Por que a Lavajato foi organizada pelos EUA?

A piada sobre Moro, de que o wifi dele conecta automaticamente quando ele entra nos prédios da CIA e do FBI, tem base na realidade

Os últimos acontecimentos policiais, judiciais e políticos indicam que os integrantes da Lavajato não sairão sem ferimentos graves de uma série de acusações, que avançam em várias frentes contra eles. Figuras e instituições acusam a “força tarefa” de inúmeros desvios e condutas criminosas. O mais grave é o crime de traição ao Brasil, por terem atuado como auxiliares de um ataque dos Estados Unidos contra o Brasil.

A agressão ao Brasil, que vai ficando cada vez mais clara, na medida em que avançam os brilhantes trabalhos jornalísticos iniciados pelo The Intercept Brasil, mas que hoje seguem em linhas próprias por vários veículos, como o Jornal GGN, de Luiz Nassif; a Agência Pública; a Folha de São Paulo; o programa O é da coisa, de Reynaldo Azevedo, na Band News; entre outros.

Apesar da omissão das organizações Globo, o que desmoraliza o jornalismo da empresa, praticamente todos os veículos jornalísticos do país repercutem as reportagens que denunciam as estreitas e criminosas ligações entre os integrantes da força tarefa e autoridades dos EUA.

O tipo de agressão desencadeado pelos Estados Unidos contra o Brasil é fundamentado nas teorias desenvolvidas pelo cientista político polaco-estadunidense, especialista em geopolítica, Zbigniew Brzezinski, falecido em 2017.  Obra de Brzezinski foi extensamente estudada pelo maior especialista brasileiro em geopolítica, Moniz Bandeira, também falecido em 2017.

Estratégia baseada no poder militar revelou seu esgotamento na derrota dos EUA no Vietnã. Na foto estadunidenses e apoiadores fogem do país pela única porta que restou: o teto da embaixada em Saigon, cercada por tropas do Vietnã do Norte.

Conforme Moniz Bandeira observou, o polaco-estadunidense começou a repensar as estratégias do império informal dos Estados Unidos na década de 1970. Na época a liderança conservadora e liberal do país estava traumatizada pela derrota na Guerra do Vietnã e por diversos desastres que vieram na sequência, para o campo geopolítico liderado por Washington, como a perda das ex-colônias portuguesas Angola e Moçambique, a perda do Camboja e do Laos, a derrota de Israel, na guerra de 1973, quando o país foi obrigado a devolver o Canal de Suez e a península do Sinai para o Egito, a vitória Sandinista na Nicarágua e vários outros eventos. O momento também registrava extrema tensão interna nos Estados Unidos, que surgiram a partir dos movimentos antirracismo e contra a Guerra do Vietnã.

Brzezinski sugeriu que os métodos de disputa geopolítica dos EUA – centrados no poder militar e na tentativa de conter pelas armas movimentos de esquerda que ameaçavam governos simpáticos ao império informal estadunidense – estavam desfocados do objetivo central e suas táticas básicas eram equivocadas.

O polaco-estadunidense sugeriu alterar os objetivos e as formas de atuação do império informal dos EUA. O esforço central deveria ser a contenção do núcleo de poder inimigo; a própria União Soviética; através da instalação de um cinturão sanitário. A ideia era estabelecer regimes hostis ao estado soviético em toda a fronteira sul do país. A maioria dos povos que vivem nas fronteiras ao sul da antiga União Soviética são muçulmanos e, por causa disso, a CIA operou para despertar o islamismo militante e a guerra santa. A primeira operação bem sucedida foi no Afeganistão, que era governado por um regime simpático à URSS. Com apoio estadunidense e sob a bandeira do islã, as tribos tradicionais afegãs, de diversas etnias se uniram, para derrubar o “grande satã” soviético.

Além disso, a contenção e a derrubada de regimes hostis ou o bloqueio de sua chegada ao poder, não deveria ser mais feita através de intervenções armadas, que são muito onerosas financeiramente e em vidas de jovens estadunidenses.

A nova tática, formulada por Brzezinski defendia que o objetivo dos EUA seria desorganizar econômica, social e institucionalmente os países governados por regimes hostis. Dessa forma tais regimes poderiam ser derrubados, para levar ao poder grupos alinhados (explicitamente ou implicitamente) com os interesses estadunidenses. A tática também prevê, que o estado de desordem deverá ser mantido indefinitivamente, para evitar a volta ao poder de regimes hostis e, caso isso ocorra, esses países estarão tão desorganizados e enfraquecidos, que não poderão se opor ao império informal dos EUA.

As armas para o arcabouço estratégico desenvolvido por Brzezinski não priorizariam mais o poder militar – embora este deva continuar sendo utilizado como uma ameaçadora demonstração do poder do império informal estadunidense, como ocorreu no Iraque e no Afeganistão. As novas armas são a economia, a propaganda, a cultura e a psicologia. Elas são empregadas através de bloqueios econômicos, financiamento clandestino de grupos de oposição, treinamento de dissidentes em táticas de desobediência civil, mobilização popular e propaganda política, sanções contra empresas não estadunidenses, perseguição a cidadãos estrangeiros influentes; além de fortes doses de propaganda política, cultural e ideológica. A junção da guerra econômica com a psywar, a guerra psicológica com elementos culturais e psicológicos, através da propaganda de massas, compõem as guerras hibridas.

As teses do geoestrategista começaram a ganhar influencia depois de seu período como conselheiro do presidente Jimmy Carter, já nos anos 1980, quando Ronald Reagan chegou à presidência dos Estados Unidos. A vitória na Guerra Fria, sobre a URSS, foi eminentemente econômica e psicológica – evidentemente aproveitando as contradições internas da União Soviética.

Porém as teorias do cientista político polaco-estadunidense começaram de fato a ser aplicadas no milênio atual, na forma de revoluções coloridas que visavam ampliar a influência do império informal dos Estados Unidos em diversos pontos do planeta, especialmente na importante fronteira sul da sucessora da União Soviética, a Federação Russa.

Nos anos 2000, correram revoluções coloridas bem sucedidas na Iugoslávia, a Revolução Bulldozer, em 2000, que fragmentou e enfraqueceu o país; na Geórgia, Revolução Rosa, em 2003; na Ucrânia, Revolução Laranja, em 2004; no Quirguistão, a violenta Revolução das Tulipas, em 2005. Em todos os casos, grandes protestos ocorreram após eleições disputadas, quando partidos derrotados acusaram os vencedores de fraude eleitoral. Os protestos culminaram na deposição dos governos e sua substituição por regimes alinhados com os EUA.

Outros processos semelhantes ocorreram nos anos 2010 no Egito, Venezuela, Líbia, Síria e Ucrânia. Nessa leva de turbulências o radicalismo resultou em processos violentos, incluindo guerras civis em países do Oriente Médio como Líbia, Síria, Iêmen e, também, na Ucrânia.

Governo dos EUA financiou nazistas na Ucrânia, através de ONGs, que atuam para desestabilizar países que não se submetem ao império informal estadunidense

Hoje há relativo consenso de que o Brasil passou por um episódio semelhante, a partir de 2013, que resultou em todas as tragédias que vieram a seguir: golpe, Temer, crash econômico, desemprego, desindustrialização, desorganização e Bolsonaro.  

De acordo com a maioria dos pesquisadores sérios, como Jesse de Souza, William Engdahl e Moniz Bandeira, a o que ocorreu no Brasil foi uma nova forma de Revolução Colorida implementada por Washington, centrada em um golpe parlamentar-judicial, operacionalizado por juízes e congressistas corruptos.

Os fatos comprovam esta visão. Em maio de 2013 Joe Biden, vice presidente dos Estados Unidos veio ao Brasil, exigir da presidente Dilma Rousseff, que as empresas estadunidenses pudessem ter acesso ao petróleo do Pré-Sal, além do afastamento das empresas chinesas do negócio.

Um mês após à negativa de Dilma ao pedido de Biden, para entregar o pré-sal às multinacionais dos EUA e afastar as empresas chinesas do negócio, explodiram as jornadas de 2013, que tiveram como resultado a desorganização do Brasil

Dilma recusou. Os protestos começaram no mês seguinte. Antes da visita de Biden, a presidente brasileira tinha 70% de popularidade. Os protestos, que começaram por um motivo justificável em São Paulo, comandados por um bem organizado movimento pelo passe livre, foram arrebatados por outras organizações que surgiram bem estruturadas, com quadros treinados, como Movimento Brasil Livre e o Vem pra Rua e se espalharam pelo país com uma pauta difusa e confusa, contra tudo e todos. Em algumas semanas, a popularidade de Dilma despencou para 30%. O resultado é bem conhecido.

A Lavajato teve papel decisivo no processo que levou ao golpe; à desestruturação da economia brasileira, ao demolir as empresas mais competitivas do país e responsáveis por mais de 35% do PIB nacional; ao um acelerado processo de desindustrialização que afetou setores essenciais ao PIB brasileiro, como as indústria naval e metalúrgica (que se preparava para produzir insumos para a extração do pré-sal); o desemprego recorde, a amarga explosão da informalidade e a triste realidade da precarização do trabalho; e, atém de outros elementos que desorganizam o Brasil, como preconiza Brzezinski, à eleição de Bolsonaro, ao sequestrar Lula da corrida eleitoral.

O legado da Lavajato é um país desorganizado, empobrecido, desmoralizado, desesperançado, adoecido, desrespeitado e triste. O Brasil, que era o “B” dos Brics, o bloco que poderia ser a principal alavanca benéfica para o avanço da humanidade, voltou a ser um quintal dos Estados Unidos.

Os responsáveis por retirar o país dos trilhos do futuro cometeram crime de lesa pátria, traição ao Brasil, e devem ser duramente punidos por isso.

Os ataques que a Lavajato está sofrendo não representam o resgate do Brasil pelo seu povo – pois o episódio é uma disputa interna no campo da direita antipopular. Porém, a criminalização e punição de todos os integrantes da fatídica operação é um passo necessário à reconquista da independência do país.    

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