu reunir o apoio da centro-esquerda. Tancredo ainda possuía mais um trunfo na sua disputa; pela sua moderação era uma figura aceitável pelos militares – os quais temiam represálias semelhantes às que ocorriam na Argentina, onde havia julgamentos e punições.

Tancredo não chegou à cadeira de presidente, porque depois de eleito faleceu, após longa agonia provocada por uma diverticulite. No seu lugar assumiu José Sarney, um coronel feudal da base de apoio da ditadura que, sentindo a transição do vento, mudou de lado.

A esquerda, vanguarda nas lutas contra a ditadura, começou a participar com a sua própria face das eleições desde 1982, quando o PT lançou candidatos para os governos de alguns estados, além de deputados. Elegeu alguns. Mas passo, de fato, a incomodar as elites, nas primeiras eleições após a Constituição de 1988.

Nas eleições presidenciais de 1989, a elite dominante se dividiu em várias candidaturas, assim como o Centro. A esquerda apresentou dois candidatos competitivos, Brizola, trazendo a tradição do getulismo, e Lula, que era uma novidade. A chegada de Lula ao segundo turno, contra Collor; o candidato que unificou as diversas correntes da elite dominante, temerosa pela possibilidade de um candidato da esquerda chegar ao poder; definiu a hegemonia da esquerda brasileira, no próximo período histórico.

Lula teve o apoio de todas as lideranças progressistas do país, ao chegar ao segundo turno nas eleições presidenciais de 1989. Só não venceu porque foi prejudicado pela mídia conservadora.

Color iniciou um longo período de implantação do neoliberalismo na sua forma mais perversa no Brasil, assim como alinhou o país ais interesses dos Estados Unidos de uma maneira quase colonial, pois a diplomacia brasileira passou a ser quase uma ferramenta de apoio à geopolítica norte-americana, assim a política externa independente dos militares foi enterrada.

Houve um pequeno interregno que foi o período Itamar, um presidente criticado pela esquerda e a direita, mas que deixou um legado digno e soberano.

O Brasil entrou em uma rota realmente diferente daquela seguida, com altos e baixos, desde o período Vargas foi mesmo com os tucanos no poder. O Período FHC foi um retorno às concepções políticas da República Velha, ou ao apogeu do coronelismo semicolonial. A destruição do Brasil como país em desenvolvimento só não foi maior, porque os tucanos neoliberais de mentalidade colonial encontraram entraves na Constituição de 1988 e, também, na opinião pública dominada à época pelos setores que haviam lutado contra a ditadura e pela redemocratização.

Esses entraves impediram a destruição do Sistema Único de Saúde (SUS), ainda no seu nascedouro, assim como limitaram os danos à educação pública. Porém, os neoliberais fizeram ataques ferozes contra o patrimônio brasileiro, privatizando o que conseguiram e, desta forma, desorganizando setores inteiros da infraestrutura nacional, como as telecomunicações e o setor elétrico. O apagão do setor elétrico ocorrido em 2001 é um sintoma desta política colonial, assim como os problemas de qualidade que as telecomunicações enfrentam até hoje.

Por outo lado, os tucanos conseguiram assentar duros golpes em outros setores menos visíveis da República Brasileira. Entre asa áreas mais atacadas estão as forças armadas.

O governo FHC aproveitou o desgaste dos militares, desmoralizados na época por seu papel central na ditadura, para promover uma política acelerada de sucateamento das três armas. Nesta época foram assinados tratados assimétricos prejudiciais ao país, que visavam estabelecer o Brasil como virtual protetorado dos Estados Unidos. Um dos acordos mais polêmicos é o Tratado de não Proliferação de armas Nucleares (TNP), rejeitado pelos governos militares, até que foi assinado por FHC, em 1998. O TNP é um acordo desigual, que assegura a posse de artefatos atômicos a cinco países (EUA, Rússia, China, Reino Unido e França), enquanto proíbe sequer a pesquisa a todas as ouras nações.

FHC teve comportamento extremamente subserviente ao império informal dos EUA

Além do TNP, que foi o ratado mais importante, os tucanos assinaram diversos outros tratados contrários à soberania do Brasil, como o que praticamente transferia a Base Espacial de Alcântara para o controle norte-americano; a venda do satélite Intelsat de comunicações, que tirou o controle do país sobre as suas próprias comunicações; o Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM), que entregou o controle da vigilância da Amazônia para empresas dos EUA.

Por pressão dos militares brasileiros, o acordo da Base de Alcântara não foi à frente, mas no decorrer dos anos FHC as forças armadas entraram em uma situação de absoluta penúria. Quase todas as unidades militares foram obrigadas a operar em meio expediente, pois não havia dinheiro nem mesmo para comprar o “rancho” – a alimentação dos soldados; faltava munição para treinamentos; assim como combustíveis; e o equipamento de todas as forças estava em situação precária de obsolescência e inexistência de manutenção.

A diplomacia seguiu estas linhas gerais de descaso com a soberania e o Brasil atuou neste período apenas como linha auxiliar dos interesses internacionais dos Estados Unidos.

Lula inicia período de mudança, crescimento e solidariedade com conciliação

Quando Lula venceu as eleições, em 2003, o Brasil se encontrava em uma profunda crise econômica e de credibilidade nas instituições, mas também uma condição de quase colônia das estruturas de domínio internacional, desenvolvidas pelos países ocidentais, supervisionados pelos Estados Unidos, depois da Segunda Guerra Mundial, em Breton Woods. A economia era dirigida pelo FMI e um país rico, como é o Brasil, mantinha uma dívida astronômica com a banca internacional, que muitos consideravam impagável.

A história mostra que Lula arrumou a casa, apesar das constantes tentativas de sabotagem. A dívida internacional foi paga, o FMI saiu do Brasil e o país se transformou em credor internacional. A ideia acalentada pelos neoliberais norte-americanos e brasileiros de fazer um acordo de livre mercado entre os países da América Latina e os EUA, a ALCA, que transformaria o Brasil em um território sem lei para maquiadoras e o subemprego (como o México), foi afastada. Sob o governo Lula, o país partiu para uma política agressiva de ampliação de mercados internacionais, buscando novos parceiros na própria América do Sul, na África, Oriente Médio, Ásia e Oceania.

A antiga dependência dos mercados dos EUA e da Europa Ocidental ficou para trás.

Lula pagou a dívida com o FMI e colocou a economia brasileira em uma trilha de crescimento

A ampliação do espaço comercial do Brasil foi acompanhada por uma diplomacia independente e altiva, que fez o país ser respeitados nos fóruns internacionais. Pela primeira vez os brasileiros foram para os principais postos da ONU, como José Graziano da Silva, na FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura); Bráulio Dias, secretário executivo do Secretariado da Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD); Sergio Duarte é Alto Representante para Assuntos de Desarmamento das Nações Unidas; e Roberto Carvalho de Azevedo, diretor geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). O Brasil passou a ser convidado, para debater as principais questões mundiais e articulou a quebra do paradigma de um planeta dirigido pelo G7 (as sete nações consideradas mais desenvolvidas pelo senso comum), que foi substituído pelo G20, como mais poderoso fórum mundial. O G20 inclui, além dos participantes do G7, os principais países em desenvolvimento, que são atualmente as economias mais prósperas da Terra.

Um dos grandes feitos da diplomacia brasileira foi obter, em 2010, juntamente com a Turquia, a concordância do Irã para estabelecer um tratado de controle da pesquisa e utilização de material nuclear pelo país. O acordo obtido pelos brasileiros e turcos foi menosprezado pelas potencias tradicionais, não acostumadas a ver outros países entrarem no grande jogo internacional da diplomacia, terreno que consideram ser o seu domínio.

Porém, cinco anos depois, os Estados Unidos e seus liderados fecharam com o governo iraniano um tratado muito pior do que aquele obtido pelo presidente Lula e a sua diplomacia. Um colunista tucano, Clovis Rossi, reconhece que o acordo obtido por Lula era superior ao que foi estabelecido cinco anos depois. De acordo com o colunista, “na carta que mandou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao primeiro-ministro turco Recep Erdogan, Barack Obama dizia ser “fundamental” que o Irã enviasse ao exterior 1.200 quilos de urânio pobremente enriquecido para ser processado a um ponto compatível com seu uso pacífico e incompatível com a bomba.

Esse ponto constava explicitamente do acordo Brasil/Turquia/Irã. Agora, o tamanho do estoque iraniano de urânio pobremente enriquecido é de 10 mil quilos (será reduzido a 300 quilos nos termos do acordo de Lausanne). Vê-se, pois, que o Irã avançou bastante em seu programa nuclear nesse lapso de cinco anos. Se o acordo de 2010 tivesse sido usado como base de uma negociação entre as potências e o Irã, em tese seria mais fácil um entendimento, pois os iranianos não estariam tão avançados”. Além disso, o então presidente brasileiro obteve em 2010 uma declaração do governo iraniano, no qual este voltava atrás na negação do Holocausto. Nos acordos de 2015, nada consta sobre este assunto.

Enquanto conquistava mercados mundo afora, o governo Lula entendeu que não era possível estabelecer uma política externa afirmativa, sem forças armadas respeitadas – na visão da cúpula que formulou a geoestratégia do período petista o papel das forças armadas seria o da dissuasão, o de manter o equilíbrio e a paz na América do Sul e contribuir em missões da ONU, com a do Haiti, liderada pelo Brasil.

Na metade do primeiro mandato Lula, o país começou a recuperação das suas forças armadas, através dos maiores investimentos no setor em toda a história. Diversos programas de reequipamento, inovação, domínio tecnológico, transferência de tecnologia e autonomia produtiva, revolucionaram o ambiente militar e industrial do Brasil, estimulando um próspero setor econômico dedicado ao setor. A indústria brasileira passou a fabricar internamente desde modernos fuzis de assalto, de projeto nacional; aviões de caça de última geração, viabilizados através de transferência de tecnologia da Suécia; mísseis; veículos blindados; e submarinos, incluindo modelos nucleares, com propulsor de projeto brasileiro.

Em 2015, o Brasil já era considerado a 14ª potência militar do planeta, mas estava colocado em 10º lugar entre os maiores investimentos no setor. Com o potencial humano; o desenvolvimento acadêmico, científico e técnico; as riquezas naturais; e a capacidade industrial do país, todos os analistas previam que o Brasil chegaria a 2020 como uma das cinco ou seis maiores potenciais militares da Terra. Evidentemente tal não ocorreu, devido ao abandono do projeto de soberania.

Internamente, as opções dos governos petistas deram resultados extraordinários. A economia entrou em um ciclo virtuoso, apesar das constantes tentativas de sabotagem da mídia conservadora e de setores do coronelismo incrustrados em alguns partidos, que se assumiram como a direita nacional: PSDB, DEM e PPS, principalmente. A infraestrutura foi em grande parte recuperada e junto com programas sociais de grande alcance, como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, a Transposição do São Francisco, mais investimentos na Educação e a exigência de alto índice de nacionalização para compras governamentais – inclusive petroleiros e plataformas extração de petróleo, fizeram com que surgisse um potente mercado interno. Somando o novo mercado interno, as riquezas minerais e agrárias do país, mais os negócios internacionais abertos por Lula, o Brasil entrou em uma situação internacional invejável.

Para culminar, houve ainda a descoberta do Pré-sal, uma gigantesca reserva de petróleo e gás no litoral brasileiro, com capacidade de produzir 1,6 trilhões de metros cúbicos de gás e óleo, tornando o país um dos maiores produtores potenciais do mundo. O campo de Tupi é responsável por cerca de 10 bilhões de barris de petróleo, o bastante para elevar as reservas da Petrobras em até 60%. Em nível mundial, essa descoberta coloca o Brasil na sexta posição entre os maiores produtores de petróleo do mundo, ficando atrás somente da Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes.

O crescimento fulminante do Brasil, junto com o da Rússia, Índia e China, principalmente, estimulou estes países a levarem à consequência a visão do economista Jim O’Neill e estabelecessem alguma operacionalidade de fato no Bloco dos BRICS. Depois de algumas várias reuniões, os integrantes do Bloco decidiram criar um poderoso banco de desenvolvimento, com sede na China, tendo como primeiro CEO um indiano. A junção dos países do BRICS formou o maior motor da economia mundial.

Neste contexto, o Brasil começou a despontar como uma nova potência mundial surgindo na América do Sul, uma área há tempos considerada como um “quintal” dos Estados Unidos.

Nenhum império, nem mesmo um informal, como é o caso dos Estados Unidos, aceita uma mudança tão espetacular, capaz de abalar a sua influência regional ou mundial. Do ponto de vista da elite norte-americana, operar para impedir o surgimento de competidores globais é parte essencial de sua geopolítica – o que é da natureza dos impérios. Principalmente após a vitória de Dilma, quando os estrategistas norte-americanos perceberam que seus aliados brasileiros dos partidos da aliança entre a direita neoliberal e o coronelismo (PSDB, DEM e PPS) não tinham capacidade de vencer eleições democráticas, começaram a manobrar para expulsar a esquerda conciliadora do poder e, assim, estancar o crescimento do Brasil.

O império ataca

O escândalo denunciado pelo jornalista norte-americano Glenn Greenwald, no jornal britânico The Guardian, a partir de provas fornecidas pelo ex-analista da CIA, Edward Snowden, que expuseram a espionagem eletrônica da NSA (Agência Nacional de Segurança), atingindo vários líderes mundiais, inclusive a presidente Dilma Rousseff, já foi parte da movimentação dos Estados Unidos para viabilizar o golpe.

No Brasil, os documentos de Snowden indicaram que além da presidente, a Petrobrás também foi vítima da espionagem dos Estados Unidos. Só depois, com a compreensão dos rumos da operação Lavajato é que se poderá compreender o porquê do interesse estadunidense sobre uma companhia petrolífera e para onde foram as informações coletadas.

A espionagem que se abateu sobre o governo e algumas empresas estatais do país, em 2013, era um reconhecimento do terreno, preparatório para o brutal ataque que seria desfechado contra a democracia brasileira um ano depois, por meio de aliados internos e travestido de campanha contra a corrupção. Certamente, a desarticulação política do PT, que afetou profundamente a sua capacidade compreensão da conjuntura e, também, de formar novos quadros de qualidade, contribuiu para o desfecho dos episódios que se seguiram à Lavajato.

Snowden: o Brasil é o país mais espionado do mundo

O Wikileaks denunciou que a maior das 16 bases de operações da CIA fora dos Estados Unidos fica no Brasil e segundo Snowden, o país é o mais espionado do mundo. Às vésperas da terrível crise da Ucrânia, que levou a Europa à beira de uma guerra entre a OTAN e a Rússia, a declaração do ex-espião norte-americano é surpreendente.

Por que os EUA dirigem um caríssimo aparado de espionagem contra um país considerado amigo?

A resposta é óbvia e comprova que em longo prazo, o Brasil é mais temível para a hegemonia norte-americana do que a Rússia ou a China. O Brasil é uma nação jovem, com imenso potencial. Se o pré-sal é a parte mais visível da riqueza nacional, no conjunto, o país tem condições de se igualar e até superar o poder Estados Unidos nas próximas décadas, pois cresce mais do que os EUA em todas as dimensões: econômica, social, cultural, científica e militar. Esta possibilidade é dolorosa e inaceitável para qualquer império. Deter o crescimento do Brasil, naturalmente entrou no rol das prioridades da geopolítica estadunidense.

EUA aciona o golpe no Brasil

A estratégia provavelmente estava sendo traçada há anos e foi uma política de estado, não uma estratégia de governo (republicanos ou democratas, Obama, Trump ou Biden). O governo Obama é inteiramente controlado pela elite da Costa Nordeste. Seus métodos somente se diferenciam do estilo Trump pela maior habilidade, para encaminhar procedimentos sofisticados como foi o caso do soft golpe no Brasil.

Antes de desencadear as ações que resultaram no golpe no Brasil, os EUA testaram os novos métodos de desestabilização jurídico-parlamentar em pequenas repúblicas latino-americanas.

Uma especialista no assunto, a embaixadora Liliana Ayalde – denunciada pelo Wikileaks como ligada à CIA – testou primeiro a estratégia de golpe sem presença militar explícita em Honduras, onde o governo do presidente democraticamente eleito Manuel Zelaya foi derrubado, em 2009, através de uma movimentação jurídica e parlamentar ilegal. Terminado o trabalho em Honduras, Ayalde foi transferida para o Paraguai, onde um golpe parlamentar fulminante, que durou apenas uma noite, derrubou o presidente eleito Fernando Lugo, em 2012.

No ano seguinte, em 16 de setembro de 2013, Liliana Ayalde se torna a embaixadora dos Estados Unidos em Brasília.

A nova embaixadora no Brasil chegou logo após o ponto culminante das manifestações esquisitas de 2013, que nasceram por causa do protesto contra os vinte centavos de aumento na tarifa de ônibus de São Paulo e ganharam a amplos setores da classe média.

Logo depois das pequenas manifestações em São Paulo, os protestos cresceram em todo o Brasil, atraindo um público heterogêneo e reivindicações confusas. A tensão social não foi devidamente avaliada pelo Governo Dilma Rousseff. Talvez por causa da dificuldade de avaliação, o que revela a fragilidade do sistema de informações dos governos petistas, a presidenta não conseguiu dialogar ou dar respostas aos movimentos de rua.

Diversos grupos se aproveitaram do vácuo político, tanto à esquerda, quanto à direita. Os manifestantes de esquerda ou os anarquistas foram duramente reprimidos pelas polícias estaduais, alguns ainda são processadores ou perseguidos e há os que carregam problemas físicos e de saúde devido à violenta repressão das polícias militares.

Os setores da direita; que se aproveitaram dos impressionantes eventos de rua que ocorreram, principalmente, à época da Copa das Confederações, preparatória para a Copa do Mundo; tiveram total liberdade de operação seja nas ruas ou via a Internet. Esses grupos conservadores revelaram alto grau de profissionalismo e extraíram temas de apelo popular das pesquisas de opinião, para estabelecer um discurso de cobrança do governo, centrando o fogo na corrupção.

As manifestações de 2013 foram estimuladas pela PsyWar estadunidense e deram origem ao ciclo que levou ao golpe de 2016

Jesse de Sousa explica a falsidade desta moral anticorrupção, que cobra dos políticos, porém preservando os controladores do dinheiro e seus serviçais (nos sistemas policial, judiciários e na mídia), que são os verdadeiros corruptos.

O caldeirão para o acirramento das eleições de 2014 foi montado no final de 2013: repressão e criminalização dos grupos de esquerda, que saíram às ruas; estímulo a um discurso baseado em pesquisas, para estimular o mal-estar e dar uma bandeira às ruas e neutralização dos segmentos de esquerda na sociedade, frustrados com a falta de identidade mais claramente popular do PT e do governo Dilma.

O tempero para este caldo social foram as primeiras revelações da operação Lavajato, que já contava com imenso acervo de informações sobre a Petrobrás. O volume de informações, a rapidez da operação e a estratégia de vazamentos seletivos enganaram o governo e paralisaram a esquerda. Muitas personalidades importantes na formação de opinião de esquerda, em um primeiro momento, apoiaram a operação, acreditando nas suas boas intenções. A própria cúpula do governo chegou a acreditar que a “força-tarefa” (nome tipicamente norte-americano) da Lavajato fosse bem intencionada. Há indícios de que a própria Dilma e seu ministro da justiça, José Eduardo Cardoso acreditavam nas boas intenções dos semi-imberbes procuradores de Curitiba.

No início de 2014, uma poderosa estrutura de guerra ideológica inédita no Brasil já estava pronta, para combater a esquerda e disputar as eleições.

Havia um poderoso thinktank, o Instituto Milênio, responsável pelas formulações estratégicas e alinhar o discurso conservador de crítica à esquerda, principalmente na mídia empresarial, que domina mais de 90% do mercado cultural e de informação no país. Militantes contratados se preparavam para criar falsos movimentos independentes, como o Movimento Brasil Livre (MBL), Vem pra Rua e Revoltados Online, para dar uma aparência apartidária e jovem aos manifestantes contrários ao governo. Poderosos esquemas de propaganda através da Internet foram montados, para atuar nas redes sociais, com farta utilização de militantes pagos e robôs.

O financiamento, a estratégia, a coordenação e o banco de informações, utilizados para desestabilizar a democracia no Brasil – hoje se sabe – são made in USA, pelo que foi divulgado pelo Wikileaks, Edward Snowden e conforme a análise de pesquisadores que estudam o assunto, como Avram Noam Chomsky e Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira.

Violência política indicava disposição de tomar o poder a qualquer custo

O que se viu no ano de 2014 foi a mais virulenta campanha eleitoral da história do país.

O PT contando com os recursos de campanha eleitoral e dispondo de um centro de inteligência estratégica, que era o comando da campanha de reeleição da presidenta Dilma, pode reagir aos ataques durante o período eleitoral. Porém foi uma vitória duríssima, somente viabilizada porque os cidadãos de centro-esquerda e esquerda reagiram à extrema agressividade da campanha do PSDB (inédita na política brasileira), que assumiu uma linha ideológica fracamente radical de direita – neoliberal na economia e medieval na cultura.

Mais do que na TV, as eleições de 2014 foram decididas na Internet. Os assuntos eram colocados na TV ou em menor escala no rádio, mas a disseminação em massa ocorria através das redes sociais.

Essa nova característica das campanhas brasileiras acabou por beneficiar a candidatura do PT, pois enquanto o candidato do PSDB utilizava as metodologias empresariais de cabos-eleitorais eletrônicos contratados e farta utilização de robôs, o esquema petista – que também utilizou estes elementos – foi beneficiado por uma militância espontânea, que fez diferença.

Robôs somente distribuem informações para públicos rastreados eletronicamente e cabos-eleitorais pagos na absoluta maioria dos casos, também, fazem uma função semelhante, pois não se envolvem política e ideologicamente com quem os contratou. Desta forma, a única vantagem dos cabos eleitorais pagos com relação aos robôs é que eles existem de fato, o que gera algum nível de confiança a mais.

Porém nenhuma destas alternativas pode se comparar a militantes profundamente envolvidos. Os militantes se autopropõem a uma missão na qual acreditam e oferecem todo o comprometimento, para alcançar a meta que pretendem. Além de existir, serem pessoas reais, que seus interlocutores conhecem e podem confiar, os militantes produzem seus próprios argumentos, adaptam os que recebem através das redes e se engajam no convencimento dos participantes de suas redes sociais.

Essa diferença fez Dilma vencer as eleições por pouco.

Se sua campanha obteve o apoio de uma militância aguerrida, os erros antigos de petistas importantes corroeram a sua base de apoio. E isso, junto com um massacre permanente da mídia empresarial, quase toda ela ligada à elite coronelista, fizeram com que grande parte da população de desgarrasse do governo – o mais doloroso foi o afastamento das camadas populares beneficiadas pelos governos petistas.

Os problemas maiores ocorreram depois das eleições.

Enquanto o PT desligava sua máquina de campanha e a militância se acomodava; satisfeita com a vitória de um projeto político com o qual uma grande parcela da militância não sentia mais afinidade; o PSDB e seus mentores mantiveram suas baterias em funcionamento e passaram a questionar o resultado das eleições desde o dia da promulgação dos resultados.

O país assistiu então um paradoxo: o partido derrotado manteve a sua campanha política, com todas as suas estruturas na Internet em funcionamento e, ainda, tendo o apoio praticamente integral da mídia; enquanto a presidente vitoriosa tentava governar fazendo acenos para os setores da sociedade que haviam apoiado o outro lado (o mercado, um eufemismo para designar o sistema bancário internacional, que nada mais é do que a articulação entre os aproximadamente 10 ou 12 bancos mais poderosos do mundo, que segundo a Instituição Britânica Oxfan Internacional, são dirigidos por 62 pessoas super-ricas), através da aplicação do programa econômico dos que ela tinha vencido.

A presidenta não conseguiu sensibilizar o outro lado e perdeu a sua base de apoio social, afetada pelas políticas de austeridade que adotou – tendo inclusive nomeado um funcionário do Itaú, Joaquim Vieira Ferreira Levy, um dos maiores bancos do Brasil, para administrar a economia.

Os erros na condução do governo em um ambiente no qual a oposição do PSDB manteve a sua campanha ativa, aliado à mídia empresarial e à força-tarefa da operação Lavajato, desde o início de 2015 começaram a causar danos severos à imagem do governo Federal.

Sem dúvida, o principal elemento de desgaste foi a ação da Lavajato e hoje é sobejamente conhecido que os principais líderes da operação são pessoas que foram treinados em programas do governo dos Estados Unidos.

Toda a liderança da Lavajato foi treinada pelos EUA

A principal figura do Lavajato, o juiz paranaense Sérgio Moro, participou de atividades de treinamento patrocinadas pelos Estados Unidos. Um documento interno do governo americano que foi vazado pelo Wikileaks, os EUA mostram como treinaram agentes judiciais brasileiros, entre eles Sérgio Moro. O documento, de 2009, pede para instalar treinamento aprofundado em Curitiba.

O treinamento mencionado na documentação denunciada pelo Wikileaks foi realizado na forma de um seminário chamado “PROJETO PONTES. A justificativa era “consolidar treinamento bilateral de aplicação das leis e habilidades práticas de contraterrorismo”. Sob a desculpa da “guerra ao terrorismo”, os estadunidenses moveram suas peças por todo o mundo, inclusive no Brasil.

Promotores e juízes federais dos 26 estados brasileiros participaram do treinamento, além de 50 policiais federais de todo o país. A delegação do Brasil era a maior dentre os participantes, que contava com operadores da justiça do México, Costa Rica, Panamá, Argentina, Uruguai e Paraguai.

Moro e as principais figuras da Lavajato foram treinados por agentes dos Estados Unidos

Há menção nos documentos à participação de Sérgio Moro, que fez apresentações os “cinco pontos mais comuns acerca da lavagem de dinheiro no Brasil”. O documento não entra em detalhes sobre a fala do juiz brasileiro, mas reporta que houve acalorados debates, nos quais a equipe de treinamento dos EUA ensina os segredos da “investigação e punição nos casos de lavagem de dinheiro, incluindo a cooperação formal e informal entre os países, confisco de bens, métodos para extrair provas, negociação de delações, uso de exame como ferramenta, e sugestões de como lidar com Organizações Não Governamentais (ONGs) suspeitas de serem usadas para financiamento ilícito”. O informe da equipe lembra que “os participantes requisitaram treinamento adicional, sobre a coleta de evidências, entrevistas e interrogatório”. Em resposta são programados novos cursos mais aprofundados nos seguintes locais: Curitiba, São Paulo e Campo Grande.

Os operadores dos EUA taxam como terroristas todos os grupos políticos que não se enquadram nas regras da ordem mundial estabelecida por eles. Quem serão os terroristas, para os norte-americanos, no Brasil?

Outra figura da Lavajato com fortes relações com operadores norte-americanos é o procurador Deltan Dallagnol. Ele fez mestrado em Harvard, tradicional celeiro de quadros da inteligência dos Estados unidos e para os serviços secretos dos EUA. No entanto, o que mais chama a atenção no perfil de Dallagnol é o seu comportamento de cruzado da moral, sendo que seus preceitos éticos são determinados por uma visão fundamentalista evangélica – que o procurador demonstra nas suas visitas frequentes a cultos evangélicos, onde vai fazer a sua pregação contra o “mal”.

Um dos personagens mais midiáticos da força tarefa parece não se enquadrar no estilo do seu colega sebastianista. É o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, cuja biografia o mostra envolvido em um episódio nem um pouco enaltecedor. Trata-se de sua participação no escândalo Banestado, considerado a maior lavanderia de dinheiro sujo já descoberta no Brasil. Em setembro de 2003 a IstoÉ publicou uma matéria sobre Santos Lima cujo título é no mínimo inspirador: “Raposa no galinheiro”. O subtítulo emenda: “Procurador Santos Lima, casado com ex-funcionária do Banestado, tentou barrar quebra de sigilo de contas suspeitas”. A matéria assinada pelos jornalistas Amaury Ribeiro Jr. e Osmar de Freitas Jr. deixaria o mais ávido “paneleiro” decepcionado, isso se a sua causa realmente fosse o combate à corrupção.

A denúncia ocorreu quando uma comissão de autoridades brasileiras encarregadas de apurar o escândalo do Banestado foi até os EUA em busca de provas e documentos sobre lavagem de dinheiro e remessas ilegais de recursos para o exterior. Segundo os jornalistas, o procurador Santos Lima tentou de todas as maneiras impedir que os “preciosos documentos” fossem entregues aos membros da CPI que ocorria à época, para investigar as denúncias contra o banco. Os jornalistas contam que a atuação do procurador causou constrangimento tanto na delegação brasileira quanto nas autoridades dos Estados Unidos. Nas palavras de um dos americanos: “Foi insólito”.

O caso Banestado também foi responsabilidade da justiça do Paraná, pois a principal agência da lavanderia era situada em Foz do Iguaçu, porém há outra extraordinária coincidência com a Lavajato: além de o procurador Santos Lima ser um dos principais “investigadores” do caso, o juiz responsável era Sérgio Moro. O caso Banestado nunca foi devidamente esclarecido, pois a mídia empresarial na era FHC não se dedicava à investigação de suspeitas de corrupção no governo. O caso foi engavetado, esquecido e ninguém foi punido.

Sobre os delegados e agentes da PF que participam da espetaculosa operação, basta ver o perfil de um dos chefes da força tarefa, para perceber as suas motivações. É o caso do delegado Igor Romário de Paula, que chegou a processar – e perdeu – o site de busca Google e a plataforma Facebook, para que eles revelassem os autores e tirassem do ar críticas que lhe foram feitas, em virtude de seu posicionamento político nas eleições de 2014. De Paula apoiou abertamente o candidato Aécio Neves (PSDB) e fez críticas jocosas ao PT e sua então candidata presidencial, Dilma Rousseff (PT), na internet. Segundo o jornal “O Estado de S. Paulo”, o delegado costumava pedir votos para o então candidato Aécio Neves, em páginas de redes sociais e participava de uma comunidade cujo símbolo era uma caricatura da presidente Dilma Rousseff (PT), com dois grandes dentes para fora da boca e coberta por uma faixa vermelha na qual estava escrito “Fora PT!”.

É uma estranha mistura que; apesar das descobertas do envolvimento de todos os grandes partidos brasileiros com a corrupção, desde que surgiram; concentrou suas investigações associadas aos vazamentos seletivos na “mídia simpatizante” somente contra o PT.

O único resultado da Lavajato foi destruir 40% do PIB do Brasil

O resultado da movimentação da Lavajato, além de combalir o PT e ter efeito decisivo no andamento do golpe de estado contra a democracia, foi a virtual destruição do único setor da indústria brasileira competitivo internacionalmente: a construção pesada.

As grandes empreiteiras brasileiras, que surgiram ou se consolidaram ainda nos anos Juscelino Kubitscheck, tornaram-se corporações imensas, economicamente poderosas, adquiriram domínio técnico no estado da arte e, portanto, participavam com elevada eficiência na competição internacional.

A construção pesada brasileira partiu para o mundo vencendo concorrências nos mais diferentes pontos do planeta, inclusive nos países centrais da Europa Ocidental, Estados Unidos e Canadá. No entanto, não foi o enorme sucesso nas disputas internacionais que mais incomodou aos detentores das rédeas do status quo, mas sim a diversificação das maiores empreiteiras, especialmente a Odebrecht, que entrou para um dos ramos mais sensíveis da economia mundial, a indústria armamentista.

O braço da Odebrecht para a indústria de defesa é a Mectron – Engenharia, Indústria e Comércio S. A, atualmente a maior fabricante de material bélico avançado no País, com um catálogo de produtos que inclui mísseis, torpedos para submarinos, sistemas de armas inteligentes, recursos de comunicação militar e equipamentos aeronáuticos.

O moderníssimo míssil A-Darter estava sendo desenvolvido pela Odebrecht. A entrada da empresa no competitivo mercado de alta tecnologia incomodou os estadunidenses.

O mercado internacional de armamentos tem forte envolvimento geopolítico, pois nem todos os países que produzem armas de alta tecnologia estão dispostos a vender seus mais modernos equipamentos de defesa. No plano estratégico, a formação de uma indústria bélica nacional está diretamente associada ao desenvolvimento do país como um todo, na medida em que ela gera e dissemina conhecimentos tecnológicos avançados para toda a sociedade, gerando divisas e empregos de alto nível, como engenheiros, físicos e matemáticos.

O catálogo de produtos da Mectron é dividido em Armamentos inteligentes, Sistemas de comunicação e Espaço, atendendo atualmente todas as forças armadas do Brasil. Um dos setores mais importantes da empresa é o desenvolvimento de mísseis, como o MAA-1 Piranha, artefato ar-ar, (lançado de aviões) automático, com mira infravermelha (sensível ao calor das turbinas das aeronaves adversárias), do tipo “lançar e esquecer”, utilizado pela Força Aérea Brasileira (FAB).

Em parceria com a Avibras, outra empresa brasileira, a Mectron detém parte do conhecimento para construir o devastador míssil francês anti-navio Exocet, que ficou famoso na Guerra das Malvinas, ao destruir várias embarcações britânicas.

Outro poderoso míssil da Mectron é o MAR-1, arma ar-superfície antirradiação, um dispositivo utilizado para destruir posições de radares. O equipamento é uma das principais armas do avião de ataque AMX da FAB e foi exportado para o Paquistão.

Os moderníssimos caças Saab Gripen 37E da FAB, com as primeiras entregas previstas para 2020, terão à disposição pelos menos dois mísseis da Mectron. A aeronave poderá operar o míssil MAR-1 e o A-Darter, este último um projeto no estado da arte, desenvolvido em parceria com a empresa sul-africana Denel Dynamics. A participação da Mectron no programa Gripen contempla ainda o fornecimento de sistemas datalink, recurso que conecta o avião a centrais de controle e outras aeronaves, criando um sistema integrado inteligente, além de equipamentos de comunicação.

Um dos produtos mais recentes da Mectron, lançado em 2009, é o míssil portátil anti-carro MSS 1.2 AC, que está em fase de avaliação por tropas do exército e marinha do Brasil. O kit com lançador e o míssil pesa apenas 15 kg e pode ser carregado por um soldado. A arma pode destruir um veículo blindado a 3,2 km de distância com precisão.

O grupo Odebrecht também trabalha no desenvolvimento do primeiro submarino nuclear do Brasil principalmente por meio da divisão ICN – Itaguaí Construções Navais. A empresa, que tem participação da francesa DCNS (do ramo de construção naval), será a responsável por produzir boa parte da nova frota de submarinos do programa Prosub da Marinha brasileira. Paralelamente ao Prosub a Mectron desenvolve o IPMS (Sistema de Gerenciamento Integrado da Plataforma), um conjunto de softwares que irá gerenciar todas as operações eletrônicas do submarino nuclear. As armas do submarino nuclear nacional serão Made in Brasil, como o torpedo de ataque, o TPNer (orientado por um sonar), que pode afundar tanto embarcações de superfície como outros submarinos – nesse projeto, a empresa brasileira trabalha em conjunto com alemã Atlas Elektroni, que tem longa tradição da produção desse tipo de armamento.

Áreas inovadoras, anteriormente reservadas às maiores potencias, também merecem a atenção da Mectron, que o radar “SCP-01”, aplicado na versão modernizada da aeronave AMX, e subsistemas para o míssil anti-navio MAN-SUP, da Marinha do Brasil. Outro produto da empresa são sistemas de rádio militar, com softwares especiais de produção nacional. Até na área espacial a Odebrecht entrou ao desenvolver em parceria com cientistas chineses uma série de componentes dos satélites de comunicação CBERS 3 e 4, que foram lançados em 2013 e 2014, respectivamente.

Concorrência da Odebrecht na alta tecnologia atraiu a ira dos EUA

Ao atuar em uma área tão sensível, certamente a Odebrecht chamou a atenção dos principais players mundiais do setor de armamentos. Porém, a questão principal ocorreu no plano geoestratégico: a possibilidade do Brasil se tornar autossuficiente no campo militar e, especialmente, capaz de defender o pré-sal com eficiência. Isso, sem dúvida, incomoda o status quo mundial.

Desta forma, a Odebrecht foi vítima duas vezes do seu próprio sucesso. De um lado a construtora foi alvo da caça às bruxas que, além da motivação política, pretende demolir o setor de construção pesada brasileiro, para atrofiar sua capacidade de competição mundial. Na outra face da moeda, a empreiteira se tornou o objetivo mais importante na devastação do setor de construção pesada, por seu papel central na autossuficiência militar do Brasil.

Operação para quebrar o país não tem paralelo mundial

É evidente que a corrupção deve ser combatida duramente por todos os países, que pretendem ser considerados civilizados. Porém há duas considerações a serem feitas. Primeiro é necessário separar o discurso propagandista, muitas vezes utilizado pelos projetos norte-americanos de mudança de regime, da corrupção real. Os serviços secretos dos EUA, atuando frequentemente de forma ilegal mesmo à luz da legislação do seu próprio país, utilizam como um dos seus principais argumentos de propaganda a luta contra a corrupção, para estimular a mudança de regimes. Este argumento vem sendo utilizado, desde 1953, quando a Operação Ajax, comandada pelo agente da CIA Kermit Roosevelt Jr (neto de Theodore Rosevelt), derrubou um governo democraticamente eleito no Irã e instalou no seu lugar um fantoche dos Estados Unidos, o Xá Reza Pahlavi, que seria destronados nos anos 1970 pela Revolução Islâmica.

De lá para cá, a atuação norte-americana tem sido intensa, seja através de operações armadas, como ocorreu no Iraque de Saddan Hussein, ou em ações de softpower ou psywar, como no caso da deposição de Salvador Allende, no Chile, em 1973.

A cruzada anticorrupção, apontando sem provas contra o PT e o presidente Lula, foi parte da campanha de psywar contra o Brasil, haja visto que em 30 anos de investigação severa, que revirou toda a vida do ex-metalúrgico e da sua família, os únicos indícios encontrados foram um sítio de baixa qualidade no interior do estado de São Paulo e o apartamento no decadente balneário de Guarujá, que foi oferecido ao ex-presidente, mas ele não quis adquirir o imóvel.

Enquanto isso fortes indícios de corrupção, envolvendo personalidades do grupo neoliberal que orbita em torno do PSDB, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (sob o qual pesam as acusações de sua ex-amante, a jornalista Miriam Dutra, além do caso não explicado do milionário apartamento em Paris), ou o senador José Serra (cuja filha, a empresária Verônica Serra, é o caso mais espetacular e sem explicação de enriquecimento de uma pessoa tão jovem no Brasil). Estes dois, para ficas apenas em dois exemplos, entre vários casos denunciados e nunca investigados.

Em segundo lugar há a forma como foram tratadas as empresas envolvidas na Lavajato, que estavam entre as principais alavancas da economia brasileira, sendo também algumas das maiores geradoras de empregos do país.

O padrão mundial, para tratar casos semelhantes, sempre foi a punição dos responsáveis e a preservação das empresas. Este método ficou bem claro no tribunal de Nuremberg, quando foram julgados proprietários e executivos de inúmeras empresas alemãs, que haviam participado do esforço de guerra nazista, inclusive apoiando os crimes de extermínio de judeus, comunistas e minorias étnicas.

Os responsáveis pelas empresas envolvidos em crimes foram duramente punidos, até mesmo com pena de morte. No entanto, todas as companhias foram preservadas, juntamente com os empregos e o domínio tecnológico. Hoje continuam entre as maiores do mundo: Daimler-Bens, Bayer, Hugo Boss, Siemens, BMW, Basf, Oetker, Hoechst, Schering, Thyssen, Allianz, Degussa, Volkswagen, Deutsche Bank, Dresdner Bank e Mannesmann (atualmente Valourec), entre outras.

O modelo adotado em Nuremberg foi seguido nos Estados Unidos de uma forma piorada. Um exemplo é o gigantesco escândalo envolvendo a Lockheed, uma das maiores produtoras de armamentos do mundo. A empresa, hoje Lockheed-Martin, é uma das maiores companhias de construção de aviões dos EUA, responsável pelos famosos Constellations, de saudosa lembrança. Também produz aviões militares e de transportes, como o Hercules e o Tristar.

Na década de 1979 a opinião pública internacional descobriu que, desde os anos 1950, a Lockheed foi uma generosa distribuidora de propinas pelo mundo afora, visando favorecer a venda de seus produtos. Calcula-se que a empresa distribuiu US$ 300 milhões de comissões e propinas – em moeda de hoje, mais de US$ 3,6 bilhões. Os casos mais emblemáticos foram na Alemanha Ocidental, onde gratificaram o Ministro da Defesa Franz Joseph Strauss, como propina para a Lockheed viabilizar a venda 900 aviões de caça F-104 Starfighter.

O F 104 é conhecido pelos pilotos alemães como fabricante de viúvas, devido à péssima qualidade, que faz dele um avião perigosíssimo para seus tripulantes. As propinas pagas pela Lockheed para vender seu péssimo produto resultaram no maior escândalo de corrupção da história.

As comissões chegaram a 12 milhões de dólares. Na Itália os beneficiados foram os poderosos ministros Luigi Gul e Maria Tanassi, além do Primeiro Ministro Mariano Rumor e o Presidente da República Giovanni Leone, obrigado a renunciar. A comissão foi de US$10 milhões.

No Japão a festa foi maior, para vender aviões de combate e de transporte usaram como agente a Marubeni, tradicional trading, as propinas foram de 2,9 bilhões de yens mais 3 milhões de dólares para o Primeiro Ministro Tanaka. No lado militar a mão molhada foi do herói de guerra Minoru Genda, estrategista e comandante da força aérea de ataque a Pearl Harbor e depois da guerra Chefe de Estado Maior da Força de Auto Defesa do Japão.

O maior volume de comissões foi pago na Arábia Saudita, 106 milhões de dólares, para venda de aviões militares. O intermediário foi Adnan Kashogi, na época um dos cinco homens mais ricos do mundo, proprietário de um Jumbo particular e do maior iate daquela época.

O mega escândalo foi descoberto na Holanda, onde a polícia identificou uma comissão de US$1,1 milhão para o Príncipe Bernhard, marido da Rainha Juliana. O estrondo foi imenso, porque se tratava um personagem da Casa Real, de uma das monarquias mais ricas da Europa.

A desconfiança das autoridades surgiu porque, apesar de riquíssima, a ciumenta Rainha mantinha o marido com mesada curta, para impedir escapadas conjugais. Mesmo com o dinheiro controlado o príncipe passou a organizar grandes festas nos endereços mais chiques da Europa. Isso despertou a atenção da polícia holandesa e, onde havia fumaça foi descoberto um incêndio.

Por causa desse caso da Holanda foi editada a famosa Foreing Corrupt Practices Act, até hoje a principal lei anticorrupção dos EUA, que exige relatórios anuais e perturba executivos de multinacionais estadunidenses.

Porém, as punições costumam ser brandas e há fortes barreiras impedindo o processo de executivos dos EUA em outros países.

Ao ser descoberto e comprovado o episódio de corrupção, chairman e o vice chairman da Lockheed renunciaram a seus cargos em 1976, cinco anos após o escândalo da Holanda. A punição parou por aí, ninguém mais foi preso, pois na compreensão das autoridades dos Estados Unidos, inclusive juízes, promotores e agentes da lei, a empresa era estratégica para o país, portanto foi preservada. O caso foi arquivado, sob a justificativa de corrigir para frente e enterrar o passado. Hoje a Lockheed-Martin é cotada na Bolsa de Nova York em US$68 bilhões de dólares, é uma empresa prospera e não se fala mais no assunto.

Até mesmo na aparentemente virtuosa Suécia há exemplos semelhantes aos da Alemanha e Estados Unidos de proteção de suas empresas estratégicas e empregos. Uma investigação na primeira década do Século XXI envolveu a SAAB, um dos ícones do país, que fabrica os caças Gripen.

A unidade anticorrupção sueca investigou suspeitas de que a Saab usou um intermediário para subornar o governo sul-africano para garantir um acordo lucrativo. A investigação preliminar foi conduzida por vários anos, até que o caso foi abandonado por falta de provas.

Um crítico da investigação, o escritor sueco Nils Resare, que escreveu um livro sobre o caso, afirma que a investigação foi mal feita propositalmente, pois “os promotores não eram suficientemente independentes”. Segundo o escritor, o promotor deixou o caso porque ele não conseguia montar uma equipe para encontrar provas. “E isso é provavelmente o maior escândalo de corrupção na história da Suécia”, mas a SAAB é importante demais para ser condenada, conclui Resare. Mais uma vez uma empresa estratégica é preservada, assim como seus empregos.

Principalmente quando se conhece o tipo de atitude que é padrão nos países organizados, através dos exemplos apresentados acima, é fácil perceber que definitivamente o comportamento das autoridades judiciais e policiais brasileiras não levou em conta o interesso do pais – parece até que as autoridades do Brasil levaram mais em conta o interesse de concorrentes internacionais.

A quem interessa paralisar o Brasil

Nesse caldeirão de bruxarias, o golpe aconteceu.

Porém não foi o golpe imaginado pela aliança entre os interesses geoestratégicos dos EUA e o setor da elite neoliberal, que teoriza sobre a inevitabilidade da eterna dependência brasileira das potencias desenvolvidas.

Esse grupo, principalmente alojado na órbita do PSDB e do Instituto Milênio, defende a tese de que cada país deve ocupar um lugar na ordem internacional desenhada pelos vencedores “ocidentais” (entenda-se EUA), após a Segunda Guerra Mundial. Assim, sob a liderança dos Estados Unidos, o papel do Brasil é ser um mero fornecedor de matérias primas e mercado de consumo para as principais economias da Terra.

Uma eventual industrialização do país, nessa concepção, somente seria viável no padrão de maquiadoras: multinacionais que importam produtos semiacabados, destinados ao mercado interno e, também, aos vizinhos da América do Sul, aos quais restaria uma posição ainda mais subalterna. Forças Armadas poderosas estariam fora de cogitação, pois afinal o que elas defenderiam, uma vez que todos os recursos do país seriam internacionalizados.

Doutrinação e cooptação para formar a forca tarefa da lavajato

Várias dessas autoridades – como o juiz responsável, os procuradores e policiais federais – participaram de cursos e seminários de treinamento oferecidos pelo governo dos Estados Unidos. Nesses eventos houve um intenso esforço de doutrinação das autoridades brasileiras, pelas suas contrapartes norte-americanas. Mesmo que não tenha ocorrido a cooptação formal de juristas e policiais brasileiros, há que se registrar que os representantes estadunidenses possuem profundo sentido do interesse geoestratégico do seu país e o mesmo não ocorre com os participantes da delegação do Brasil.

Desta forma, os norte-americanos que participam desses eventos possuem um estrito senso de missão e manejam, em consonância com as teorias de psywar, figuras simbólicas, como “guerra ao terrorismo” e um uso particular do termo “bolivarismo”, que procura transformar este último conceito em sinônimo de “ditadura comunista”. A intenção dos operadores estadunidenses é claramente o de fazer uma pregação ideológica de sua visão de mundo, maniqueísta, no qual há uma guerra contra o terrorismo e seus aliados, entre eles os bolivarianos. Como o PT se opõe a uma intervenção na Venezuela, ele também está “do outro lado”, o induz à caracterização do partido como uma “organização criminosa”.

Portanto estes eventos são encontros de um grupo fortemente consciente de uma missão nacional – os norte-americanos – e os brasileiros, frutos de uma elite mentalmente colonizada e sem nenhuma convicção de nacionalidade.

Nos relatos dos eventos, fica evidente que os “professores” estadunidenses conseguiram introduzir nos brasileiros o conceito de guerra ao terrorismo. Como já observado antes, não há terroristas ou terrorismo no país. Portanto, quem serão os terroristas que ameaçam o Brasil, conforme foi apontado pelos operadores dos EUA? Há uma forte sensação de retomada do discurso macarthista da Guerra Fria, que considera qualquer manifestação da esquerda, o bolivarianismo, condenável. Assim, há possibilidade bastante concreta de que os brasileiros tenham sido convencidos a considerar o PT, o MST e organizações semelhantes como bolivarianos, ou potenciais terroristas. O discurso anticomunista ou anti-bolivariano, expresso muitas vezes na expressão “vai pra Cuba”, é um indicativo dessa tendência.

Um bando de macunaímas sem nenhuma responsabilidade com a soberania

Outra perna operacional do golpe, planejado com esmero por interesses estrangeiros aliados à elite neoliberal, foi a mídia familiar-empresarial brasileira. O Brasil é um dos países onde o ambiente de liberdade de expressão é mais distorcido, pela concentração dos meios de comunicação. Apenas sete famílias (Marinho, Abravanel, Saad, Macedo, Frias, Civita e Sirotsky) dominam 70% da mídia nacional e, junto com grupos menores controlados por políticos conservadores (Sarney, Collor, Magalhães, Queiroz, Câmara e outros) chegam a deter impressionantes 95% do público brasileiro.

Este poderoso aparato de convencimento passou a atuar em conjunto com o braço jurídico-policial, a força tarefa, para viabilizar o golpe. A força tarefa produzia operações espetaculares, que quebraram a economia do país, atingido especialmente as grandes empreiteiras, e provocaram um surto de desemprego, enquanto a mídia familiar promovia uma narrativa, que culpava o governo e o PT por todos os males do mundo.

Surpreendentemente o núcleo de comando do governo Dilma – como também o do PT – não percebeu na época o violento ataque que estava sofrendo. Desta forma, só quando a situação já estava fora de controle é que houve um início de reação. Entretanto já era tarde, o leita havia sido derramado.

Erros estratégicos da aliança lavajato e tucanos desandaram o butim

Ao tentar prender Lula, antes do amadurecimento do processo golpista, houve um trauma no processo e a lavajato foi obrigada a recuar momentaneamente.

Nesse momento, começou o golpe dentro do golpe. Políticos independentes, mais ligados ao coronelismo clássico, iniciaram um movimento para a tomada do poder, fundamentados em duas premissas: o temor do Lavajato, por um lado, e de outro a possibilidade concreta de chegar ao comando do governo federal, aproveitando a fragilidade política da presidente Dilma.

Esse grupo independente estabeleceu uma aliança desigual sob o comando do Deputado Federal pelo Rio de Janeiro Eduardo Cunha e de alguns velhos coronéis da política e das oligarquias brasileiras, como Eliseu Padilha (RS), Henrique Eduardo Alves (RN), Moreira Franco (RJ), Geddel Vieira Lima (BA) e Romero Jucá (RR). Michel Temer, o vice que traiu a presidente, era o mais fraco dessa turma e chegou ao poder graças aos articuladores do golpe.

Eduardo Cunha era o de menor tradição política do ponto de vista do coronelismo na época, porém o mais forte político brasileiro naquele momento. Seu poder decorria da chefia do imenso grupo dos parlamentares inexpressivos e de menor importância na Câmara Federal, o chamado “baixo-clero”. Muitos desses deputados federais devem sua eleição a Cunha, que se mostrou um dos mais hábeis captadores de recursos, grande parte deles ilícitos, provenientes de negociatas envolvendo recursos públicos ou vendendo apoio a projetos de lei do interesse de empresas, bancos ou setores da economia.

Segundo a avaliação de jornalistas independentes, Cunha pagou a campanha de mais de 150 deputados federais, que lhe deviam agradecimento e obediência.

Outra forma utilizada pelo deputado fluminense para exercer o seu poder foi a chantagem. Segundo parlamentares de esquerda, Cunha possuía dossiês contra inúmeros deputados e que, também, comprometiam algumas das mais importantes figuras que chegaram ao poder com o golpe de 2016.

Sob a condução psicopata de Cunha, o rito do impeachment, que tentava dar uma aparência de legalidade ao golpe, avançou de forma acelerada, até a votação do dia 17 de abril.

O golpe ocorreu, mas não de acordo com o planejamento original da aliança entre os interesses internacionais hegemônicos e o grupo neoliberal articulado em torno do PSDB e Instituto Milênio. O poder foi usurpado por políticos independentes, oriundos dos velhos e novos clãs coronelistas, aliados a negociantes dos mandatos parlamentares e evangélicos, que se tornaram maioria na câmara federal e são liderados por Eduardo Cunha.

O governo Temer foi um desastre. Foi caracterizado por ineficiência, incompetência, paralisia administrativa, desperdício e corrupção.

No entanto, já no período Temer foi implantado um acelerado programa de destruição do Brasil. De acordo com o mais importante cientista brasileiro, Miguel Nicolelis, professor na Universidade de Duke, o ataque dos serviços secretos dos EUA contra o Brasil tem basicamente uma agenda de destruição da soberania nacional. Ele explica que o propósito é a entrega não só de recursos naturais e “assets” (recursos) do estado, mas o total desmantelamento da indústria, da ciência, da educação, de tal maneira que o Brasil se perpetue como um estado vassalo.

Onde vai dar esta história?

O governo Temer facilitou a chegada do pior brasileiro ao posto de presidente da República, o miliciano e despreparado Jair Bolsonaro.

A elite ampla do país rejeita os modos toscos de Bolsonaro, porém, desde que ele foi enquadrado pelo STF, o miliciano se tornou suportável, pois não é obstáculo ao prosseguimento do esquema de destruição neoliberal do Brasil.

A triste situação do país é resultado do colonialismo essencialmente predatório instaurado desde a chagada dos europeus; que gerou uma elite somente preocupada com seus próprios interesses e nunca se preocupou com Brasil e jamais estabeleceu um projeto de nação.

Trata-se de uma elite preguiçosa, incompetente, avessa ao risco, gananciosa, egoísta e covarde. Um exemplo da incapacidade da elite rica brasileira é o fato de que a única marca industrial de classe mundial criada no país foi a Sandálias Havaianas, em um mundo repleto de marcas vindas de todos os países desenvolvidos ou em desenvolvimento. Todas as outras marcas internacionais criadas no Brasil, como Petrobras, Banco do Brasil ou Embraer são produtos de inciativas estatais.

Para superar esta condicionante histórica – que mantém um país com tanto potencial como o Brasil em permanente estado de atraso – é preciso derrotar politicamente e duramente a elite atrasada. Somente assim será viável promover processo de destruição criativa – de certa forma shumpeteriano – voltado à destruição das estruturas tradicionais.

No presente estágio da história mundial, quando parece que as escolhas violentas estão descartadas, resta então a opção de infligir uma decisiva derrota política e cultural às elites, possibilidade que está ao alcance do campo popular, pois a epidemia do COVID19 está levando o mundo inteiro a u gigantesco reset.

Derrota na guerra contra o COVID19 pode selar o destino do governo Bolsonaro

A elite atrasada brasileira não entendeu que a pandemia é uma guerra, a maior da história, pois coloca cada indivíduo da linha de frente – diferente das guerras tradicionais, nas quais os combates não interferem de maneira dramática na vida de grande parte das pessoas. Agora não. Agora o simples ato de sair das nossas trincheiras, que são as casas onde moramos, nos coloca à mercê do vírus e da morte.

Todas as guerras trazem mudanças. Quais serão as mudanças que a guerra contra o COVID19 trará para o Brasil, país poderá ter aproximadamente 200 mil mortos ou mais?

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