Os alemães aprenderam a blitzkrieg com os soviéticos

A maioria dos autores que escrevem sobre assuntos militares não entende suficientemente bem a distinção entre tática e estratégia. Os sites na Internet (na sua maioria) são feitos por jovens que gostam de armas e admiram tropas históricas, como as legiões romanas e os tércios espanhóis, ou as forças especiais modernas. Outros autores são historiadores, sociólogos, economistas, até administradores, com algum conhecimento de estratégia e quase nenhum das principais táticas militares.

Os gregos precisavam resolver rápido suas batalhas

A tática é fundamental nos estudos militares, pois os objetivos estratégicos somente são alcançados por um bom desempenho tático no campo de batalha.

Uma das exceções entre os autores é o ótimo John Keagan. Este pesquisador britânico explica que há três tipos fundamentais de guerras: a guerra ocidental, a guerra oriental das estepes e a guerra popular prolongada (criada no século passado por Mao Zedong – ou Mao Tzé-Tung, na forma tradicional). Cada uma dessas vertentes estratégicas determina as táticas de combate a serem utilizadas.

Os gregos queriam resolver rápido para retornar às suas fazendas

A guerra ocidental tem origem na Grécia antiga, onde as disputas militares entre as pólis eram determinadas pelo estilo de vida daquele povo. Os exércitos das cidades-estados helênicas eram constituídos por cidadãos que, na sua maioria, ganhavam a vida como camponeses. Estes soldados saíam para a guerra preocupados com as suas plantações e criações de animais domésticos. Caso ficassem muito tempo em campanha, poderiam perder o todo trabalho do ano. Eles precisavam de um sistema no qual as guerras deveriam durar o mínimo possível, para que os cidadãos soldados pudessem voltar o mais breve para as suas atividades nas chácaras e fazendas. Para isso, os gregos criaram um tipo de guerra que era decidido rapidamente. Iniciadas as hostilidades, os exércitos oponentes partiam imediatamente um em busca do outro do outro e, quando se encontravam, a massa de guerreiros dos dois lados partia para um choque frontal e decidido, buscando um resultado rápido e decisivo.

Com o tempo os gregos desenvolveram armas e as táticas que visavam assegurar a vantagem nesse tipo de batalha. Criaram um tipo de lança longa apropriada para o primeiro choque, espadas curtas e punhais adaptados para a luta corpo-a-corpo e, principalmente, as armas defensivas características dos guerreiros helenos, as couraças, os capacetes de bronze e os grandes escudos redondos chamados hoplôns, de onde vem o nome hoplita, que designava os guerreiros gregos.

Mais importante do que os equipamentos dos hoplitas foi o desenvolvimento de uma tática de batalha revolucionária para a época: a organização dos guerreiros em uma poderosa formação blindada chamada falange. Os hoplitas se reuniam em grupos de fileiras retangulares, com dezenas de soldados de profundidade, e ombro a ombro em filas laterais de frente para a formação adversária. Na frente da falange era formada uma parece de escudos, com as lanças sobressaindo-se. Este bloco blindado avançava em direção à parede adversária em uma meia corrida, ao som de um canto guerreiro, até chocar-se com o oponente protegido e armado da mesma maneira. Só os espartanos, que viviam para a batalha, adotavam algumas variações nesse modelo; eles avançavam caminhando lentamente e em silêncio. Esta batalha costumava durar pouco tempo, logo um dos lados cedia e debandava, sendo perseguido pelos adversários. A perseguição do inimigo apavorado em fuga era o momento do maior morticínio. Durava pouco tempo, pois o equipamento pesado exauria os hoplitas e impedia uma longa perseguição.

Esta forma de guerrear levou os gregos a derrotar o maior império de sua época, nas guerras greco-pérsicas. Depois, Alexandre da Macedônia, comandando uma falange aprimorada, conquistou quase todo o mundo conhecido pelos ocidentais na sua época.

Esse jeito de fazer a guerra foi adotado, com aperfeiçoamentos, pelos romanos e influenciou profundamente a cultura tática ocidental. As cargas de cavalaria medieval são fruto dessa cultura, assim como os regimentos de manobras dos séculos XV e XVI, os lanceiros suíços e os tércios espanhóis. Também seguem esta tradição os choques frontais entre grandes exércitos nas guerras napoleônicas e as frentes infindáveis da Primeira Guerra Mundial, que terminaram no amargo impasse das trincheiras.

As trincheiras da Primeira Guerra Mundial são uma sobrevivência do modo grego de combater

Guerra moderna inspirada nos nômades das estepes

O nó a que chegou a guerra ocidental foi rompido na Guerra Civil Russa, logo após o primeiro conflito mundial. Assim que terminou a crise global, 22 nações se uniram para tentar reverter a Revolução Bolchevique e invadiram a jovem União Soviética. Essas forças estrangeiras apoiavam os restos do exército czarista. Comandados por nobre e generais alinhados com o antigo regime, os remanescentes dos exércitos imperiais formaram diferentes agrupamentos e estabeleceram uma frágil aliança entre eles e com as forças invasoras.

Em resposta, os bolcheviques organizaram o Exército Vermelho, sob o comando de Leon Trotsky, para defender a revolução. Trotsky, contrariando a opinião de grande parte dos membros do diretório central do partido (entre os quais a de Stalin), trouxe para o novo exército oficiais que haviam servido no exército imperial. Entre eles Mikhail N. Tukhatchevsky, um oficial que havia permanecido no seu posto após a revolução e o teórico militar V. K. Triandofillov.

Os dois consideravam que os exércitos modernos eram grandes demais para sofrer uma derrota decisiva em um choque frontal. Era preciso uma nova concepção, e eles desenvolveram um modelo tático inovador para as guerras modernas, com o conceito de Operação em Profundidade.

As ideias para o novo desenho tático vieram da história russa, que registra séculos de derrotas para invasores que adotavam a guerra oriental. Eram os guerreiros montados das estepes, que ao longo de milênios haviam desenvolvido uma forma muito eficiente de combate. Esses exércitos vindos das vastidões do oriente evitavam o choque frontal e decisivo, preferiam pequenas escaramuças, os ataques rápidos aos flancos, cargas e fugas simuladas para desorganizar as formações inimigas, e a exploração da retaguarda para desarticular as linhas logísticas. Com grande mobilidade, ataques rápidos e simultâneos visando os pontos fracos do oponente, o flanqueamento e a exploração da retaguarda, os exércitos adversários eram desarticulados e enfraquecidos até a derrota.

Os mongóis e outros povos das estepes da Sibéria ensinaram aos soviéticos uma nova forma de guerra

Os nômades das estepes – hunos, tártaros, turcos, mongóis – utilizavam armas adequadas para as suas táticas: o perfeito domínio da equitação e o arco composto, que Keagan considera ser a mais extraordinária arma inventada, antes do advento da pólvora. Com essas táticas furtivas, associadas à rapidez de uma excelente cavalaria ligeira e a potência dos arcos compostos, os povos das estepes quase dominaram toda a Eurásia. A Europa ocidental somente foi salva das hordas mongóis devido à morte do Grande Khan Ogedei, que obrigou os comandantes de campo na Europa a voltar para a Mongólia, onde ocorria a escolha do novo chefe supremo.

Os oficiais soviéticos utilizaram as táticas dos caçadores e pastores montados das estepes, porém em escala muito maior. Nas suas batalhas eram utilizados grandes contingentes militares, equipamentos industriais, transporte ferroviário, navios a motorizados, caminhões, tanques primitivos, artilharia, observação aérea, artilharia e armamento de repetição. Mas as táticas imitavam os movimentos dos cavaleiros nômades: evitar batalhas frontais, buscar pontos fracos para efetuar penetrações, atacar os flancos mais desguarnecidos, desarticular a retaguarda, ao encontrar um ponto forte desviar e preferir o cerco.

As táticas revolucionárias levaram o Exército Vermelho à vitória e consolidaram o poder soviético em quase todo o antigo território imperial.

Alemães descobriram blitzkrieg na Rússia

Mais tarde, nos anos 20 e 30, o governo da República de Weimar foi impedido de possuir um verdadeiro exército pelos tratados de Versalhes – exceto um pequeno contingente de 300 mil soldados, que não podiam usar armamento moderno. Sentindo-se humilhada por esta cláusula draconiana imposta pelos vencedores (entre outras), a Alemanha sugeriu um acordo secreto com o estado soviético para que suas tropas treinassem em território russo, em troca de produtos industrializados.

Treinando em território soviético, muitas vezes acompanhando o exército vermelho e tendo contato estreito com seus oficiais, os militares germânicos conheceram um novo tipo de guerra. Estudando as táticas russas e buscando o seu desenvolvimento, através do maior domínio alemão das tecnologias modernas, o exército germânico chegou ao formato da Blitzkrieg.

Enquanto os alemães desenvolviam as novas táticas, Stalin se encarregava de eliminar os oficiais que haviam criado as Operações em Profundidade, em mais um expurgo. No início dos anos 1930, Tukhatchevsky, então marechal, e a nata da oficialidade do Exército Vermelho foi enviada para as prisões na Sibéria ou executada. O marechal foi assassinado na prisão por Béria, o chefe da segurança de Stalin.

A Wehrmacht; designação das forças armadas germânicas durante o terceiro Reich, entre 1935 e 1945; continuou treinando, desenvolvendo e experimentando os novos conceitos na prática. Primeiro na Guerra Civil Espanhola, depois na invasão da Polônia, até jogar suas forças já perfeitamente ajustadas contra a França, que caiu em poucas semanas.

Alemães conceberam a blitzkrieg, a partir dos treinamentos na Rússia,

Até exaurir suas forças contra a União Soviética, os exércitos alemães foram imbatíveis. No início da Operação Barbarossa, a invasão da Rússia pela Wehrmacht, os alemães contaram com a desorganização do Exército Vermelho causada pelos expurgos stalinistas, além do efeito surpresa – que também funcionou em parte favorecido pela desarticulação dos serviços de inteligência soviéticos.

Depois de sofrer derrotas acachapantes, Stalin resolveu libertar e enviar para o front vários oficiais formados por Tukhatchevsky, o que contribuiu para que a maré da guerra refluísse contra os nazistas.

A Batalha de Stalingrado, na sua segunda fase, é um clássico exemplo de operação em profundidade. O Exército Vermelho atraiu uma grande força adversária para uma posição difícil, enquanto isso concentrou forças e atacou no flanco mais frágil, o ponto defendido pelas mal armadas e pouco motivadas tropas romenas. Sem procurar um enfrentamento frontal, os soviéticos preferiram o cerco, até que o 6º Exército do Marechal Von Paulus foi obrigado à rendição.

A partir de Stalingrado, os dois exércitos tentaram se enfrentar com as mesmas táticas. Os alemães, para a felicidade da civilização, foram prejudicados pela cegueira tática de Hitler, que proibia recuos, o que é um equívoco de grandes proporções em uma guerra de movimento, além da desproporção de recursos humanos e materiais que só aumentaram no decorrer da guerra.

Vencido o nazismo, o mundo logo entrou na Guerra Fria, era do terror nuclear. Se houvesse uma guerra total nesse período entre as grandes potências, o sentido de tática não teria sentido, o mundo iria viver a destruição mútua assegurada – o conceito estratégico das duas maiores nações com arsenal atômico. A ideia é que qualquer atacante teria duas certezas: destruiria o inimigo e seria destruído pela retaliação.

Décadas de terror

O terror impediu enfrentamentos diretos entre as grandes potências. O mais próximo disso foi a Guerra da Coréia, na virada dos anos 1940, para 1950, quando pilotos norte-americanos e soviéticos se enfrentaram nos céus da península coreana. Nos combates, travados no início entre estadunidenses e coreanos do norte, houve um movimento clássico de flanqueamento, quando o General Mac Arthur comandou uma operação de desembarque atrás das linhas adversárias.

O ataque quase levou ao fim do conflito, com a virtual derrota do exército nortista, que foi salvo pela entrada do Exército Popular de Libertação da China na guerra. A entrada dos chineses levou o enfrentamento a um impasse. Com o desgaste dos dois lados, um armistício que dura até hoje foi aceito, ainda sem um verdadeiro acordo de paz.

Os outros conflitos que surgiram durante a Guerra Fria e depois foram na sua maioria enfrentamentos assimétricos: exércitos convencionais lutando contra guerrilhas, lutas nas selvas e terrorismo (de estados e de grupos insurgentes). As guerras mais convencionais ocorreram no Oriente Médio, a maioria delas entre países árabes e Israel.

As guerras árabe-judaicas de 1956, 1967 e 1973 foram exemplos clássicos das táticas de Operações em Profundidade. As duas primeiras tiveram como protagonista o exército israelense.

O jogo mudou no enfrentamento de 73, na Guerra do Yon Kippur, quando as forças egípcias mostraram que haviam aprendido a lição, ao invadir em uma operação brilhante a margem do Canal de Suez controlada por Israel. Os egípcios poderiam ter chegado a uma vitória completa, não fosse a ajuda maciça dos Estados Unidos, que montaram uma ponte aérea para descarregar toneladas de equipamentos nos aeroportos do seu principal aliado na região.

Tropas do Egito cruzam o Canal de Suez, após derrotar o exército de Israel

As guerras indo-paquistanesas, que também ocorreram três vezes no século passado, começaram de maneira bastante incompetente, do ponto de vista das táticas. No último conflito, porém, o exército indiano mostrou evolução e conquistou rapidamente a porção oriental do Paquistão, com manobras clássicas de envolvimento. A velocidade dos indianos impediu que o Conselho de Segurança da ONU interviesse na disputa, o que poderia abortar a separação do Paquistão Oriental do estado paquistanês e a sua consequente independência.

Nos anos 1980 o maior registro tático foi a vitória de um exército cubano sobre forças sul-africanas, na batalha de Cuito Cuanavale, quando os generais caribenhos conceberam uma brilhante manobra de envolvimento, que atingiu a retaguarda do exército do apartheid.

A última guerra clássica da história foi o ataque da coalizão liderada pelos Estados Unidos contra o Iraque, em 1991. Nesse embate apesar da disparidade de forças, o Iraque ainda era uma potência militar respeitável, com um grande exército bem equipado com armas relativamente modernas. Um choque frontal poderia causar severas baixas à coalizão. O General Schwarzkopf, comandante aliado, preferiu a tática clássica do flanqueamento; enquanto ordenava intensos ataques aéreos, postou as principais forças blindadas norte-americanas próximo da fronteira do Kuwait e a esquadra de apoio próxima do litoral pronta para desembarcar tropas de fuzileiros navais.

Mas o ataque principal ocorreu centenas de quilômetros a oeste do local previsto. Liderado por tropas blindadas da Legião Estrangeira francesa, as forças da coalizão assaltaram o flanco direito dos exércitos de Sadan Hussein, provocando o colapso total das defesas iraquianas. A manobra francesa abriu caminho, para o avanço dos exércitos dos EUA.

Um comentário

  1. Realmente muito bom, interessante observar como o uso das táticas se reflete no pensamento estratégico. Até o Clausewitz reflete esse pensamento do combate decisivo que vem dos gregos. Essa diferença me parece bem visível nos jogos militares de cada lado, ocidentais gostam de xadrez e orientais de Go ou Wei-Chi em chinês, que é justamente um jogo sobre flanqueamento. Sugestões para o futuro, o pensamento militar chinês, especialmente com Mao.

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