Os cubanos mudaram a história da África, ao vencer uma batalha esquecida

Cuito Cuanavale foi a maior batalha ocorrida no continente africano, depois da Segunda Guerra Mundial. É apontada por muitos historiadores como a “Stalingrado da África”.

O comandante Raúl Díaz Argüelles, herói de Cuba e de Angola, foi um dos responsáveis pelas vitórias angolanas em 1975. 

A Batalha de Cuito Cuanavale foi episódio central na história do final do século XX. O episódio definiu o mapa da África Austral e provocou repercussões mundiais. Hoje, entretanto, um fato histórico de tamanha magnitude está relativamente esquecido. Além disso, a mídia “ocidental”, controlada pelas corporações dos EUA procura fixar uma narrativa distinta do que realmente ocorreu. De acordo com a indústria corporativa de comunicação de massa e cultura popular, a batalha chegou a um impasse o exército cubano foi impedido pelas forças armadas da África do Sul de levar o comunismo ao país. Porém, a realidade é bem outra, como comprovado pelos fatos geopolíticos que ocorrerem em consequência do conflito.
O historiador Piero Gleijeses, professor da Universidade John Hopkins, de Washington, escreve a respeito:


“Apesar de todos os esforços de Washington [aliado ao regime do apartheid] para impedir-lhe, Cuba mudou o rumo da história da África Austral […]. A proeza dos cubanos no campo de batalha e seu virtuosismo à mesa de negociações foram decisivos para obrigar a África do Sul a aceitar a independência da Namíbia. Sua exitosa defesa de Cuito foi o prelúdio de uma campanha que obrigou a SADF [Força de Defesa Sul-Africana] a sair de Angola. Essa vitória repercutiu para além da Namíbia”.


De fato, a vitória cubana teve repercussões, que foram além de assegurar a retirada das forças do regime racista de Angola. Cuito Cuanavale levou à independência da Namíbia, antiga colônia alemã entregue provisoriamente à administração da África do Sul, após Primeira Guerra Mundial; estabilizou as fronteiras da África Austral, a partir do compromisso do governo sul-africano de não mais invadir Angola, Namíbia, Zimbábue e Moçambique; abalou o regime do apartheid, que foi obrigado a libertar Nelson Mandela e a realizar eleições livres, vencidas pelo grande líder negro.
Depois de Cuito Cuanavale, a África nunca mais foi a mesma.

Como foi Batalha de Cuito Cuanavale

Após a declaração da independência, em 11 de novembro de 1975, Angola esteve sujeita a várias invasões do seu território por parte das tropas do Zaire (Mobutu) e da África do Sul, em apoio aos bandos da FNLA, da UNITA e da Facção Chipenda. Todas estas incursões militares do território angolano foram apoiadas militar e financeiramente pelos EUA, França, Alemanha Ocidental, Reino Unido e Israel, e tinham como objetivo matar à nascença o jovem Estado independente.
É neste quadro que o presidente do MPLA, Agostinho Neto, no sentido de garantir a soberania e a integridade do território de Angola, pede ajuda a Cuba, que envia um contingente de 15 000 tropas de elite do Ministério do Interior e das FAR, com o objetivo de impedir a tomada de Luanda e inverter o curso da guerra.
Esta primeira agressão de forças estrangeiras e mercenárias em grande escala («Operação Savannah»), foi rechaçada a 10 de novembro de 1975, no norte de Luanda, na Batalha da Kifangondo, e a sul da mesma cidade na batalha do Ebo, poucos dias depois, a 12 de novembro.
Em reação à derrota infligida a estas forças no norte de Angola, a região fronteiriça com a Namíbia foi ocupada pelo exército da África do Sul, que ali estabeleceu bases militares, e o Sul e Leste de Angola pela UNITA, mantendo a região sob tensão e conflitos permanentes.
Sem disfarce: o apoio sul-africano à UNITA.

Soviéticos e angolanos planejam a primeira fase da batalha.

O apoio sul-africano à UNITA viria a tornar-se mais efetivo com a invasão da província do Cunene, em 23 de Agosto de 1981 («Operação Protea»), e a subsequente ocupação de uma faixa tampão na fronteira sul de Angola numa profundidade de 200 quilómetros, com o duplo objetivo de neutralizar as operações de guerrilha da Organização do Povo do Sudoeste Africano (South West Africa People’s Organization, SWAPO) no território da Namíbia, então ocupado ilegalmente pelo África do Sul e de, por outro lado, estabelecer bases para novas operações no interior de Angola.
A consolidação do domínio da UNITA nas províncias do Cunene e do Cuando-Cubango, na perspectiva da criação de um «bantustão» (estados satélites incrustrados no território sul-africano) no sudeste angolano, era o propósito imediato. É nesta altura que o presidente José Eduardo dos Santos pede ao Secretário-Geral da ONU, Pérez de Cuéllar, a convocação do Conselho de Segurança da Nações Unidas para discutir a agressão sul-africana. Mas a resolução da condenação foi vetada pelos Estados Unidos, de acordo com a estratégia delineada por Washington e pela África do Sul para aniquilar as FAPLA e o MPLA.
É sintomático que o secretário-adjunto dos EUA para a África, Chester Cocker, tenha dito ao embaixador da África do Sul nos Estados Unidos: «a resolução não exige sanções e não estabelece nenhuma ajuda para Angola. Isto não é por acaso, mas sim o resultado dos nossos esforços para a manter dentro de determinados limites».

Os EUA queriam dividir Angola em dois países

Com a ocupação da província do Cunene pela África do Sul, a situação em todo o sul de Angola agrava-se com o aumento das hostilidades. A UNITA reforça-se militarmente em armamento e conselheiros militares e, com o apoio das administrações Reagan (EUA) e Thatcher (Grã-Bretanha) e a ajuda do seu aliado sul-africano, desencadeia operações militares contra as bases da SWAPO, do Congresso Nacional Africano (African National Congress, ANC) e contra posições das FAPLA, para além de ações de sabotagem às linhas dos Caminhos de Ferro da Benguela (CFB), de destruição de infraestruturas políticas e económicas e minagem de linhas de abastecimento, espalhando o terror e a morte entre as populações de aldeias, vilas e cidades do sul de Angola.
A desestabilização política e económica em Angola foi subordinada aos objetivos militares como instrumento principal para a derrota da jovem República Popular.
A presença de um Estado dentro de outro Estado era uma afronta à soberania angolana sobre o território e seus recursos, o que o governo do MPLA não podia tolerar por mais tempo.
É principalmente nos anos de 1985 e 1986 que o governo angolano decide retomar o controlo do sudeste de Angola, lançando ofensivas contra as posições da UNITA. Estas são frustradas perante a superioridade esmagadora das forças agrupadas da UNITA, da Força Nacional de Defesa da África do Sul (South África Defense Force, SADF) e batalhões de tropas mercenárias, munidas de armamento pesado, blindados e mísseis TOW (antitanques) e Stinger (antiaéreos) fornecidos pelos EUA.

Sul-africanos obrigados a socorrer Savimbi

Com o fim da estação das chuvas e o início da estação seca, em Julho de 1987, e após um período de acumulação de material e grandes concentrações de infantaria, as forças armadas angolanas, as FAPLA, desencadearam uma ofensiva contra os centros vitais da UNITA em Mavinga e Jamba, conhecida como «Operação Saludando Octubre», a partir das vilas de Luena e do Cuito, contando com o apoio de artilharia pesada, de caças e bombardeiros soviéticos MIG-23 e SU-22, tanques T-62 e helicópteros de ataque ao solo MI-24/25.
Efetivamente, a «Operação Saludando Octubre», que envolveu a 16.ª, 21.ª, 47.ª, e 59.ª, brigadas das FAPLA e que tinha como objetivo político pôr fim à «guerra civil angolana», passava pela captura dos «santuários da UNITA» no sudeste de Angola.
A ofensiva bem sucedida das FAPLA colocou a UNITA numa posição insustentável, demonstrando a sua incapacidade para conduzir uma guerra de movimento e de manobra, com grandes concentrações militares e de cooperação interarmas. As bolsas de resistência criadas pela UNITA eram logo desarticuladas pelas FAPLA, que lhes infligiam pesadas perdas em homens e material.
A África do Sul tinha conhecimento que as forças militares da UNITA eram incapazes, sozinhas, de enfrentar as FAPLA. Perante a iminente derrocada das forças de Jonas Savimbi e a pedido deste, os sul-africanos, a partir das suas bases instaladas em território angolano e na Namíbia, desencadeiam as operações «Moduler» e «Hooper», com o objetivo de deter a ofensiva angolana, lançando as suas melhores tropas e material militar de última geração, como caças Mirage F1 AZ e aviões de ataque Impala, Lançadores Múltiplos de Foguetes (Multiple Rocket Launcher, MRL) e obuses G59 – uma das melhores peças de artilharia do mundo.

Artilharia em ação

Começa a maior batalha em África no pós-guerra

A Força Aérea Sul Africana (South African Air Force, SAAF) detinha o domínio do espaço aéreo no sul de Angola e o ponto fraco das FAPLA era precisamente a defesa antiaérea.
O resultado foi a batalha de Cuito Cuanavale, uma vila situada na província de Cuando Cubango, numa zona de operações cruzada por vários rios, de terreno acidentado e lamacento, com 92.920 quilómetros quadrados. Esta campanha militar viria a determinar o futuro da África Austral.
Após longos e sangrentos combates, os conselheiros militares soviéticos, a pretexto de melhorar o emprego das suas forças, decidiram que as quatro brigadas em operações se dividiam em duas colunas no caminho até Mavinga para, depois da travessia do rio Lomba, se reunirem. No entanto, este movimento foi fatal para a ofensiva.
Pela manhã do dia 11 de Agosto, uma importante força militar sul-africana, composta pelos batalhões 61.º, 62.º, 101.º, 102.º, 449.º e 450.º, e na qual se incluía o Batalhão 32.º, (Búfalo) integrado por mercenários do Exército de Libertação de Portugal (ELP), atinge a base da UNITA, a sul da nascente do rio Lomba e na região do Baixo-Longa. Aguardam no local a aproximação das FAPLA. A 47.ª e a 59.ª brigadas são interceptadas quando atravessavam o rio Lomba. A 47.ª fica isolada. Travam-se combates violentos e a confusão instala-se naquele teatro de operações, 40 quilómetros a sudoeste da pequena cidade de Cuito.
Em seguida, o SADF ataca a infraestrutura militar e a linha logística de apoio à frente de batalha das FAPLA (estrada Menongue/Cuito Cuanavale), numa distância de 160 quilómetros, obtendo a destruição parcial da ponte sobre o rio Cuito e o ataque às instalações de artilharia e radar baseados em Cuito Cuanavale. A virada no campo de batalha levou as FAPLA a cancelarem a ofensiva e a retirarem para a povoação. A retirada revelou-se problemática, pois as FAPLA eram perseguidas pelas forças do exército sul-africano. Com a chegada das forças da UNITA às redondezas de Cuito Cuanavale, a povoação foi cercada e submetida a intenso fogo de barragem pela artilharia pesada do inimigo, posicionada nas colinas de Chambinga.

Defesa e contra-ataque

A África do Sul não perdeu a sua oportunidade e preparava-se para eliminar as forças angolanas, lançando ao contra-ataque todas as armas de que dispunha: aviação, artilharia, tanques e infantaria.
As FAPLA, organizadas numa estratégia de defesa agressiva, entrincheiradas em duas linhas e numa posição de «ouriço», mostraram-se tenazes em ambas as extremidades da bolsa, neutralizando as ofensivas das forças conjuntas SADF/UNITA.
As operações arrastam-se no tempo, exigindo um esforço tremendo e com perdas consideráveis em homens e material, para ambos os lados.
Durante os combates, as forças racistas despejaram sobre o perímetro de Cuito Cuanavale 400 toneladas de bombas, 2000 foguetes de 68 milímetros, 36 mísseis AS-30 e 2500 obuses de 155 milímetros.
Na iminência da aniquilação das tropas angolanas, o presidente do país, José Eduardo dos Santos, pediu à República de Cuba para socorrer as FAPLA e, se possível, reverter a situação desfavorável que se tinha criado.

Cuba entra na batalha

Cuba respondeu positivamente, sendo desencadeada uma megaoperação logística. É montado um «tapete rolante» de Cuba para a base aérea de Menongue e para o porto marítimo de Namibe (a 11 mil quilómetros de distância) a partir dos quais, num espaço de tempo relativamente curto, foram colocados nas frentes de combate 50 mil combatentes das FAR, centenas de tanques, plataformas de artilharia, grupos de antiaéreas e dezenas de aviões de ataque.
A 5 de Dezembro de 1987, o primeiro contingente cubano de 3100 tropas especiais chegou a Cuito Cuanavale. As FAR entraram na campanha militar em dezembro, com a «Manobra XXXI Aniversário», que tinha como objetivo defender Cuito Cuanavale e parar a agressão sul-africana a Angola.
Na preparação para a batalha decisiva, dada como inevitável, os planos tinham como princípio fixar o exército sul-africano e obrigá-lo a combater naquele teatro de operações, em condições desfavoráveis e nas quais havia fortes probabilidades de ser batido.
Entretanto, a partir da costa sul de Angola, e numa manobra ofensiva sem precedentes, um poderoso agrupamento de tropas cubanas e angolanas, num total de 70 mil combatentes, apoiados por 600 blindados, centenas de peças de artilharia e antiaéreas e dezenas de unidades de MIG 23, que obtêm supremacia aérea em todo o Sul, avança sobre a província de Cunene, recuperando o controlo de uma região de importância estratégica para o regime sul-africano.


A concepção tática de fixar a principal força sul-africana na frente de Cuito e lançar um ataque de flanco, até a fronteira com a Namíbia, onde estavam as bases do regime racista, foi brilhante, digna de líderes militares do nível de Aníbal e Napoleão.


A crescente capacidade militar das forças conjuntas angolano-cubanas, aliada à retirada desorganizada das forças sul-africanas, para socorrer à manobra na região do Cunene, vem alterar a relação de forças, contribuindo para diminuição do poder militar sul-africano na área do Cuito Cuanavale.

A batalha decisiva

Alto Comando das tropas sul-africanas decidiu passar à ofensiva. As forças conjuntas SADF/UNITA, após intenso fogo de barragem, lançaram-se numa derradeira ofensiva contra as posições angolano-cubanas, mas o ataque foi rechaçado ao fim de 8 horas de combates, com as forças revolucionárias a desencadearam uma contraofensiva, obrigando as forças racistas a recuarem em toda a linha.

Cubanos mudam o rumo da batalha


A retirada precipitada das SADF, pelas planícies do sudeste angolano, era a imagem e expressão de um exército derrotado e em colapso. O mito da invencibilidade do exército sul-africano tinha sido quebrado.
Para evitar a internacionalização do conflito, as forças cubanas vitoriosas resolveram deter sua ofensiva na fronteira com a Namíbia, mesmo que pudessem entrar com facilidade no território.

O dia 23 de Março de 1988 marca o fim da batalha do Cuito Cuanavale, no sudeste de Angola, onde as FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola), e as FAR (Forças Armadas Revolucionárias, de Cuba), defrontaram e venceram o exército da maior potência militar regional, a África do Sul, e as forças da UNITA.

Cuito Cuanavale e o fim do apartheid

A partir daqui o objetivo das tropas angolano/cubanas e dos próprios destacamentos da SWAPO, do ANC e do PC da África do Sul, tornou-se mais vasto do que a libertação do território angolano. Tratava-se de explorar em profundidade os êxitos militares obtidos com o colapso do exército sul-africano, nomeadamente libertar a Namíbia e derrotar militarmente o regime de apartheid e tudo o que ele representava de odioso para os povos da África Austral.
O regime racista sul-africano tomou consciência do significado da derrota militar das suas forças armadas no seu próprio território. Febrilmente, procurou a sua sobrevivência na mesa das negociações em Brazzaville, Cairo e Nova Iorque.
Mas a proeza que os angolanos e cubanos tinham obtido no campo de batalha esteve presente na mesa das negociações, o que obrigou o regime da África do Sul a aceitar os acordos de Nova Iorque, dando origem à implementação da Resolução 435/78, do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que levou à independência da Namíbia e ao fim do regime de segregação racial, que vigorava na África do Sul. Mandela deve sua liberdade e posterior eleição como presidente de uma nova África do Sul à ajuda cubada a Angola.

Mandela deve sua libertação à vitória cubana


A batalha de Cuito-Cuanavale, ocorrida entre 15 de novembro de 1987 e 23 de março de 1988, foi o confronto militar mais prolongado e mais sangrento de que há memória naquela região de África.

Desde 1975, passaram por Angola em missão internacionalista 400 mil militares e civis, homens e mulheres da República de Cuba e, destes, 2289 deram a vida em combate. Tendo cumprido a sua missão, as forças cubanas se retiraram de Angola, após a desocupação da Namíbia pelo derrotado exército da África do Sul.

Um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s