MILITARES BRASILEIROS SÃO ANTINACIONALISTAS OU OBSOLETOS

A Alemanha nunca teve nenhuma chance de vencer a Segunda Guerra Mundial, de acordo com o historiador e economista britânico Adam Tooze e outros pesquisadores modernos. Segundo esses estudiosos o que define a capacidade de enfrentar as guerras modernas é a força industrial das nações e não a experiência ou o treinamento das forças militares. Desta forma, ao não compreender este axioma da modernidade, os militares brasileiros demonstram primitivismo, despreparo e incompetência – ou a missão que eles pretendem cumprir é outra, bem diferente do que determina a constituição do Brasil.  

A Ford cedeu suas fábricas para construir aviões na Segunda Guerra Mundial

A INDUSTRIA É A PRINCIPAL ARMA DA GUERRA MODERNA

A constatação de que as guerras modernas são definidas pela capacidade industrial de cada um dos antagonistas começou a surgir na Guerra Civil dos Estados Unidos. Embora a as forças e os comandantes dos estados do Sul fossem muito mais experientes e preparados – e seus exércitos compostos por indivíduos acostumados com a rudeza da vida no campo, diferente das tropas de cidadãos urbanos do Norte – o peso industrial da União esmagou a Confederação. Quase todas as armas, o equipamento militar, os transportes ferroviários, as belonaves da marinha, o sistema de telegrafo, medicamentos, os uniformes e as rações de campo das forças federadas eram produzidos nos estados industriais do velho Nordeste do país. Os estados rebeldes dependiam da importação de quase tudo o que precisavam para o conflito. O sucesso do bloqueio marítimo imposto pelas forças navais da União impediu a chegada de suprimentos e estrangulou a capacidade de luta da Confederação. No final da guerra as bem armadas, alimentadas, treinadas e equipadas tropas do Norte enfrentavam os maltrapilhos restos dos exércitos do Sul, mal alimentados e equipados com armas obsoletas.

Daí em diante, o padrão de todas as guerras relevantes foi definido pelo poder industrial e a capacidade de cada rival produzir seu próprio equipamento – ou pelo menos a maior parte dele. Foi assim na Guerra da Criméia, nas guerras que levaram à unificação da Alemanha (contra a Dinamarca, Áustria e França), na Guerra dos Bôeres (na África do Sul), nas guerras do ópio, entre o Império Britânico e França, na Guerra Sino-Japonesa e na Guerra Russo-Japonesa (neste caso, o que pesou contra a Rússia foi a sua incapacidade de transportar sua força militar da Rússia europeia para o norte da China).

As guerras entre os jovens estados da América Latina e em outros lugares do mundo são irrelevantes, pois a maioria delas foi travada para resolver disputas entre grandes latifundiários, com a exceção do conflito da Tríplice Aliança contra o Paraguai. Esta guerra, que ocorreu pelo controle da rota de comércio importante através dos rios da Prata, Paraná e Paraguai, também confirma a importância da indústria. Enquanto o Paraguai, bloqueado, era incapaz de produzir armas e equipamentos, sendo obrigado a lutar com espadas, lanças e pedras; uma incipiente indústria brasileira forneceu aos aliados da Tríplice Aliança canhões, morteiros, munição, uniformes, ferrovias e as canhoneiras que dominaram as vias fluviais do teatro de operações.

MORTES EM ESCALA INDUSTRIAL

A tendência da guerra moderna revelou, no entanto, sua face mais terrível na Primeira Guerra Mundial. Os historiadores costumam dizer que o conflito entre as potencias europeias, que mais tarde teve participação ativa dos Estados Unidos e Japão, provocou mortes em escala industrial. Milhões de europeus morreram e a ordem internacional estabelecida após as guerras napoleônicas, na qual os maiores estados da Europa tinham predominância econômica, cultural, militar e política sobre o resto do mundo começou a ruir.

A Segunda Guerra Mundial é considerada pela maioria dos historiadores como a continuação da Primeira. Os acordos de paz não trouxeram a estabilidade esperada, o nacionalismo foi contrariado em muitos lugares, velhos impérios caíram e as reparações de guerra exigidas da Alemanha mantiveram acesos os rancores.

O conflito confirmou a peso da indústria na guerra moderna. Após o susto inicial da queda da França – que o historiador Marc Bloch, voluntário no exército francês, considerou prematuro e desnecessário – e da súbita expansão japonesa, os recursos e os parques industriais dos Estados Unidos, da Rússia e do Império Britânico (que tinha os países da Commonwealth, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul como aliados) começaram a fazer sentir o seu peso combinado.

A fraqueza industrial relativa dos países do Eixo, revelou seu esgotamento nas derrotas de Guadalcanal, El Alamein e Moscou. Começou, então, o implacável refluxo até a derrota e a amarga destruição da Alemanha, do Japão e da Itália.

Os números da tabela abaixo podem dimensionar a disparidade da força industrial de cada um dos blocos em choque. A produção industrial Aliados é incomparável com a capacidade das fábricas dos países do Eixo.

TipoAliadosEixo
Tanques, artilharia autopropulsada e veículos blindados e de transporte      4.358.649670.288
Artilharia, morteiros e armas pesadas     6.792.6961.363.491
Caças, bombardeiros e outras aeronaves militares     637.248229.331
Embarcações      54.9321.670

Nas guerras convencionais, essa regra não mudou, o que levou ao surgimento dos conflitos assimétricos, nos quais países ou populações mais fracas enfrentam adversários mais fortes, com táticas de guerrilha urbana ou rural.

GUERRAS ASSIMÉTRICAS CONFIRMAM A REGRA

Nas guerras assimétricas o lado mais fraco precisa ter o apoio de uma base industrial sólida e acessível, além da disposição de imensos sacrifícios, para ter alguma chance de vitória. É o que aconteceu na guerra da Coréia e do Vietnã. A Coréia do Norte e o Vietnã do Norte fazem fronteira com a China, que durante as guerras mantinha relações cordiais com os dois países, e tinham acesso fácil aos equipamentos militares produzidos pelo parque industrial da então União Soviética.

Outra guerra na segunda metade do século XX confirma a importância de uma base industrial própria. Foi em 1973, quando o Egito atacou Israel, para recuperar o controle do canal de Suez e da Península do Sinai. Israel somente não foi derrotado e extinto naquela guerra, porque teve decidido apoio dos Estados Unidos, que controlavam as rotas marítimas e o espaço aéreo de aliados, que permitiam o tráfego mais rápido entre os dois países.

Tropas egípcias atravessam o canal do Suez, após expulsar as forças israelenses.

Pontes aéreas e navais garantiram a chegada de uma imensa quantidade de equipamentos, com o qual as forças israelenses, derrotadas e destruídas, puderam ser ressuscitadas e voltar ao combate. Enquanto isso, as rotas de reabastecimento dos aliados árabes, Egito e a Síria, que tentou recuperar as colinas de Golan, com equipamentos que vinham do bloco soviético foram obstruídas, o que impediu a reposição dos equipamentos perdidos em combate.

Após essa guerra, Israel prudentemente iniciou uma indústria militar, que atualmente está entre as mais avançadas do mundo.

PAÍSES RELEVANTES SÃO CONSCIENTES DA IMPORTÂNCIA DA INDÚSTRIA

Comandantes militares dos países que pretendem ser players mundiais estão conscientes desta regra. A Suécia, antes mesmo do final do choque entre os Aliados e o Eixo, iniciou um programa para obter a autonomia militar através da produção de armamento no próprio país. O programa, além de asseguram o domínio da produção de equipamentos militares no “estado da arte”, ainda levou a indústria sueca a estar entre os líderes mundiais em alta tecnologia, o que valoriza os produtos “made in Sweden”.

O caso da China é clássico. O país utilizou a engenharia reversa para copiar os equipamentos militares fornecidos primeiro pela União Soviética e depois pelos países ocidentais, mas também com o objetivo de atualizar a base tecnológica da sua indústria. Hoje o país é a “oficina do mundo”.

A Índia acaba de entregar à sua força área um caça de produção própria, o HAL Tejas. Os indianos demoraram mais de trinta anos entre o início do projeto e a entrada em operação do aparelho. Muitos analistas fazem críticas ao avião, alegando que é inferior a produtos como o Rafale francês ou o Gripen sueco. Entretanto, o avião é produzido na Índia, com tecnologia nativa, garante independência de encomendas externas, que podem ser afetadas por problemas políticos e o avanço tecnológico adquirido é inestimável. Com a experiencia adquirida, a indústria indiana já planeja um novo aparelho, que demandará menos tempo para entrar em operação, além de ser muito mais possante do que o Tejas,

Após 30 anos de projeto, pesquisa e testes, a indústria indiana entrega à força aérea do país um moderno supersônico de 4+ geração e conquista autonomia no setor.

O Japão, na medida em que vai se desembaraçando das amarras do acordo de paz com os Estados Unidos, após a derrota na Segunda Guerra Mundial, também está reativando sua indústria militar. Com um parque industrial de ponta, o país pretende se livrar das frequentes pressões políticas dos Estados Unidos.

Na mesma trilha segue a Coréia do Sul. Discretamente, mas seriamente descontente com as constantes ameaças dos governos estadunidenses à Coréia do Norte, que podem levar à uma explosão da península, coisa que não interessa de forma alguma os coreanos do sul, estes trabalham para se livrar aos poucos da dependência dos EUA, para assumir gradativamente a responsabilidade pela própria defesa. Hoje o país produz armamentos de alta qualidade, que chamam a atenção de compradores em todo o mundo.

Um exemplo interessante é o Irã. O pais que era uma semicolônia dos Estados Unidos, fincado em uma região estratégica do globo, fronteira com a Rússia (na época União Soviética) e sobre as ricas jazidas de petróleo do Oriente Médio, conquistou sua independência e viu a subida ao poder de uma polêmica teocracia xiita – o que é o resultado de tradição histórica e cultural da antiga Pérsia. Rompido com o “Ocidente” e hostil ao regime soviético, o país ficou isolado e foi atacado pelo Iraque, quando Saddam Hussein tentou subtrair a província petrolífera iraniana no Delta do Rio Eufrates. Com o espírito revolucionário ainda vivo e m arsenal de primeira linha, ainda intacto, com equipamentos modernos recebidos dos Estados Unidos na época semicolonial, quando o governante era o Xá Reza Pahlavi, o Irã resistiu e por pouco não inverteu o fluxo do conflito. Porém, as lideranças do país souberam avaliar bem o peso do isolamento e concluíram pela necessidade de estabelecer uma capacidade de defesa robusta e autônoma. O caminho escolhido se fundamentou em duas trilhas paralelas, o investimento em educação, inclusive com o envio de jovens para estudar fora do país; e a industrialização acelerada capaz de assegurar a capacidade de produção de armamentos de defesa. Hoje o país produz seus equipamentos, muitos, cópias de velhas máquinas estadunidenses melhoradas e modernizadas. Certamente não são os aparelhos mais modernos, porém dão ao país a garantia de que não serão desarmados pelo bloqueio que sofrem. Além disso, os militares iranianos, conscientes das limitações de seu equipamento desenvolveram táticas inovadoras adequadas ao seu território e às armas que possuem. A base industrial do Irã também faz com que o país não seja um alvo fácil para Israel, como foi o Iraque, que sofreu um fulminante ataque ao seu reator nuclear, em novembro de 1980. O país por meios próprios construiu formidável capacidade de defesa e retaliação. Para Israel atacar o Irã, sua força aérea depende do apoio operacional dos Estados Unidos, coisa que não necessitou no caso do Iraque. Diferente do Irã, o país governado por Saddam Hussein, não possuía capacidade de defesa aérea de primeira linha e era incapaz de retaliar, como ficou evidente na Primeira Guerra do Iraque, em 1990, quando quase todos os misseis Scud lançados contra Israel erraram o alvo.

A ESPANTOSA CARÊNCIA DE VISÃO DOS GENERAIS BRASILEIROS

A história militar é repleta de fatos que comprovam a importância de uma base industrial sólida e avançada, para enfrentar as ameaças da geopolítica moderna. É de estarrecer perceber que os militares brasileiros aparentam não ter essa percepção, o que faz duvidar da formação, da capacidade de entender o mundo e da competência das corporações fardadas do país.

Durante os governos Lula e Dilma até parecia que a caserna brasileira havia entrado no mundo moderno. Os militares pareciam se restringir às suas atividades constitucionais, deixando de lado a política, como participavam de ambiciosos projetos de fortalecimento das Forças Armadas.

Na época foi lançado o Livro Branco de Defesa Nacional, que consolidou a Política Nacional de Defesa e a Estratégia Nacional de Defesa. Com base no livro importantes investimentos começaram a ser feitos para melhorar o desempenho das Forças Armadas e obter a autonomia industrial de defesa.

A política de obtenção de tecnologia, através da transferência de conhecimento, passou a ser a norma de importantes contratos, que visavam principalmente o futuro. O planejamento visava transformar o Brasil em potência respeitada mundialmente.

Foram vários os contratos. Entre eles, o acordo estabelecido com a SAAB sueca, para o desenvolvimento da nova geração dos caças Gripen, os 39E e F, que pretende dotar a FAB e a indústria nacional do conhecimento para produzir uma aeronave de 4+ geração, que pode ser listada entre as melhores do mundo. A Lavajato tentou colocar o projeto sob suspeita e os recursos começaram a minguar.  

Gripen 39E, a mais nova geração do caça multipropósito sueco será produzido no Brasil, com transferência de tecnologia, graças a acordo feito no governo Dilma.

Há o contrato com a DCNS, empresa estatal francesa, para construir os submarinos convencionais e nucleares, com transferência de tecnologia e a utilização dos reatores atômicos desenvolvidos com concepção e projeto nacional, sob a supervisão do Almirante Othon Pinheiro. Para viabilizar o projeto, a Odebrecht construiu uma base naval, dotada de um moderníssimo estaleiro, para construir, integrar e abrigar a planejada frota de submarinos brasileiros. A Lavajato quase inviabilizou o programa, ao abalar a Odebrecht e atacar o Almirante Othon Pinheiro, mentor do programa nuclear brasileiro. No processo, a Lavajato abalou os esquemas de segurança que protegiam segredos militares do Brasil. O mais grave foi romper o segredo sobre as mais modernas centrifugas do mundo, os aparelhos utilizados para enriquecer o urânio para os reatores nucleares, o que permitiu o acesso de autoridades dos EUA a essa valiosa tecnologia desenvolvida no país.

Os novos submarinos convencionais e nucleares foram viabilizados por contrato assinado no governo Lula.

Ainda no âmbito da marinha, havia a intenção de desenvolver um projeto próprio de meios de superfície. A ideia inicial era investir em uma evolução das corvetas da classe Barroso e avançar, a partir do conhecimento já acumulado pelos estaleiros brasileiros e os engenheiros navais da força, para o desenvolvimento de embarcações mais modernas e capazes, que seriam o modelo Tamandaré. Surpreendentemente, o plano de domínio tecnológico próprio foi abandonado. Em 2019, a Marinha do Brasil anunciou uma concorrência para comprar o projeto da embarcação no estrangeiro. O vencedor foi a empresa alemã Thyssenkrupp Marine Systems, com sua família de navios MEKO, desenvolvidas nos anos 1970, em parceria com a Finlândia. No plano original as corvetas Tamandaré seriam produzidas em diversos estaleiros brasileiros, porém na proposta vencedora da licitação, as belonaves serão concentradas no pelo consórcio Águas Azuis, formado pela empresa alemã e as brasileiras Embraer e Atech (subsidiária da Embraer). Como curiosidade fica o registro de que, quando a concorrência foi decidida, a Embraer estava praticamente absorvida pela Boeing dos EUA. O consórcio anunciou que o último navio dos quatro produzidos atingirá 40% de conteúdo nacional, ao contrário do projeto original brasileiro que iria superar 90%.

Enquanto isso, outro projeto da Marinha Brasileira, o SisGAAz parece fazer água. Fundamental para a vigilância e proteção da plataforma marítima do Brasil, o programa visava dotar o país de sistemas de monitoramento e controle das águas jurisdicionais brasileiras e das regiões de busca e salvamento sob responsabilidade do Brasil. O SisGAAz previa a utilização de satélites, radares e equipamentos de sensoriamento submarino, integrando redes de informação e apoio à decisão, de modo a estimular emprego dual das tecnologias desenvolvidas.

O contrato com a Helibras para a produção dos moderníssimos helicópteros H225M, com transferência de conhecimento da Airbus, está em andamento. O projeto representa um salto qualitativo ao Brasil, pois traz desenvolvimento para a cadeia de fornecedores, transferência de tecnologia e mão de obra especializada ao país. Como o Ministério da Defesa anuncia a intenção de comprar, nos Estados Unidos, aparelhos similares, Sikorsky UH-60, e helicópteros usados de ataque, AH-1 SuperCobra, aparentemente os militares brasileiros desistiram da autonomia industrial.

Os governos Lula e Dilma investiram também no projeto, desenvolvimento e fabricação de um novo fuzil de assalto, a arma padrão dos soldados de infantaria, para substituir o antigo FN FAL, de origem belga, e suas variantes. O projeto resultou no fuzil de assalto IA2, criado pela Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL Em dezembro de 2013, ainda no governo Dilma, o Exército fez uma encomenda de 20.000 fuzis 5,56.

O fuzil de assalto IA2 é resultado do investimento em pesquisa e desenvolvimento dos governos Lula e Dilma

Lula retomou também a proposta de produzir blindados militares no Brasil. Com a retirada do apoio das forças armadas brasileiras a Engesa, empresa que fez sucesso mundial com seus blindados Cascavel e Urutu, faliu e fechou as portas, em 1993. A falência ocorreu quando a empresa lançava no mercado mundial o tanque sobre esteiras Osório, um equipamento avançado para a época, que segundo registros havia batido todos os concorrentes internacionais em uma disputa realizada na Arábia Saudita. O então presidente e sua sucessora investiram no desenvolvimento e produção da família de blindados sobre rodas Guarani, que está sendo construído em parceria com a empresa italiana Iveco, na sua fábrica em Sete Lagoas, Minas Gerais. A proposta inicial era a aquisição de três mil veículos em diversas configurações e, a partir dele, o país avançaria em modelos mais potentes. As últimas notícias informam que o exército reduziu substancialmente o número a ser incorporado e há estudos para a compra de blindados usados no exterior.

O Brasil deve lamentar também a virtual destruição de uma desenvolvedora e fabricantes de misseis sofisticados com tecnologia compatível com os mais avançados do mundo. Foi mais um dos crimes de traição contra o país, cometido pela Lavajato. O empreendimento destruído, que havia acumulado imenso acervo tecnológico para o Brasil, é a Mectron, firma que na época do assalto dos promotores de Curitiba era controlada pela Odebrecht. Entre os projetos comprometidos um deles é de a produção dos mísseis A-Darter, destinados aos caças Gripen NG BR, que se encontravam em desenvolvimento em cooperação com a Denel sul-africana. O artefato é próprio para combates com adversários fora do campo visual do piloto e sua aparelhagem eletrônica permite que após ser disparado ele persiga o alvo autonomamente. O aparelho destinado a combates ar-ar, ou seja, entre aviões, se iguala ou supera os mais avançados similares produzidos no planeta. Outros produtos da Mectron também se enquadram entre os mais avançados do mundo, como o MAA-1A Piranha, míssil ar-ar de curto alcance e guiagem infravermelha usada em combates dentro do campo visual do piloto; MAA-1B Piranha: míssil ar-ar de quarta geração que está em processo de desenvolvimento; MSS-1.2: míssil anticarro terra-terra com guiagem à laser e médio alcance (3 km); MAN-1: míssil antinavio em desenvolvimento; MAR-1: míssil anti-radar em desenvolvimento. Abalada, a Odebrecht foi obrigada a vender a Mectron, com todo o seu conhecimento, para a empresa israelense Elbit Systems.

Um dos mais avançados na sua categoria, o míssil ar-ar A-Darter, teve sua tecnologia vendida para Israel.

A própria tentativa de venda da Embraer para a Boeing é parte desse esforço de enfraquecer o Brasil, através da destruição de sua base industrial. Além de importante centro criador, desenvolvedor e consolidados de alta tecnologia, a fabricante de aeronaves mantinha um braço na indústria militar. Além dos cargueiros multipropósito KC390, também fruto das gestões Lula e Dilma, que são os melhores de sua categoria no planeta, a Embraer Defesa & Segurança oferece uma linha completa de soluções integradas e aplicações de Comando e Controle (C4I), radares, ISR (Inteligência, Vigilância e Reconhecimento) e espaço. Isso inclui sistemas integrados de informação, comunicação, monitoramento e vigilância de fronteiras, bem como aeronaves para missões especiais. O complexo tecnológico reunido ao longo de décadas sob a marca Embraer somente não foi desarticulado e, provavelmente, extinto, porque a crise da Boeing se aprofundou.

Todo o esforço de desenvolvimento do KC 390, o cargueiro militar multipropósito criado pela Embraer, quase foi perdido quando quando houve a tentativa de compra pela Boeing

Mesmo quando não há venda direta da empresa brasileira para estrangeiros, abandono do projeto ou dissolução do fabricante, diversos movimentos corporativos vistos com naturalidade pelos militares do país preocupam. Um deles diz respeito ao desenvolvimento do radar SABER M60, que consolidou longo período de pesquisa, para dotar o país de uma tecnologia dominada por poucos. O aparelho é um é um radar tridimensional – 3D, que incorpora as mais avançadas tecnologias para detectar, simultaneamente, até 60 alvos que estejam sobrevoando a área vigiada, sendo capaz de classificar as aeronaves como amigas ou inimigas, bem como identificar asas fixas e rotativas. O sistema permite rastrear alvos dentro de um raio de até 60 km e até 5 mil metros de altura. Dotado de tecnologia de ponta o radar brasileiro é leve, embora robusto, de fácil operação e pode ser montado por três pessoas, em apenas 15 minutos. O conhecimento adquirido viabiliza o desenvolvimento e produção de radares mais potentes e de tecnologia ainda mais avançada. A tecnologia foi desenvolvida pela OrbiSat, empresa do grupo Embraer, batizada depois com a marca Bradar. Ocorre que a Embraer Defesa & Segurança e a Rockwell Collins, dos EUA, anunciaram em 2027 (quando a estrutura industrial de defesa de grande porte do país estava sendo desmontada) uma parceria para a integração de produtos das duas corporações. O presidente da Embraer Defesa & Segurança, Jackson Schneider, anunciou que “essa será uma parceria de mão dupla, que permitirá vender e comprar equipamentos para o Brasil”. Provavelmente não será bem assim: a experiencia da história mundial ensina que mão dupla com os Estados Unidos sempre tem a pista que leva em direção aos interesses estadunidenses bem mais larga e a que segue na direção oposta costuma estar sempre obstruída.

DEFESA É FRÁGIL SEM UM PARQUE FABRIL SÓLIDO E DIVERSIFICADO

Se o cenário eminentemente militar é inquietante, pois revela o que parece ser uma deliberada intenção de enfraquecer o Brasil, o contexto mais amplo torna a situação ainda mais preocupante, para quem preza o país.

Outra lição da Segunda Guerra foi que a força militar dos países não é focalizada na indústria de defesa, mas no tamanho e capacidade dos seus parques industriais.

A Alemanha, no período do governo Hitler, robusteceu sua indústria de defesa, o que contribuiu também para a sua recuperação econômica e a geração de empregos – fator essencial para a manutenção do apoio ao nazismo. Porém outros setores da indústria alemã eram mais frágeis. Embora o país mantivesse liderança em produtos de luxo e alta qualidade, como os veículos da Daimler Bens, aviões de passageiros modernos e a indústria química; o parque fabril germânico era modesto em comparação com os do Império Britânico, Rússia e Estados Unidos. Outro fator era a menor capacidade de produção em massa, em comparação com as fábricas dos EUA e, também, da Rússia e Canadá. Um exemplo utilizado por Adam Tooze é o rádio popular de Hitler, que nunca conseguiu ser popular como o ditador pretendia. O aparelho, feito para ser simples e barato, era de produção demorada e com preço inacessível para boa parte dos trabalhadores e camponeses, que assim preferiam comprar as opções mais em conta e melhores, que vinham dos Estados Unidos.

Essa característica assegurou aos Estados Unidos, Rússia e aos países da Commonwealth britânica a possibilidade de girar seus imensos parques fabris, para a produção militar. Nos EUA, empresas como Chrysler, Ford e General Motors passaram a produzir tanques, veículos militares e aviões em escala alucinante. Na Rússia e nos países britânicos, fabricas de tratores rurais e de construção civil começaram a produzir artigos militares em massa.

Fábrica de tratores rurais e arados, nos confins da União Soviética, girou sua produção, para construir tanques T 34

Na Alemanha, embora a partir de 1943 o país tenha entrado em estado de guerra total, o giro da indústria somente pode acrescentar uma pequena fração, em comparação com os seus adversários.

OS GENERAIS QUEREM DEFENDER O BRASIL OU GUARDAR O PAÍS

É estarrecedor perceber o comportamento dos comandantes militares brasileiros, assistindo passivamente o desmantelamento do parque industrial brasileiro. Mais uma vez paira a dúvida sobre o preparo, a competência e a qualidade intelectual e profissional dos militares de alta patente do país.

A dúvida alimenta uma desconfiança: serão os militares brasileiros mal preparados e incapazes intelectualmente ou eles consideram que sua missão não é defender o Brasil. Uma conclusão possível é que as duas coisas se aplicam: o despreparo faz com que tenham dificuldade de perceber a realidade, desta forma não compreendem a geopolítica atual e, assim rejeitam a missão defender o país. Conscientes ou inconscientemente, os generais brasileiros se comportam como os comandantes de uma força de ocupação em um país derrotado e colonizado.

2 comentários

  1. Evilazio, você escreveu o óbvio. Não digo isto como uma crítica a seu artigo, mas uma crítica a esta p0rr@ de governo.
    O que eu quero dizer é o seguinte, o que proteje um país é um povo educado, saudável, que tenha uma base industrial que possa prover as mínimas necessidades do país. Claro que se você fala em indústria bélica, então a base deve ser bélica. Em todo caso, a Suíça não foi invadida pela Alemanha, por que eles tiveram medo da estrutura nada ortodoxa do “exército suíço”.
    Em todo o caso, sem educação (incluindo pesquisa) e saúde não há um país que se sustente.

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    • Focalizei a indústria bélica, mas no texto ressalto que uma base industrial militar só é sólida em países que contam com parques fabris amplos e diversificado. Citei o ágil giro das indústrias de produtos civis dos EUA e União Soviética, para produzir armas na Segunda Guerra Mundial.

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